• Ricardo Bonacorci

Filmes: Dor e Glória – Um Almodóvar autobiográfico


Há alguns cineastas contemporâneos que são imperdíveis. Quando eles lançam um novo trabalho, eu corro aos cinemas para conferi-los. Invariavelmente, não me arrependo do que vejo nessas sessões. É verdade que muitas vezes temos “mais dos mesmos”. Porém, “esses mesmos” ainda sim são filmes de excelente qualidade. Fazem parte da minha lista de diretores admiráveis Woody Allen, Quentin Tarantino, Jafar Panahi, Damien Chazelle, Lars Von Trier, Martin Scorsese, David Fincher, Anna Muylaert, Alejandro González Iñárritu, James Cameron, Jaco Van Dormael, Darren Aronofsky e Fernando Meirelles. E, claro, Pedro Almodóvar! O cinema do espanhol é espetacular. Sou fã de Almodóvar desde “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos” (Mujeres al Borde de Un Ataque de Nervios: 1988). Ansioso para conferir o último lançamento do diretor, fui nesta semana à pré-estreia nacional de “Dor e Glória” (Dolor y Gloria: 2019), drama intimista que ganhará as salas dos cinemas brasileiros na semana que vem.

A pré-estreia mundial de “Dor e Glória” ocorreu no mês passado no Festival de Cannes, onde foi muito aplaudido. Na Espanha, o longa-metragem está em cartaz desde março. O mais interessante desta nova produção de Pedro Almodóvar está nos fortes traços autobiográficos de sua história. Até então, nenhum trabalho do diretor havia misturado com tamanha intensidade elementos reais e componentes ficcionais. De certa maneira, o cineasta apresenta as angústias, as fobias e os traumas de uma personagem que faz o espectador imediatamente remeter à imagem de Almodóvar. Com isso, temos o filme mais pessoal da carreira deste artista espanhol.

O elenco de “Dor e Glória” é composto em sua maioria por atores que já trabalharam várias vezes com Almodóvar. Antonio Banderas e Penélope Cruz, por exemplo, são figurinhas carimbadas dos filmes deste diretor. Ele já participou de oito longas e ela de seis. Até a veterana Julieta Serrano, que não atuava com Almodóvar há três décadas, também é uma assídua intérprete dos trabalhos do espanhol. Quem é bom de memória se lembrará que ela foi uma das protagonistas de “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos”. Curiosamente, assim como havia acontecido no primeiro grande sucesso internacional do diretor, Serrano volta a interpretar em “Dor e Glória” a mãe de Banderas. Completam o elenco principal do novo filme Asier Etxeandia, Leonardo Sbaraglia, Cecilia Roth e o jovem Asier Flores.

Com aproximadamente duas horas de duração, “Dor e Glória” narra o drama de Salvador Mallo (interpretado por Antonio Banderas), um famoso cineasta espanhol que se vê sucumbido pela idade avançada, pelas doenças crônicas e pelo consumo de drogas. Apesar da fama, da fortuna e dos prêmios conquistados, Salvador vive recluso em sua mansão em Madri. Sem amigos, fugindo da imprensa e sem contato com vários colegas antigos de profissão, o cineasta não produz nada novo há muito, muito tempo. Sua rotina é marcada por várias horas de total passividade. As fortes dores de cabeça e nas costas não o deixam, muitas vezes, ficar com os olhos abertos. Para piorar ainda mais as coisas para o protagonista, sua mãe (Julieta Serrano) morreu há dois anos e ele ainda não superou essa perda.

O quadro de melancolia e de depressão de Salvador Mallo sofre um ligeiro recuo quando ele é convidado para discursar na Cinemateca espanhola. Seu antigo filme, “Sabor”, foi restaurado e será reexibido depois de 32 anos de seu lançamento. Considerado um clássico do cinema espanhol, “Sabor” é alvo da admiração do público e da crítica especializada. Em razão do evento na Cinemateca, Salvador é obrigado a se relacionar novamente com Alberto Crespo (Asier Etxeandia), o protagonista polêmico de “Sabor”. Ator e diretor estavam brigados há anos. A dupla não se falava desde os eventos de promoção do antigo longa-metragem. A necessidade de sair de casa e de interagir com as pessoas ao seu redor levará o cineasta espanhol a repensar sua vida.

Ao realizar esse processo reflexivo, Salvador Mallo mergulhará em seu passado e analisará sua relação com a mãe, sua infância passada em uma aldeia pobre do interior do país e sua homossexualidade. De repente, figuras do passado voltam com força e inundam, ao mesmo tempo, a rotina e as memórias do velho cineasta. É o início de uma fase saudosista e meditativa. Não por acaso, as recordações levarão Salvador de volta à realidade concreta e à rotina do seu dia a dia. Curiosamente, a chave para o retorno ao trabalho e à reconstituição da alegria de viver está na retrospectiva histórico-afetiva feita pelo artista. O futuro está ligado intimamente ao passado e, nesse caso, o presente é uma ponte entre esses dois pontos da linha do tempo. Incrível!

“Dor e Glória” é um filme espetacular. Se ele não está no nível de “A Pele que Habito” (La Piel que Habito: 2011), “Volver” (2005), “Fale com Ela” (Hable con Ella: 2002) ou “Tudo Sobre Minha Mãe” (Todo Sobre Mi Madre: 1999), para ficarmos em comparações restritas aos últimos vinte anos, ele também não está muito distante destes clássicos recentes de Almodóvar. Admito que saí da sessão de pré-estreia impressionado positivamente. Mais uma vez, o cineasta espanhol mais famoso da atualidade consegue encantar e surpreender a plateia. A novidade de “Dor e Glória” está justamente na inserção de elementos autobiográficos à trama ficcional. Como consequência, assistimos a uma história extremamente sensível e comovente.

Em muitos momentos, esquecemos que estamos vendo Antonio Banderas na tela e pensamos estar diante do próprio Pedro Almodóvar. Além de Salvador Mallo ser um evidente alter-ego do diretor, as semelhanças da personagem com o cineasta verídico são incríveis. O corte de cabelo e as roupas usadas por Banderas em cena são parecidíssimos aos utilizados por Almodóvar na vida real. E o que dizer então dos gestos, da postura e da maneira de falar do ator, hein? Eles não poderiam ser mais parecidos aos de Pedro Almodóvar. Não à toa, a interpretação impecável do ator espanhol rendeu rasgados elogios da crítica e alguns prêmios. O mais importante deles foi o de Melhor Ator do Festival de Cannes deste ano. Por falar em Cannes, o filme também ganhou o prêmio francês de Melhor Trilha Sonora e concorreu à Palma de Ouro. Não falei que o longa-metragem era ótimo?!

Ao final da sessão, o espectador se pergunta o quanto este filme é mesmo autobiográfico. Acho tal questão pertinente. Porém, sinceramente não sei respondê-la. Avessos às entrevistas, Almodóvar disse poucas coisas na pré-estreia espanhola do seu longa-metragem. Uma delas foi: “Este é o meu trabalho mais pessoal”. Para um bom entendedor, meia palavra (ou seria uma frase?) basta. O que posso afirmar precisamente é que os dramas de Salvador Mallo são parecidíssimos à trajetória artística e pessoal de Pedro Almodóvar. Ambos os cineastas (tanto o da ficção quanto o da realidade) vieram de famílias pobres e foram educados em colégios religiosos. Eram apaixonados por cinema e por literatura desde a infância. Se mudaram na juventude para Madri, onde passaram a trabalhar na indústria cinematográfica até se tornarem reconhecidos internacionalmente. São homossexuais e tiveram problemas, em algum momento da vida, com o vício em drogas (heroína). E perderam recentemente suas mães. É quase impossível não relacionarmos todos esses pontos convergentes!

Contudo, também temos importantes diferenças entre Mallo e Almodóvar para apontar. O cineasta verídico, por exemplo, nunca sofreu de um grande período de bloqueio criativo (ao menos não ficamos sabendo disso!). O intervalo entre seus filmes tem se mantido entre dois e três anos desde o começo da sua carreira. E, até onde eu saiba, Almodóvar não sofre de dores crônicas nem é hipocondríaco como Mallo. Ou seja, se há uma forte relação (inspiração/associação) entre os dois cineastas, também existem diferenças que impedem que possamos classificar “Dor e Glória” como uma cinebiografia. Talvez a separação entre realidade e ficção seja uma tarefa muito mais difícil de ser feita do que supomos de imediato.

Citei à pouco a atuação fenomenal de Antonio Banderas, mas é preciso elogiar o desempenho de todo o elenco. Julieta Serrano, Asier Etxendia e Asier Flores, principalmente, estão maravilhosos como a mãe, o antigo amigo e o pequeno Salvador, respectivamente. Na parte inicial do filme, admito que não considerei Penélope Cruz tão verossímil como a mãe do protagonista na época da infância dele. Cheguei até a pensar que isso se devia mais a imagem de musa que eu tinha da atriz e menos de sua atuação. Contudo, na última cena do longa-metragem há a explicação para esse pequeno ruído (que não tem, na verdade, nada de ruído!).

O aspecto mais interessante de “Dor e Glória” está na mistura de realidade e de ficção. E não falo isso apenas pelos elementos autobiográficos do enredo. Dentro da própria trama ficcional, sonhos, lembranças, projeções e desejos do protagonista se embaralham com sua realidade objetiva. Assim, temos a interpolação de vários planos distintos. Parte das surpresas que esperam os espectadores está justamente na delimitação dessas várias camadas. De certa forma, podemos pensar que este filme é uma versão moderna, espanhola e mais comercial de “Oito e Meio” (Federico Fellini's 8 1/2: 1963), clássico de Federico Fellini.

Ao mesmo tempo em que traz elementos novos ao seu cinema, Almodóvar continua sendo o bom e velho Almodóvar de sempre. Isso é o mais legal de ser constatado! Ao mesmo tempo em que se reinventa, ele não se descaracteriza totalmente. O espanhol não abre mão do apuro estético da fotografia do longa-metragem (desta vez sem exageros), do uso de efeitos visuais inusitados (outra vez muito bem utilizados), da trilha sonora impecável (responsabilidade novamente nas mãos do genial Alberto Iglesias) e do humor tragicômico (na medida certa).

Acredito que “Dor e Glória” irá agradar tanto os velhos fãs do cinema de Pedro Almodóvar quanto aqueles que ainda não o conhecem ou que viraram o nariz para os trabalhos anteriores do espanhol. É muito bom ver um artista sexagenário que está longe da aposentadoria e que apresenta trabalhos tão bons quanto os do passado. Este longa-metragem estreará nos cinemas brasileiros no dia 13, quinta-feira da próxima semana. Vale a pena conferi-lo.

Veja, a seguir, o trailer de “Dor e Glória”:

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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