• Ricardo Bonacorci

Filmes: Um Homem Fiel – A segunda direção de Louis Garrel


Há quatro anos, Louis Garrel estreou na direção com o ótimo “Dois Amigos” (Les Deux Amis: 2015), comédia romântica ancorada em um inusitado triângulo amoroso. O próprio diretor, um dos principais atores franceses de sua geração, interpretou um dos protagonistas neste divertido longa-metragem. Agora, ele repete a dose (dirige e atua) em mais um excelente filme baseado em uma disputa afetiva. “Um Homem Fiel” (L'Homme Fidèle: 2018) entra no circuito comercial brasileiro na quinta-feira da semana que vem, dia 4. Contudo, ele já foi apresentado ao público nacional no início deste mês durante o Festival Varilux de Cinema Francês. Na França, esta produção chegou às salas de cinema em dezembro de 2017 e recebeu muitos elogios da crítica e do público.

Com apenas duas direções em seu portfólio (como ator ele tem quase três décadas de experiência), Garrel se tornou o cineasta queridinho da França no momento. Com sensibilidade, bom humor e um olhar diferenciado para os dramas afetivos de jovens casais, seus longas-metragens unem narrativas originais e tragicômicas com uma estética cinematográfica bem particular. “Um Homem Fiel” recebeu os prêmios de Melhor Roteiro no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián no ano passado e de Melhor Filme do júri no Festival Internacional de Cinema da Transilvânia neste ano. O elenco de protagonistas de “Um Homem Fiel” é completado por Laetitia Casta e Lily-Rose Depp. As duas belas atrizes francesas passam quase o filme inteiro em cena ao lado de Louis Garrel.

Com apenas uma hora e quinze minutos de duração (filme bom não precisa ser longo!), “Um Homem Fiel” se passa nos dias de hoje em Paris. Na cena de abertura, Marianne (interpretada por Laetitia Casta) dá uma notícia bombástica para seu namorado, Abel (Louis Garrel), com quem vive há três anos. Ela está grávida. Antes que o rapaz possa esboçar qualquer reação, ela completa friamente: “O filho não é seu. É de Paul. Vamos nos casar. Seria bom se você pudesse tirar as coisas da casa até o fim do mês”. É assim que o rapaz descobre a traição da namorada e o fim de seu relacionamento, além da perda do teto que habitava. Resignado, Abel abandona pacificamente o apartamento e segue sua vida sem nunca mais falar ou ver Marianne. O que ele sabe é que ela permaneceu casada com o tal Paul por muito tempo. Curiosamente, Paul e Abel foram grandes amigos nos tempos de faculdade.

Nove anos mais tarde, Abel vai ao enterro de Paul. O marido de Marianne sofreu um infarto fulminante enquanto dormia e deixou esposa e filho. No enterro, Abel, um jornalista que não conseguiu ter grande destaque na carreira, reencontra Marianne, agora uma bem-sucedida porta-voz do governo federal. Vê-la novamente reacende a antiga paixão no coração do rapaz. Em poucos dias, os antigos namorados reatam o relacionamento e, desta forma, Abel volta a morar no apartamento que um dia foi seu. Sem o grande rival por perto (que está morto e enterrado), o jornalista acha que viverá agora sem problemas com a mulher que sempre amou...

Contudo, a nova união dos protagonistas terá dois grandes obstáculos: a irmã mais nova de Paul e o filho pequeno de Marianne. Eve (Lily-Rose Depp), a irmã do falecido, sempre foi apaixonada por Abel. Ao revê-lo no enterro, ela decide declarar guerra contra Marianne e disputar o coração do seu antigo amor. Ao mesmo tempo, o estranho filho de Marianne e Paul, um garoto de nove anos, também declara guerra ao pobre Abel. O menino não quer que ninguém ocupe o lugar de seu pai na casa e, principalmente, na cama ao lado de sua mãe. Ele fará qualquer coisa para tirar o novo/velho namorado de Marianne de perto: inclusive acusará a mãe de ter assassinado o marido! Hilário. O amor do casal de protagonistas resistirá a este ambiente bélico e às intrigas dos inimigos?

“Um Homem Fiel” é uma produção acima da média. Gostei muito deste filme. Ele é tão bom quanto “Dois Amigos”. Juro que não sei qual dos dois eu prefiro! Em seu novo longa-metragem, Louis Garrel apresenta de maneira bem-humorada e poética o drama de relacionamentos carcomidos pela rotina e pelo tempo. Mesmo sendo classificado como comédia romântica, “Um Homem Fiel” tem fortes doses de tragicomicidade. Ou seja, como diria uma amiga minha (beijo, Ângela!), o humor francês muitas vezes pode ser entendido como sarcasmo francês. Essa definição se aplica perfeitamente aqui. O humor do filme é do tipo negro e ácido, ideal para um público mais exigente e refinado. Se você estiver esperando uma comédia romântica tradicional, acho que você se frustrará...

A construção das personagens de “Um Homem Fiel” é um capítulo à parte. Quase todas as figuras retratadas no longa-metragem são melancólicas, solitárias e complexadas. Além disso, o jeitão direto e seco de se comunicarem dá origem às cenas mais engraçadas do filme. O estopim de sinceridade de Marianne na cena inicial é apenas uma da coleção interminável que as personagens terão ao longo de “Um Homem Fiel”. Há de tudo: o menino dizendo que odeia o padrasto, a namorada pedindo para o namorado transar com outra, a mulher informando a conhecida que irá tentar roubar seu marido, o filho acusando a mãe de assassinato, o paciente perguntando para o médico se ele é gay... Em vários momentos da sessão (principalmente quando as personagens abandonam a cena e passam a conversar de forma confidente com o espectador), lembrei-me dos filmes de Woody Allen. Louis Garrel, na minha visão, é uma versão mais jovem e francesa do cineasta norte-americano. Não falo isso como crítica e sim como um grande elogio (adoro Allen e sua forma pitoresca de narrar os dramas humanos).

Outro ponto elogiável deste filme é o seu roteiro. “Um Homem Fiel” foi muito bem escrito por Garrel (sim, além de ter atuado e dirigido, ele também foi o roteirista desta produção!). O triângulo amoroso de Abel, Marianne e Eve tem suspense, mistério, ação e algumas boas reviravoltas. Incrível como tudo isso ocorre em pouco mais de uma hora de duração. Parte do segredo da agilidade da trama está no número reduzido de personagens. Apenas oito personagens se revezam em cena o tempo inteiro. Por exemplo, Paul, apesar de importante para o enredo do filme, não aparece em nenhum momento na tela. Essa concentração dramática acelera o ritmo da narrativa e dá luz apenas aos elementos realmente importantes do triângulo amoroso.

Por fim, é preciso elogiar o jeito como Louis Garrel deixou vários pontos da trama para serem completados pela interpretação do espectador. Temos aqui não apenas um final aberto (quem vai ficar com quem?) como uma introdução (quem seria o pai do filho de Marianne?) e um desenvolvimento (afinal, Marianne matou ou não matou o marido e ela se deitou ou não se deitou com o médico?) sem uma resposta pronta. Incrível isso, não?! Cabe ao público montar as peças do quebra-cabeça deixado incompleto pelo diretor. Longe de ser um descaso da parte dele, esse recurso mostra o nível de confiança no intelecto do espectador.

“Um Homem Fiel” é uma produção de muito bom gosto: tanto narrativo quanto estético. Temos uma boa história que foi filmada de maneira a potencializar seu conteúdo ao máximo. A interpretação do elenco é de tirar o chapéu. Ninguém está mal em cena. Por isso, lembre-se: este filme estreará nos cinemas brasileiros na semana que vem. Quem gosta do melhor do cinema francês não poderá perder este novo trabalho do incrível Louis Garrel.

Assista, a seguir, ao trailer de “Um Homem Fiel”:

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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