• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: João Miramar


Darico Nobar: Salve, salve, público fiel do Talk Show Literário. Estou aqui nesta noite para apresentar mais um programa sobre os clássicos da literatura brasileira. E o convidado de hoje é uma das principais personagens modernistas do nosso país. Seja muito bem-vindo, João Miramar! [O entrevistado é aplaudido pela plateia presente em bom número no auditório da emissora carioca].

João Miramar: Oh, vida tortuosa, às vezes onerosa, em alguns casos furiosa, mas sempre prazerosa. És tu que nos chamas caprichosa para falarmos de ti, oh rainha temporal poderosa. [Mal se senta ao sofá, o convidado começa a recitar uma prosa poética]. Tua aparente aparência de parecer importante só reforça nossa reticência sobre tua incoerência de ser ou de não ser o que aparentávamos acreditar.

Darico Nobar: Desculpe-me, João, mas não entendi nada do que você disse.

João Miramar: Nem tudo o que um artista das letras, como eu, diz ou escreve é para ser entendido. Muitas vezes, o valor de algo está nas sensações transmitidas. Mais relevante do que compreender é emocionar-se!

Darico Nobar: Ah, tá... [O apresentador faz cara de quem ainda não está entendendo nada. Para ganhar um tempinho e formular uma boa pergunta, ele toma um gole de água da sua caneca. Seu olhar para o convidado é de desconfiança]. A partir do lançamento das suas memórias, você se apresenta como um escritor, um homem das letras, certo? Você nunca pensou em concluir sua autobiografia?

João Miramar: Não!

Darico Nobar: Mas por quê? Tenho certeza que a maioria dos seus leitores deseja saber o desfecho da sua vida.

João Miramar: Razões de estado... Sou viúvo de D. Célia.

Darico Nobar: E daí?

João Miramar: Isso basta para me definir. Disseram-me, certa vez, que um homem depois dos trinta e cinco anos deve zelar por uma vida sentimental discreta. Por isso, meu natural recolhimento e minha fuga dos holofotes da imprensa bisbilhoteira.

Darico Nobar: O senhor não teme a reação da crítica literária? Ela pode acusá-lo de não se esforçar para finalizar algo ainda incompleto, apesar de estar no hall canônico.

João Miramar: Não corremos, eu e minhas memórias, esse risco. Recentemente, li meu livro em uma viagem que fiz pelo país e posso garantir que ele está muito bom dessa maneira. Fui até onde devia e ponto final.

Darico Nobar: Qual razão o faz ter tanta certeza disso?

João Miramar: A minha obra lembra muito os trabalhos de Virgílio e de James Joyce. Em relação ao poeta romano, sou um pouco mais nervoso no estilo. E quanto à comparação com o romancista irlandês, padeço, reconheço, de mais profundidade.

Darico Nobar: Que curioso isso, João! [O âncora do programa fica em silêncio meditando por alguns segundos]. Tenho a impressão de já ter presenciado essa conversa com você antes... Acabei de ter um déjà vu.

João Miramar: Que déjà vu que nada! Nós já travamos esse diálogo no passado. Por isso, você está se lembrando dele agora.

Darico Nobar: Impossível! Como podemos já ter conversado antes se esta é a primeira vez que nos encontramos em nossas vidas?!

João Miramar: É duro falar com pessoas esquecidas, viu!? [O convidado cruza os braços e solta um suspiro impaciente]. Darico, você não está lembrado, mas após o último episódio-fragmento de Memórias Sentimentais de João Miramar, há uma entrevista que concedi para a televisão. Está lá no livro. Basta abri-lo que você verá. Podemos chamar essa parte da obra de conclusão midiática pré-sucesso comercial. O desfecho de minha obra é exatamente a entrevista que estou dando para você agora. Encerrei minha autobiografia com um trecho deste Talk Show Literário. Nada mal, hein?

Darico Nobar: Não estou entendendo nada... [O apresentador está visivelmente atordoado]. Em primeiro lugar, não existia televisão naquela época. E depois.... Bem, você está dizendo que pegou uma parte da entrevista que estamos fazendo agora e a colocou em seu livro, publicado na década de 1920?

João Miramar: Sim. Por que a dificuldade em acreditar nisso?

Darico Nobar: Impossível! Não dá para publicar algo que ainda não tinha acontecido.

João Miramar: Darico, você se esquece que meu livro foi pioneiro em muitos aspectos. De certa forma, ele representou o marco zero da prosa modernista brasileira, e quiçá mundial. Além de ter influenciado dezenas, centenas e milhares de escritores que vieram depois de mim, minha obra, através de suas diversas paródias, da sátira social e da técnica cinematográfica, antecipou tendências. Saiba que seu programa de entrevistas foi criado a partir do desfecho do meu romance. Essa é a verdadeira relação das coisas. Você e sua atração são frutos indiretos do meu livro. Talvez, minhas memórias tenham ficado em seu subconsciente e comandado, sem você saber, suas decisões.

Darico Nobar: Nossa! Incrível isso, né? [O entrevistador coça a cabeça perplexo]. Nunca tinha parado para pensar nessas possibilidades. Acho que preciso entrevistar o finado Albert Einstein para entender melhor as mutações do espaço temporal ou o falecido Antônio Cândido para compreender todas as variáveis literárias em que estamos sujeitos.

João Miramar: Fico feliz que você, enfim, tenha entendido algo do que eu disse no dia de hoje. [O entrevistado encosta as costas no sofá e ri sarcasticamente].

Darico Nobar: Além do meu programa, quais outros eventos culturais seu livro precipitou?

João Miramar: São tantos que é até difícil de listá-los.

Darico Nobar: Tente, por favor. Juro que estou realmente curioso.

João Miramar: De cabeça, posso citar, por exemplo, a dinâmica dos videoclipes, o surgimento dos microcontos, o conteúdo dos blogs pessoais, a estrutura dos guias de viagem, a profundidade das reportagens das revistas de fofoca, a linguagem dos e-mails corporativos, a bagunça narrativa das redes sociais, os roteiros dos filmes mais nonsenses, o desenvolvimento dos trailers dos longas-metragens hollywoodianos, a relevância das entrevistas com jogadores de futebol à beira do campo, a sinceridade dos discursos políticos no horário eleitoral obrigatório, os enredos dos romances psicológicos... E o seu programa de entrevistas, é claro!

Darico Nobar: Ao mesmo tempo em que sua história apresentou muitas inovações estéticas, estruturais, narrativas e linguísticas, o conteúdo da sua vida foi muito conservador. Afinal, você teve uma infância normal, viajou muito na juventude e casou-se cedo. Teve uma filha, depois traiu a esposa e terminou levando um pé na bunda. Antes disso, torrou a fortuna da sogra, ajudando na decretação da falência da família da sua mulher. Não há muita coisa interessante nisso, né? Histórias parecidas como a sua, eu conheço várias.

João Miramar: Admito que minha vida foi bastante convencional, típica de um representante da elite cafeicultora paulista do início do século XX. Exatamente por não ter muitos elementos diferenciados para apresentar, é que resolvi escrever minha história de maneira, como dizem por aí, um tanto amalucada. Não é possível inovar em todos os campos ao mesmo tempo, já dizia W. Chan Kim e Renée Mauborgne. Assim, optei pela forma criativa em detrimento ao conteúdo. Se estou sendo entrevistado hoje, um século depois da publicação do livro, é porque minha decisão se mostrou acertada.

Darico Nobar: Lendo suas memórias e ouvindo-o agora, lembrei-me muito do Brás Cubas. Você se considera muito parecido com essa personagem machadiana?

João Miramar: Conheci o Senhor Cubas em simpósios de literatura que participamos. Ele me pareceu um burguês sério e honrado. Contudo, não vejo muitas semelhanças entre a gente. Ele passou a vida consumindo a fortuna do pai e não fez nada de produtivo. Nunca trabalhou nem se casou. Eu não sou tão imprestável assim.

Darico Nobar: E quais são seus legados? No que você trabalhou?

João Miramar: Diferentemente do Senhor Cubas, eu casei e tive uma bela filha. Em outras palavras, transmiti sim o legado da minha miséria. [O entrevistado ri do seu próprio comentário]. Além disso, trabalhei muitos anos como fazendeiro matrimonial. Depois, fui empresário do ramo cinematográfico. Comer a atriz principal do estúdio não deixa de ser um importante legado. Agora, para coroar de vez minha carreira, sou escritor canônico. Não está bom?!

Darico Nobar: Você só escreveu um livro nos últimos cem anos! E essa obra é a sua autobiografia. Além do mais, ela me parece um tanto inconclusa... Mesmo assim, você se considera um escritor?!

João Miramar: O mundo artístico é maravilhoso. Há cantores de uma só música. Há atores de um só papel. E há também escritores de um único livro. São as idiossincrasias do nosso mundo, meu querido. A arte é tudo, a vida não é nada!

Darico Nobar: Nesse sentido, gostaria de saber de você o motivo para...

João Miramar: Só um instante, Darico. Será que eu poderia ir ao banheiro?

Darico Nobar: Agora, no meio da entrevista? Estamos ao vivo para todo o país!

João Miramar: Será rapidinho. Prometo ir "em um pé e voltar no outro". Ninguém notará a minha saída. É um caso urgente urgentíssimo de máxima urgência.

Darico Nobar: Tudo bem. Vai lá, então. Aguardaremos sua volta, fazer o quê? Banda, por gentileza, toque algo enquanto nosso entrevistado não retorna ao palco.

[O quinteto musical entra em ação assim que o convidado dispara para o camarim. O grupo toca uma música. Duas. Três... Cinco... Dez canções são tocadas! Entre elas são inseridos dois intervalos comerciais. Passam-se vinte minutos sem que o entrevistado tenha voltado ao palco do auditório. Depois de um longo silêncio, o apresentador se manifesta. Ele está visivelmente constrangido].

Darico Nobar: Pessoal, acho que o João se perdeu dentro dos nossos estúdios. Vou ver se ele está bem. Estou realmente preocupado. Por hoje é só isso, galera. Espero que vocês tenham gostado do programa desta noite. Esse João Miramar é mesmo um pouco desregulado da cabeça. Saibam que entrevistá-lo não foi nada fácil para mim. Boa noite para todo mundo e até semana que vem com mais um Talk Show Literário inédito e exclusivo! Tchau!

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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