• Ricardo Bonacorci

Filmes: Bacurau – O premiado terror brasileiro


Há muito tempo, um filme brasileiro não despertava tanta expectativa em seu lançamento como “Bacurau” (2019). O motivo é nobre: a conquista do Prêmio do Júri no Festival de Cannes deste ano. As últimas vezes que longas-metragens nacionais receberam tanto destaque no tradicional festival de cinema francês foram na distante década de 1960. “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte, conquistou a Palma de Ouro e “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha, venceu o Prêmio da Crítica Internacional. De lá para cá, tivemos um hiato de mais de meia década. Agora, enfim, uma produção brasileira (na verdade, trata-se de um filme franco-brasileiro) voltou a ser premiada em Cannes.

Curiosamente, “Bacurau” foi preterido, há poucas semanas, pela Academia Brasileira de Cinema na escolha do representante brasileiro ao Oscar de 2020. O vencedor desta disputa interna, que representará nosso país na mais importante premiação do cinema mundial (na categoria Melhor Filme Estrangeiro), foi “A Vida Invisível”, filme de Karim Aïnouz. Para quem não se lembra de Aïnouz, ele foi diretor de “Madame Satã” (2002), “O Céu de Suely” (2006) e “Praia do Futuro” (2014). Os fãs de “Bacurau”, obviamente, chiaram quanto a opção da Academia.

Como consequência à conquista de prêmios importantes na Europa, “Bacurau” se tornou um dos grandes acontecimentos culturais do ano em nosso país. Sua estreia aconteceu no finalzinho do mês passado, mais precisamente no dia 29 de agosto. Tão logo iniciaram as sessões do filme nas salas de cinema, corri para conferi-lo. Contudo, só agora estou conseguindo produzir um post a respeito aqui no Bonas Histórias. Para aqueles que possam reclamar do atraso, só tenho duas coisas a dizer: desculpe-me pela demora; e antes tarde do que nunca (como já dizia o velho ditado popular que vem recheado de clichês!).

Filmado integralmente no Sertão potiguar, “Bacurau” foi dirigido e roteirizado por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, a talentosa dupla do aclamado “Aquarius” (2016). Como já tinha acontecido com o longa-metragem anterior, este também veio envolto em muitas polêmicas (a maioria de ordem político-ideológica). A principal delas trata do preconceito aos nordestinos (um tema que nosso Presidente da República encampou pessoalmente há alguns meses quando se dirigiu aos governadores daquela região). Esse sentimento de ódio aos nordestinos é o que alimenta a trama do filme. Além do preconceito central, há outros: a citação a uma personagem chamada Lunga (no longa-metragem, parece que seu nome é Lula), que é perseguida injustamente (??!) pelo governo de Brasília; e a cisão do território do país em duas partes (Brasil do Sul e Brasil do Norte) – o que evidencia a polarização entre direita e esquerda e, principalmente, Sul versus Norte). Não faltam, portanto, ingredientes para tornar essa produção explosiva.

No elenco de “Bacurau”, temos uma mistura de nomes conhecidos do cinema brasileiro e europeu (Sônia Braga e Udo Kier, por exemplo) com atores de menor destaque, mas em franca ascensão na carreira (Silvero Pereira, Barbara Colen, Karine Teles e Thomas Aquino), novatos em produções de alcance nacional (Thardelly Lima) e figuras há muito tempo distante das telonas (Wilson Rabelo). Essa combinação se mostrou acertada (ao menos a atuação da equipe não atrapalhou o desempenho do longa-metragem).

“Bacurau” tem pouco mais de duas horas de duração (são exatos 130 minutos) e se enquadra mais no gênero de terror, pelo menos no meu ponto de vista. Esta produção também pode ser encarada como um thriller fantástico, uma distopia terceiro mundista, um faroeste brasileiro, uma ficção científica ou mesmo tudo isso junto. O principal acerto de “Bacurau” está justamente na criação de um clima de suspense e de pânico que embasa seu conflito narrativo do início ao fim. Como filme de terror, temos uma história redondinha, redondinha (com muito mais acertos do que erros). Sua qualidade dramática é inegável.

Orçado em R$ 7,7 milhões, esta produção vem colecionando alguns prêmios mundo a fora. Além do Festival de Cannes, ela conquistou o prêmio de melhor filme do Festival de Munique e de Lima. Só na sua primeira semana de lançamento no Brasil, “Bacurau” arrecadou mais de R$ 2 milhões em bilheteria. Até agora, o público total do filme em nosso país é estimado em 200 mil espectadores (uma marca invejável).

O enredo do longa-metragem se passa em um futuro não tão distante. Na época em que a história é contada, o Brasil se fragmentou em dois países: o Brasil do Sul é rico e cosmopolita (São Paulo e Rio de Janeiro são suas capitais culturais) e o Norte é pobre e rural (a aridez do Sertão nordestino é a principal imagem desta nação). A trama é vista da perspectiva dos moradores de Bacurau, um pequeno povoado do interior de Pernambuco (ou seja, o município pertence ao Brasil do Norte). A localidade cujo nome faz referência a uma ave típica do Sertão sofre com a falta sistemática de água (ela foi desviada para abastecer as grandes fazendas da região, que estão nas mãos dos empresários do país vizinho) e de recursos (comida, remédio, livro e materiais básicos de higiene). Para minimizar um pouco a miséria do povo, os moradores de Bacurau formaram uma forte associação civil. Assim, eles podem agir de maneira integrada em prol da coletividade e de forma rápida contra os inimigos externos (fazendeiros e políticos da região são especialistas em explorar a pobreza).

Perto dali, vive Lunga, uma espécie de Robin Hood local e performático (ele se veste como Ney Mato Grosso na época dos “Secos e Molhados”). Perseguido pelas autoridades do Brasil do Sul por seus crimes, ele precisou se esconder nesta remota região para não ser preso. Lunga conta com a simpatia dos habitantes de Bacurau, que para protegê-lo não comunicam seu esconderijo nem o procuram com frequência (não dando pistas do seu paradeiro).

A tranquilidade e o bucolismo de Bacurau terminam quando o povoado desaparece dos mapas do Google. Esse fato até então inexplicável precipita uma série de outros acontecimentos tão surpreendentes como o primeiro: drones passam a sobrevoar o céu da região, estrangeiros começam a circular ao redor da cidade e a rede de telefonia móvel é interrompida. Na sequência, o povoado é alvo de uma sucessão interminável de ataques criminosos. No início, o caminhão-pipa que abastece os moradores é alvejado. Depois, chacinas sangrentas espalham-se por todos os lados. A sensação é que os habitantes de Bacurau estão sendo exterminados friamente por um inimigo invisível. Por fim, a rede elétrica é interrompida, elevando ainda mais o desespero de todos.

Sem saber mais o que fazer, os líderes comunitários de Bacurau resolvem pedir a ajuda de Lunga. O criminoso (ou seria “criminoso”?) terá que decidir se vale a pena colocar sua liberdade e seu pescoço em risco em nome do bem-estar dos seus conterrâneos. Assim, inicia-se o contragolpe dos moradores do povoado. Nessa disputa sanguinária contra os adversários até então desconhecidos, é matar ou morrer. Não há alternativa para o povo pobre e carente do Sertão pernambucano que não passe pela luta armada.

Durante a sessão de “Bacurau”, confesso ter me lembrado de “Corra!” (Get Out: 2017), filme norte-americano de terror ancorado em preconceitos sociais e na instituição de um poderoso grupo racista secreto. Ao menos quando analisamos a narrativa e a temática dos dois longas-metragens, eles são parecidos. Entretanto, não sei se os cineastas brasileiros se inspiraram em seu similar estrangeiro. O fato é que eles são muito parecidos...

Há vários pontos positivos no filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. O primeiro deles é a ousadia narrativa. O enredo destoa de quase tudo o que vem sendo feito em nosso país e, sendo um pouco mais ousado, na América Latina. Por exemplo, não temos um protagonista definido nesta trama (não me lembro de um longa-metragem recente que tenha usado esse recurso). As surpresas da história acumulam-se o tempo inteiro. Os quebra-cabeças do drama são apresentados sem pressa e na hora certa (o roteiro, ainda bem, acredita na inteligência da plateia). Outro aspecto elogiável é a contemporaneidade dos temas abordados. É verdade que temos sim uma visão exagerada e bastante estereotipada dos choques ideológico-culturais do Brasil atual. Entretanto, não seria esse mesmo o papel das produções artísticas (expor em tintas fortes as questões que incomodam a nação)? Acredito que sim.

Gostei também do ritmo da segunda metade desta produção. Uma vez apresentado o conflito do filme ao espectador, a adrenalina corre solta até o final. Neste sentido, a pegada de “Bacurau” é muito mais parecida à velocidade do cinema norte-americano do que a do cinema sul-americano (e europeu).

A proposta de se fazer um filme naturalista combina perfeitamente com a pegada determinista da trama (apesar de ser uma escolha pouco usual para os dias de hoje). Os preconceitos dos sulistas contra os nortistas/nordestinos e o racismo das nações desenvolvidas contra os povos dos países não desenvolvidos permitem essa ousadia politicamente incorreta. Nesse caso, o retrato animalesco das pessoas faz sentido do ponto de vista estético-narrativo.

De pontos negativos, só encontrei três aspectos para citar. Em primeiro lugar, demora-se muito para a narrativa iniciar o conflito principal (um erro imperdoável para um thriller de terror com uma pegada mais comercial). Até o começo dos ataques aos moradores de Bacurau (foco do terço final do filme), assistimos a uma interminável crônica do pequeno povoado interiorano, com sua banalidade e sua rotina entediantes (foco do primeiro terço do longa-metragem). Se por um lado esse expediente narrativo aproxima a plateia das várias personagens retratadas, por outro lado cansa o público ávido por acontecimentos e emoção (vi algumas pessoas saindo da sessão em sua metade).

O segundo ponto negativo está em alguns cortes de câmera mal feitos já nas primeiras cenas do filme. Encontrei erros elementares, por exemplo, nas duas cenas iniciais do longa-metragem. É verdade que não achei outros até o final (pelo menos em relação aos cortes). Mesmo assim, uma produção com a ambição de angariar prêmios importantes não pode cometer esses equívocos tão elementares, ainda mais no comecinho, quando construímos a imagem do filme. Lembremos o ditado: a primeira impressão é a que fica...

E, por fim, o humor de “Bacurau” mescla um pouco de sutileza com uma dose generosa de escracho. A cenas de bangue-bangue com as personagens totalmente peladas (com direito a nu frontal masculino, uma raridade no cinema comercial) e o figurino de Lunga (quase uma drag queen tupiniquim) dão a tônica do humor do filme. O lado negativo desse recurso é dar a impressão de que se trata de uma produção trash (cinema B na veia!). Essa sensação é potencializada com algumas atuações exageradas, com a construção de personagens caricatas e com uma narração profundamente maniqueísta.

Em suma, gostei muito de “Bacurau”. Como fã de filmes de terror, fazia muito tempo que não via uma produção nacional tão original e ousada como esta. Parte do desconforto que sentimos durante sua sessão é proposital (quem não se sentir desconfortável vendo um roteiro com tanta brutalidade e preconceito deve procurar um psiquiatra o mais rápido possível). Contudo, não acho que “Bacurau” seja um longa-metragem brilhante. O meu senão não está vinculado a ordem ideológica (para mim, a narrativa faz todo o sentido, apesar dos exageros e da pegada escrachada) conforme tenho ouvido por aí. O problema maior do filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (dupla que já pode ser considerada como pertencente ao grupo dos melhores cineastas brasileiros da atualidade) está no tom pastelão da sua história (algo que não existe ou é minimizado em “Corra!”, por exemplo). Se não fosse a cara de filmão B, esta produção teria uma recepção ainda melhor.

Veja, a seguir, o trailer de “Bacurau”:

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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