• Ricardo Bonacorci

Filmes: José e Pilar – O documentário sobre José Saramago


Abril é o mês de José Saramago no Bonas Histórias. Nossos leitores habituais já notaram que a literatura do Nobel de 1998 está sendo analisada no Desafio Literário há quatro semanas. Até agora, já foram comentados no blog seis livros do português: “Memorial do Convento” (Companhia das Letras), “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (Companhia das Letras), “Jangada de Pedra” (Companhia de Bolso), “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), “Ensaio sobre a Cegueira” (Companhia das Letras) e “Caim” (Companhia das Letras). Na próxima segunda-feira, dia 29, esse estudo será finalizado com o debate sobre a carreira e o estilo literário do autor. Nesse ambiente saramaguiano, nada mais natural do que o Bonas Histórias analisar o filme “José e Pilar” (José y Pilar: 2010), o documentário mais ambicioso sobre o escritor português. Assisti a este DVD no último final de semana e fiquei encantado com o que vi.

“José e Pilar” foi dirigido pelo português Miguel Gonçalves Mendes. O cineasta teve o mérito de convencer, após meses e meses de insistência, José Saramago e sua esposa, Pilar del Río, a darem acesso à rotina do casal às câmeras do longa-metragem. O argumento decisivo do diretor foi que o filme poderia servir de divulgação para o novo livro que o autor iria começar a escrever. Os espanhóis Pedro Almodóvar e Augustín Almodóvar e o brasileiro Fernando Meirelles integraram-se à produção na parte final do projeto. O trio foi coprodutor do filme.

Em “José e Pilar”, a equipe do documentário luso-espanhol-brasileiro acompanha os passos do casal Saramago seja na casa deles em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, ou nas viagens ao redor do mundo, onde o escritor era homenageado e requisitado. Além disso, é possível ver no filme o processo de criação da “A Viagem do Elefante” (Companhia das Letras), o décimo quinto romance do português. Vamos concordar que não é sempre que um autor vencedor do Prêmio Nobel aceita abrir mão de sua intimidade doméstica e dos bastidores do seu processo criativo para as câmeras de uma produção cinematográfica.

Lançado em novembro de 2010, apenas cinco meses após o falecimento de Saramago, “José e Pilar” se transformou em uma saga para seus cineastas. As filmagens começaram em 2005 e se estenderam até 2009. Ou seja, foram quatro anos de coleta de materiais brutos. No meio do caminho, surgiram vários problemas de diferentes naturezas. Já muito idoso, José Saramago ficou seriamente doente e precisou ser internado em um hospital. Após três anos de filmagens, a produtora responsável pelo projeto inicial do filme acabou sem dinheiro para dar sequência ao documentário. Por sorte, a O2 Filmes aceitou entrar na empreitada e finalizar os trabalhos.

Para completar a epopeia cinematográfica, uma vez encerradas as filmagens, começou um novo drama: como reunir aquela quantidade absurda de material coletado em um filme comercial com começo, meio e fim? Foi necessário mais um ano de trabalho de edição e algumas versões do documentário (a primeira, por exemplo, tinha inviáveis seis horas de duração) para “José e Pilar”, enfim, ficar pronto. Saramago pôde assistir a uma delas antes de falecer em junho de 2010. Infelizmente, ele não viu a versão final do filme, que tem pouco mais de duas horas de duração e que abrange uma narrativa entre fevereiro de 2006 e dezembro de 2008.

“José e Pilar” apresenta a relação polêmica de José Saramago com sua segunda esposa, a tradutora e jornalista espanhola Pilar Del Río. Os dois se conheceram em 1986 por iniciativa dela, uma grande fã da literatura do português. Nesta época, ambos já eram divorciados de seus primeiros matrimônios. O namoro quase que imediato se transformou em casamento em 1988. Primeiramente, José e Pilar foram morar em Lisboa e, em 1993, se mudaram para Lanzarote, a ilha mais inabitada das Canárias. Os dois permaneceram juntos até o falecimento de Saramago em 2010.

O que torna esse relacionamento tão controverso não é a diferença de idade de quase três décadas entre o casal e sim o comportamento impositivo da espanhola, que se apropriou da agenda do escritor e da administração da Fundação José Saramago. Além disso, Pilar é acusada pelos seus críticos portugueses de gostar muito dos holofotes, como se ela fosse a grande estrela da companhia (e não seu marido). Esse problema de personalidade já foi chamado por muitos anos de “Complexo de Mãe de Miss”, mas hoje é mais conhecido, pelo menos no Brasil, de “Complexo do Pai do Neymar”. No caso de Pilar, isso fica claríssimo ao longo do filme (um documentário que, para começo de conversa, é sobre ela e Saramago e não apenas sobre ele). Enquanto José deseja uma rotina mais calma para escrever seus livros, ela quer viajar pelo mundo em busca das câmeras de televisão e das homenagens do universo literário. Em muitos momentos, ela rouba o protagonismo do marido, sendo ela a homenageada e a entrevistada.

Assistir a “José e Pilar” é interessante para ver esse lado pouco elogioso do comportamento da segunda esposa de Saramago. Confesso que desde o começo do filme não me simpatizei por sua figura. Na minha visão, dou razão às críticas ácidas dos opositores da tradutora e jornalista espanhola. Pilar del Río é, segundo a narrativa proposta pelo documentário, a grande vilã da história. Ela é quem leva seu marido aos limites de suas forças e parece ansiar por todas as atenções e homenagens do público, além de tentar em todos os momentos roubar o protagonismo do filme. Se o marido é indiscutivelmente apaixonado por ela, o contrário é um enigma bem guardado até para os espectadores do longa-metragem.

Nesse sentido, há um trecho excelente do filme. José Saramago discute com sua esposa, em um jantar entre amigos, sobre a personalidade de Hillary Clinton, então postulante à presidência dos Estados Unidos. Enquanto Pilar é a favor da mulher de Bill Clinton, José é contrário. Para o escritor, Hillary é ambiciosa, aproveitadora, manipuladora, falsa, arrogante e tem uma sede desmedida pelo poder. Para Pilar, a candidata é corajosa, visionária, inteligente, destemida, empoderada e ciente de sua capacidade. Para o público mais atento, de certa maneira, o casal Saramago incorpora os mesmos argumentos (a favor e contra) dos críticos sobre Pilar del Río. Hillary Clinton seria a versão política e norte-americana da esposa do romancista português. Curiosamente, José consegue enxergar os aspectos negativos do comportamento da esposa de Bill Clinton, mas não consegue ver algo parecido nas atitudes de sua própria mulher.

Apesar da revelação da personalidade questionável de Pilar del Río, o aspecto mais legal de “José e Pilar” ainda sim é ver o lado humano de José Saramago. Por mais que sua esposa queira monopolizar as ações, é ele quem prende a atenção do espectador com seus comentários sagazes e sua rotina de popstar. E aí, temos o aparecimento do lado mais íntimo do escritor. José mostra-se um homem extremamente bem-humorado, muitíssimo inteligente e bastante corajoso por emitir suas opiniões sem medo das consequências (principalmente em relação ao Catolicismo, à existência de Deus e à política portuguesa). Outro aspecto que salta aos olhos é sua grande vitalidade (para alguém da sua idade). Por outro lado, também vemos uma pessoa muito introspectiva, melancólica e pessimista sobre o destino da humanidade. Nem mesmo os comentários pejorativos do escritor sobre os jornalistas e sobre os fãs nas sessões de autógrafos prejudicam sua imagem. O que vemos na tela é um homem sincero sobre o que gosta e o que não gosta, independentemente da opinião dos outros. Se eu já era um grande admirador da literatura de Saramago, depois do filme virei um fã do escritor como pessoa.

“José e Pilar” é um ótimo documentário. Achei no começo que ele seria extenso e um pouco cansativo, mas depois de assisti-lo mudei de opinião. Ele tem um ritmo interessante e alguns bons conflitos que prendem a atenção do espectador na maior parte do tempo. Até mesmo a internação de José Saramago que atrapalhou as filmagens foi transformada em um dos momentos mais tensos do filme. Quando vemos o escritor recuperado e ativo novamente, levamos um susto. Se a impressão era vermos o ocaso do autor, o que temos é sua volta por cima com grande estilo. É realmente muito emocionante essa sua retomada ao trabalho e à vida. Paradoxalmente, Saramago dedicou sua sobrevida à amada esposa, que em sua opinião salvou sua vida (será mesmo?!).

Gostei bastante da inserção dos principais trechos da literatura saramaguiana no meio das cenas do filme. Foi legal ver/rever essas frases colocadas em contextos específicos da narrativa cinematográfica, como as célebres passagens do “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” para mostrar o nível de ateísmo do autor ou as colocações de “O Ano da Morte de Ricardo Reis” para demonstrar o pensamento do autor sobre a morte.

Por fim, o que podemos dizer de acompanhar um dos principais escritores de sua geração na produção de um romance? Espetacular! Sim, porque é isso o que “José e Pilar” (também) mostra. Acompanhamos Saramago no desenvolvimento de “A Viagem do Elefante” da primeira à última linha do livro. Enquanto ele escreve, vemos a construção da história se materializar, saindo de sua cabeça e chegando ao papel. Ele comenta pouco a pouco suas decisões narrativas. Além disso, podemos acompanhar o texto do romance, que é narrado em off durante o filme. Apesar de ter ficado mais impressionado com o tipo de relacionamento estabelecido pelo escritor com sua segunda esposa, adorei ver a construção deste livro.

Em suma, “José e Pilar” é um documentário maravilhoso. Quem gosta de Saramago e de sua literatura, saiba que este filme é imperdível. Ele contém cenas reveladoras e polêmicas da personalidade e da rotina do escritor português. Miguel Gonçalves Mendes não esconde nada do público que assiste à sua produção. Temos ali, por exemplo, Pilar del Río rasgando as cartas que seu marido recebeu dos fãs antes que ele pudesse ler; José Saramago sendo, às vezes, muito grosseiro com o público que visita suas sessões de autógrafo; os jornalistas de televisão atuando de maneira pouco educada na frente do casal Saramago; as pesadas críticas que o autor sempre recebeu em seu país natal; e até mesmo os leitores mais abusados que fazem qualquer coisa para atrair a atenção do escritor famoso.

Temos no filme, portanto, um retrato fiel da realidade e da rotina de José Saramago e Pilar del Río, sem qualquer manipulação enviesada. Isso é o mais legal deste documentário. Sinceramente, não imaginava que um escritor do porte de Saramago aceitaria ser filmado com tanta proximidade pelas câmeras. Como ele aceitou essa loucura (ainda acredito que foi Pilar quem o convenceu, em mais um dos seus anseios por holofotes e atenção), temos a oportunidade de ver o lado pessoal e íntimo de um dos grandes artistas do nosso tempo.

“José e Pilar” foi eleito o melhor documentário do Festival Cineport de 2011 e ganhou os prêmios de melhor documentário, melhor montagem e melhor trilha sonora original da Academia Brasileira de Cinema. Além disso, a produção de Miguel Gonçalves Mendes conquistou os prêmios de melhor documentário segundo o público na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e na 2ª Mostra de Cinema Visões do Sul. Este filme também foi indicado ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro por Portugal, mas não chegou a ficar entre os finalistas da principal premiação do cinema mundial. Quanto ao público nas salas de cinema, ele alcançou pouco mais de 60 mil espectadores no Brasil e em Portugal entre 2010 e 2011.

Veja o trailer de “José e Pilar:

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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