• Ricardo Bonacorci

Filmes: Coringa - Meu favorito ao Oscar de 2020


Ontem, fui ao Espaço Itaú de Cinema do Shopping Bourbon Pompéia para ver a estreia nacional de “Coringa” (Joker: 2019), o filme do diretor Todd Phillips que promete ser a grande sensação da parte final da temporada cinematográfica de 2019. Pode apostar: não há título melhor do que este em cartaz hoje nos cinemas brasileiros. Estrelado por Joaquin Phoenix, o longa-metragem reconstrói a trajetória do principal vilão da série do Batman. O caráter de Arthur Fleck (Coringa é seu nome artístico) é apresentado de um ponto de vista totalmente original, ácido e realista. Assim, voltamos à época em que ele ainda era um pobre e desconhecido habitante de Gotham City. O resultado é espetacular! O filme conquistou o prêmio de melhor produção no Festival de Cinema de Veneza no mês passado.

Phillips mostra uma nova faceta de Coringa, jamais vista nos quadrinhos, no cinema ou na televisão (e, talvez, inimaginável até mesmo para Bob Kane). O que surge na tela é um homem com sérios problemas psiquiátricos (a risada interminável é o principal reflexo desse descontrole emocional) e vítima tanto da sociedade violenta quanto de sua família desequilibrada. No fundo, temos um rapaz frágil que tenta ganhar a vida como palhaço (os trocados do salário servem para ele cuidar da mãe doente) e que sonha em ser um comediante de stand-up. Como alguém assim pode virar uma personagem tão maligna, hein?! É essa a pergunta intrigante que Todd Phillips pretende solucionar ao final das duas horas de sessão.

Ao invés de ser uma produção recheada de super-heróis, de fantasia e de ação/luta (como é típico dos longas-metragens da Marvel e da D.C., normalmente com um tom profundamente infantojuvenil), “Coringa” traz um drama sensível, uma pegada de realismo adulto e um conflito de natureza psicológica. O mais célebre antagonista do homem morcego é agora colocado no papel de protagonista e sua vida é esmiuçada na frente da plateia. Aí, concluímos que a violência desta personagem é reflexo mais da conduta da própria sociedade, que não foi nada acolhedora com o aspirante a humorista, do que com a essência da personagem. Não é preciso dizer que temos aqui uma visão mais esquerdista do que direitista do problema da criminalidade. Se os Bolsonaro, os Crivella, os Doria e suas trupes assistirem ao filme, na certa vão querer proibir sua exibição.

Gostei tanto desse filme que o escolhi, desde já, como meu favorito ao Oscar de 2020. Vou torcer para ele mesmo não sabendo quem serão seus rivais. O problema de Todd Phillips é que as minhas escolhas ao prêmio máximo do cinema norte-americano sempre perdem. Foi assim nos últimos cinco anos. “Bohemian Rhapsody” (2018), “Corra!” (Get Out: 2017), “La La Land: Cantando Estações” (La La Land: 2016), “O Regresso” (The Revenant: 2015), “Whiplash - Em Busca da Perfeição” (Whiplash: 2014) e “Boyhood: Da Infância à Juventude” (Boyhood: 2014) acabaram, no final das contas, preteridos pelos jurados da Academia de Cinema de Los Angeles. Ok, sei que sou pé-frio. O que posso fazer?! Ao menos minhas torcidas para melhor ator e melhor atriz não são tão azaradas assim. Vale lembrar que torci neste ano por Rami Malek e por Olivia Colman. Está pensando o quê? Não tenho uma pedra de gelo nos pés. Sorte de Joaquin Phoenix que teve uma atuação em “Coringa” digna de estatueta (e que ficará com a minha torcida em 2020!).

Brincadeiras à parte, “Coringa” pode ser a primeira produção de super-heróis agraciada com o Oscar. O seu segredo: transformar o mundo mágico dos heróis dos quadrinhos em um drama extremamente factual e sensível. Por isso, não se engane com a roupagem desse longa-metragem aparentemente comercial. O filme de Phillips não é para adolescentes nem para os fãs tradicionais dos HQs (que normalmente superlotam as salas de cinema atrás de filmes dessa natureza). Na sessão de ontem, por exemplo, alguns grupinhos de jovens saíram no meio do filme, possivelmente insatisfeitos com o que estavam vendo na telona ou assustados com a violência desmedida da narrativa. Sim, há muita violência nesta produção. É preciso coragem e espírito muito forte para encarar a brutalidade nua e crua de suas cenas.

Orçado em aproximadamente US$ 55 milhões, “Coringa” foi roteirizado pelo próprio Todd Phillips, cineasta mais conhecido pela trilogia “Se Beber Não Case” (The Hangover: 2009, 2011 e 2013), e por Scott Silver. Além de Joaquin Phoenix, o elenco tem Robert De Niro, Frances Conroy, Brett Culllen e Zazie Beetz. Apesar do bom trabalho geral, Phoenix é quem rouba a cena desde o início. Até eu que já era fã de seus trabalhos, “O Homem Irracional” (Irrational Man: 2015), “Ela” (Her: 2013) e “Gladiador” (Gladiator: 2000) são espetaculares, preciso reconhecer: agora ele chegou ao ápice da carreira. Juro que não consigo imaginar uma interpretação melhor do que essa. Se outros grandes atores (Cesar Romero, Jack Nicholson e Heath Ledger) já conseguiram deixar sua marca nesta personagem, será difícil olharmos outra vez para o Coringa sem lembrarmos da melancolia assustadora e doentia de Joaquin Phoenix. Gênio!

“Coringa” se passa em Gotham City quando Bruce Wayne (Dante Pereira-Olson), que no futuro se transformará em Batman, é ainda uma criança. Paralelamente, Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), por sua vez, o futuro Coringa, é um pé-rapado, vítima de piedade por parte dos espectadores. Arthur tem sérios problemas psiquiátricos que o fazem ter longas crises de riso. Sempre que fica nervoso, o protagonista do longa-metragem desata a rir sem parar. Para completar, ele não tem nenhum amigo e precisa cuidar da mãe doente, Penny Fleck (Frances Conroy). Seus sonhos são: ser um humorista famoso, a ponto de frequentar o talk show de Murray Franklin (Robert De Niro), seu ídolo, e conseguir uma namorada. Ele é apaixonado pela vizinha, Sophie Dumond (Zazie Beetz), que aparentemente não repara em sua existência.

Contudo, o único emprego que Arthur Fleck consegue é de palhaço. E nessa profissão, o rapaz sofre violências físicas e emocionais de todos os lados. Ele é espancado na rua por jovens arruaceiros, é alvo de chacota dos colegas e é ameaçado pelo patrão. Em casa, descobre que a mãe sempre mentiu para ele. E até mesmo seu ídolo televisivo irá ridicularizá-lo em rede nacional. Parece que toda a sociedade o odeia. Fleck ainda terá seu atendimento psiquiátrico interrompido (o governo cortou as verbas da saúde pública), sofrerá mais violência nas ruas (ele está sempre se metendo em brigas apesar de seu comportamento pacífico) e será desprezado pelo “pai” que descobriu ter (que também o odeia).

Depois de sofrer tanto, uma hora o herói do filme precisava reagir. Arthur Fleck, enfim, contra-ataca. E sua reação vem acompanhada da violência que até então ele guardava escondida dentro de si (provavelmente, ela era acumulada a medida em que ele era atacado). O novo Fleck, apelidado por ele mesmo de Coringa, torna-se um palhaço assassino. Sua frieza e sanguinolência assustam a todos. Inicia-se, assim, uma explosão de violência em Gotham City causada pelo palhaço sorridente.

O que faz “Coringa” ser tão sensacional?! Em primeiro lugar, temos um drama profundo e fortíssimo. O novo Arthur Fleck que surge é fruto da violência social de sua cidade e de sua família. Coringa é muito mais produto do meio do que uma construção individual e isolada. Nesse sentido, o anti-herói conquista a simpatia do público, que entende seu radicalismo e sua postura catártica. Isso é o que incomoda mais os críticos do novo filme de Todd Phillips. “Onde já se viu glorificar o serial killer e a violência à sangue frio?”, bradam os inconformados. Para mim, que analiso um longa-metragem a partir da sua construção narrativa e pelo poder de seu conflito, o enredo de “Coringa” é fascinante.

As polêmicas sobre a violência desmedida de “Coringa” se parecem muito com as tidas por “Laranja Mecânica” (A Clockwork Orange: 1971) e “Pulp Fiction: Tempo de Violência” (Pulp Fiction: 1994), clássicos de Stanley Kubrick (baseado no romance homônimo de Anthony Burgess) e Quentin Tarantino, respectivamente. Se o público se assustou com o tipo de violência apresentado por Kubrick e Tarantino lá trás (agora algo corriqueiro), novamente temos aqui uma mudança de patamar. Sempre que há esse upgrade no cinema, a plateia e a crítica se sentem desconfortáveis. Curiosamente, essas três produções são protagonizadas por anti-heróis.

A segunda sacada bem-sucedida de Todd Phillips foi tirar todos os elementos fantasiosos da história de Bob Kane, que lhe conferiam um ar extremamente pueril. Até mesmo os fãs mais assíduos das tramas de super-heróis vão concordar comigo: a narrativa na nova perspectiva é muito mais adulta e interessante. O nível de complexidade do conflito ganha uma dimensão muito mais psicológica e ácida. Se você não gosta de filmes de super-heróis (como eu), vá ver “Coringa” sem medo. O mundo criado por Bob Kane serve apenas de contexto para o enredo deste filme. Além disso, não é preciso nenhum conhecimento prévio do universo dos quadrinhos para se situar no drama proposto por Phillips (basta saber que Bruce Wayne é/será o Batman).

Outros pontos positivos de “Coringa” são: a mistura de realidade e ficção (descobertas pelo espectador somente na parte final do longa-metragem) é totalmente condizente com o conflito psicológico do protagonista; a risada patológica de um Arthur Fleck magérrimo (Joaquin Phoenix emagreceu 23 quilos) é assustadora e, ao mesmo tempo, triste; a recriação de uma Gotham City suja, anárquica e violenta (bem parecida à criação original da cidade de Batman) nos lembra Nova York dos anos de 1980; o ritmo narrativo do filme é impecável do início ao fim (as duas horas da produção passam rapidinhas, rapidinhas); e a história ainda reserva certa intertextualidade cinematográfica (principalmente quanto aos personagens históricos protagonizados por Robert De Niro).

Se Todd Phillips foi o responsável pela produção de um blockbuster recente da comédia (gostemos ou não, a série “Se Beber Não Case” é inovadora dentro do seu gênero), agora o cineasta norte-americano criou um drama digno de Oscar. Se ele vai ganhar a estatueta em fevereiro de 2020 não sei (é mais provável que Joaquin Phoenix leve a sua). O que sei é que este filme merece sim sair com alguns prêmios.

Veja, a seguir, o trailer de “Coringa”:

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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