• Ricardo Bonacorci

Filmes: A Odisseia dos Tontos – A Argentina nos tempos do Corralito


Neste final de semana, assisti a “A Odisseia dos Tontos” (La Odisea de Los Giles: 2019), comédia argentina que estreou no circuito comercial brasileiro na última quinta-feira. O filme é uma adaptação de “La Noche de La Usina” (Alfaguara), romance de Eduardo Sacheri que conquistou o Prêmio Alfaguara de Novela de 2016. Para quem não se lembra de Sacheri, basta dizer que ele é o autor de “La Pregunta de Sus Ojos” (Punto de Lectura), romance de 2005 que foi adaptado, mais tarde, para o cinema e deu origem ao sensacional “O Segredo dos Seus Olhos” (El Secreto de Sus Ojos: 2009). Com um drama impecável ambientado nos tempos de chumbo da ditadura militar portenha, “O Segredo dos Seus Olhos”, foi o segundo filme argentino a conquistar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

“A Odisseia dos Tontos” foi dirigido e roteirizado por Sebastián Borensztein, da excelente comédia “Um Conto Chinês” (Un Cuento Chino: 2011) e do drama “Kóblic” (2016). O próprio Eduardo Sacheri participou da montagem deste roteiro. Para o elenco do seu novo filme, Borensztein convocou mais uma vez Ricardo Darín, de “Relatos Selvagens” (Relatos Salvajes: 2014), “Neve Negra” (Nieve Negra: 2017) e “O Segredo dos Seus Olhos”. O ator participou de todas as produções cinematográficas do diretor nos últimos dez anos. Em “A Odisseia dos Tontos”, Darín tem a companhia do não menos talentoso Luis Brandoni, do divertidíssimo “Minha Obra-Prima” (Mi Obra Maestra: 2018).

Completam o elenco, Verónica Llinás, Rita Cortese, Daniel Aráoz, Andrés Parra e Ailín Zaninovich, figuras do primeiro escalão do cinema e da televisão argentina. Quem é fã de Ricardo Darín, um dos atores sul-americanos mais famosos da atualidade, “A Odisseia dos Tontos” reserva uma grata surpresa. Chino Darín, filho de Ricardo (com Florencia Bas), tem um papel de destaque nesta produção. Chino interpreta justamente o filho da personagem de Ricardo. Apesar de já possuir alguns filmes no currículo, esta é a primeira vez que o jovem ator trabalha com seu pai em um longa-metragem de maior porte.

Com um trio deste (Borensztein, Darín e Brandoni), é impossível não comprar o ingresso e entrar na próxima sessão. Curiosamente, eu fui ao cinema neste final de semana para ver “Desafio de Um Campeão” (Il Campione: 2019), produção italiana de Leonardo D’Agostini. Já estava na bilheteria do Espaço Itaú de Cinemas do Shopping Bourbon para assistir ao filme de D’Agostini quando vi, por acaso, os nomes da equipe de “A Odisseia dos Tontos” nas telas de divulgação do cinema. Aí, mudei de ideia na hora. E não me arrependi depois. O longa-metragem argentino é ótimo. E “Desafio de Um Campeão” pode muito bem esperar alguns dias para ser apreciado.

Ambientado em um dos períodos mais difíceis da Argentina, a crise econômica da virada do século XX para o XXI, “A Odisseia dos Tontos” foi selecionado para integrar o Festival Internacional de San Sebastian e o Festival Internacional de Cinema de Toronto, ambos no segundo semestre de 2019. No Brasil, ele foi exibido no mês passado na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina escolheu o longa-metragem de Sebastián Borensztein para ser seu representante no Prêmio Goya e no Oscar de 2020 na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Sucesso de público e crítica em seu país natal, este filme bateu alguns recordes de exibição na Argentina.

“A Odisseia dos Tontos” começa em agosto de 2001. Em uma pequena cidade da zona rural da província de Buenos Aires, o casal Fermín (Ricardo Darín) e Lidia Perlassi (Verónica Llinás) tem uma ideia ousada. Eles querem comprar a La Metódica, propriedade agroindustrial que está há muitos anos desativada. Sem ter dinheiro suficiente para uma empreitada dessa magnitude, eles recorrem aos demais moradores do povoado para angariar recursos. A proposta é transformar a La Metódica em uma cooperativa, em que todo investidor será sócio da empresa. O primeiro a embarcar na ideia dos Perlassi é Antonio Fontana (Luis Brandoni), velho amigo do casal e dono de uma oficina mecânica. Fontana junta suas economias às de Fermín e Lidia e o grupo consegue seus primeiros punhados de dólares. Pelo fato de a economia argentina ser dolarizada (prática que se mantém até hoje), as famílias poupam guardando dólares em casa ou no banco. A moeda norte-americana sempre foi mais segura do que o peso argentino.

A partir daí, o trio passa a apresentar a ideia da cooperativa para os demais moradores do povoado. E Fermín, Lidia e Antonio conseguem pouco a pouco vários investidores. A maioria é gente simples e humilde da região, que guardou suas economias por anos e anos e confia na reputação ilibada dos Perlassi. Mesmo com os esforços de três meses de arrecadação, o grupo não levantou dinheiro suficiente para comprar a La Metódica. Eles dependem ainda de um financiamento bancário. Para mostrar que sua ideia de montar a cooperativa é sólida, Fermín Perlassi segue a sugestão do gerente do banco e deposita o valor arrecadado em uma conta bancária. Segundo o funcionário da instituição financeira, com isso o empréstimo não deverá demorar muitos dias para sair.

Contudo, já no dia seguinte, uma notícia bombástica choca os argentinos. Diante da grave crise financeira que o país atravessava, o governo do presidente Fernando de la Rúa decretou o Corralito. Com essa medida drástica para conter a evasão de dólares para o exterior, em dezembro de 2001, todos os investidores e poupadores foram proibidos de sacar suas economias depositadas nos bancos. De certa maneira, o Corralito é a versão argentina do Plano Collor, que congelou o saque das contas correntes e das cadernetas de poupança no Brasil em 1990.

Assim, da noite para o dia, os companheiros de Perlassi viram naufragar seus planos de empreender. Para piorar ainda mais a já grave situação, o grupo foi vítima de um crime financeiro. O gerente do banco não efetuou o depósito da cooperativa, preferindo passar ilegalmente os dólares para um empresário local, Fortunato Manzi (Andrés Parra). A notícia caiu como uma bomba nos pequenos investidores da cooperativa. Eles foram enganados e estavam agora totalmente falidos (jamais teriam suas economias de volta). Fermín Perlassi é quem mais sentiu o golpe. Ele se considerava culpado pelas tragédias que se sucederam após a decretação do Curralito.

Um ano depois, Antonio Fontana aparece com uma notícia surpreendente (e esperançosa). Ele conseguiu localizar o paradeiro de Manzi. E como ninguém é maluco de colocar seus dólares no banco, o criminoso deveria estar guardando sua fortuna em algum lugar. O sentimento de vingança une novamente os amigos para roubar (ou seria recuperar?) o dinheiro do empresário. O grupo de pessoas simples do interior monta, então, uma grande e complexa operação para descobrir onde está a grana e como pode fazer para afaná-la. Cada um coloca suas melhores habilidades em prol do coletivo. É iniciada a maior caça ao tesouro da pequena cidade do interior de Buenos Aires.

É verdade que “A Odisseia dos Tontos” não está à altura de “Relatos Selvagens” nem de “O Segredo dos Seus Olhos”, dramas estes mais profundos e com narrativas mais complexas. Nem era essa minha expectativa. Mesmo assim, o filme de Sebastián Borensztein é excelente. Ele está mais para “O Cidadão Ilustre” (El Ciudadano Ilustre: 2016), ótimo longa-metragem argentino que conquistou a simpatia tanto da crítica quanto dos espectadores. Provavelmente, “A Odisseia dos Tontos” não ganhará o Oscar de 2020. Mesmo assim, dá para se divertir horrores em suas quase duas horas de sessão.

O que mais gostei nesta produção é que ela congrega boas doses de comédia, drama, mistério e ação. E isso tudo em uma trama ancorada em episódios reais – pelo menos no quesito macroeconômico. O Corralito foi um dos períodos mais delicados da história recente da Argentina, que infelizmente se tornou especialista em reproduzir crises econômicas atrás de crises econômicas. Não dá para não gostar de “A Odisseia dos Tontos”. O filme reúne uma combinação cinematográfica (humor, suspense, aventura, tragédia, adrenalina) literalmente explosiva!

O primeiro mérito deste filme está em seu roteiro. A história criada por Eduardo Sacheri é por si só incrível. E ela foi muito bem adaptada para o cinema. É verdade que há partes um tanto nebulosas nesta narrativa. Por exemplo, como um gerente de banco pode não efetuar os saques dos correntistas de uma cidade e sair impune?! E como a polícia nunca investigou as tramoias de Fortunato Manzzi, um criminoso de colarinho branco da pior espécie? Ignorando essas questões mal explicadas, o espectador encontrará no restante do filme uma história impecável.

Como comédia, “A Odisseia dos Tontos” funciona muitíssimo bem. Há várias cenas em que a plateia gargalha de rir. E o humor aqui não é apenas do tipo pastelão. Na maioria das vezes, a comicidade está pautada em elementos sutis dos dramas dos protagonistas. Com isso, o filme adquire ares de uma tragicomédia sensível e inteligente. Nesse aspecto, destaque para as primeiras e últimas cenas, que conseguem representar muito bem esse espírito tragicômico (não saia da sala de cinema antes que todos os créditos tenham passado – do contrário, você corre o risco de perder algumas boas cenas).

Se for vista como um longa-metragem dramático, de ação/aventura ou de mistério/suspense, esta nova produção de Sebastián Borensztein também não faz feio. O filme adquire, na metade final, uma pegada catártica, em que todos aqueles que sofreram golpes ou foram vítimas de injustiças se sentem representados na telona. A ideia é claramente de lavar a alma do espectador. Apesar de ser um recurso bastante apelativo, em “A Odisseia dos Tontos” ele é bem utilizado. Em “Bacurau” (2019), por exemplo, esse mesmo expediente tem efeito totalmente contrário, diminuindo a qualidade do filme brasileiro (sim, temos muito a aprender com os nossos vizinhos).

Note o carisma das principais personagens deste filme. O grupo liderado por Fermín Perlassi/Ricardo Darín e Antonio Fontana/Luis Brandoni representa o povo pobre e desprotegido (os descamisados) da América do Sul que é feito de gato e sapato pelos governantes corruptos da região. Impossível não se solidarizar com eles (em muitos casos, acabamos nos enxergando neles). O grupo de amigos é uma espécie de gangue quixotesca que resolve buscar justiça pelas próprias mãos. E mesmo com a gana de vingança, eles ainda conservam a pureza e a honradez de caráter (seria essa mais uma justificativa para o termo “tonto” do título do longa-metragem?!). Nem mesmo o fato dessas personagens serem planas e muito caricatas estraga a relação delas com o público ou diminui sua força dentro da narrativa (o que seria do humor sem a caricatura, hein?).

Olhando apenas para a narrativa do longa, gostei muitíssimo do seu espírito à la “Três Mosqueteiro” – Um por todos, todos por um. É a união sinérgica de figuras simples e aparentemente bobas que faz o grupo se tornar tão forte e poderoso. Incrível ver como o roteiro construiu essa relação entre os indivíduos e o coletivo. Cada personagem empresta uma habilidade excepcional (mas aparentemente banal quando inserida no cotidiano) para resolver um grande problema da operação de recuperação da fortuna escondida.

“A Odisseia dos Tontos” é um desfile de atores e de atrizes de primeira grandeza do cinema argentino. Assisti-los é uma experiência única para quem adora a sétima arte. É impossível apontar uma atuação negativa neste elenco. Até mesmo Chino Darín, o mais novato do grupo, não compromete. Seu carisma o ajuda e o rapaz protagoniza boas cenas. E o que dizer das atuações das atrizes neste longa-metragem, hein? As três figuras femininas (Verónica Llinás, Rita Cortese e Ailín Zaninovich) conseguem roubar a atenção todas as vezes em que estão em cena. Mesmo sendo uma história com predomínio de personagens masculinas, são as atrizes que enchem a tela em cada aparição.

Para completar, a trilha sonora do filme é ótima. Temos aqui o melhor do rock portenho. São as batidas fortes das canções que embalam boa parte das aventuras dos moradores da então pacata cidade interiorana. A responsabilidade pela parte musical desta produção de Borensztein ficou à cargo de Juan Federico Jusid, compositor e músico. Ele trabalhou, não por acaso, nos mais importantes longas-metragens argentinos dos últimos quinze anos.

E aí, o que você está esperando para assistir a mais um grande sucesso do cinema argentino? Se você ainda não se convenceu da qualidade desta produção, então veja, a seguir, o trailer de “A Odisseia dos Tontos”. Quem sabe ele não dê indicativos mais fortes da qualidade deste longa-metragem:

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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