• Ricardo Bonacorci

Livros: Farewell – A despedida poética de Carlos Drummond de Andrade


Nesta terça-feira de Carnaval, li “Farewell” (Companhia das Letras), coletânea de poemas de Carlos Drummond de Andrade. Para quem ainda não experimentou misturar poesia com folia, recomendo. É muito interessante e prazeroso acrescentar um pouco de literatura (seja em prosa ou em verso) aos eventos carnavalescos. Já pensando nisso, procurei, no último final de semana, uma obra na biblioteca da casa do meu pai, um grande fã de poesia e do trabalho literário de Drummond. E em uma estante meio empoeirada achei “Farewell”. Sem pensar duas vezes, peguei o livro emprestado. Apesar de não ser um dos títulos mais famosos do poeta mineiro, fiquei curioso para conhecê-lo.

Os originais de “Farewell” foram encontrados no escritório da casa de Carlos Drummond de Andrade na Rua Conselheiro Lafaiette, em Ipanema, logo após a morte do escritor, em 17 de agosto de 1987. Ou seja, estamos falando aqui de uma obra póstuma e escrita na fase final de vida do seu autor. O material estava guardado em uma pasta de cartolina azul-clara. Acredita-se que o principal poeta brasileiro do século XX tenha concluído os textos do livro pouco antes de falecer. De certa forma, como diz o próprio título da obra (Farewell em inglês significa despedida), esta coletânea de poemas seria um testamento, um adeus do escritor aos seus leitores. A ideia de Drummond era lançá-la apenas após a sua morte. E, assim, foi feita a sua vontade.

Apesar de Drummond deixar o livro prontinho para publicação, “Farewell” precisou de nove anos até chegar às livrarias. Provavelmente, a família tinha outras preocupações nesta época e as editoras não pareceram tão interessadas em lançar mais um Drummond. Ou, o que é mais provável, todos tenham percebido que o conteúdo do livro estava longe de ser excepcional. Assim, apenas em 1996, a obra foi publicada.

Apesar das vendas tímidas e da receptividade modesta da crítica, a coletânea de poemas surpreendentemente recebeu o principal prêmio literário do Brasil no ano seguinte. Sim, “Farewell” conquistou o Jabuti de 1997 na categoria Poesia. Ou seja, mesmo apresentando um material longe do seu esplendor, Carlos Drummond de Andrade ainda sim conseguia encantar os avaliadores do Prêmio Jabuti e superar os poetas contemporâneos.

“Farewell” possui 49 poemas. Distribuídas em 112 páginas, essas poesias estão organizadas em ordem alfabética. A exceção é o primeiro poema, não por acaso chamado de “Unidade”. A unidade aqui refere-se ao elemento que liga todos os aspectos da vida. Em sua despedida poética, Drummond faz uma recapitulação de sua trajetória pessoal, buscando encontrar o elemento que dá sentido à existência. E, na opinião um tanto pessimista do escritor, esse componente seria o sofrimento. Os homens, os animais, os vegetais e, porque não, os minerais (lembremo-nos das pedras no meio do caminho) estão fadados a padecer enquanto estão neste planeta.

Os textos de “Farewell” falam, essencialmente, da infância do escritor (em Minas Gerais), dos amores incompletos que teve na mocidade, da dificuldade de encarar a velhice e a aproximação da morte, da rotina simples em seu apartamento, da relação com os netos e da visão do poeta sobre o mundo. Como se usasse este livro para fazer um apanhado geral de sua vida, Carlos Drummond de Andrade escreve uma autobiografia pouquíssimo formal e em versos. De maneira geral, a ideia é excelente (não me recordo de ter visto uma proposta desta em outro lugar). Se a concepção foi boa, sua execução não saiu como o poeta imaginava...

Para ser sincero, não gostei de “Farewell”. Em comparação com “Alguma Poesia” (Companhia das Letras), de 1930, e “Sentimento do Mundo” (Companhia das Letras), de 1940, os títulos do autor que mais conheço, esta publicação está muito abaixo em qualidade. Não sei explicar o motivo. Simplesmente os poemas deste livro não me tocaram como os anteriores. Sei que temos em “Farewell” boa parte das características que marcaram a literatura poética de Carlos Drummond de Andrade: versos livres, linguagem coloquial, crítica social, intertextualidade com outros autores e artistas, amor cantado com erotismo, retrato do cotidiano e humor ácido. Mesmo assim, senti que a obra não consegue impressionar nem cativar o leitor mais exigente.

A simplicidade poética parece mera preguiça de um autor sem muitos recursos (em alguns casos, textos em prosa foram quebrados em versos sem qualquer preocupação em torná-los de fato poesia). O pessimismo do texto dá a sensação de vir de um homem extremamente rabugento. As frustrações amorosas jogam luz para os arrependimentos e a amargura do coração calejado e muito machucado do poeta. E a banalidade do cotidiano mostra uma rotina entediante de um homem que vivia preso em seu apartamento, meio alienado do mundo, achando beleza em coisas sem qualquer encanto para as demais pessoas. Infelizmente, é essa a sensação que tive ao concluir a leitura de “Farewell”. E, vamos concordar, que essas descrições que fiz neste parágrafo estão longe, muito longe de retratar o verdadeiro Carlos Drummond de Andrade.

É inegável que no fim da vida, a literatura de Drummond tenha se tornado tão fraquinha. As crônicas que ele escrevia três vezes por semana para os jornais precisaram ser interrompidas, em 1984, porque viraram alvo de chacota dos colegas jornalistas e de desprezo por parte dos leitores. O autor com uma visão audaciosa da realidade e com um texto revolucionário tinha ficado no passado. Ao invés de amadurecer, como acontece com tantos escritores na fase mais avançada da vida, a literatura de Drummond envelheceu precocemente. É uma pena constatar isso, mas é algo que precisa ser dito com todas as letras.

“Farewell” tem alguns bons poemas: leves, engraçados e inteligentes. Gostei particularmente de “Unidade”, “A Ilusão do Migrante”, “Aristocracia”, “As Identidades do Poeta”, “Dois Sonhos”, “Escravo em Papelópolis”, “Fora de Hora” e “Liberdade”. Podemos dizer que todos esses contêm o melhor de Drummond. Por sua vez, “Aparição Amorosa”, “A Loja Feminina”, “Duração” e “Verbos” contêm alguns bons versos, chegando a empolgar. Já o restante dos poemas, achei de uma qualidade muito aquém à literatura de Drummond. A minha frustração se fez principalmente pelo desnível entre os bons momentos do livro e os maus. Essa acentuada ocilação, que não encontrei nas demais obras de Carlos Drummond de Andrade, foi o que chamou mais minha atenção, acarretando na minha visão negativa desta obra.

Então, como explicar, Ricardo, o fato de ”Farewell” ter conquistado o Prêmio Jabuti e você estar falando tão mal desta obra, hein?, você pode querer me perguntar. A questão é mesmo ótima. Porém, não sei respondê-la com precisão. Ou os jurados concederam o prêmio quando viram o nome do autor e não repararam como deveriam no material ou eu é quem estava de péssimo humor quando li a publicação. Talvez fui eu quem não tenha pegado toda a beleza e excelência desta coletânea. Será que o Carnaval foi o culpado por distorcer minhas percepções? Pode ser. Quem sabe no próximo ano eu não opte por uma prosa nesta época do ano para não cair no mesmo erro.

Talvez caiba a você descobrir sozinho(a) as respostas para as perguntas acima. Leia “Farewell” e tire suas próprias conclusões. E faça isso antes de atirar as pedras em mim por simplesmente criticar uma obra do nosso maior poeta do século passado. Não é porque Carlos Drummond foi excepcional que tudo o que ele tenha feito seja incrível.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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