• Ricardo Bonacorci

Filmes: Não Mexa Com Ela – Suspense israelense sobre o assédio no trabalho


Nesta quinta-feira, estreou nos cinemas brasileiros o filme israelense “Não Mexa Com Ela” (Isha Ovedet: 2018). Dirigido por Michal Aviad, cineasta especializada em documentários (este é o seu segundo trabalho ficcional), e estrelado por Liron Ben Shlush, Menashe Noy e Oshri Cohen, o longa-metragem aborda um assunto delicado, polêmico e, infelizmente, atualíssimo: o assédio sexual no ambiente de trabalho. Interessado em conferir esta produção, fui ao Espaço Itaú de Cinema do Shopping Bourbon Pompeia neste final de semana para vê-la. Confesso que saí da sessão impressionado positivamente com este filme, apesar de ligeiramente decepcionado com o seu desfecho.

Com grande tensão dramática e cenas que se aproximam muito dos títulos de terror, “Não Mexa Com Ela” é um thriller chocante (juro que não encontrei palavra melhor para defini-lo – desculpe-me pelo uso de uma expressão tão brega). Por mais que a violência e a brutalidade sejam esperadas, o público fica com o coração na boca o tempo inteiro temendo sempre o pior (sim, ele vem!). Este talvez seja o principal mérito deste filme. A plateia compra a angústia da protagonista e vivencia os horrores do assédio cena a cena como se fosse a própria vítima. Incrível esse recurso. Assim, temos a exposição deste problema social de maneira direta e contundente (sem a necessidade da cineasta ser panfletária ou mesmo didática na exposição das consequências deste tipo de crime).

Apresentado pela primeira vez ao público internacional no Festival Internacional de Cinema de Toronto do ano passado, “Não Mexa Com Ela” foi indicado a prêmios de melhor filme em Israel (Festival de Cinema de Jerusalém), nos Estados Unidos (Festival Internacional de Cinema de Chicago e Festival de Cinema Judeu da Filadélfia) e na Europa (Festival de Cinema Judeu do Reino Unido e Festival Internacional de Cinema de Varsóvia). O longa-metragem de Aviad acabou preterido por “O Confeiteiro” (The Cakemaker: 2017), de Ofir Raul Graizer, como o representante de Israel no Oscar de 2019 – vencido por “Roma” (2018), produção mexicana do diretor Alfonso Cuarón.

Com pouco mais de uma hora e meia de duração, “Não Mexa Com Ela” narra o drama de Orna (interpretada por Liron Ben Shlush), uma jovem mãe de três filhos que passa por dificuldades financeiras. O marido dela, Ofer (Oshri Cohen), montou um restaurante próprio há poucos meses e ainda não consegue ter lucro. Ela, por sua vez, está desempregada. Nesse cenário de grandes incertezas, o emprego que Orna consegue parece ter caído dos céus. Mesmo não tendo qualquer experiência no mercado imobiliário, ela se torna assistente de Benny (Menashe Noy), um bem-sucedido empresário do ramo da construção civil de Tel Aviv.

No novo emprego, Orna rapidamente começa a se destacar. Trabalhadora, inteligente e extremamente criativa, ela encanta a todos com sua eficiência, seu profissionalismo e sua dedicação (a moça fica sempre até muito tarde no escritório). Clientes não param de chegar e ela consegue resolver os mais difíceis problemas burocráticos como se eles fossem simples. Esse desempenho dela não passa despercebido por Benny. Ele reconhece a excelência do trabalho da sua funcionária. Porém, ao mesmo tempo, ele parece cada vez mais atraído sexualmente pela jovem e atraente assistente. Assim, começam os assédios. Na primeira vez, é a tentativa de um beijo na boca. Na sequência, é o apagar das luzes quando só estão os dois no escritório à noite.

Orna se desespera. Ela refuta todas as investidas indecorosas de Benny. Sempre que ele exagera nos seus avanços, no dia seguinte ela sempre ameaça pedir demissão. Aí, o chefe se faz de arrependido e dá um bom aumento de salário para ela ou a promove de cargo. Além disso, o empresário destaca o belo trabalho feito pela moça e as oportunidades que ela tem de crescimento em sua empresa. Com o restaurante do marido enfrentando sérias dificuldades financeiras, Orna não pode abrir mão de seu salário e vai ficando. À medida que permanece na empresa de Benny, mais e mais ele se comporta de forma irresponsável. A tensão só aumenta entre os dois. Cada atitude do empresário parece convergir para a tentativa dele em se apoderar do corpo da sua funcionária. O assédio sexual transforma a vida de Orna em um inferno. Ela se sente aprisionada naquela situação: não pode fugir do chefe libidinoso.

Gostei de muitos elementos de “Não Mexa Com Ela”. Em primeiro lugar, a apresentação da história é rápida e direta. Em poucas cenas (são necessários poucos minutos), o roteiro desta produção contextualiza a trama para o público e já avança para o conflito principal. Em um piscar de olhos, o espectador se vê diante de Orna trabalhando como uma louca e, por outro lado, Benny se aproveitando disso para tentar algo mais íntimo com a funcionária. Esse ritmo acelerado é uma marca de todo o filme.

Outra questão interessante é o tom aterrorizante que o filme adquire à medida que o assédio evolui. Uma simples subida de escada no prédio em construção, um almoço despretensioso de negócios ou uma jornada de trabalho esticada até tarde no escritório se transformam em uma agonia para a protagonista (e para a plateia) quando o vilão está por perto. “É agora que ele a atacará?”, pensamos todos na sessão. Aí ficamos com o coração em frangalhos. O suspense e a tensão dramática aumentam cada vez mais!

O roteiro de “Não Mexa Com Ela” não caí nas armadilhas típicas deste tipo de história. As personagens principais, por exemplo, são do tipo esféricas, o que aumenta ainda mais a complexidade desta trama. Orna oscila muitas vezes entre ter uma personalidade forte e decidida e possuir uma conduta frágil e confusa. Benny pode ser um monstro em uma cena e um amor em outra (sendo, portanto, crível acreditar em suas mentiras). Até mesmo Ofer se comporta de maneira distinta ao longo do longa-metragem: pai e marido carinhoso e, de repente, um homem amargurado e desconfiado da traição da parceira. Essa composição de personagens torna a narrativa de “Não Mexa Com Ela” totalmente verossímil aos olhos da plateia, que embarca incondicionalmente em sua proposta. Até mesmo as consequências mais imediatas do assédio são expostas para a plateia do filme. Diante da pressão psicológica e do pânico vivido diariamente no ambiente de trabalho, a protagonista manifesta algumas doenças físico-emocionais relacionadas ao assédio (que são incompreendidas pelos amigos, pelos colegas e pelos familiares). Impossível esta história ter tons mais realistas do que esses.

Também não é fácil criticar a postura de Orna. Será que teríamos abandonado o emprego que gostamos e que estamos nos dando bem ao primeiro sinal de assédio? Teria algo que ela pudesse fazer para impedir de uma vez por todas os avanços do chefe? Será que não acreditaríamos também nas palavras de arrependimento de Benny? É muito difícil precisar. No lugar dela, talvez nos comportássemos igualzinho à personagem principal de “Não Mexa Com Ela” ou de forma muito parecida. Não podemos nos esquecer que ela acabou presa a uma armadilha intrincada e de difícil escapatória.

O filme de Michal Aviad é um tapa na cara daqueles que teimam em culpar a mulher por este tipo de crime (sim, há ainda quem as culpe pela violência sofrida). A plateia sabe e compartilha incondicionalmente o ponto de vista da protagonista. O mesmo não se pode dizer das personagens masculinas envolvidas nessa história. Benny acredita piamente na versão distorcida da realidade. Ele diz para sua funcionária mais de uma vez após assediá-la: “Olha o que você me fez fazer!”. E o que podemos falar, então, do marido dela quando ele descobre o que se passou com a esposa no escritório, hein? A atitude covarde dele é mais uma prova da concepção machista de culpar a vítima. Com isso em mente, repare no sorriso cínico e debochado de outro empresário do setor imobiliário, que conheceu a relação de Orna e Benny, quando a protagonista foi pedir emprego para ele. É assustador!

O bom roteiro de “Não Mexa Com Ela” se encaixou como uma luva na atuação primorosa do trio de protagonistas: Liron Ben Shlush, Menashe Noy e Oshri Cohen. Eles conseguiram extrair todas as contradições, os medos, as frustrações e os dramas de suas personagens. Os atores são sutis quando precisam ser, mas também são intensos quando a situação exige. Ou seja, suas atuações são impecáveis e intensificam as características esféricas de suas personagens.

O único ponto negativo deste filme é o seu final. Se por um lado ele foge do desfecho violento e vingativo de produções semelhantes, como “Doce Vingança” (I Spit on Your Grave: 2010), o que é claramente positivo (surpreende o público por se desprender desse clichê), por outro lado parece pouco o que a protagonista consegue. Vou tentar não dar o spoiler do longa-metragem, mas já adianto que será um pouco difícil... Juro que me questionei no encerramento da sessão se o término de “Não Mexa Com Ela” (o título em português transparece um destino mais cruel ao criminoso – em inglês e em hebraico o nome do longa-metragem é, em uma tradução direta, “A Mulher Trabalhadora”) não seria do tipo aberto. Nesse caso, eu que não teria entendido a dimensão da vingança da protagonista na cena derradeira. Porém, não é esse o caminho interpretativo. O final é fechado mesmo e o que entendemos em um primeiro momento é realmente aquilo que foi desejado pela cineasta e por seu roteiro. Aí, surge a frustração. Não merecia o assediador pagar pelas consequências da violência cometida?! Eu (assim como a maioria do público) responderia positivamente a tal questionamento. Entretanto, a escolha pelo caminho inverso é compreensível (mas não esperado) quando pensamos na verossimilhança da trama (na realidade, quantos e quantos culpados não saem livres deste tipo de crime, hein?).

Apesar do final polêmico, “Não Mexa com Ela” é um filme excelente. Ele joga luz a um problema corriqueiro em todos os cantos do mundo. É com produções ficcionais como esta que podemos entender e discutir a violência sexual contra a mulher de maneira mais direta e intensa. Acredito que este longa-metragem tenha falado mais e melhor do assédio sexual no ambiente de trabalho do que se Michal Aviad tivesse resolvido filmar um documentário sobre esse tema. Muitas vezes, a ficção tem o poder de jogar a plateia contra a realidade assustadora do seu cotidiano (até mais do que o dos documentários).

Veja, a seguir, o trailer de “Não Mexa Com Ela”:

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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