• Ricardo Bonacorci

Livros: Sessão – A Escrita Não Criativa de Roy David Frankel


Li, neste final de semana, um dos livros mais inusitados que já passaram pelas minhas mãos (e pelos meus olhos também, obviamente). A proposta da obra é tão diferente, mas tão diferente, mas tão diferente, que temi pela sua qualidade. E não é que o resultado final é, surpreendentemente, positivo! Estou me referindo à “Sessão” (LunaPARQUE), a primeira publicação de Roy David Frankel. Gostei tanto desta coletânea de poemas (se é possível chamar o livro dessa maneira) que resolvi comentá-la neste post do Blog Bonas Histórias. Aí vai!

Em “Sessão”, o escritor e acadêmico carioca (não se engane com o nome e o sobrenome – Roy David Frankel é brasileiro!) resolveu transformar os discursos dos deputados de Brasília em uma antologia poética. O quê? Como? Ah? Isso é possível?! Não falei para você que, à princípio, era estranha (para não dizer absurda) essa ideia? Juntar política e literatura, normalmente, não é uma boa escolha que os escritores fazem. Além disso, transformar textos banais do dia a dia em poesia soa ainda mais esquisito. Frankel fez as duas coisas ao mesmo tempo. E não é que seu livro ficou muito bom! Só não me perguntem como isso é possível. Sinceramente, não sei.

Através de intervenções pontuais no texto oral que os nobres deputados proferiram em uma sessão solene da Câmara, o escritor quebrou os discursos em versos e os apresentou ao leitor como poemas. Desde o início, portanto, fica clara a ideia de satirizar o conteúdo produzido pelos nossos parlamentares. Ao dar o status de literatura para o que foi falado na tribuna do Congresso, Frankel joga luz para um material que depois de alguns dias ou cairia no esquecimento ou seria considerado lixo pela maioria da população. Ou alguém aí se lembra do que os políticos de Brasília falam diariamente?

“Sessão” é, talvez, o livro brasileiro que melhor se enquadre na proposta da Escrita Não Criativa desenvolvida pelo norte-americano Kenneth Goldsmith no início do século XXI. As bases conceituais dessa nova corrente literária foram apresentadas na obra “Uncreative Writting: Managing Language in The Digital Era” (sem edição no Brasil), de 2011. Nela, Goldsmith propõe que o escritor se aproprie de textos banais do cotidiano (conversas das pessoas, transmissões radiofônicas, coberturas televisivas, publicações jornalísticas e, por que não, discursos de políticos) para, a partir de uma intervenção artística, devolvê-los à sociedade como materiais literários. De certa maneira, é o uso na literatura do Ready-Made de Marcel Duchamp.

As experiências mais famosas de Kenneth Goldsmith com a Escrita Não Criativa foram os livros “Traffic” (Sem edição no Brasil), de 2007, e “Day” (Também sem edição em nosso país), de 2003. Em “Traffic”, o escritor norte-americano transcreveu 24 horas da programação de uma rádio de trânsito de Nova York. Após selecionar aleatoriamente partes desse registro, ele levou o material para as páginas do seu livro. Sim, a publicação tem como conteúdo apenas a narração do locutor da rádio (e nada mais). “Day”, por sua vez, é a transcrição de uma edição do jornal New York Times. Acredite se quiser, mas Goldsmith teve a coragem de publicar como literatura trechos extraídos de reportagens jornalísticas.

Como era de se esperar, a Escrita Não Criativa tornou-se polêmica entre escritores e profissionais do mercado editorial. Muita gente torce o nariz para esse novo jeito de se fazer literatura. Há até quem questione sua inclusão nas categorias de produção literária e de ficção. Indiferente aos questionamentos e às críticas ao novo estilo, Roy David Frankel resolveu aplicar os conceitos de Goldsmith na famosa sessão da Câmara dos Deputados do dia 17 de abril de 2016. Naquele domingo, o Brasil parou para ver, pela televisão, a votação da abertura do processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Empolgados com a cobertura midiática, os políticos responsáveis pela votação agarraram-se aos microfones para fazer seus discursos diante das câmeras das principais emissoras do país.

Tudo o que foi falado no plenário naquele dia histórico foi transcrito pela equipe de Comunicação da Câmara dos Deputados e disponibilizado, mais tarde, no site da instituição. “Sessão”, o livro de Frankel, utiliza esse texto como matéria-prima. As intervenções do escritor são pontuais. Além de quebrar as frases em versos, ele dá destaque aos termos mais comuns dos pronunciamentos (brasileiro/brasileira, Brasil, Pátria, povo, Nação e República, por exemplo), coloca em itálico vozes que interferiram/interromperam o discurso, destaca o primeiro verso de cada deputado em negrito (para indicar ao leitor o começo de um novo poema) e, em alguns casos, brinca com o texto ao inserir elementos visuais típicos da Poesia Concreta.

Lançado em abril de 2017, “Sessão” teve uma tiragem inicial de apenas 300 unidades. O padrão da LunaPARQUE, pequena editora paulistana responsável por esta publicação, é trabalhar com edições com baixos volumes. Como consequência a essa estratégia empresarial, o livro rapidamente teve sua primeira edição esgotada. “Sessão” marcou a estreia de Roy David Frankel na literatura comercial. Graduado em Letras e doutorando em Ciências da Literatura pela UFRJ, este carioca de 31 anos mantém um blog, Realidades Ficcionais, com seus rascunhos literários. Adorei esse termo: rascunhos literários! Seria o Bonas Histórias meus rascunhos?

“Sessão” é um livro de leitura muito rápida. Com pouco menos de 250 páginas, é possível lê-lo em apenas uma horinha. Eu li esta obra do início ao fim em um fôlego só no último domingo. Se no começo estava descrente com essa experiência (admito que não tinha gostado, até agora, de nenhuma publicação de Escrita Não Criativa), ao chegar na última página minha opinião era outra. Saí positivamente impressionado com o que vi em “Sessão”.

Diferentemente dos livros de Kenneth Goldsmith, esta publicação de Roy David Frankel não é entediante nem sem graça. Apesar de muitas vezes os discursos dos políticos brasileiros baterem na mesma tecla, é divertido (é melhor rir do que chorar) vê-los (ou seria ouvi-los?) em “Sessão”. Estão, ali, a menção ao filho, à esposa, à família, aos mortos nas estradas, aos famintos nas ruas, aos torturadores da Ditadura Militar, aos corintianos, aos pastores evangélicos e, principalmente, ao Deus. Grande parte dos deputados fala de tudo, menos do que está efetivamente votando. Impossível não rir nos trechos mais amalucados e sem noção protagonizados pelos representantes do povo na Câmara.

Alguns pronunciamentos até parecem realmente uma poesia (isso é, depois da intervenção estética do autor). A maioria, contudo, passa longe de soar como um texto poético. Porém, essa constatação não estraga em nada a brincadeira proposta por Frankel. “Sessão” é uma crítica bem-humorada e inteligente aos políticos e ao nosso país. Ao tentar elevar os discursos dos deputados ao patamar de uma epopeia ou de uma antologia poética, vemos com mais intensidade o vazio de suas palavras. Em alguns casos, o leitor terá vontade de chorar ao constatar a demagogia e o contrassenso dos pronunciamentos feitos.

Adorei a maneira como o escritor carioca apresenta seus textos. Sua intervenção é sempre cirúrgica. De forma geral, ele dá outra dimensão às frases banais do dia a dia. E, curiosamente, Roy David Frankel faz isso sem entrar no viés político da questão. Em seu livro, há tanto discursos favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff quanto contrários. Não há julgamento de valor aqui. Ou melhor, o único consenso político que se pode chegar é que direita e esquerda são dois lados de uma mesma moeda fétida.

As intervenções ao estilo da Poesia Concreta conferem mais graça e força ao texto. Adorei todas elas. Até achei que Frankel poderia explorar mais esses recursos visuais. Eles estão limitados na primeira metade da obra. Senti falta da continuação deles na metade final do livro.

Outra coisa que me surpreendeu foi o acabamento e o design do livro. A LunaPARQUE fez um belo trabalho aqui: “Sessão” consegue ser, ao mesmo tempo, uma obra simples e charmosa. Sua capa é incrível! Com poucos elementos, ela dialoga intimamente com a temática das páginas da publicação de Frankel. É maravilhoso ver um trabalho de design gráfico feito com primor.

Quem se interessou por “Sessão”, a má notícia é que, como já disse, a primeira edição da publicação se esgotou no primeiro semestre do ano passado. Para atender a grande procura, antes que a segunda edição da obra seja produzida, a LunaPARQUE disponibilizou gratuitamente o pdf do livro em seu site. Essa é a boa notícia para os leitores ávidos por conhecer a proposta inovadora de Roy David Frankel. Achei a iniciativa elogiável da editora. Só espero que ela opte por fazer a segunda edição do livro o mais rápido possível. Os leitores merecem conhecer fisicamente “Sessão”, uma das publicações mais originais e ousadas dos últimos anos.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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