• Ricardo Bonacorci

Filmes: Border – O terror agridoce vindo da Suécia


“Border” (Gräns: 2018) é um filme incômodo, forte e, ao mesmo tempo, surpreendente. Minha sensação ao assisti-lo foi de ter sido esbofeteado na cara por um brutamonte (quando passeava por um parquinho infantil) ou de ter sido atropelado por um caminhão-cegonha (ao atravessar uma rua calma em um bairro deserto). Talvez a melhor analogia seja com uma bebida extremamente forte, que ao ser ingerida provoque um grande arrepio no corpo inteiro. E, apesar dos efeitos colaterais que um longa-metragem como este possa causar no espectador, confesso ter saído de sua sessão com um tímido e, por que não, sarcástico sorrisinho no canto da boca. Vai entender as idiossincrasias dos seres humanos, hein?!


Em cartaz nos cinemas brasileiros desde a metade do mês passado, esta produção sueca foi dirigida por Ali Abbasi, um cineasta iraniano naturalizado sueco que está em seu segundo longa-metragem como diretor. Seu trabalho anterior foi “Shelley” (2016), um filme de terror produzido na Dinamarca (e que ainda não chegou ao Brasil). “Border” foi protagonizado por Eva Melander, atriz sueca de “Flocking” (Flocken: 2015), e por Eero Milonoff, ator finlandês do excelente “O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki” (Hymyilevä Mies: 2016). A dupla de atores dá um show de interpretação e potencializa o drama de uma história por si só insólita. Muito possivelmente este novo filme de Abbasi seja uma das produções europeias mais originais e ousadas das últimas duas décadas.


“Border” conquistou a mostra “Um Certo Olhar” no Festival de Cannes do ano passado e concorreu ao Óscar de 2018 na categoria de Melhor Maquiagem - prêmio dado a “Vice” (2018). O longa-metragem também foi indicado pela Suécia para ser o seu representante na disputa ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas ele não chegou a ser finalista da cerimônia em Los Angeles. No âmbito doméstico, “Border” ganhou o Prêmio Guldbagge de 2019, o principal do cinema sueco, nas categorias melhor filme do ano passado, a melhor edição de som, a melhor maquiagem e o melhor efeito visual.

Esta trama foi inspirada em um conto homônimo de John Ajvide Lindqvist, escritor sueco de 50 anos especialista em narrativas fantásticas e de terror. O próprio Lindqvist participou como corroteirista do filme ao lado de Ali Abbasi e de Isabella Eklöf, que integrou o projeto de roteirização apenas na fase final. Somente o casting de “Border” (não confundir com uma produção indiana de mesmo nome que foi rodada em 1997 e que tem como temática uma guerra entre Índia e Paquistão) demorou 18 meses para ser concluído. Sua bilheteria até o ano passado (temporada europeia) arrematou aproximadamente US$ 1 bilhão. Essa quantia deve aumentar bastante em 2019 com a chegada do longa-metragem no circuito comercial dos Estados Unidos e dos demais países fora da Europa.


Assisti estarrecido na última quarta-feira à noite a este filme no Itaú Cinema do Shopping Bourbon Pompéia. Apesar de possuir uma narrativa extremamente incômoda e mostrar cenas escatológicas e violentas, o resultado derradeiro é bastante positivo. Na certa, a melhor comparação seja com uma torta de maracujá (ou de limão), que apesar de muito amarga em um primeiro momento ainda sim deixa um gostinho doce na boca depois de um tempo...


Como é típico do cinema e da literatura nórdica (lembro-me, por exemplo, das criações de Ingmar Bergman e de Stieg Larsson), temos aqui um suspense angustiante e muitíssimo reflexivo. Em meio ao debate ao que é a essência do ser humano, assistimos a uma trama que mistura vários gêneros: história de amor do tipo conto de fada (às avessas), investigação policial, fábula nórdica, comédia, terror sobrenatural, drama pessoal, ficção científica e thriller de espionagem. Esplendorosa essa variedade! Em certo momento, o espectador fica sem saber ao certo que tipo de filme está assistindo (algo raro de se encontrar, convenhamos, no circuito comercial).


Você pode gostar ou não gostar de “Border” (acredito até que a maioria do público acabe torcendo o nariz para ele - o paladar agridoce não é para todos...), mas certamente você não sairá indiferente de sua sessão. Na sala de cinema em que estive presente, o público quase surtou. Algumas pessoas demonstraram ter adorado o filme. Porém, a grande parte dos presentes não cansou de manifestar em voz alta seu descontentamento, muitas vezes antes mesmo do encerramento do longa-metragem (Santo Deus!).

“Border” aborda a vida solitária e melancólica de Tina (interpretada por Eva Melander), uma policial que trabalha na alfandega de um aeroporto sueco. A moça de uma feiura que beira a monstruosidade possui poderes paranormais. Ela tem um olfato extremamente apurado. Através da captação dos odores das pessoas, a policial é capaz de identificar o sentimento dos passageiros (culpa, medo, raiva), além de constatar a presença de álcool e de drogas nas bagagens. Essa sua característica é fruto de um acidente ocorrido em sua infância. Um raio a atingiu quando Tina era pequena. A menina precisou passar por graves cirurgias, o que deixou seu corpo com algumas deformidades.


Esse dom psíquico-olfativo da protagonista do filme é excelente para seu trabalho na alfandega aeroportuária. Ela consegue identificar rapidamente os criminosos que tentam entrar ou sair do país. Tina jamais errou uma previsão sob um suspeito, o que a torna uma profissional incontestável dentro das Forças de Segurança Pública da Suécia. Seu talento é tão grande para descobrir criminosos que ela é convocada a participar de outras investigações da polícia. A moça terá papel decisivo na caça a uma quadrilha de pedófilos.


Se em sua profissão Tina é bem-sucedida, quando analisamos sua vida pessoal vemos uma mulher amargurada. Casada com um homem que a atrai abertamente e se aproveita de sua confortável condição econômica, a policial tem uma rotina enfadonha e casta. A estabilidade emocional da personagem é quebrada quando Tina, enfim, comete um erro em seu trabalho. Ela suspeita de Vore (Eero Milonoff), um homem esquisito que apresenta características físicas e comportamentais parecidas as da policial que o parou indevidamente no aeroporto. Vore não tem nada de errado nem sua bagagem possui material suspeito, o que causa certo mal-estar dentro da polícia sueca. Obcecada por saber o que há de tão especial com aquele passageiro misterioso, Tina começa um relacionamento cada vez mais forte com o rapaz. Inicia-se, assim, a enxurrada de surpresas que o filme de Ali Abbasi reserva ao espectador.


“Border” tem aproximadamente 1 hora e 20 minutos de duração. Os momentos de calmaria do seu enredo (maiores do que estamos acostumados a encontrar em filmes de terror) são interrompidos constantemente com novas reviravoltas da trama, o que dá uma sensação de agilidade à narrativa maior do que há de fato. A variedade temática da história também contribui para que o espectador fique preso ao filme. Não se assuste se mesmo com as cenas fortes da tela você não conseguir desgrudar os olhos do longa-metragem.

A primeira questão que chama a atenção em “Border” é o seu tom provocador. O público é o tempo inteiro desafiado a olhar para detalhes das vidas e dos corpos de Tina e Vore que poderiam muito bem ficar subentendidos. Nesse sentido, as câmeras de Ali Abbasi são muitíssimo indiscretas (e corajosas!). Elas acompanham em zoom cada detalhezinho do relacionamento e das particularidades da dupla de protagonistas. Destaque para as constrangedoras cenas de nudismo e de sexo explícito (só quem assistir ao filme entenderá o porquê de elas serem tão constrangedoras).


Outro aspecto interessantíssimo do filme é o debate aberto sobre qual é a essência humana e o que nos faz diferentes dos demais animais (isso é, se formos realmente distintos em algo). Para jogar luz a esta reflexão, “Border” lança mão de uma espécie chamada Trolls, que é perseguida pelos humanos e, por isso, é obrigada a viver escondida nos confins do nosso planeta. Somente quando somos comparados a uma raça parecida com a nossa, conseguimos analisar filosoficamente nossa essência com mais propriedade. Se bem que ao mesmo tempo que são parecidos com os humanos, os Trolls também possuem aspectos que os aproxima de seres monstruosos... Incrível essa criação!


Não é possível falar de “Border” sem rasgar elogios a sua dupla de protagonistas. Eva Melander e Eero Milonoff estão sublimes nas interpretações de Tina e Vore. Ambos conquistaram o Prêmio Guldbagge de 2019 como melhor atriz e melhor ator por seus papéis nesta produção. A direção ousada e impecável de Ali Abbasi também precisa ser destacada. O diretor foi finalista do Guldbagge, mas não conquistou o prêmio de melhor diretor.


Gostei também dos efeitos visuais deste filme. A sua fotografia e sua maquiagem estão à altura de sua narrativa. “Border” é um projeto cinematográfico que encanta pelo seu atrevimento e pela sua execução impecável. Os fãs de thrillers de terror vão ficar surpresos com uma produção eclética e com um enredo muitíssimo diferente do apresentado normalmente pelos exemplares de seu gênero. Por outro lado, para quem não gosta de tramas pesadas, aterrorizantes, escatológicas e reflexivas, é melhor ficar longe deste novo filme de Abbasi. Não nos esquecemos que Tina é especialista (e implacável) em desvendar os sentimentos das pessoas. Vá que ela cheire sua repulsa na sessão de cinema e parta para cima de você, hein?


Veja o trailer de “Border”:

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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