• Ricardo Bonacorci

Livros: O Rabino - O romance de estreia de Noah Gordon


O Desafio Literário de junho começa com o romance de estreia de Noah Gordon. Publicado em 1965, “O Rabino” (Rocco) foi a primeira incursão deste jornalista norte-americano na literatura. Então com 38 anos, Gordon trabalhava como editor de revistas científicas quando lançou a saga de um judeu religioso que enfrenta os preconceitos da sua comunidade para se casar com uma mulher goy (não judia). O sucesso do livro foi imediato. “O Rabino” ficou 26 semanas na lista dos mais vendidos do New York Times e alçou o nome de seu autor para a categoria dos best-sellers da ficção norte-americana. Em pouco tempo, o livro já era vendido nos quatro cantos do planeta. Atualmente, esta obra é considerada um clássico contemporâneo da literatura judaica.

Li “O Rabino” no último final de semana e admito ter ficado positivamente impressionado com seu conteúdo. O que mais me chamou a atenção foi a maturidade narrativa e a qualidade do seu texto. É incrível pensar que Noah Gordon era um romancista iniciante (e, portanto, inexperiente) quando publicou este livro. A sensação que temos durante a leitura de “O Rabino” é de estar diante de um escritor muito experiente, conhecedor profundo da maioria dos detalhes da estética literária. Não é surpresa nenhuma notar, com os olhos de hoje, que aquele lançamento na metade da década de 1960 marcava o início da trajetória profissional de um dos mais bem-sucedidos e premiados escritores dos Estados Unidos. Presença quase obrigatória nas principais livrarias e bibliotecas do mundo, Gordon é figurinha carimbada entre os best-sellers contemporâneos.

O “Rabino” é um romance histórico. Seu enredo começa em novembro de 1964, em Woodborouht, Massachusetts. Nesse momento, Michael Kind tem 45 anos e é casado há duas décadas com Leslie, uma ex-jornalista nova-iorquina. O casal tem dois filhos: Max, de 16 anos, e Rachel, de 8 anos. Rabino da ala mais progressista do judaísmo, Michael enfrentou muitos preconceitos para se casar com sua atual esposa, filha de um pastor protestante. Logo de cara, o relacionamento inter-religioso não foi bem-visto por nenhuma das famílias nem pelas comunidades em que elas pertenciam. Mesmo assim, o casal apaixonado seguiu em frente na união matrimonial.

Com a família já estabelecida, o problema agora dos Kind é outro: a depressão de Leslie. A mulher do protagonista está internada em um hospital psiquiátrico após meses sem falar nenhuma palavra. Seu mutismo é inexplicável tanto pelos médicos quanto pelos familiares. O médico responsável por seus cuidados sugere que um tratamento a base de eletrochoques seja iniciado. Enquanto cuida sozinho dos filhos, Michael aguarda ansiosamente a recuperação da companheira.

Ao mesmo tempo em que apresenta o drama atual de Michael Kind e de sua família, o romance também volta ao passado para explicar como as personagens principais chegaram àquela situação. Os flashbacks começam em setembro de 1925, quando Isaac Riukind, avô paterno de Michael, precisou deixar a Europa por causa do crescente antissemitismo. Depois de uma longa viagem, ele foi morar em Nova York, onde abriu um armazém no Brooklin. A ligação entre a vida contemporânea de Michael e as crenças do velho Isaac é estreitíssima. Foi a imposição do avô, um judeu ortodoxo, que obrigou Abe e Dorothy, os pais de Michael que não ligavam nem um pouco para a religião, a darem uma educação religiosa para o garoto. Assim, o protagonista começa a estudar hebraico e a frequentar uma escola judaica.

A narrativa de “O Rabino” é dividida praticamente em duas partes, que caminham simultaneamente. A primeira acompanha a vida presente de Michael e de sua família entre novembro e dezembro de 1964. É quando Leslie está doente e internada no hospital psiquiátrico. A segunda parte remonta o passado dos Kind: assistimos à saga de Isaac pela Europa e por Nova York, vemos os caminhos trilhados por Abe (o pai de Michael tinha uma empresa de cintos femininos e era bastante promíscuo sexualmente) e acompanhamos a trajetória de Michael desde seu nascimento. Portanto, assistimos ao crescimento do protagonista, à passagem pela adolescência, à entrada na fase adulta, à opção pelo rabinato (e suas intermináveis viagens pelo país: Flórida, Missouri/Arkansas, Geórgia, Califórnia, Pensilvânia e Massachusetts) e ao início de seu relacionamento com Leslie. Com o casamento de Michael e Leslie, a família está sempre se mudando (a vida de rabino não é nada tranquila), algo que se complica com a chegada do casal de filhos. De certa maneira, essa retrospectiva irá explicar os problemas clínicos da esposa de Michael Kind. É esse o mistério que guia o leitor pelas páginas do livro. Por que uma mulher com um casamento aparentemente perfeito entrou em depressão?

Como uma boa saga de formação do herói, “O Rabino” é uma obra parruda. Este romance possui 368 páginas, que estão divididas em 47 capítulos e 4 partes. Levei três dias para concluir integralmente sua leitura. Comecei na sexta-feira à noite e só terminei no domingo à tardezinha. Devo ter levado entre 12 e 14 horas ao todo para ir da primeira à última página do livro. O mais legal é que a narrativa de Noah Gordon é tão gostosa que você vai lendo o romance sem reparar na passagem do tempo. Em um piscar de olhos, a quarta capa está diante de você. Incrível!

O primeiro elemento que chama a atenção do leitor em “O Rabino” é o mergulho na cultura judaica. O leitor acompanha não apenas as particularidades desta religião como também as várias nuances culturais dos judeus (dos mais ortodoxos aos mais progressistas). Estão ali os hábitos alimentares, as roupas usadas, o corte de cabelo, as crenças, a língua, as datas comemorativas, as tradições, a história e os rituais. Se para um judeu é interessante ver sua cultura representada em uma trama ficcional, para quem é de fora desta religião trata-se de uma excelente oportunidade para compreender e entender os principais aspectos deste povo. Para esse último grupo, é bom saber que há, no final do livro, um glossário com palavras e expressões predominantemente em ídiches ditas pelas personagens. Na maioria das vezes, os termos são autoexplicativos (quando analisado no contexto narrativo), mas sempre é bom ter onde realizar a consulta. Gostei disso!

E como não poderia ser diferente, assistimos neste livro a vários choques sacro-culturais. Paradoxalmente, não é apenas o antissemitismo europeu da metade do século XX que impõe desafios aos judeus. Os preconceitos dos protestantes norte-americanos contra os hebreus ainda são fortes, principalmente nas regiões mais remotas do país. Há até mesmo uma grande rixa entre judeus ortodoxos e progressistas (por mais paradoxal que isso possa parecer aos olhos de alguém de fora desta religião), o que torna tudo ainda mais complicado.

O que não falta em “O Rabino”, portanto, é uma coleção interminável de personagens e de situações preconceituosas. O diferente é sempre alvo de ataques e de olhares enviesados (não importa o lado pelo qual se veja a realidade). Se os protestantes não gostam dos judeus, os judeus também parecem não gostar nem um pouco dos goyim (não judeus). Se os judeus ortodoxos odeiam os progressistas, o contrário também se mostra verdadeiro em muitos momentos. Para completar o cenário caótico, há ainda forte racismo (lembremos que essa história se passa nos Estados Unidos nas primeiras décadas do século XX), preconceitos socioeconômicos (dentro das próprias comunidades religiosas, infelizmente, os pobres são normalmente malvistos!) e indisposições ideológicas (auge da Guerra Fria e ápice dos conflitos armados na Palestina entre árabes e judeus). É ou não é um ambiente extremamente tóxico e explosivo, hein?!

O clímax dessas diferenças é o casamento de Michael e Leslie. Imagine o que representou a união de um rabino com a filha de um pastor protestante em plena década de 1940?! Curiosamente, até mesmo as duas personagens principais parecem questionar-se no início sobre esse relacionamento, como se tentassem boicotá-lo (prova maior do preconceito inter-religioso). Eles só são impedidos de seguirem por caminhos opostos por algo mais forte e incontrolável (o amor mútuo). Por uma perspectiva antropológica e sociológica, “O Rabino” é um drama ancorado essencialmente nas diferenças religiosas e culturais (uma praga que acompanha a humanidade em qualquer lugar e em qualquer época).

“O Rabino” é uma história que vai e volta no tempo. Esse é um dos elementos mais legais de sua narrativa. Sabemos, desde as primeiras páginas, como tudo mais ou menos termina: Michael e Leslie Kind estão casados e com filhos. Ou seja, o final é aparentemente feliz (ou a depressão da esposa do rabino indicaria algo diferente?). O mergulho ao passado serve para mostrar ao leitor como o presente se construiu. Mesmo sabendo o desfecho, a curiosidade do leitor é para entender como o casal ficou junto. Para mim, uma boa história se faz quando queremos lê-la, mesmo já sabendo do seu desenlace.

Este livro de Noah Gordon é narrado em terceira pessoa. O narrador é do tipo observador onipresente e onisciente. Ele está na maioria das vezes grudado ao protagonista. Porém, muitas vezes, há um desprendimento entre narrador e Michael Kind (o que confere grande liberdade ao relato). Esse fato ocorre tanto em cenas pontuais quanto em grandes partes do romance (como na saga de Isaac Riukind pela Europa e nos primeiros anos de casado de Abe e Dorothy em Nova York). Sinceramente, esse foi o aspecto que mais me incomodou nesta leitura. Para um leitor que não se preocupa com a Teoria do Foco Narrativo, isso, obviamente, não será um problema. Porém, para quem observa a lógica da narrativa a partir da posição do narrador, essa característica de “O Rabino” é um ponto questionável.

O excesso de personagens pode também ser, em alguns momentos, um problema. Repare que eu escrevi “pode ser”. Afinal, mais de uma centena de personagens de diferentes épocas desfilam pelas páginas do livro. Muitas delas têm atuação pontual (em poucas páginas ou mesmo em um único capítulo). Sinceramente, não achei o número elevado de personagens uma falha de “O Rabino”. Noah Gordon consegue dar vida a suas criações ficcionais a ponto da maioria delas ter carisma e importância na trama. Adorei como o escritor norte-americano construiu seu romance, encaixando uma multidão de figuras em sua história com muita naturalidade. A entrada dessas várias personagens sempre tem um motivo e suas presenças dão um colorido ao romance.

Por fim, outra questão que gostei muito foi de notar a transformação dos lugares através do tempo (algo que podemos extrair dos romances históricos). O melhor exemplo ocorre com Manhattan. No começo do século passado, essa era uma das regiões mais pobres, degradadas e perigosas de Nova York. Ou seja, nada mais diferente do que a Manhattan atual (rica, moderna e segura).

“O Rabino” é um livro excelente. Sua narrativa é sensível, seu drama é tocante e seu texto é sublime. Através da saga de um homem comum e de sua família aparentemente normal, assistimos, por consequência, aos conflitos dos judeus que imigraram para os Estados Unidos. Enquanto acompanha o desafio da manutenção da cultura deste povo e o combate aos preconceitos, o romance de Gordon permeia questões delicadas da geopolítica mundial, da religião judaica, da formação dos Estados Unidos como nação e de temas corriqueiros da vida mundana (amor, traição, esperança, vocação profissional, violência). Não à toa, “O Rabino” se tornou um best-seller internacional. Se uma obra desta envergadura foi a ficção de estreia de Noah Gordon, fico imaginando o que este autor poderia nos apresentar quando chegou à maturidade literária.

O próximo livro de Gordon que será analisado no Desafio Literário é "O Diamante de Jerusalém" (Rocco). Publicado em 1979, este romance é o terceiro da carreira do escritor norte-americano. Em um suspense de espionagem, ele misturou passagens do Velho Testamento com intrigas geopolíticas na busca por uma pedra preciosa de valor histórico. O post sobre "O Diamante de Jerusalém" estará disponível no Bonas Histórias no dia 10 de junho, próxima segunda-feira. Continue acompanhando o Desafio Literário de Noah Gordon no blog.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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