• Ricardo Bonacorci

Filmes: Rainha de Copas – O incrível thriller sueco-dinamarquês


As ficções literária, televisiva, teatral ou cinematográfica produzidas nos países nórdicos são marcadas na maioria das vezes por narrativas fortes, polêmicas e extremamente ácidas, além de muito originais. Quem gosta de histórias violentas, angustiantes e surpreendentes, na certa, é fã das produções artísticas do norte da Europa. De cabeça, recordo de alguns casos notáveis e recentes: a trilogia literária “Millennium”, de Stieg Larsson, o longa-metragem “Border” (Gräns: 2018), de Ali Abbasi, e a série televisiva “A Ponte” (The Bridge), de Hans Rosenfeldt e Camilla Ahlgren. Essas citações, contudo, são apenas uma gotinha em um oceano caudaloso. Se formos buscar um pouco mais para trás, muitas dessas características são encontradas nas peças de Henrik Ibsen. “Peer Gynt”, de 1867, talvez seja o exemplo mais conhecido. A vida calma no norte da Europa tem como contraste as suas narrativas sanguinolentas recheadas de crimes e de violência.


Falo neste post do Bonas Histórias sobre a ficção nórdica porque assisti na sexta-feira retrasada, dia 6, à pré-estreia de “Rainha de Copas” (Dronningen: 2019). Este filme sueco-dinamarquês tem tudo para ser um dos destaques europeus desta temporada. Admito ter saído bastante impressionado (positivamente, é claro!) da sua sessão inaugural. Dirigido por May El-Toukhy, cineasta dinamarquesa de “No Final das Contas” (Lang Historie Kort: 2015), “Rainha de Copas” é um thriller audacioso e polêmico que entrou no circuito comercial brasileiro na última quinta-feira, dia 12. Além de mostrar cenas de sexo explícito entre uma mulher mais velha e um garoto menor de idade, o longa-metragem aborda temas sensíveis como traição conjugal, assédio sexual à menores de idade, delinquência juvenil e impacto da separação dos pais na vida dos filhos pequenos. Ou seja, temos aqui uma receita explosiva. Impossível acreditar que com esses ingredientes todos, o filme de El-Toukhy não desperte os mais variados sentimentos na plateia.


Estrelado por Trine Dyrholm, Gustav Lindh e Magnus Krepper, “Rainha de Copas” foi exibido, em janeiro deste ano, no Sundance Film Festival e, no mês seguinte, no Festival Internacional de Cinema de Roterdã. A estreia nos cinemas dinamarqueses aconteceu no finalzinho de março. Nos três lugares de exibição, a crítica cinematográfica foi bastante elogiosa ao filme. “Rainha de Copas” rendeu o Prêmio Svend, o mais importante da sétima arte da Dinamarca, de Melhor Atriz para Trine Dyrholm. Realmente, sua interpretação é alguma coisa digna de uma estatueta do Oscar (que, convenhamos, dificilmente será concedido a uma atriz dinamarquesa em uma produção realizada fora dos Estados Unidos). Mesmo sabendo disso, repito em alto e bom tom: Dyrholm merecia a estatueta da Academia de Los Angeles por este trabalho! Ela está fenomenal. Há muito tempo não via uma atriz (ou mesmo um ator) dar um show de interpretação como este em um longa-metragem. Incrível!

Em pouco mais de duas horas (são 127 minutos de duração), “Rainha de Copas” se passa integralmente na Suécia. Anne é uma advogada conceituada que trabalha defendendo crianças e adolescentes contra os abusos e a violência dos adultos. Workaholic, ela atua em vários casos simultaneamente. Os mais importantes no momento são de uma moça vítima de estupro e de uma menina que é espancada em casa pelo pai alcóolatra. Anne é tão dedicada à advocacia e aos seus clientes mirins que frequentemente leva jovens para sua casa para protegê-los ou simplesmente acolhê-los.


No âmbito familiar, a vida da protagonista é aparentemente perfeita. Ela é casada há muitos anos com Peter, um empresário bem-sucedido e com um estilo de vida tranquilo. O casal tem duas filhas pequenas e gosta de reunir os amigos e os familiares em casa para divertidas reuniões. Com um ótimo padrão de vida e sem grandes problemas, Anne e Peter desfrutam do conforto e da calma na Suécia atual (ao melhor estilo família de comercial de margarina).


A tranquilidade neste lar acaba quando Gustav, filho do primeiro casamento de Peter, vem morar com eles. Gustav é um adolescente arruaceiro que foi expulso de vários colégios na Dinamarca, onde morava com a mãe. Não querendo que o filho, com quem nunca teve muito contato, fosse enviado para um internato, Peter convenceu a ex-esposa a deixar o garoto vir morar com ele na Suécia. Anne também aceitou prontamente a proposta de ter o enteado morando sob o mesmo teto. A chegada de Gustav provoca alguns contratempos para a família, até aquele momento, feliz e estruturada. O jeito desbocado, egoísta e contestador do jovem leva seu pai e sua madrasta ao quase desespero.


Contudo, o efeito colateral mais surpreendente da presença de Gustav na casa é outro. Anne, uma mulher que já passou dos quarenta anos e foi vítima de violência sexual na infância, parece sentir o peso da chegada da idade. Ela vê o adolescente no esplendor de sua vitalidade e parece invejá-lo por isso. Assim, durante uma viagem a trabalho de Peter, Anne aproveita para, de madrugada, entrar escondida no quarto do rapaz. Ela faz sexo oral em um incrédulo Gustav e, depois, se entrega para que o jovem a penetre. É o início do caso extraconjugal da conceituada advogada com seu enteado menor de idade.

O relacionamento do rapaz com a madrasta se torna cada vez mais tórrido. Os dois aproveitam cada instante em que estão juntos e sem a presença dos demais familiares para transar. A única vez em que são pegos em flagrante é em uma festa em casa. A irmã de Anne viu os dois se beijando na boca. Mais tarde, a advogada tenta explicar o ocorrido para a irmã, mas esta não aceita as justificativas e se afasta enojada da rotina daquela família aparentemente desestruturada.


Curiosamente, o início da relação sexual com a madrasta marca também uma mudança de postura de Gustav. O adolescente se torna mais calmo e integrado à família e à sociedade, algo que jamais acontecera. Ele se aproxima das irmãs menores e se torna um exemplo de filho e irmão. Satisfeito, Peter, que não suspeita da traição da esposa, credita a melhora do relacionamento com Gustav mais velho ao ambiente harmônico do seu lar.


Entretanto, o caso extraconjugal entre Anne e Gustav não pode continuar. Ciente de que corre o risco de ser descoberta a qualquer momento, o que destruiria não apenas seu casamento como sua carreira, a advogada resolve colocar um ponto final naquela paixonite inconsequente. Se sentindo desprezado, Gustav não reage ao término da relação com a serenidade que sua madrasta imaginava. Assim, iniciam-se os mais turbulentos dias na casa de Anne e Peter.


“Rainhas de Copas” pode ser visto como um “Madame Bovary” contemporâneo. Anne seria a Emma do século XXI (mais velha e respaldada com uma imagem pública irretocável). Ao invés de se relacionar com vários homens em busca de alguma emoção para a vida vazia (como a personagem francesa de Gustave Flaubert), a protagonista do filme de May El-Toukhy se envolve com o filho adolescente do marido por outros motivos. Ela busca um prazer diferente ao encontrado na rotina agitada da cidade grande. Além disso, Anne anseia por uma sensação de rejuvenescimento e de vitalidade, cada vez mais raros para alguém que vê a velhice bater à porta. É muito interessante notar como a traição foi construída nesta narrativa. Tentar entender (por mais chocante que seja o comportamento da protagonista do longa-metragem) suas atitudes é mergulhar em um caldeirão de múltiplas interpretações psicológicas sobre a personalidade de Anne.

Se disse a pouco que “Rainhas de Copas” pode ser visto como um “Madame Bovary” contemporâneo, preciso acrescentar um detalhezinho: o filme também é um “Madame Bovary” pornográfico. Tão surpreendente quanto o comportamento da personagem principal é a câmera ousada desta produção. O olhar da cineasta dinamarquesa não tem qualquer pudor. Acompanhamos sem cerimônias o nudismo das personagens e o sexo entre elas (tanto de Anne com seu marido quanto dela com Gustav). As cenas são bem quentes (sexo oral, anal, vaginal) e podem incomodar um pouco quem é mais conservador. Notei, durante a sessão da semana retrasada, algum desconforto por parte do público em relação aos momentos mais tórridos mostrados na telona.


A atuação dos atores principais é primorosa. Trine Dyrholm, Gustav Lindh e Magnus Krepper estão impecáveis em “Rainha de Copas”. Porém, Trine Dyrholm é quem rouba a cena em todos os momentos. Sua transmutação durante o longa-metragem (de mulher correta e ilibada no início, de amante inconsequente do enteado no meio e de mentirosa ardilosa no fim) é chocante. É fantástico ver uma atriz no auge de sua forma artística. Ela trabalha tão bem mesmo em um papel tão difícil como o de Anne. Isso só prova o nível de excelência desta atriz. Não será surpresa para mim se Dyrholm conquistar mais alguns prêmios internacionais ao longo desta temporada de festivais cinematográficos.


Outra questão que gostei em “Rainha de Copas” foi da sua construção narrativa. A história do filme consegue ser surpreendente, apesar de abordar temas corriqueiros – a traição conjugal e o assédio sexual. Sua inovação está justamente em colocar uma mulher no papel de assediadora (normalmente são os homens que adquirem essa posição nas tramas). Lembremos que recentemente comentei aqui no Bonas Histórias o filme israelense “Não Mexa com Ela” (Isha Ovedet: 2018), que trata exatamente de uma mulher assediada no trabalho pelo seu patrão.

O espectador de “Rainha de Copas” até sabe que o caso de Anne com Gustav não terminará bem. E que uma hora o marido dela irá descobrir a pulada de cerca da esposa. Para completar, ficamos imaginando: como ficará a carreira da advogada que trabalha exatamente protegendo crianças e adolescente vítimas da violência de adultos e de familiares? Mesmo prevendo alguns desenlaces, o roteiro do longa-metragem segue para caminhos inesperados.


A meia hora final da produção é incrível para quem gosta de um bom thriller. O clima de suspense e tensão adquire níveis estratosféricos. A plateia ficará com o coração na mão na disputa desleal entre Anne e Gustav. Para surpresa geral (aí vai um pequeno spoiler – cuidado!), a protagonista do filme se transforma em uma anti-heroína. No desfecho, ela se mostra uma mulher sem qualquer sentimento ou empatia pelo próximo. Paradoxalmente, Anne revela ter uma personalidade muito parecida ao dos criminosos que sempre combateu nos tribunais da vara da infância e adolescência. É magnífico visualizar essa transmutação da personagem ao longo de aproximadamente duas horas.


Se “Rainha de Copas” não for o melhor filme que vi neste ano nos cinemas (posso ter me esquecido de alguma produção), na certa ele faz parte do grupo dos três melhores que assisti em 2019. O mais legal do longa-metragem de May El-Toukhy é o choque de sentimentos que a plateia tem pela história e pelas personagens. Se você gosta de fortes emoções, saiba que temos aqui um prato cheio.


Veja o trailer de “Rainha de Copas”:

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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