• Ricardo Bonacorci

Livros: Meio Sol Amarelo – O segundo romance de Chimamanda Ngozi Adichie


Nesta semana, li “Meio Sol Amarelo” (Companhia das Letras), o segundo romance de Chimamanda Ngozi Adichie. No último domingo, vale a pena lembrar, analisamos, no Bonas Histórias, “Hibisco Roxo” (Companhia das Letras), a narrativa longa de estreia da escritora nigeriana. Adichie é a autora que estamos estudando no Desafio Literário deste mês.

“Meio Sol Amarelo” é uma das obras mais premiadas de Chimamanda. Ele conquistou vários prêmios internacionais, além de ter sido indicado a tantos outros. Este livro conquistou, por exemplo, o Orange Prize de Ficção de 2007, um dos prêmios literários de maior prestígio do Reino Unido, e o Prêmio Anisfield-Wolf Book, honraria norte-americana concedida a trabalhos que combatem o racismo e valorizam a diversidade étnico-cultural. “Meio Sol Amarelo” também foi finalista do British Book Awards e do James Tait Black Memorial Prize, ambos na categoria melhor romance do ano. Sucesso entre a crítica europeia e norte-americana, esta obra foi adaptada mais tarde para o cinema. Produzido em 2013 e lançado em 2014, o longa-metragem foi dirigido por Biyi Bandele e teve Chiwetel Ejiofor e Thandie Newton como protagonistas.

A história do livro “Meio Sol Amarelo” foi baseada na Guerra Nigéria-Biafra, também chamada de Guerra Civil Nigeriana. Ocorrido entre 1967 e 1970, este conflito sangrento colocou as províncias do Sudeste do país contra o governo central de Lagos. Os revoltosos da etnia igbo, associada historicamente à elite econômica, política e cultural do país, queriam a sua independência da Nigéria. A nova nação receberia o nome de República do Biafra e teria sua bandeira com as cores vermelha, preta e verde, além de um meio sol amarelo no centro (daí o título do livro de Chimamanda Ngozi Adichie).

Contudo, os hauçás, mulçumanos originários do Norte, não aceitaram a fragmentação da nação recém independente (a Nigéria deixou de ser colônia britânica em 1960) e passaram a promover um massacre cruel de igbos, então liderados por Odumegwu Ojukwu. Por três anos, os biafrenses sofreram derrotas sucessivas que exterminaram o sonho de independência da sua região. Estima-se que mais de um milhão de soldados e civis tenham morrido nesta guerra, uma das mais horripilantes da segunda metade do século XX. As mortes foram causadas muitas vezes pela fome e por doenças provocadas pela situação caótica.

Muitos brasileiros ouviram falar do conflito Nigéria-Biafra por causa de uma famosa partida amistosa realizada pelo Santos de Pelé no final da década de 1960. Ávidos por assistir ao maior jogador da história do futebol, nigerianos e biafrenses aceitaram interromper os combates por alguns dias. Assim, os dois lados puderam ver o jogo do time paulista contra um combinado local. Depois que Pelé e seus companheiros deixaram o país, seguindo sua excursão internacional, a guerra foi retomada na Nigéria. Daí vem a lenda de que Pelé fez até guerra ser interrompida na África.

De origem igbo, Chimamanda Ngozi Adichie teve muitos familiares que foram vitimados pelo conflito Nigéria-Biafra (avôs) e outros que pegaram em armas (tios e primos) em prol do sonho da implementação da República biafrense. Apesar de ainda não ter nascido quando esta guerra se sucedeu (ela é de 1977, sete anos após o fim dos combates), a escritora coletou vários depoimentos de parentes (pais, tias e tios) e amigos que vivenciaram de perto os horrores daquele período. Sua pesquisa sobre o assunto foi complementada com registros bibliográficos: “Sunset at Dawn”, de Chukwuemeka Ike, “Never Again”, de Flora Nwapa, “Labyrinths”, de Christopher Okigbo, “The Nigerian Revolution and the Biafran War”, de Alexander Madiebo.

Publicado pela primeira vez em 2006, “Meio Sol Amarelo” pode ser classificado como uma junção entre ficção e realidade. Se a ambientação do livro segue o mais próximo possível a história verídica, a trama do romance nasceu da imaginação e do talento literário de Adichie. Ela mesmo diz isso em uma nota da edição brasileira: “Este livro se baseou na guerra Nigéria-Biafra de 1967-70, porém algumas liberdades foram tomadas, em nome da ficção; minha intenção é retratar minhas próprias verdades imaginadas e não os fatos da guerra. Ainda que alguns personagens tenham como base uma pessoa real, seus retratos são fictícios, assim como os eventos dos quais fazem parte”.

Narrado em terceira pessoa, “Meio Sol Amarelo” possui um narrador observador colado a três personagens muito distintas: Ugwuanyi, um adolescente igbo pobre e analfabeto vindo de Opi; Olanna Ozobia, a filha rica de um empresário igbo de Lagos; e Richard Churchill, um expatriado britânico apaixonado pela cultura igbo-ukwu. Cada capítulo é dedicado a um destes protagonistas. Assim, o narrador reveza seu olhar pelo trio central do romance, acompanhando os dramas de cada um deles durante a fatídica década de 1960. Não é errado afirmar que a Guerra Civil Nigeriana irá transformar significativamente a vida de Ugwuanyi, Olanna e Richard.

No início da década de 1960, Ugwu, como Ugwuanyi é mais conhecido, é o jovem empregado doméstico de Odenigbo, um professor acadêmico da Universidade de Nsukka. O rapaz foi trazido por uma tia de um povoado pobre e interiorano para morar e trabalhar na casa de Odenigbo, um homem culto e engajado socialmente. Apaixonado por uma conterrânea sua, Nnesinachi, Ugwu rapidamente aprende as maravilhas da cidade grande e volta a estudar. Sua rotina em Nsukka é aparentemente maravilhosa.

Olanna Ozobia é a esposa informal de Odenigbo. A moça de uma beleza cativante abriu mão da riqueza da família, seu pai é um empresário corrupto e bem-sucedido, e do conforto da vida em Lagos para morar de maneira mais simples (Odenigbo é o que podemos chamar de um integrante da classe média) com o homem que ama em Nsukka. Moderna e feminista, Olanna tem uma visão diferente daquela tida pela sociedade patriarcal local. Ela é extremamente moderna e cosmopolita quando o assunto é filhos e casamento. A felicidade dela não passa necessariamente por esses dois elementos.

E Richard Churchill é um escritor e jornalista inglês que veio morar na Nigéria. Namorado de Kainene Ozobia, irmã de Olanna, Richard se mudou para Nsukka para estudar a arte igbo-ukwu, sua grande paixão. O expatriado diz trabalhar em um romance sobre a cultura local, mas dificilmente consegue escrever algo. Apesar da sua ansiedade, seu livro parece nunca sair.

Quando a Guerra Nigéria-Biafra estoura, Ugwu, Olanna e Richard acham que não serão tão afetados pelos conflitos armados. Eles esperam que rapidamente os igbos derrotem os inimigos e estabeleçam na região uma nova democracia. Contudo, à medida que os meses vão passando, a Nigéria torna-se implacável com os biafrenses. O caos político, econômico e social passa a imperar em Biafra. Com medo, o trio de protagonistas precisa fugir de suas casas, tornando-se refugiados. É uma grande tormenta que abalará a todos por um período interminável.

“Meio Sol Amarelo” possui 504 páginas. O romance está distribuído em quatro partes e em 37 capítulos. As seções da obra oscilam entre acontecimentos do início da década de 1960 (antes, portanto, da guerra) e do final da década de 1960 (auge do conflito armado). Ou seja, a história tanto avança (partes 2 e 4) quanto regride (parte 3) no tempo. Essa quebra temporal confere alguns mistérios e surpresas à trama. Precisei de três dias para concluir este livro. Comecei a leitura de “Meio Sol Amarelo” no domingo e o concluí na terça-feira. Este é o livro mais robusto de Chimamanda Ngozi Adichie.

Se em “Hibisco Roxo” temos um drama familiar sensível e muito bonito, em “Meio Sol Amarelo” temos um romance histórico forte e impactante. A beleza da vida cotidiana desaparece completamente quando os ventos da guerra assolam esta região da África. Assistimos estupefatos à corrupção governamental, ao machismo e ao racismo da sociedade nigeriana Pós-Colonialismo, aos conflitos éticos da Nigéria e às instabilidades políticas. Também conferimos a força da cultura nativa: com suas crenças particulares, seus dialetos, suas músicas, suas vestimentas, sua gastronomia. Se a realidade nua e crua de um país assolado pela guerra civil assusta em um primeiro momento, por outro lado, a riqueza do panorama histórico-cultural da Nigéria maravilha o leitor.

A partir do ponto de vista de três indivíduos bem diferentes de Biafra, um igbo pobre, uma igbo rica e um expatriado britânico, vemos o quanto a Guerra impactou a todos e o quanto ela pode ser cruel. “Meio Sol Amarelo“ é um romance revelador por apontar os horrores sofridos (e também praticados) pelos igbos durante a Guerra Civil Nigeriana (em um conflito como este, os excessos e as maldades são perpetrados pelos dois lados). De alguma forma, lembrei um pouco, durante esta leitura, de “Terra Sonâmbula” (Companhia das Letras), romance do moçambicano Mia Couto. As semelhanças entre as duas obras estão mais ligadas à temática bélica, ao drama provocado pela guerra civil na África e à metalinguagem literária. Infelizmente, o texto de “Meio Sol Amarelo” não é tão poético quanto o de “Terra Sonâmbula”. Neste quesito, talvez, “Hibisco Roxo” se aproxime mais do principal romance de Couto.

Gostei muito da maneira como foi estabelecido o foco narrativo de “Meio Sol Amarelo“. A escolha por um narrador em terceira pessoa que acompanha mais de uma personagem é um prato certeiro para a derrapada do autor. Porém, Chimamanda Ngozi Adichie construiu uma narrativa impecável. Além de não possuir erros aparentes, este expediente narrativo contribuiu sensivelmente para a potencialização dos dramas dos protagonistas e da criação do suspense. Também achei válidas as rupturas temporais. A quebrada na cronologia da história tira o leitor do conforto natural da narração linear e levanta interessantes dúvidas na cabeça de quem está lendo. Prova maior disso está no motivo da briga homérica entre Olanna Ozobia e Odenigbo. O que teria acontecido de tão grave para abalar o relacionamento do casal?

O ponto alto de “Meio Sol Amarelo”, em minha opinião, é o seu desfecho surpreendente. Aproveitando-se das doses metalinguísticas inseridas pouco a pouco durante os capítulos, Adichie dá uma bela invertida na narrativa, derrubando o leitor na última linha. Incrível! Adoro quando isso acontece. Além do mais, a escritora nigeriana soube deixar o final do seu romance aberto. Apesar de desejarmos, como leitores, saber sempre as respostas para todas as questões levantadas durante a trama, precisamos entender que nem sempre será possível encontrá-las. Ainda mais em um período de exceção como o vivido pelas personagens da obra. Para mim, a falta de solução para algumas questões (como o paradeiro de Kainene Ozobia e o futuro dos protagonistas) só tornou esta obra ainda mais verossímil.

Se tem uma coisa que Chimamanda Ngozi Adichie faz com excelência e que eu adoro é a construção de personagens redondas. Essa característica já tinha aparecido em “Hibisco Roxo” e novamente se manifesta com destaque em “Meio Sol Amarelo”. A grande maioria dos indivíduos das narrativas da autora são figuras complexas. Em muitos momentos, é difícil defini-las claramente. Elas possuem qualidades positivas e negativas em boa proporção. A antipatia ou a empatia com essas personagens fica ao nosso critério. É muito legal ver isso em um romance.

Apesar de ter achado “Meio Sol Amarelo” um romance mais difícil de ser produzido, com uma trama mais rica, com uma diversidade maior de personagens e com um ambiente mais complexo do que “Hibisco Roxo”, ainda sim minha preferência pessoal recaí mais para o romance de estreia de Adichie. Enquanto, para mim, “Meio Sol Amarelo” é muito bom, “Hibisco Roxo” é excelente.

Darei sequência ao Desafio Literário de maio na próxima segunda-feira, dia 13. Nesse dia, voltarei ao Bonas Histórias para analisar “No Seu Pescoço” (Companhia das Letras), a coletânea de contos de Chimamanda Ngozi Adichie. Esta obra foi publicada em 2009, três anos depois de “Meio Sol Amarelo”. Continue conosco acompanhando o estudo da literatura de uma das principais escritoras da atualidade.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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