• Ricardo Bonacorci

Mercado Editorial: Audiobook - O livro para ser ouvido


Você já pensou em trocar a experiência de leitura pela audição de sua obra literária favorita?! Se alguém acha esse tipo de questionamento estranho ou mesmo um sacrilégio é porque ainda não embarcou na moda do audiobook. Sucesso nos Estados Unidos há alguns anos, a febre do livro para ser ouvido parece ter chegado com tudo ao mercado brasileiro. Vários títulos (impressos) já chegam às livrarias nacionais juntamente com sua versão em áudio. Incrível essa constatação! Uma publicação só está pronta para ser lançada oficialmente quando apresenta as seguintes extensões: material impresso (brochura), material eletrônico (ebook) e material em áudio (audiobook). É justamente sobre essa terceira perna do modelo de negócio das editoras, por ora a mais polêmica, que gostaria de discutir hoje na coluna Mercado Editorial do Bonas Histórias.

Os audiobooks surgiram em 1932, nos Estados Unidos, como uma plataforma de inclusão das pessoas cegas. Tradicionalmente, esse tipo de produto era gravado em vinil em estúdios dos institutos voltados para os deficientes visuais e ficava à disposição de quem não podia enxergar. De certa maneira, era um complemento aos livros em braile. Algumas décadas depois, os audiobooks ganharam um verniz mais moderno e alcançaram um novo público. Hoje, eles são usados por quem deseja mergulhar na leitura, mas não tem tempo para ler. A visão (ou a falta dela) não é mais um problema. O novo inimigo dos leitores é a vida corrida das grandes cidades. Na esteira da febre dos podcasts, os audiobooks chegam para atender às pessoas que passam várias horas do dia dentro do carro indo e voltando do trabalho, no transporte público, na academia de ginástica, na fila do restaurante... O que fazer nesses momentos aparentemente pouco produtivos? Ler. Ou melhor, ouvir um livro já que ler se faz quase impossível em muitas dessas ocasiões.

Em um país como o Brasil, onde a maioria das pessoas não tem o hábito da leitura (em muitos casos, são analfabetas funcionais), a tecnologia dá uma ajudinha. Ao invés de se dedicar à leitura propriamente dita, o indivíduo pode acompanhar o conteúdo editorial pelo som, uma experiência mais simples, rápida, passiva e que requer menos esforço intelectual. Se para os leitores inveterados essa sugestão parece um absurdo, pense naqueles que quase nunca leem. Para esse público, a audição do livro surge como um milagre que veio para resolver seus problemas mais imediatos.

Independentemente se é para substituir a leitura ou se é para propiciar novas experiências de consumo das publicações editoriais, o audiobook vem conquistando mais e mais usuários. Esse é um fato concreto e contra ele não há questionamentos. Nos Estados Unidos, são lançados anualmente 44 mil títulos desse produto, o que já representa 6,5% do mercado de livros do país. Pode parecer pouco, mas seu crescimento é vertiginoso. No Brasil, quase todos os best-sellers já estão disponíveis nesse formato.

Interessadas nesse filão, as maiores editoras nacionais criaram o Auti Book, plataforma que permite a audição de livros por meio de planos de assinatura. E ele não é o único. A UBook tem mais de 300 mil títulos entre livros e revistas em seu portfólio, a Storytel tem agora uma versão brasileira (a empresa é sueca) e a Tocalivros juntou-se ao Google Play Livros e à Kobo para aumentar seu volume de títulos. Para os especialistas do setor, trata-se de um caminho sem volta.

A maioria dos usuários do audiobook faz suas audições paralelamente a outra atividade (refeição, caminhada, viagem de carro), seja dentro de casa ou fora dela. Em uma pesquisa realizada pela Auti Books, esse público é formado essencialmente por pessoas entre 25 e 44 anos. Não à toa, esta é a parcela da população que está mergulhada mais intensamente na rotina profissional e, portanto, tem menos tempo para a leitura. Faz sentido! Na concepção desses consumidores, eles precisam aproveitar cada momento do dia para realizar mais de uma tarefa ao mesmo tempo. Só assim, conseguirão fazer tudo ou boa parte do que desejam.

Há quem diga, segundo estudos internacionais, que é impossível igualar o grau de aprendizado e de memorização de um livro ouvido ao de um livro lido (a leitura apresenta índices superiores à audição). Outras pesquisas, contudo, apontam que há pessoas com memória auditiva e pessoas com memória visual. Nesse caso, o grau de envolvimento com o livro impresso e com seu áudio mudam de acordo com o perfil do indivíduo. O que parece ser consenso é a impossibilidade de transmutar toda a experiência literária da leitura para a audição. Inevitavelmente, há coisas que só a leitura do livro original consegue transmitir para seu leitor.

Para melhorar a experiência da audição, as editoras estão promovendo algumas inovações. Há, por exemplo, a escolha do tipo de voz que se adeque melhor ao perfil do livro (vozes aveludadas são ideais para as tramas românticas enquanto tons dramáticos são perfeitos para histórias de suspense) e a seleção de pessoas conhecidas para a narração (como já acontece atualmente em filmes de animação). Mais recentemente, os próprios autores, quando famosos, se dedicam a locução de suas obras (o que aumenta consideravelmente o interesse do público).

Os audiobooks representariam, portanto, o fim dos livros tradicionais? Não acredito nessa hipótese. Para mim, a audição não compete diretamente com a leitura. Trata-se de públicos diferentes e de realidades totalmente distintas de uso. Quem gosta de ler um bom livro jamais trocará essa experiência por outra. Já quem prefere ouvir seus títulos prediletos não trocará essa praticidade. Há também situações em que uma ou outra atividade (leitura ou audição) são exclusivas (não permitindo a concorrência). Ou você consegue imaginar alguém correndo no parque ou dirigindo um veículo pela cidade enquanto lê? Obviamente que não. Nesses casos, a audição é a única opção possível.

Para ser sincero, nunca li um audiobook. Ainda prefiro a boa e velha leitura. Contudo, não recrimino quem opte por esse novo formato. A falta de tempo e a dificuldade de leitura (leia-se analfabetismo e analfabetismo funcional) são empecilhos concretos em nosso país que, infelizmente, atrapalham em muito a experiência literária de milhões de brasileiros. Por isso, é melhor estar na companhia de um audiobook do que não conhecer o conteúdo de obras literárias e livros técnicos interessantíssimos. A questão que precisamos descobrir é se os audiobooks são uma moda passageira ou se são um fenômeno que veio para ficar. Sobre essa questão, confesso não ter a menor ideia.

E aí, qual título você está lendo/ouvindo no momento?!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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