• Ricardo Bonacorci

Filmes: Minha Obra-Prima – A nova comédia dos irmãos Duprat


No finalzinho do mês passado, estreou nos cinemas brasileiros a comédia argentina “Minha Obra-Prima” (Mi Obra Maestra: 2018), o mais recente trabalho dos irmãos Duprat. O longa-metragem entrou em cartaz em seu país natal em agosto de 2018 com o status de blockbuster nacional. A dimensão do lançamento fazia todo sentido. Andrés Duprat, diretor do Museo Nacional de Bellas Artes de Buenos Aires e roteirista, e Gastón Duprat, diretor cinematográfico e sócio da produtora Televisión Abierta, são responsáveis por algumas das principais criações do cinema argentino nos últimos anos. Basta lembrarmos do divertidíssimo “O Cidadão Ilustre” (El Ciudadano Ilustre: 2016), indicado ao Oscar de 2017 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, e do instigante “O Homem ao Lado” (El Hombre de Al Lado: 2009), eleito como a melhor fotografia na categoria World Cinema no Festival de Cinema de Sundance de 2010 e como a melhor direção no Festival de Cinema Latino-Americano de Lleida de 2010.

Por esse histórico recente dos irmãos Duprat, idolatrados pelos cinéfilos argentinos e pelos fãs do cinema portenho (me incluo nessa última lista), sua nova película foi exibida no ano passado em mais de 300 salas de cinema na Argentina. Só no primeiro final de semana em cartaz, a comédia alcançou um público próximo de 190 mil espectadores. Trata-se de uma marca expressiva para o padrão local. A bilheteria de “Minha Obra-Prima” já entrou na casa dos oito dígitos de faturamento (em reais) e deve aumentar agora que o filme está sendo distribuído no exterior (tanto no Brasil quanto em alguns países da Europa).

Interessado em conhecer “Minha Obra-Prima”, corri para a sala de cinema na semana retrasada. Para minha sorte, o filme estava sendo exibido em uma boa quantidade de cinemas na cidade de São Paulo. Reserva Cultural, Itaú Cinemas e Caixa Belas Artes eram alguns desses lugares, com várias sessões ao longo do dia. Depois de visto, infelizmente, não consegui produzir um post com a análise crítica do longa-metragem no Bonas Histórias. Só agora, enfim, estou escrevendo-a. Para os interessados, acredito que a comédia argentina ainda esteja em cartaz. Quem quiser vê-la, ainda dá tempo. Ela deve permanecer no circuito brasileiro ao menos até o final deste mês.

Roteirizado por Andrés Duprat e dirigido por Gastón Duprat (que dessa vez não contou com a parceria habitual de Mariano Cohn na direção – este ficou apenas na produção), “Minha Obra-Prima” tem os experientes Guilhermo Francella, de “O Clã” (El Clan: 2015) e de “Os Segredos dos Seus Olhos” (El Secreto de Sus Ojos: 2009), e Luís Brandoni, de “Só Se Vive uma Vez” (Sólo se Vive Una Vez: 2017) e de “A Trégua” (La Trégua: 1974), como protagonistas. O elenco principal é completado por Raúl Arévalo, Andrea Frigerio e Mária Soldi.

O enredo de “Minha Obra-Prima” se passa em Buenos Aires e apresenta a relação conflituosa entre Arturo Silva (interpretado por Guillermo Francella), proprietário de uma galeria de arte independente, e Renzo Nervi (Luís Brandoni), um decadente e temperamental pintor. Os dois são amigos há algumas décadas e sempre trabalharam juntos: Nervi produzindo as telas e Silva vendendo-as. Contudo, nos últimos anos, a relação dos dois se deteriorou bastante. Os quadros do artista passaram a ser malvistos pelo mercado e não encontraram mais saída. O galerista até tenta convencer o amigo a mudar seu estilo, agora visto como ultrapassado, mas não consegue. Renzo Nervi é arrogante e cabeça-dura. Ele não ouve as dicas e os conselhos que lhe são dados. Prefere, assim, ficar na miséria a ter que mudar o tipo de arte que faz. Para piorar, o pintor passa a atrapalhar propositadamente o trabalho de Arturo, como forma de vingança às intromissões do galerista, que só tentava ajudar o amigo. Dessa maneira, o rompimento da longa amizade é eminente.

Sem contar com o apoio de mais ninguém, Renzo Nervi entra em uma fase calamitosa. Sua vida pessoal e sua carreira estão à beira do colapso completo. Nada parece dar certo para ele e a impressão que se tem é que não haverá pior situação do que aquela que está vivenciando agora. Porém, o fundo do poço ainda não havia chegado. Um acidente trágico transforma ainda mais a vida de Renzo Nervi (para pior, é claro). Na nova condição, o artista vê sua vida como um fardo difícil para ser carregado.

Em meio ao drama pessoal do amigo, Arturo Silva identifica uma excelente oportunidade de mercado. Por mais paradoxal que seja, a tragédia de Nervi pode ser lucrativa para os negócios. Essa é a grande chance de o artista decadente voltar a ficar em evidência e ter seus quadros mais uma vez requisitados pelos compradores. Para tal, o galerista precisará agir de maneira antiética. Um golpe arquitetado pela dupla poderá reacender a carreira de Nervi e tornar os amigos milionários.

“Minha Obra-Prima” tem pouco mais de uma hora e meia de duração e é sim uma boa comédia. O filme é leve, descontraído e apresenta uma trama interessante. Seu humor é do tipo humor negro (bem peculiar aos argentinos e à filmografia dos Duprat). O drama dos protagonistas é utilizado para a construção de cenas e situações cômicas. A graça também surge no debate implícito do que é uma produção artística boa e o que é uma ruim no cenário da cultura contemporânea. Apesar de ser um tema já batido, ele ainda rende algumas boas risadas quando bem explorado por roteiristas inteligentes. A trilha sonora também é boa e a fotografia do filme é maravilhosa.

Além disso, as atuações de Guilhermo Francella e Luís Brandoni estão excelentes. Os dois atores dão um show de interpretação e representam o ponto alto do longa-metragem. Tanto Francella quanto Brandoni foram capazes de transformar completamente a maneira como vemos suas personagens. De figuras execráveis do ponto de vista moral e frias emocionalmente, elas se tornaram pessoas carismáticas e, por que não, doces sob o comando da experiente dupla.

Ou seja, eu deveria ter saído feliz da sala de cinema, certo? Entretanto, deixei a sessão mais decepcionado do que empolgado com o que assisti. Qual o motivo para essa frustração?! A expectativa que tinha pelo novo trabalho dos irmãos Duprat era altíssima e, desta vez, ela não foi atendida. Se pensarmos no longa-metragem de maneira individual, “Minha Obra-Prima” tem mais acertos do que erros. É sim, um bom filme, portanto. Por outro lado, se pensarmos no portfólio de Andrés e Gastón Duprat, há uma sensação de decepção no ar. Sem dúvida nenhuma, este foi o pior filme da dupla nos últimos cinco anos. Ou seja, para quem conhece o trabalho excepcional dos cineastas argentinos na última meia década, ficará com a sensação de que algo saiu errado dessa vez. Não sei se a palavra correta seria “errado”. Talvez o alto nível dos longas-metragens anteriores não tenha sido alcançado em sua plenitude nesta nova comédia.

O principal problema de “Minha Obra-Prima” está na falta de surpresas na segunda metade da produção. De certa forma, é possível prever tudo o que acontecerá na metade final da película (com exceção da última cena, que é ótima!). Como isso é possível? O roteiro do filme infelizmente acabou saindo muito previsível. Um minuto antes de algo ocorrer na tela, o público já saca para onde a trama está indo. Isso é muito chato quando acontece de maneira sucessiva. O roteiro até possui algumas pistas falsas para a plateia caminhar para o lado errado, mas muitas delas não surtem o efeito esperado (principalmente para quem já conhece a dinâmica das tramas dos cineastas).

Outro problema grave é a sensação de déjà vu que permeia quase toda a narrativa. Sabe quando você assiste a algo e tem a impressão de já ter visto aquilo em outros lugares? Pois foi exatamente assim que me senti durante a sessão de “Minha Obra-Prima”. Sua execução é benfeita (tanto do ponto de vista técnico quanto da construção da história), isso é inegável, mas falta uma certa dose de originalidade ao enredo.

Provavelmente, eu tenha exagerado em minha expectativa e não tenha assistido ao filme com a leveza que ele merecia. O problema pode estar comigo, reconheço. Por outro lado, é indiscutível que “Minha Obra-Prima” seja um longa-metragem inferior a, por exemplo, “O Cidadão Ilustre” e “O Homem ao Lado”, minhas referências quando penso no cinema dos Duprat. Não dá para fugirmos dessa constatação elementar. Mesmo assim, este filme está muito longe de ser ruim. Ele é bem engraçado (diria trágico-cômico) e dinâmico. É possível dar boas risadas durante sua sessão. Até mesmo quando decepciona, o cinema argentino consegue agradar aos espectadores mais exigentes. Queiramos admitir ou não, o padrão dos filmes dos nossos vizinhos ainda está em um nível superior ao do cinema brasileiro.

Veja o trailer de “Minha Obra-Prima”:

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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