• Ricardo Bonacorci

Filmes: Yesterday – O roteiro criativo sobre os Beatles


Na semana passada, estreou no circuito nacional de cinemas “Yesterday” (2019), a comédia musical ancorada no repertório dos Beatles. Empolgado com a proposta do filme, fui ao Reserva Cultural na última segunda-feira à noite para conferi-lo. E saí da sessão encantado com o que assisti. Com uma trama divertida e extremamente original, com uma trilha sonora impecável (não era de se admirar, né?), com uma execução primorosa e com uma bela atuação de seus protagonistas, “Yesterday” tem a capacidade de maravilhar tanto os fãs da banda de Liverpool quanto aqueles que desejam apenas ver um bom longa-metragem (não acredito que possa haver neste mundo alguém que não goste das canções dos Beatles...).

Dirigido por Danny Boyle, cineasta britânico de sucessos como “Quem Quer Ser Um Milionário” (Slumdog Millionaire: 2008), “Trainspotting – Sem Limites” (Trainspotting: 1996) e “127 Horas” (127 Hours: 2010), e roteirizado por Richard Curtis, neozelandês de “Questão de Tempo” (About Time: 2013) e “Simplesmente Amor” (Love Actually: 2003), “Yesterday” teve um orçamento de US$ 26 milhões. Sua bilheteria já na semana de estreia ficou em um valor próximo ao seu custo (na América do Norte e na Europa, o longa-metragem foi lançado na metade do mês passado). No elenco de “Yesterday”, há a mistura de nomes famosos e de atores desconhecidos do grande público: Himesh Patel, até então mais dedicado aos trabalhos na televisão inglesa, Lily James, de “Cinderela” (Cinderella: 2015) e “Em Ritmo de Fuga” (Baby Driver: 2017), Kate McKinnon, Joel Fry, Ed Sheeran (sim, o cantor!), Lamorne Morris e Sanjeev Bhaskar.

Curiosamente, o principal mérito desta produção de Danny Boyle e Richard Curtis não está em sua trilha sonora (indubitavelmente excelente), mas sim em seu roteiro inusitado e irretocável (aí mora a grata surpresa para quem se atém ao enredo cinematográfico!). A narrativa reserva muitas reviravoltas interessantes ao longo das quase duas horas de filme (são 117 minutos de duração). Se a princípio a criação de um mundo paralelo pode parecer algo repetitivo e muitíssimo batido no cinema internacional – lembremos que falamos sobre isso recentemente aqui no Bonas Histórias quando comentamos “Amor à Segunda Vista” (Mon Inconnue: 2019) –, essa sensação se desfaz logo nos primeiros minutos de “Yesterday”. O que poderia ser uma falha se transforma no principal ponto positivo do filme. A criatividade deste roteiro é digna de muitos elogios (e de prêmios). Fazia muito tempo que não via uma ideia simples tão bem executada (Richard Curtis é realmente um dos melhores roteiristas da atualidade!).

Em “Yesterday”, conhecemos Jack Malik (interpretado por Himesh Patel), um jovem cantor-compositor inglês sem muito talento. Morando em uma pequena cidade do interior, ele trabalha em um supermercado como repositor e sonha em se tornar um grande músico. Contudo, o máximo que consegue é se apresentar em bares para meia dúzia de amigos fiéis (e muito compreensivos). Apesar da falta de perspectivas, Jack é incentivado a persistir na carreira artística por sua amiga de infância, Ellie Appleton (Lily James). Os dois são melhores amigos e vivem grudados. Ellie é apaixonada há muitos anos por Jack, mas nunca rolou nada entre eles. Para ficar próxima do rapaz que gosta, ela atua como sua empresária (além de motorista – ele não dirige -, de fã número 1 e de conselheira artística).

Quando, enfim, está para desistir da música, Jack sofre um acidente: ele é atropelado por um ônibus quando voltava de bicicleta do que seria seu último show (mais um fracasso de público e de crítica). Justamente nesse momento, o planeta sofre um blackout (algo inexplicável acontece!). Após se recuperar no hospital, Jack retorna para casa. Para agradar o amigo, Ellie lhe dá de presente um novo violão (o anterior tinha sido destruído pelo choque com o ônibus). Assim que é presenteado, ele toca “Yesterday”, a famosa canção dos Beatles. Para surpresa do rapaz, Ellie e seus amigos ficam encantados com a música, achando se tratar de uma nova composição de Jack. À princípio, o cantor acha que estão todos brincando com ele. Só mais tarde, ele descobre que nenhum habitante da Terra conhece a banda inglesa nem suas composições. Durante o blackout, os Beatles simplesmente desapareceram da memória coletiva (seus álbuns não existem mais e suas músicas sumiram dos registros da Internet). Surpreendentemente, não há qualquer evidência de sua existência.

Aquela situação inusitada é a oportunidade que Jack Malik almejava para chegar ao estrelato. Utilizando-se apenas de sua memória (lembremos que todos os registros dos Beatles sumiram), o rapaz reconstitui as letras e as melodias do grupo de Liverpool como se fossem suas criações. Da noite para o dia, o mundo ganha um novo gênio da música pop. Em questões de dias (e, em alguns casos, de horas ou simplesmente minutos), Jack consegue bolar canções maravilhosas, surpreendendo a todos. Admirada com o talento repentino do amigo, Ellie acredita que as músicas de amor que Jack apresenta são inspiradas nela. Assim, a jovem renova as esperanças que ele possa se declarar para ela.

O caminho do sucesso de Jack Malik, o maior talento musical de todos os tempos, está pautado. Entretanto, alguns fatos podem atrapalhá-lo na realização de seu antigo sonho: as particularidades nada dignificantes da indústria fonográfica; a ambição desmedida de sua nova empresária (Ellie Appleton não pôde acompanhá-lo nas viagens ao exterior, pois precisava dar aulas na escola primária da cidadezinha do interior); e, principalmente, a longa distância estabelecida entre os até então inseparáveis amigos (enquanto Jack foi morar em Los Angeles, Ellie permaneceu vivendo no interior da Inglaterra).

Escrevendo (ou lendo) a sinopse deste filme, “Yesterday” pode parecer uma história banal ou mesmo pueril. Porém, o charme está em seus detalhes. A trama desta comédia musical reserva incontáveis surpresas. Estou me segurando aqui para não as revelar (não quero estragar a experiência de quem irá assistir ao filme). O mais interessante do roteiro é quando o espectador acha que a narrativa irá para um lado e ela vai para o outro completamente diferente. Impossível não gostar de uma história que nos tira do lugar comum.

E o que falar, então, da trilha sonora de “Yesterday”, hein?! A opção pela escolha dos clássicos dos Beatles se mostrou acertada e profundamente impactante. Apesar de serem canções já amplamente conhecidas, sua apresentação em meio à trama valoriza ainda mais a bela história e deixa a plateia hipnotizada com as letras e as melodias. É impossível sair da sessão sem cantarolar as principais criações de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. Gostei também de como as cenas musicais foram produzidas. Na maioria das vezes, Himesh Patel parece cantar de improviso, quase de supetão. Esse recurso confere mais verossimilhança à trama e reforça o estilo amador da personagem. Incrível!

Confesso que morri de rir em várias cenas de “Yesterday”. Não só a história em si reserva lances engraçadíssimos. Há também divertidas intertextualidades musicais e históricas e presenças hilárias (tanto reais quanto fictícias). O humor do filme é na maioria das vezes do tipo inteligente, o que exige algum repertório (principalmente musical) da plateia. Se você é daquele tipo mais ogro que prefere a comédia pastelona e rasteira, essa produção pode não agradar muito.

Outros pontos deste longa-metragem que precisam ser elogiados: a fotografia, o figurino, o ritmo narrativo e a atuação do elenco. Quanto à fotografia e ao figurino do filme, eles estão impecáveis. “Yesterday” brinca o tempo inteiro com a importância da imagem para o show business e, de certa forma, coloca a fotografia e o figurino como elementos relevantes da construção da trama. Incrível esse recurso! Também aprovei o ritmo do longa-metragem. Quando você nota, o filme já acabou (nunca duas horas passaram tão rapidamente!). Não há, portanto, nenhuma parte oscilante ou que deixa o conflito esmorecer. E o que falar, então, da atuação dos atores?! Eles estão impecáveis. Não apenas os protagonistas (Himesh Patel e Lily James têm uma química legal), mas os coadjuvantes também estão ótimos. Em muitos momentos, Kate McKinnon, Joel Fry, Lamorne Morris, Ed Sheeran e Sanjeev Bhaskar roubam as cenas com tiradas hilárias. Impossível não rir deles.

O único ponto negativo de “Yesterday” é a sensação, em alguns momentos, de déjà vu. Jack Malik e sua família lembram muito o protagonista e os familiares da personagem principal de “Bohemian Rhapsody” (2018), grande sucesso do ano passado. A história romântica ancorada em uma realidade paralela também sofre desse mal. Recentemente, comentei aqui no Bonas HistóriasAmor à Segunda Vista” (Mon Inconnue: 2019), produção francesa que traz um enredo parecido (conflito entre ter uma carreira bem-sucedida no mercado cultural ou ficar com a mulher que se ama).

O que mais posso falar sobre “Yesterday”? Se você é fã dos Beatles, corra para a sala de cinema mais próxima e não perca a oportunidade de ouvir os clássicos de sua banda favorita. Se por outro lado você ainda não for um fã incondicional dos eternos garotos de Liverpool, mas curte um ótimo filme, vá também ver esta produção. Do aspecto cinematográfico, “Yesterday” é um filmão (leve, engraçado e comovente). Este longa-metragem de Danny Boyle e Richard Curtis é uma das melhores opções em cartaz atualmente no circuito nacional e merece ser apreciada pelos amantes da boa música e do bom cinema. Juro que saí encantado de sua sessão.

Veja, a seguir, o trailer de “Yesterday”:

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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