• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Virgínia


Darico Nobar: Boa noite, amigos e amigas que sintonizam o Talk Show Literário. Vocês devem ter percebido que nosso programa já está no final da terceira temporada. [O apresentador olha fixamente para a câmera]. E para celebrarmos nossa décima entrevista deste ano, convidamos a protagonista de Ciranda de Pedra. Por gentileza, recebam com carinho Virgínia! [A plateia saúda com palmas a visitante que, surpreendentemente, não entra pela porta principal do auditório].

Virgínia: Boa noite, Darico. Obrigada pelo convite desta noite.

Darico Nobar: Minha nossa!!! [O entrevistador pula do seu assento, derrubando algumas folhas que segurava. Na confusão, a caneca de água que repousava em sua mesa acaba virando]. Como você chegou até aqui sem que eu percebesse?! Até parece assombração.

Virgínia: Enquanto você falava, caminhei até o palco e me sentei no sofá. Fiz mal?

Darico Nobar: Não, não... Imagine! [Respira forte por alguns segundos]. Estamos muito felizes por recebê-la no Talk Show Literário. [O tom de voz não parece sincero. Ele aproveita para recolher as folhas e secar a mesa com um pano entregue por um assistente extremamente ágil]. Só me assustei um pouco com sua aparição repentina ao meu lado. Você deve ter andado nas pontas dos pés para ter chegado sem eu notar.

Virgínia: Tenho essa mania de andar nas pontas dos pés desde criança.

Darico Nobar: Esse foi o começo de entrevista com mais adrenalina até hoje, pelo menos para mim... [O âncora da atração toma um gole de água de sua caneca assim que seu assistente a abastece). Como foi difícil te localizar, Virgínia! Minha produção ficou meses tentando te contatar sem sucesso. Por que é tão difícil falar com você?

Virgínia: Eu estava em uma nova viagem por esse mundão. Como não levo telefone celular nem costumo acessar o computador nesses longos períodos de ausência, realmente é difícil falar comigo. Agora que voltei ao Brasil, retornei as principais ligações perdidas e respondi algumas mensagens antigas.

Darico Nobar: Você viaja muito, né?

Virgínia: Sim. Estou vivendo uma fase de descobertas e preciso ficar longe da minha família para poder compreender algumas coisas do meu passado.

Darico Nobar: Fase de descobertas? Você está viajando há mais de seis décadas!

Virgínia: É sim uma fase, só não disse se era passageira ou perene. Quem sabe um dia ela termine. Só não sei quando isso irá ocorrer... Minha infância não foi nada fácil, fique você sabendo. Ainda não consegui superar muitos dos traumas daquela época.

Darico Nobar: Sim, eu sei. Sinto que você é uma pessoa um pouco deslocada da sociedade, ainda não achou seu lugar no mundo. Você parece que não fica à vontade em nenhum lugar. Primeiro foi na casa da sua mãe. Depois na casa de Natércio e das suas irmãs. Isso também aconteceu no colégio interno...

Virgínia: E quem disse que é fácil achar nosso lugar no mundo, hein?! Infelizmente, existem muitas pessoas como eu por aí. Só na minha família, conheço várias. Ao menos, estou tentando, estou procurando o meu lugar. Estou seguindo um antigo conselho que me deram: "Comece agora mesmo a vida que te resta".

Darico Nobar: Sua história é uma das mais tristes da literatura brasileira. Nela há uma combinação explosiva de loucura, suicídio, traição, impotência, inadequação, revolta, desprezo, abandono...

Virgínia: Um prato cheio para quem deseja produzir uma telenovela com muito dramalhão, né? Já me falaram que minha história daria uma telenovela mexicana.

Darico Nobar: Sim... [O apresentador ri do comentário da convidada, que por sua vez permanece séria, sem esboçar um único sorriso]. Hoje em dia, você é feliz?

Virgínia: Se sou feliz?! Essa é uma pergunta que me faço diariamente. O que posso responder é que hoje em dia eu sinto certa tranquilidade interior. No meu caso, isso já é um grande avanço. Digo uma pequena tranquilidade, mas não uma paz completa.

Darico Nobar: Para você, tranquilidade é sinônimo de felicidade?

Virgínia: Se você tivesse vindo da família que vim, entenderia que talvez os dois conceitos andem mesmo juntinhos.

Darico Nobar: Sua tristeza esteve acompanhada pela das demais personagens de Ciranda de Pedra. Minha impressão é que em seu romance ninguém conseguiu ser feliz de fato. Você tem essa mesma sensação?

Virgínia: Nem os anõezinhos de pedra que ficavam na fonte em frente à casa de Latércio pareciam felizes. Demorei a reparar nisso. Há alguns anos, ao retornar rapidamente de uma viagem ao exterior, notei a fisionomia das estátuas. Elas estavam tristíssimas. Algumas pareciam estar chorando.

Darico Nobar: O pior é que a tristeza de uma estátua é eterna!

Virgínia: Nesse sentido, somos muito parecidos aos seres de pedra. Muitas coisas em nossa vida também não podem ser mudadas. Jamais fugiremos de nossa essência e dos traumas do nosso passado. Somos animais engessados, imutáveis.

Darico Nobar: Não é uma visão pessimista da vida?

Virgínia: Que estranho isso, né? Como uma criança que viu a mãe endoidecer, que soube que o pai biológico se suicidou, que foi criada em um lar amargurado, que foi desprezada pelas irmãs, que perdeu a virgindade com a colega de quarto no colégio interno e que se apaixonou por um homem impotente pode ser tão pessimista?! Juro que não entendo essa minha característica...

Darico Nobar: Também não conhecia esse seu lado irônico, Virgínia?

Virgínia: Não é porque você leu algumas páginas do meu livro que deva saber tudo sobre mim. A vida de ninguém cabe em um romance de 200, 300 páginas.

Darico Nobar: Você tem razão. Você se sentiu traída pelo destino?

Virgínia: Destino?! As pessoas chamam o que não entendem de vários nomes: destino, Deus, sorte, fatalidade, acaso... Minha família é formada por uma legião de traidores, mas não sei se posso acusar o destino disso. Talvez ele tenha sido apenas cruel comigo. Muito cruel, diga-se de passagem!

Darico Nobar: Qual a personagem mais melancólica de Ciranda de Pedra?

Virgínia: Boa pergunta... [A entrevistada pensa alguns segundos antes de responder]. Talvez seja o Conrado. Um homem que ama a inutilidade, fazendo do banal e do trivial a essência de sua vida, só pode ser mesmo um poço de melancolia. Ele é nosso São Francisco de Assis, renegando todos os prazeres terrenos em prol da vida besta em sua fazenda. Juro que às vezes não entendo como posso ter me apaixonado por ele... Paixão de infância e adolescência é mesmo ridícula.

Darico Nobar: Qual é o seu maior medo, Virgínia?

Virgínia: Tropeçar e cair no chão.

Darico Nobar: Como assim?

Virgínia: Minha mãe sempre me alertou: "Besouro que cai de costas não levanta nunca mais". Por isso, tenho o maior cuidado ao andar. Nunca se sabe o que pode acontecer quando a gente perde o equilíbrio, né?

Darico Nobar: Gostaria de falar um pouco sobre a cena de Natal em que você conseguiu desagradar quase toda a sua família. Está lembrada? Você se importa se tratarmos desse tema tão delicado?

Virgínia: Claro que me lembro, mas não me importo de falar sobre esse assunto. Aposto que essa foi a parte do romance em que você mais se recorda. Acertei?

Darico Nobar: Acertou em cheio! Não me lembro de um Natal mais infeliz protagonizado por alguém em toda a literatura. Sempre que alguém me fala "Meu Natal foi terrível", juro que penso "Para dizer isso, você não leu Ciranda de Pedra".

Virgínia: Acho engraçado isso. A vida toda eu fui feita de besta pela minha família. Aí, quando jogo toda a falsidade, as traições e a tristeza deles no ventilador uma única vez, todo mundo fica inconformado com a minha atitude.

Darico Nobar: Mas era uma ceia de Natal!

Virgínia: Então é preferível você aprontar todas as noites do ano, mas se comportar na ceia natalina?! É isso o que você acha? Quanta hipocrisia!

Darico Nobar: Você estragou o Natal de toda a sua família.

Virgínia: E eles estragaram a minha vida. O que é pior?

Darico Nobar: Por essa perspectiva você tem razão... Virgínia, agora que o programa está terminando, gostaria de saber se você deseja falar mais alguma coisa. Você tem algo para dizer que ainda não falou ou eu não perguntei?

Virgínia: Sim. Gostaria de aproveitar essa oportunidade para avisar: O ideal é quando ela entra por um lado e sai pelo outro.

Darico Nobar: O quê? Do que você está falando?

Virgínia: Da bala.

Darico Nobar: Que bala?

Virgínia: Dessa! [A convidada retira calmamente um revólver da bolsa e atira contra sua própria cabeça. A bala entra por um ouvido e sai pelo outro, jogando pedaços de cérebro e sangue para todos os lados. Virgínia cai desfalecida no chão].

Darico Nobar: Ohhhhhhhh! [O apresentador está banhado de sangue. Por sorte, a bala foi para a direção oposta de onde ele estava sentado].

Plateia: Ahhhhhhhh! [Muitas pessoas no auditório gritam aterrorizadas com a cena presenciada].

Darico Nobar: Meu Deus, que tragédia! Chamem um médico! O que eu faço agora, diretor?! [Em questão de segundos o programa sai do ar].

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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