• Ricardo Bonacorci

Filmes: Amor à Segunda Vista – Novidade em cima de velhas fórmulas


Desde o inovador (e agora clássico) “Feitiço do Tempo” (Groundhog Day: 1993), filme de Harold Ramis vencedor do BAFTA de Melhor Roteiro Original de 1994, falar em mundos paralelos e em prisão no espaço temporal virou um tema recorrente no cinema. São incontáveis as produções cinematográficas que descreveram episódios parecidos ou que se utilizaram desses conceitos para a criação de seus enredos. Ora esses longas-metragens foram bem-sucedidos, como em “Quero Ser John Malkovich” (Being John Malkovich: 1999) e “Do Que as Mulheres Gostam” (What Women Want: 2000), ora acabaram caindo na repetição, com em “Eu Queria Ter a Sua Vida” (The Change-Up: 2011) e “Linda de Morrer” (2015).

A mais recente produção a seguir a velha fórmula deixada por “Feitiço do Tempo” foi “Amor à Segunda Vista” (Mon Inconnue: 2018). Esta comédia romântica francesa estreou no circuito comercial brasileiro de cinema na última quinta-feira, dia 11. Como eu não tinha conseguido ver este filme no mês passado, quando foi exibido previamente no Festival Varilux de Cinema Francês, corri para o Espaço Itaú de Cinemas neste final de semana para conferir “Amor à Segunda Vista”. E não é que saí surpreendido de sua sessão!

Roteirizado e dirigido por Hugo Gélin, jovem cineasta francês em sua terceira produção – são dele os bons “Uma Família de Dois” (Demain Tout Commence: 2016) e “Como Irmãos” (Comme des Frères: 2012) -, “Amor à Segunda Vista” traz em seu elenco François Civil, de “Assim na Terra como no Inferno” (As Above, So Below: 2014), e Joséphine Japy, de “Irrepreensível” (Irréprochable: 2015). Os ótimos Benjamin Lavernhe e Camille Lellouche e a experiente Edith Scob completam o time principal de atores desta produção.

Sucesso de crítica e de público em seu país natal no último Verão europeu, o novo longa-metragem de Gélin conseguiu angariar boa bilheteria ao extrair novos elementos narrativos de uma fórmula cinematográfica já bastante desgastada. Ou seja, apesar de se utilizar de muitos clichês em seu roteiro, “Amor à Segunda Vista” entrega, no final, algo diferente ao espectador. Esse talvez seja o principal mérito de sua trama: um ponto de vista inusitado para um tema recorrente do cinema (labirinto temporal formado por planos paralelos) e para um problema corriqueiro da rotina moderna (vida pessoal versus vida profissional).

Ambientado em Paris, “Amor à Segunda Vista” possui quase duas horas de duração e apresenta a paixão arrebatadora de Raphael Ramisse (interpretado por François Civil) e Olivia Marigny (Joséphine Japy). Os dois se conheceram na adolescência, quando estudavam juntos, e começaram a namorar. Ele tinha o sonho de ser romancista. Ela o de ser pianista profissional. O amor do casal foi evoluindo: eles noivaram e se casaram. A união deles se mostrou também muito produtiva. Raphael, com a ajuda de Olivia, se tornou um autor best-seller. Rico e admirado pelos leitores, o rapaz pouco a pouco foi se tornando egoísta, frio e vaidoso. Olivia, em virtude da ascensão meteórica do marido, teve que abrir mão da carreira de pianista. Assim, ela passou a dar aulas de piano para amadores e novatos. Viver ao lado do grande amor de sua vida compensava todas as escolhas frustradas da moça.

Depois de dez anos de relacionamento, o casamento de Raphael e Olivia entrou em uma fase decadente. O abismo pelos caminhos opostos na carreira e, principalmente, a rotina matrimonial árdua levaram o casal a naturalmente se distanciar. Aquela paixão adolescente desapareceu, apesar de ambos ainda nutrirem um carinho especial pelo parceiro. Os desencontros diários foram se acumulando até desembocarem, certa noite, no inevitável: a primeira e grande briga do casal. Raphael e Olivia sabiam, em meio à discussão, que era o fim do casamento deles. A partir daquele ponto, cada um deveria seguir para um lado. Enquanto ela fica chorando em casa, ele sai para se embebedar em um bar.

O drama deste filme começa no dia seguinte à briga do casal. Raphael, ainda sofrendo dos efeitos da ressaca da véspera, recebe a visita de seu antigo amigo de infância, Félix (Benjamin Lavernhe). Aí, o protagonista do filme nota que sua rotina está totalmente mudada. Algum lapso temporal o atirou para um mundo paralelo ao seu e o aprisionou em uma vida que não é originalmente a sua. Ele não é mais o escritor famoso de outrora nem vive ao lado de Olivia. Agora, Raphael é um simples professor de literatura em uma escola de ensino fundamental. Solteiro e com pouco dinheiro no bolso, suas diversões são disputar torneios de pingue-pongue ao lado de Félix e colecionar novas namoradas. Por outro lado, Olivia é, neste novo plano temporal, uma famosa pianista. Ela é riquíssima e bem-sucedida em sua profissão, sendo capa de revista e possuindo fãs clubes pelo país.

Portanto, em um truque do destino, Raphael e Olivia são agora outras pessoas. Enquanto o rapaz se lembra de sua “antiga vida”, ela o vê como um total desconhecido. De certa forma, eles trocaram de papéis. Desesperado com a nova condição, Raphael fará tudo para conseguir sua “antiga vida” de volta. Para isso, acredita precisar conquistar pela segunda vez o amor de Olivia. O problema é que a moça, em sua “nova existência”, é noiva de outro e não olhará facilmente para um pé-rapado como Raphael.

Um espectador minimamente experiente notará o quanto o enredo de “Amor à Segunda Vista” é pouquíssimo original. Não dá para fugir dessa evidência. Nem mesmo Hugo Gélin esconde a semelhança do seu novo filme com “Feitiço do Tempo”. O sobrenome do protagonista da produção francesa é justamente Ramisse, uma homenagem ao diretor do famoso longa-metragem norte-americano. Porém, o que salva o filme de Gélin é a maneira como sua história é narrada. Já no início, assistimos a uma trama muitíssimo acelerada. Em cerca de quinze minutos, os principais elementos estruturais do drama de Raphael são expostos. Ninguém pode reclamar, assim, de falta de objetividade deste roteiro nem da forma como a história é apresentada.

Justamente aí começa a redenção desta produção. Pouco a pouco, “Amor à Segunda Vista” começa a se redimir com o público mais exigente. Se ficamos decepcionados com os clichês narrativos iniciais (é inevitável que isso aconteça!), também somos levados a crer que o final do filme repetirá as antigas fórmulas. Mas não! Isso não ocorre em seu desfecho. O longa-metragem apresenta aspectos originais e surpreendentes no seu desenlace, enriquecendo substancialmente a experiência do espectador. Essa transmutação de percepção é interessante e vale a pena ser analisada com atenção. Em uma analogia típica do boxe (esporte cada vez mais fora de moda), somos vencidos por pontos e não por knockout.

Por falar no desfecho deste filme, ele é espetacular. Há muitas surpresas reservadas na metade final do longa-metragem. Quando você imagina que a trama cairá no óbvio, seus roteiristas jogam a história para outro lado, subvertendo totalmente a lógica das produções comerciais. Parte do encanto de “Amor à Segunda Vista” reside justamente desses elementos inusitados. Se ele recorre as velhas fórmulas, ao mesmo tempo deixa algo inovador e de sabor marcante para o seu público.

O humor de “Amor à Segunda Vista” é leve e descontraído (alguns diriam que é tipicamente francês). Admito que não ri muito durante a sessão, mas teve gente na minha sala de cinema que morreu de rir do início ao final. Talvez eu não estivesse de espírito muito bom neste dia. As melhores cenas do ponto de vista cômico foram protagonizadas por Benjamin Lavernhe, intérprete de Félix, o melhor amigo do protagonista. Sua personagem é hilária. Nesses momentos, eu não aguentei e ri bastante. Félix faz o tipo do rapaz amalucado e carente que torna a “nova vida” de Raphael ainda mais complicada.

Repare na atuação magistral de François Civil. Por este papel, o ator de 29 anos conquistou merecidamente o Prêmio de Melhor Ator no Festival de Cinema de L'Alpe d'Huez deste ano. Quem gosta do trabalho de Civil poderá se esbaldar nos próximos meses. Os cinemas brasileiros estão recebendo uma overdose de produções protagonizadas por François Civil. Além de “Amor à Segunda Vista”, o francês está atualmente em cartaz com “Quem Você Pensa que Sou” (Celle que Vous Croyez: 2018), longa-metragem em que contracena com a maravilhosa Juliette Binoche. Até o final do ano devem estrear por aqui “(Des)encontros” (Deux Moi: 2018) e “Alerta Lobo” (Le Chant du Loup: 2018). Vá, portanto, se acostumando com o rosto deste rapaz.

Achei que o trabalho de todo elenco de “Amor à Segunda Vista” esteve perfeito, dos atores principais aos coadjuvantes (até as crianças na escola onde Raphael leciona estão incríveis!). Joséphine Japy é uma ótima atriz (você sabe quando alguém é realmente bonita quando ela ri de maneira magistral!) e soube puxar para si a atenção nas cenas em que ela era a grande protagonista. O casal Raphael-Olivia também tem muita química (isso fica evidente desde o começo do filme). Não dá para não gostar deles nem é possível torcer contra sua união.

Outro ponto positivo de “Amor à Segunda Vista” é a construção de suas cenas. Nota-se o cuidado estético em cada take por mais simples que possam parecer em um momento inicial. Nesse sentido, Hugo Gélin mostra-se um cineasta muito acima da média. Uma simples partida de pingue-pongue (Ok, tênis de mesa), um passeio de bicicleta pela praia ou um ensaio de piano, por exemplo, se transformam em cenas de grande riqueza visual e narrativa, recheadas de detalhes que encantam a plateia.

Outra coisa que gostei, que apenas citei rapidamente, é o ritmo narrativo deste filme. Tudo acontece em uma velocidade adequada. Quando precisa ser rápido, “Amor à Segunda Vista” é bem ligeiro (chegando a ser vertiginoso). Quando a trama chega aos momentos decisivos (clímax), aí ele desacelera, prendendo a atenção do público (que não consegue piscar os olhos). Esses efeitos só são possíveis quando o roteiro é bem produzido e o cineasta à frente da produção tem total domínio do que está fazendo.

Confesso que saí da sessão de cinema positivamente satisfeito com o que presenciei. O desfecho do filme gera reflexões na gente que são pertinentes. O que vale mais a pena: a felicidade profissional ou conjugal? Nem sempre a resposta para tal dúvida é simples e imediata. “Amor à Segunda Vista” deverá ficar em cartaz até o final de julho nos cinemas brasileiros. Acredito que vale a pena dar uma conferida em sua história.

Assista, a seguir, ao trailer de “Amor à Segunda Vista”:

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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