• Ricardo Bonacorci

Livros: Trânsito – A versão brasileira do Ready-Made de Kenneth Goldsmith


Neste sábado de manhã, li um livro instigante. Sim, instigante! Acho que essa palavra expressa bem minha sensação ao concluir esta experiência de leitura. “Trânsito” (LunaPARQUE) é a versão brasileira e adaptada de “Traffic” (a edição original ainda não foi publicada no Brasil), obra do norte-americano Kenneth Goldsmith. Precursor da Escrita Não Criativa (uma espécie de Ready-Made literário), Goldsmith é um autor extremamente polêmico e ousado (esses dois termos geralmente caminham de mãos dadas no universo cultural). Basicamente, o escritor norte-americano integra o grupo dos artistas do tipo “ame-o ou deixe-o”. “Traffic” é um dos seus trabalhos mais famosos (e contestados também). Como eu já conhecia o original, fiquei curioso para saber como era esta adaptação (chamada pela editora, paradoxalmente ou ironicamente, de dublagem).

Para ser sincero, antes de adquirir este livro, eu tinha sérias dúvidas quanto à sua qualidade e pertinência. Eu só encarei esta leitura porque no mês passado havia lido e adorado uma publicação nacional que interagia diretamente com as propostas artísticas de Goldsmith. “Sessão” (LunaPARQUE), a obra de estreia de Roy David Frankel, que foi comentada aqui no Blog Bonas Histórias em fevereiro, acabou me surpreendendo positivamente. Gostei tanto do livro que cheguei ao ponto de procurar, nas semanas seguintes, outros títulos do gênero. Foi aí que me deparei com “Trânsito”. Assim, mesmo não tendo gostado nem um pouco de “Traffic” (o livro original), acabei dando um voto de confiança para sua adaptação. Quem sabe ela não poderia ser melhor do que a antecessora, né? Admito, agora, que minha intuição estava certa. Certíssima!

Em “Trânsito”, Leonardo Gandolfi, poeta e crítico literário nascido no Rio de Janeiro, e Marília Garcia, escritora e editora carioca, gravaram a transmissão da Rádio SulAmérica Seguros Trânsito entre o meio da tarde e o início da noite de uma sexta-feira, véspera de feriado. Para quem não conhece a Rádio SulAmérica, ela é uma emissora que opera, desde fevereiro de 2007, no 92,1 MHz da FM na região metropolitana de São Paulo. Sua especialidade é a cobertura do trânsito na capital paulista. Essa é sua programação por 24 horas. Recentemente, a emissora mudou de nome, mas manteve intacta sua proposta jornalística.

Depois da gravação, Leonardo Gandolfi e Marília Garcia transcreveram a programação da rádio e publicaram em seu livro alguns trechos do que a emissora colocou no ar naquele dia. Ou seja, “Trânsito” nada mais é do que o registro textual da cobertura radiofônica em uma véspera de feriado em São Paulo, quando os engarrafamentos bateram recordes nas ruas e estradas do município.

E qual é a graça de se ler um livro que transcreve a cobertura de uma rádio que só fala de trânsito?! Juro que comecei a leitura com esse questionamento, acreditando que não encontraria nada de interessante nesta publicação (foi o que aconteceu comigo em “Traffic”). Porém, surpreendentemente, não é que “Trânsito” é uma obra simpática. Completaria sua descrição, afirmando que ela é simples, leve e muito divertida.

Mais relevante do que seu conteúdo é a experiência de leitura. Em poucas páginas, somos levados para dentro dos carros e passamos a acompanhar de fato o desafio dos paulistanos em chegar ao seu destino no final daquele dia. Enquanto acompanhamos o trabalho dos jornalistas, somos agraciados com as brincadeiras entre os colegas da emissora, os comentários espirituosos dos ouvintes, as inserções publicitárias, as trocas de turnos da rádio e as reclamações dos cidadãos nas ruas. Diria que dá para quase que ouvir o barulho do helicóptero da rádio que sobrevoa os céus da cidade e as buzinas dos veículos lá embaixo. A recriação da atmosfera estressante do trânsito paulistano é o que esta obra tem de melhor.

Publicado em 2016, “Trânsito” é um livro minúsculo. Acho que esse é o menor livro que li nos últimos anos – ele chega a ser menor até que “Bonsai” (Cosac Naify), a novela de Alejandro Zambra que me pareceu um conto por seu tamanho tão reduzido. É possível ler “Trânsito” em meia hora.

Esta obra tem 20 capítulos. Cada capítulo possui apenas duas páginas e marca uma variação de tempo de aproximadamente 10 minutos da programação da rádio. Dessa maneira, a transmissão começa às 16h05 (esse é o primeiro capítulo). O segundo e o terceiro capítulos, por sua vez, se passam, respectivamente, às 16h15 e 16h25. O quarto ocorre às 16h35. E assim vai. O último capítulo, por sua vez, acontece às 19h12.

A dimensão desta publicação é o primeiro aspecto que gostaria de elogiar. Esse tipo de livro só é interessante quando não deixa seu leitor entediado, um risco calculado que a obra corre. Se “Trânsito” tivesse o dobro do número de páginas que tem, por exemplo, talvez eu não tivesse gostado tanto de sua leitura. Maior, ele correria o risco de se tornar repetitivo e bastante chato. Afinal, precisamos concordar que acompanhar por muito tempo uma programação de rádio de trânsito sem precisar desse tipo de informação é algo que pode desestimular qualquer leitura. Com apenas 48 páginas, entendemos a rotina da programação e a suas repetições sem que isso atrapalhe a experiência de leitura.

Outra coisa que gostei muito foi da multiplicidade de vozes que o livro conseguiu abordar em seu texto. A Rádio SulAmérica Trânsito tem um apresentador, mas o tempo inteiro ele está interagindo com os repórteres que estão nas ruas e com os ouvintes que escrevem por e-mail ou por WhatsApp. Além disso, em alguns momentos, há convidados que visitam os estúdios da rádio e conversam com o apresentador principal. Boa parte da graça da obra está na dinâmica de comunicação desses grupos de pessoas.

Essa questão das múltiplas vozes é o que, talvez, torne “Trânsito” um livro muito mais legal do que “Traffic”. Na obra norte-americana de Kenneth Goldsmith, a gravação foi feita em uma rádio de trânsito de Nova York. E lá só havia um apresentador que falava o tempo inteiro. Não havia qualquer interação com os ouvintes nem com os repórteres. Como consequência, achei “Traffic” um pé no saco. Eita, publicação mais monótona e sem qualquer clímax! “Trânsito”, por outro lado, é extremamente dinâmica e engraçada.

E por falar em graça, os melhores momentos do livro estão justamente em suas partes cômicas, provocadas pelas conversas informais do apresentador com sua equipe de repórteres. Impagáveis as discussões sobre a frequência de consumo do Yakult e sobre a polivalência do sorvete de flocos. Em meio a seriedade da transmissão das notícias do tráfego, os jornalistas encontram brechas para conversar animadamente sobre temas fortuitos, deixando escapar seu bom humor.

Ao final da leitura, algo chamou minha atenção. Por que será que a LunaPARQUE creditou a autoria desta obra para Kenneth Goldsmith e não para Leonardo Gandolfi e Marília Garcia? Sei que “Trânsito” foi inspirado em “Traffic”, porém não colocar os nomes dos escritores cariocas na capa me pareceu um cuidado excessivo. Se era para mostrar a autoria de Goldsmith, então poderia se colocar o nome dos três juntos na capa. A citação de Gandolfi e Garcia na folha de rosto me pareceu muito pouco. Além disso, os dois foram nomeados como “dubladores” da obra e não como coautores. Isso também soou um pouco estranho.

“Traffic”, a versão original, foi publicado em 2007 e integra, junto com “The Weather” (sem edição em português), de 2005, e “Sports” (também sem edição no Brasil), de 2008, a trilogia ready-made de Kenneth Goldsmith. Nesses trabalhos, o norte-americano passa para a literatura aspectos banais do cotidiano. Assim como “Traffic” é o registro do trânsito de Nova York, em “The Weather” temos uma série de boletins meteorológicos e em “Sports” temos a transcrição de uma cobertura de um jogo de basebol. É ou não é uma maluquice o que Goldsmith se propõe a fazer?

Podemos gostar ou não do tipo de trabalho artístico que Kenneth Goldsmith faz, mas é inegável sua ousadia. Ao usar e abusar do Ready-Made (em português, esse tipo de literatura é mais conhecido como Escrita Não Criativa), ele gera debates acalorados do que é literatura e o que não é. De certa forma, Goldsmith e sua trilogia são as versões contemporâneas e literárias do que Marcel Duchamp e sua “A Fonte” foram para as artes plásticas no início do século XX.

Admito ter adorado “Trânsito”. O que mais gostei da obra brasileira foi a união de uma proposta ousada e arriscada com uma boa execução textual. Este pode ser um dos raros casos em que a versão genérica ficou melhor do que a edição original. Coisas de Ready-Made!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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