• Ricardo Bonacorci

Livros: Outros Jeitos de Usar a Boca – A poesia visual de Rupi Kaur


Depois de algumas postergações, li, na última segunda-feira à noite, um livro que tem frequentado há algum tempo a lista dos mais vendidos do país. A obra em questão é “Outros Jeitos de Usar a Boca” (Planeta), publicação de estreia da indiana Rupi Kaur. Este título vendeu, no Brasil, mais de 100 mil unidades até agora, o que o coloca na posição de um dos maiores sucessos editoriais recentes. Nos últimos meses, Kaur lançou o segundo livro de sua carreira literária. ”O que o Sol Faz com as Flores” (Planeta) já aparece no ranking dos mais comercializados nas livrarias nacionais.

Para ser sincero, eu relutava em ler “Outros Jeitos de Usar a Boca” por achar que se tratava de literatura erótica, ao estilo de “Cinquenta Tons de Cinza” (Intrínseca). Cito o romance de Erika Leonard James porque ele passou a simbolizar, nos últimos anos, um subgênero narrativo. Meu equívoco tem explicação. Afinal de contas, o que eu poderia pensar de um título como “Outros Jeitos de Usar a Boca”, hein?

Contudo, neste final de semana, ao visitar a Livraria Cultura do Shopping Bourbon Pompeia, pude, enfim, folhear a obra com a atenção que ela merecia. E qual foi minha surpresa ao descobrir que esta publicação de Rupi Kaur é uma coletânea poética com alguns elementos de prosa. Junto com o texto, a autora produziu à mão desenhos que ilustram visualmente seus sentimentos e suas opiniões. É verdade que há muito erotismo também, porém esse é apenas um dos vários elementos complementares da obra, não representando a essência do material poético. Maravilhado com a proposta de Kaur em unir poesia, prosa e ilustração, comprei seu livro por impulso.

Lançado no final de 2014, “Outros Jeitos de Usar a Boca” é um best-seller mundial. Esta coletânea prosa-poética (não sei se existe esse termo, mas foi a melhor definição que encontrei para classificar a obra de Rupi Kaur) já vendeu aproximadamente 3 milhões de cópias nos quatro cantos do planeta. A publicação figurou por mais de 77 semanas na lista dos mais vendidos do New York Times e foi traduzida para 25 idiomas.

Nascida na Índia, Rupi Kaur vive desde os quatro anos de idade no Canadá. Já adulta, estudou Retórica e Escrita Profissional na universidade. Sua carreira artística começou com posts nas redes sociais. A escritora usava o Instagram e o Tumblr para publicar seus versos e suas performances. Em muitas oportunidades, seus trabalhos uniam texto e imagem, em uma espécie de poesia visual. Suas produções falavam quase sempre de desilusão amorosa, violência, abusos sexuais, feminilidade, perda e dor. Kaur nunca teve medo de abordar temas que fossem tabus ou que explicitassem sua visão feminista. De certa maneira, “Outros Jeitos de Usar a Boca” trabalha com todos esses elementos.

A ideia de escrever o livro nasceu após uma forte desilusão amorosa. Para superar a dor da separação, a artista resolveu escrever e desenhar, atividades que sempre gostou de fazer. Colocando para fora tudo o que estava sentindo, ela pensou na época, poderia exorcizar os demônios que a perseguiam. Assim, a experiência adquiriu uma função catártica. Não sei se ela conseguiu superar seus traumas. O que sei é que o resultado mais prático desse processo foi a produção de um livro espetacular.

“Outros Jeitos de Usar a Boca” é uma obra profunda, inteligente e extremamente sensível. Sem medo de se expor e de falar o que pensa/sente, Rupi Kaur narra os momentos mais intensos de sua vida, uma compilação de fatos recheados de desilusões, assédios, traições e amargura. Coincidentemente ou não, os instantes decisivos de sua vida estão sempre ligados à relação nociva com os homens. Desde pequena, a escritora é vítima dos abusos, do egoísmo, das imposições e da violência masculina, tanto física quanto social e doutrinária.

Dividido em quatro partes (“Dor”, “O Amor”, “A Ruptura” e “A Cura”), “Outros Jeitos de Usar a Boca” possui 208 páginas. Apesar de ter um tamanho volumoso para os padrões das coletâneas poéticas (geralmente as obras deste gênero não ultrapassam muito mais do que 100 páginas), sua leitura é extremamente rápida. Eu li o livro inteiro em aproximadamente uma hora (isso porque leio três vezes cada poema – uma mania que eu tenho). Os leitores mais impacientes e ansiosos na certa vão ler esta publicação muito mais rápido do que eu.

As seções do livro representam as fases mais importantes da vida de Kaur. Cada uma dessas etapas foi capaz de ser um divisor de águas na existência da artista, apresentando características e dramas peculiares que ela não tem vergonha ou receio de expor aos leitores.

Em “Dor”, Rupi Kaur narra os abusos sofridos na infância e na adolescência. Seu desenvolvimento como mulher foi baseado na relação fria e distante com o pai, no crescimento em um país diferente que a via como uma pessoa de fora, na relação pouco afetuosa com a mãe, nos abusos sexuais sofridos por tios, primos e outros homens, no primeiro beijo que um menino lhe roubou na escola, etc. Sua formação como indivíduo é, portanto, uma mistura de experiências opressoras e traumáticas.

Na segunda parte da obra, “O Amor”, a narradora (ou seria o eu-lírico?) se apaixona. A paixão acaba mudando o ponto de vista que ela tinha do mundo e de si mesma. A relação com o “homem da sua vida” abre um período mágico de sua existência. O sexo intenso e sem culpa, o companheirismo sincero, os carinhos intermináveis, o romantismo desenfreado, as confidências íntimas e a união integral do casal mostram que dias maravilhosos podem integrar sim a rotina da mulher moderna. Os traumas do passado por ora são esquecidos e, de certa medida, até superados. O amor é capaz de realizar milagres.

Entretanto, o relacionamento conjugal parece ter um fim. As discussões, as traições, as brigas e os desentendimentos do casal marcam a terceira parte de “Outros Jeitos de Usar a Boca”, chamada de “A Ruptura”. Essa é a seção mais longa do livro. Nesse momento, vemos uma mulher totalmente desesperada pela saída de casa do homem para quem entregou sua vida. A agonia dela é comovente. Nos poemas, nos desenhos e nos textos em prosa (que ganham destaque nesta parte), vemos um coração não apenas partido, mas completamente dizimado.

A última parte é “A Cura”. Depois de muito sofrer, a narradora/eu-lírico encontra, enfim, um equilíbrio saudável. Ao compreender pela primeira vez como é viver de maneira a respeitar suas vontades e seus desejos mais íntimos, ela passa a enxergar o mundo e sua posição como mulher de outras formas. A transformação se efetuou nela.

Escrevendo o enredo do livro, como fiz a pouco, corro o risco de passar uma imagem equivocada de “Outros Jeitos de Usar a Boca”. Quem ainda não leu esta publicação não pense, por favor, que ela seja boba, rasteira e/ou fútil, como minha descrição do enredo possa ter parecido em um primeiro momento. Ela não é não! Rupi Kaur utiliza-se de um pé na bunda que recebeu para dialogar com questões pesadas, universais e profundas. É muito bonito e corajoso o jeito como ela escreve e desenha.

Os poemas em versos livres são muito interessantes. Em poucas linhas, a escritora indiana exprime seus sentimentos, medos, frustrações e sonhos sem qualquer complicação ou filtro. Ao mesmo tempo que o texto é sintético e claro, cada palavra parece representar um desabafo há muito tempo preso na garganta de Kaur.

A combinação de texto e ilustrações também confere um charme e uma profundidade ainda maior ao material. Em alguns casos, é na relação simbiótica entre os dois elementos (textual e visual) que o sentido almejado por Rupi Kaur se faz plenamente compreensível. A força da poesia visual é maior do que a soma de suas partes separadas. Impossível o leitor não se emocionar ao descobrir isso durante a leitura.

“Outros Jeitos de Usar a Boca” é um livro incrível! Sua proposta pode até parecer simples à primeira vista, mas sua execução esconde um trabalho árduo e difícil. Gosto de ver quando uma escritora faz uma produção complexa, original, multiperformática e profundamente inteligente, mas isso não esbarra em um texto hermético. Pelo contrário. O lapidar trabalho de Kaur deixou sua obra gostosa e palatável. “Outros Jeitos de Usar a Boca” fala de maneira poética de problemas atuais e relevantes de nossa sociedade, o que só incentiva o debate sobre essas questões ao grande público.

Só não gostei de dois pontos neste livro de estreia de Rupi Kaur: seu nome e seu desfecho. Em primeiro lugar, a tradução do título para o português acabou atrapalhando um pouco a experiência de leitura. O nome original da obra é “Milk and Honey” (Leite e Mel, em uma tradução direta do inglês). Ele faz todo o sentido porque a autora vê as transformações que as mulheres passaram nos últimos anos (ela usa sua experiência pessoal como um microcosmo do que todas as integrantes do seu sexo sofreram) como um processo “suave como leite e grossa como mel”. O legal é que vários poemas do livro fazem menção direta ao termo leite e mel (juntos ou separados). Além disso, a combinação dessas duas palavras confere um sentido poético ao título, algo que vai de encontro à proposta da coletânea. Infelizmente, essas questões são perdidas no título em português. “Outros Jeitos de Usar a Boca” é uma frase com forte conotação sexual e vulgar, que não representa a essência da publicação de Kaur.

A outra questão que não gostei foi do final do livro. Na última parte, “A Cura”, o texto se torna uma pregação moral da escritora para com seus leitores. Isso destoa das outras três partes, quando o foco era a experiência pessoal da autora (algo muito mais intenso e profundo). Por isso, o desfecho adquire um ar de autoajuda piegas para as mulheres que estão sofrendo de desilusão amorosa. Para completar, a mensagem que se passa é que a felicidade feminina só será encontrada longe dos homens, os verdadeiros culpados por todas as dores e traumas que elas sentem. Será mesmo?

Apesar da derrapada dos tradutores quanto ao título e do desenlace destoante do livro, “Outros Jeitos de Usar a Boca” é uma leitura que vale muito a pena conhecer. Rupi Kaur é uma artista criativa, talentosa e ousada. Admito que estou curioso para ler ”O que o Sol Faz com as Flores”. Esta segunda obra da escritora indiana foi lançada no final do ano passado no Brasil e está agora na minha lista de compras.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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