• Ricardo Bonacorci

Livros: Para Educar Crianças Feministas - Carta de Chimamanda Ngozi Adichie


Esse finalzinho de Desafio Literário tem sido muito frustrante. Depois de ficar extremamente empolgado com a qualidade excepcional dos romances “Hibisco Roxo” (Companhia das Letras), “Meio Sol Amarelo” (Companhia das Letras) e “Americanah” (Companhia das Letras) e da coletânea de contos “No Seu Pescoço” (Companhia das Letras), acabei me decepcionando bastante com os ensaios feministas de Chimamanda Ngozi Adichie. Na terça-feira passada, comentamos, no Bonas Histórias, “Sejamos Todos Feministas” (Companhia das Letras), ensaio de 2013 da escritora nigeriana. Agora, é a vez de discutirmos “Para Educar Crianças Feministas” (Companhia das Letras), a última publicação de Adichie.

Li esta obra na quinta-feira passada e fiquei assustado com a precariedade do seu conteúdo. “Para Educar Crianças Feministas” consegue ser ainda pior do que “Sejamos Todos Feministas” (sim, isso é possível!). Vale a pena salientar que estou aqui analisando o conteúdo do livro (a verdadeira proposta do Desafio Literário) e não o feminismo como proposta ideológica (a matéria-prima do livro). Falo isso porque tenho certeza que minhas críticas irão incomodar muita gente defensora do feminismo como se eu estivesse criticando-o. Não! Estou falando mal de “Para Educar Crianças Feministas” e não do feminismo. Como material ensaístico, esta obra possui um texto fraco, preconceituoso, datado e restrito a uma realidade felizmente cada vez mais provinciana e arcaica.

Curiosamente, “Para Educar Crianças Feministas” e sua antecessora “Sejamos Todos Feministas” são as publicações mais populares de Chimamanda Ngozi Adichie. Muita gente nem sabe que ela é uma escritora ficcional de enorme talento e sucesso. Para o grande público, a autora é antes de tudo uma famosa feminista engajada na promoção dos seus ideais. Como essa inversão de valores foi possível?! Sinceramente não sei. É triste ver uma autora tão engenhosa e original reduzida a um estereótipo. Para piorar, sua abordagem como feminista é muito rasa, não fazendo justiça à sua inteligência e à sua sagacidade como romancista.

Adichie até fala de um assunto atual e necessário em seus ensaios: o feminismo. É difícil alguém não concordar com a relevância da equiparação entre os gêneros e a necessidade urgente da abolição do machismo em todas as sociedades. Contudo, a escritora debate essas questões de um ponto de vista já ultrapassado. Ela fala olhando para uma sociedade profundamente machista como a nigeriana e, mais especificamente, a igbo (etnia da qual a escritora faz parte). Aí, temos uma derrapada feia. A realidade apresentada por Chimamanda Ngozi Adichie não existe mais nas sociedades mais arejadas, como por exemplo a norte-americana. Fica difícil concordar com ela e com os exemplos oferecidos nas páginas dos seus livros não ficcionais. É a mesma coisa de uma mulher discutir o feminismo do ponto de vista da sociedade iraniana. Aí, alguém iria reclamar: e desde quando a nossa sociedade pode ser comparada a dos aiatolás persas?! Não dá.

Publicado em 2017, “Para Educar Crianças Feministas” nasceu de uma carta que Adichie escreveu para uma amiga na Nigéria. A amiga da escritora deu à luz a uma menina e pediu conselhos de como deveria criar a criança recém-nascida. Feminista convicta, Chimamanda Ngozi Adichie escreveu em sua correspondência 15 dicas para a nova mãe. O livro é uma adaptação desta carta. Assim como o ensaio anterior de Adichie, este livro é extremamente curtinho. Ele possui apenas 96 páginas. É possível lê-lo em menos de uma hora.

Antes das dicas, “Para Educar Crianças Feministas” apresenta duas premissas feministas de Chimamanda Ngozi Adichie. A primeira é “toda mulher tem valor”. A segunda é “devemos analisar o comportamento da pessoa independentemente do sexo”. Já as dicas para a amiga são as seguintes: 1 – Não se restrinja ao papel de mãe; 2 – Pai e mãe devem cuidar da criança juntos; 3 – Não existe “papéis de gênero”; 4 – Cuidado com o Feminismo Leve (que coloca a igualdade feminina na condicional); 5 – Ensine sua menina a ler e a gostar dos livros; 6 – Ensine sua filha a questionar a linguagem; 7 – Casamento não é realização para a mulher; 8 – A mulher não deve se preocupar em agradar os outros; 9 – Dê a menina um senso de identidade; 10 – Esteja atenta às atividades e à aparência dela; 11 – Não usar a biologia para perpetrar os privilégios masculinos; 12 – Converse sobre sexo com sua filha desde cedo; 13 – Romances irão acontecer; 14 – Os oprimidos não são santos; e 15 – Ensine a menina o valor das diferenças.

Basta a leitura do parágrafo anterior para se notar o quanto “Para Educar Crianças Feministas” é uma obra que oscila entre a futilidade e o vazio conceitual. Vejamos o primeiro pressuposto da autora: toda mulher tem valor. Meu Deus, será que alguém não concorda com isso!? De tão óbvio que é esse conceito que me parece assustador ter que argumentar ou justificá-lo. Só mesmo as sociedades mais primitivas e as mentes mais atrasadas não irão concordar com essa frase em pleno século XXI. Quanto ao segundo pressuposto (devemos analisar o comportamento da pessoa independentemente do sexo), as escorregadas estão nos exemplos dados pela autora. Ela analisa o comportamento de uma mulher traída pelo marido para justificar seu ponto de vista. Pera aí! A postura da esposa ao descobrir a infidelidade do parceiro é muito mais uma decisão individual do que de gênero em qualquer país minimamente civilizado. Usar esse exemplo é regredir algumas décadas no debate de gênero.

Não ficou convencido com as minhas críticas sobre este livro. Então aí vão mais alguns exemplos. Hoje em dia, uma mulher que deixa de trabalhar para cuidar sozinha do filho é malvista pela sociedade. O mesmo ocorre com a mulher que vê o casamento como um prêmio. Também não assistimos a uma pressão para a esposa adotar o sobrenome do marido ou para se casar virgem. E o que dizer então da “obrigação” da mulher em cozinhar para o maridinho. Será que as moças desacompanhadas não conseguem entrar nas baladas nas cidades mais cosmopolitas do mundo? E o que dizer dos garçons dos restaurantes finos que não cumprimentam as damas somente os cavalheiros?! Basta ver os relacionamentos das novas gerações e os hábitos das cidades mais modernas do planeta para compreender que essas preocupações da autora ficaram lá atrás. Eles são comportamentos típicos das gerações anteriores (não das atuais) e de locais atrasados culturalmente.

Isso quer dizer que a sociedade atual não é mais machista. Não! É claro que não. Ela continua sendo muito machista. Porém, Chimamanda Ngozi Adichie não aborda nenhum ponto desse desequilíbrio sexista do ponto de vista moderno. De cabeça posso listar alguns exemplos: a dificuldade das mulheres de assumir a diretoria nas empresas, o assédio masculino na rua, o casamento com homens mais jovens e a explosão de feminicídios. Existem muitos outros. Ao invés de tratar o assunto de maneira mais atual, a escritora fala de como é a vida na Nigéria na perspectiva da sociedade igbo. Lá, muitas mulheres não vão para a escola (daí a dica número cinco) e pensam unicamente no casamento (dica sete). Uma vez casadas, elas precisam ficar em casa cozinhando e limpando (dica um) e cuidando das crianças (novamente dica dois). Ah, é importante a mulher nigeriana se manter casta até a hora do casamento (dicas doze e treze).

Ao mesmo tempo em que derrapa feio ao olhar o mundo de uma maneira muito conservadora, Adichie erra ao radicalizar o seu discurso. Será mesmo que uma mulher não deve nunca agradar os outros (dica oito)? E o que dizer da frase: o machismo é pior do que o racismo?! Para mim, é a mesma coisa de dizer “estupra, mas não mata” (frase de Paulo Maluf). Racismo e machismo são dois cânceres sociais e, portanto, não existe um melhor ou pior. Ambos são profundamente maléficos. E o que dizer, então, de frases como “mulher que não é feminista incentiva diretamente o machismo”. Para qualquer leitor ou leitora minimamente esclarecido, é difícil de engolir essa interminável coletânea de bobagens.

A sequência final das dicas é de um pieguismo sem tamanho. Dê a menina um senso de identidade (e para os meninos isso não seria importante?). Esteja atenta às atividades e à aparência dela (e alguém imaginaria que uma mãe não ficaria atenta seja para com o filho ou para com a filha). Os oprimidos não são santos (será mesmo?) Ensine a menina o valor das diferenças (não seria uma contradição a tudo o que foi dito antes?!).

Livros como “Para Educar Crianças Feministas” e “Sejamos Todos Feministas” fazem um desserviço para o feminismo contemporâneo. Os feministas e as feministas merecem um livro mais profundo e inteligente para discorrer sobre seus ideais. Infelizmente, não é o caso das obras ensaísticas de Chimamanda Ngozi Adichie. Ela bem que poderia analisar o machismo da sociedade moderna na perspectiva da cultura norte-americana, local onde ela vive há décadas. Porém, ela passa longe dessa análise. É uma pena. As únicas coisas boas de “Para Educar Crianças Feministas” são seu tamanho enxuto e seu preço irrisório. Você não perderá mais do que quarenta e cinco minutos nesta leitura (ufa!). E nem precisará pagar mais do que R$ 10,00 para levar esse mico para casa.

Agora que terminei a leitura dos seis livros de Chimamanda Ngozi Adichie, posso enfim fazer a análise literária da autora. Portanto, na quarta-feira da semana que vem, dia 29, retorno ao Desafio Literário para apresentar um panorama estilístico de uma das mais importantes escritoras africanas da atualidade. Não perca a última etapa do estudo da literatura de Adichie no Bonas Histórias. Até lá!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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