Teoria Literária: Elementos da Narrativa - 10 - Textualidade

Chegamos a novembro e, com isso, caminhamos para a conclusão desta segunda temporada da coluna Teoria Literária. No post de hoje, vamos tratar do décimo elemento da narrativa, a textualidade. Aí faltará apenas um, a tipologia (o décimo primeiro componente), para finalizarmos o debate sobre todos os elementos da narrativa. Esse post final será apresentado no mês que vem aqui no Bonas Histórias.

 

A textualidade pode ser compreendida como as características presentes em um conjunto de orações, frases e palavras que lhe dão sentido, lógica e unidade. Assim, a textualidade é o que diferencia um texto efetivo de um amontoado de orações, frases ou palavras escolhido aleatoriamente, sem qualquer sentido racional (MELO, 2010, p. 215).

 

Maria da Graça Costa Val vai além descrevendo esse termo como:

 

Textualidade é a característica fundamental dos textos, orais ou escritos, que faz com que eles sejam percebidos como textos. Não é inerente a eles, pois uma mesma sequência linguística, falada ou escrita, pode ser considerada como texto legítimo por uns e parecer um absurdo, sem sentido, para outros. Trata-se de um componente da competência textual dos falantes, que lhes permite produzir textos adequados e interpretar como textos as produções linguísticas que ouvem ou leem. Um conjunto de palavras ou frases constitui um texto quando é percebido pelos interlocutores como um todo articulado e que faz sentido na situação comunicativa em que ocorre (2000, p. 34-51).

 

A textualidade é construída, essencialmente, pela interação comunicativa entre o produtor da mensagem e ao menos um ouvinte/leitor. Enquanto o primeiro possui objetivos e estratégias comunicativas particulares, o segundo tem um repertório próprio para fazer a interpretação do que lhe chegou. Por mais próximos que sejam e por maiores que sejam as afinidades entre eles, produtor e ouvinte/leitor ainda sim possuem conhecimentos, práticas e valores culturais distintos. Além disso, a construção da textualidade também depende das relações texto-contexto do processo comunicativo (VAL COSTA, 2000, p. 34-51).

De acordo com Maria Conceição Alves de Lima, a textualidade possui sete elementos: a coesão e a coerência, classificados pela autora como fatores semântico-formais, pois referem-se às ordens conceituais da língua e da linguística; e a intencionalidade, a aceitabilidade, a situacionalidade, a informatividade e a intertextualidade, esses classificados como fatores pragmáticos, pois são relativos à situação comunicativa e ao contexto da produção textual (2006, p. 55). Cada um dos sete elementos da textualidade será comentado a seguir.

 

1. Coesão:

 

A coesão, para a linguística, é o conjunto de mecanismos internos do texto que estabelece a conexão de sentido entre suas partes (frases e orações). Com ela, as partes do texto tornam-se fluidas e lógicas, com unidade interna (KOCH, 2003). Ou seja, o texto coeso faz sentido como um todo, integrando uma unidade lógica do ponto de vista semântico,   

 

Como o Modelo de Análise Estilística de Romances investiga exclusivamente aspectos da sintaxe narrativa, a coesão para o MAER será estabelecida a partir da conectividade e da fluidez entre as partes das narrativas estudadas. As frases de um capítulo precisam fazer sentido, assim como os capítulos precisam ter ligações entre si. Por fim, as partes do romance precisam estar integradas, formando um todo.

 

Ao estudar a coesão da narrativa, o analista literário investiga o quão integrado é aquele conjunto textual e como essa integração se faz.

 

2. Coerência:

 

A coerência é o elemento linguístico que fornece sentido e harmonia ao texto. O conjunto textual, formado por palavras, frases e orações, precisa transmitir uma ideia clara e factível ao leitor/ouvinte. Assim, a coerência pode ser entendida como a unidade de sentido produzida pelo autor que fornece inteligibilidade ao receptor da mensagem (KOCH, 1999). Segundo Carina Adriele Duarte Melo: "[...] o processo gerador de sentido ao discurso não envolve somente o processamento e interpretação dos dados exteriores, mas o receptor também ativa o uso de informações internas e cognitivas" (2010, p. 130).

 

De acordo com Ingedore Grunfeld Villaça Koch (1999), existem quatro tipos de coerência: (1) A coerência semântica, formada pela significação do texto - o quanto suas ideias fazem sentido lógico; (2) A coerência sintática, estabelecida no interior da frase - combinação horizontal de sentido; (3) A coerência estilística, formada pelas características da personagem e pelo tipo de discurso apresentado por ela - crianças e pessoas sem uma formação educacional, por exemplo, dificilmente conseguirão se expressar de maneira formal e culta, com um grande repertório de palavras; e (4) coerência pragmática, estabelecida pelo contexto situacional no qual determinada mensagem foi transmitida - uma situação tensa e/ou perigosa, por exemplo, faz com que as personagens reajam passionalmente.

 

O analista literário precisa entender como se dá a relação de coerência dos romances investigados. Macunaíma, clássico da literatura brasileira escrito por Mário de Andrade, é um ótimo exemplo de como a coerência pode ser estabelecida. Ele possui muitas passagens aparentemente inconcebíveis e pouco verossímeis aos olhos do leitor desatento. Afinal, o protagonista muda o tempo inteiro de fisionomia e de corpo (nasce índio/negro e depois se transforma em homem branco) e é capaz de se deslocar milhares de quilômetros pelo país em questão de segundos (vai de São Paulo a Manaus em um piscar de olhos). Além disso, a geografia brasileira não é respeitada pelo autor, que faz uma miscelânea descritiva entre as regiões e suas características.

 

A partir daí, pergunta-se: Será mesmo que Macunaíma é uma obra incoerente? Para responder a essa pergunta, o analista literário precisa estudar e entender a proposta de Mário de Andrade. A resposta à questão levantada passa necessariamente pela compreensão do quanto o escritor modernista quis ironizar a formação do herói nacional e quanto quis construir um romance debochado e fantasioso. Em alguns casos, o pacto ficcional estabelecido entre o autor e o leitor permite a construção de uma realidade própria para a trama, tornando-a coerente aos olhos do leitor e ao contexto literário. Assim, Macunaíma possui sim uma coerência.   

 

3. Intencionalidade:

 

A intencionalidade, terceiro elemento da textualidade, é a capacidade do autor em produzir um texto de acordo com suas pretensões comunicativas. Toda comunicação possui objetivos e intenções específicas por parte do emissor da mensagem. Descobrir qual era a proposta dele é parte do trabalho do analista literário.

 

Essa investigação pode ser facilitada quando o romancista apresenta explicitamente suas pretensões. Mia Couto, principal autor de língua portuguesa de Moçambique, divulga regularmente sua concepção de literatura e suas crenças pessoais ao público. Como consequência, o analista literário consegue compreender parte da intencionalidade desse escritor. Couto lançou, por exemplo, um livro de crônicas chamado E Se Obama Fosse Africano?, no qual faz uma compilação das principais conferências e palestras ministradas por ele ao redor do mundo. Nessas conversas, o escritor aborda aspectos de suas obras, de suas personagens, de suas tramas, de seu processo criativo e de sua concepção de literatura. Milan Kundera, um dos principais autores tchecos da atualidade, também publicou um livro, chamado A Arte do Romance, em que apresenta detalhadamente a maneira como cria suas obras e o que pretende expressar com cada uma delas.

 

Por outro lado, há autores que não gostam de dar entrevista e se tornam resistentes ao ato de explicar sua intencionalidade. J. D. Salinger, autor norte-americano conhecido por ter produzido O Apanhador no Campo de Centeio, viveu por décadas fechado no interior da sua residência. Ele não interagia com ninguém, além da esposa e da filha. Ele não apenas evitava dar entrevistas sobre sua literatura (e qualquer outro tema) como também evitava o contato com a sociedade. Nesse caso, conseguir estabelecer a intencionalidade do autor é um desafio hercúleo para o analista literário, para não dizer impossível. Há também o caso de o escritor falecer e não deixar nenhum registro que permita aos analistas literários o estabelecimento das relações intencionais dele com suas obras.  

 

4. Aceitabilidade:

 

A aceitabilidade, de forma geral, é um conceito oposto à intencionalidade. Se a intencionalidade está ligada à intenção do autor ao produzir determinada narrativa, a aceitabilidade é a maneira como o público leitor e a crítica literária recebem aquela obra. De maneira mais conceitual, a aceitabilidade pode ser vista como a propensão e o interesse dos receptores para com a mensagem recebida.

 

É importante o analista literário estudar como a aceitabilidade ocorre ao longo do tempo e nas diferentes regiões geográficas. Stephen King é um autor best-seller que recebeu muitas críticas negativas dos analistas literários nos últimos trinta anos, apesar de ter conquistado uma legião de fãs no mundo todo. Seu nome e suas obras eram sinônimos de má qualidade literária e de vazio estilístico para os estudiosos da teoria da literatura. Contudo, alguns romances do norte-americano, nos últimos anos, passaram a ser estudados em algumas universidades. Há alguns (poucos, é verdade) acadêmicos que começaram a estudar King como um autor sério e conceituado do gênero de terror/ suspense. Será essa uma tendência? Conseguirá o norte-americano se tornar um cânone para as próximas gerações? Se isso acontecer, essa consolidação do autor merece uma investigação por parte dos analistas literários. Entender o processo de canonização de um autor é uma das tarefas de quem se dedica ao estudo da aceitabilidade.

 

Paulo Coelho e suas obras são amados por um grande contingente de leitores europeus, porém são desprezados por muitos leitores brasileiros. Por que essa distinção geográfica acontece? Há uma explicação para isso? Quem pode explicar essas questões é a aceitabilidade, ou seja, as maneiras distintas como o público, os acadêmicos e a crítica literária recebem uma obra.  

 

5. Situacionalidade:

 

A situacionalidade representa as conexões existentes entre o texto criado e o contexto situacional que permeia a sua criação. Trata-se do panorama no qual a trama do romance, suas personagens, seus conflitos e seu ambiente se fazem pertinentes, claros e lógicos. Entender o contexto de produção de uma narrativa é fundamental para compreender o panorama ficcional estabelecido pelo artista.

 

Para um analista literário entender em profundidade o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, clássico de Lima Barreto publicado em 1915, é obrigatório conhecer o panorama histórico-político do Brasil entre o final do século XIX e o início do século XX, quando o enredo da narrativa se passa. O nacionalismo utópico da personagem principal, o militarismo da época, os adversários políticos de Policarpo, as ideias contestadoras do protagonista e os conflitos armados descritos no romance são extraídos de uma ambientação real daquele momento da história nacional. A análise literária de Triste Fim de Policarpo Quaresma passa necessariamente pelo conhecimento da realidade na qual a trama estava inserida.

 

Lançado em 2014, na França, por Romain Puertolas, A Extraordinária Viagem do Faquir Que Ficou Preso Em Um Armário Ikea, é um romance satírico (com elementos fantásticos) que aborda um tema extremamente atual no cenário mundial: a imigração ilegal de africanos e de asiáticos para o continente europeu. Os leitores e, principalmente, os analistas literários que desejam, por quaisquer motivos, investigar esse best-seller francês, precisam compreender, antes de qualquer coisa, a realidade que precipitou sua criação.  

 

Tal princípio se aplica a todas as obras literárias estudadas. O analista literário que visa realizar um estudo investigativo sério de um romance não deve calcar sua investigação apenas na situacionalidade, como feito essencialmente pelos estudiosos da historiografia literária. Contudo, o analista não pode desprezar ou ignorar as influências do contexto sobre o artista e suas obras.  

 

6. Informatividade:

 

A informatividade representa "o grau de novidade, interesse ou estímulo expresso pelo texto, em conexão com o grau de elementos já conhecidos pelo destinatário" (MELO, 2010, p. 125). Quando inserido no contexto literário, a informatividade pode ser encarada como a contribuição informativa que uma narrativa leva aos leitores. Quanto mais próximo do senso-comum e do que vem sendo feito na literatura comercial, menos informativo é o texto literário.

 

O romance Madame Bovary, publicado em 1857, por Gustave Flaubert, foi revolucionário por trazer, em pleno século XIX, a infidelidade feminina à literatura mundial. O ineditismo dessa temática ou a pouca representatividade desse assunto até então forneceu alto grau de elemento informativo à obra. O lançamento de um livro com as mesmas características, hoje em dia, muito provavelmente seria ignorado pelo público e desprezado pela crítica. Por não trazer mais nenhuma novidade aos leitores, essa obra dificilmente alcançaria atualmente o status de cânone literário.

 

O mesmo processo pode ser remetido a Lolita, polêmico romance do russo naturalizado norte-americano Vladimir Nabokov. Nesta obra de 1955, o protagonista Humbert, um professor de literatura de meia idade, se apaixona por Dolores Haze, sua filha adotiva de 12 anos. O padrasto, então, passa a praticar sexo com a menina, chamada carinhosamente de Lolita. Com esse romance de Nabokov, a literatura passou a abordar de maneira diferente o incesto (daquela praticada, por exemplo, em Édipo Rei). Em Lolita, além do incesto temos a polêmica relação sexual de um homem maduro com uma menina menor de idade.   

 

7. Intertextualidade:

 

O último elemento da textualidade é a intertextualidade. A intertextualidade compreende as "conexões entre o texto e outros textos já experienciados" (MELO, 2010, p. 135). Ou seja, esse conceito estabelece as relações referenciais, explícitas ou implícitas, que determinado romance possui em relação a outros textos, sejam estes orais, escritos, musicais, etc

 

O romancista utiliza-se da intertextualidade para enriquecer sua obra com conexões culturais e como recurso inconsciente do processo criativo. Afinal: "Tudo que lemos e estudamos passa a fazer parte do nosso conhecimento, que transpomos para o texto de forma consciente ou não" (MELO, 2010, p. 135). Há outros dois motivos para seu uso: (1) para validar alguma ideia, sentido ou conceito citado por outro texto ou (2) para contestar a ideia, sentido ou conceito do texto referencial

 

Um bom exemplo de contestação foi utilizado por José Saramago no romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Nesta trama, o escritor português utiliza-se das personagens bíblicas e dos principais temas e passagens da vida de Jesus Cristo. Com esses ingredientes em mãos, Saramago recriou a história do Novo Testamento de acordo com sua visão. O resultado é uma narrativa bastante original e extremamente crítica ao catolicismo. Para o leitor entender boa parte das ironias saramaguianas contidas no livro, é preciso conhecer os relatos originais da Bíblia

 

O exemplo contrário (portanto, de reafirmação a um conceito) pode ser extraído do romance Filhos e Amantes, do inglês D. H. Lawrence. Nesta obra literária de 1913, Lawrence cria um protagonista, Paul Morel, extremamente próximo à mãe. O rapaz trata a matriarca da família com uma ternura desmedida, chegando até a dividir a cama com ela depois de adulto. A impressão que o leitor tem é que eles são amantes e não mãe e filho. O amor que nutre pela mãe é tanto que Paul odeia o pai e não consegue estabelecer uma relação passional com outra mulher. Para se libertar dessa condição, o protagonista precisa matar a mãe, em um ato ambíguo de amor, vingança e autolibertação (EAGLETON, 2006: p.262). Apesar de muito polêmico, Filhos e Amantes tem um enredo baseado no clássico grego Édipo Rei, peça teatral criada por Sófocles, em 427 a.C. Em certo sentido, Paul Morel e sua mãe são a versão moderna de Édipo e Jocasta. 

 

Para identificar a intertextualidade presente em um romance, o analista literário precisa de repertório cultural. Em muitos casos, necessita desenvolver estudos complementares para encontrar as relações com outros textos. Afinal, a intertextualidade na maioria das vezes apresenta-se de maneira oculta na narrativa.

 

Em dezembro, volto à coluna Teoria Literária para falar de tipologia literária, o décimo primeiro e último elemento da narrativa ficcional. Não perca as novidades do Bonas Histórias deste final de ano. Até lá!

 

Bibliografia:

 

BONACORCI, Ricardo. Análise Literária dos Romances de Rubem Fonseca - Investigando a Nova Literatura Brasileira. Projeto de Iniciação Científica. Varginha: Centro Universitário do Sul de Minas (UNIS-MG), 2019.

 

COSTA VAL, Maria da Graça. Repensando a textualidade. In: AZEREDO, J. C. (org.). Língua Portuguesa em Debate: conhecimento e ensino. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 34-51.

 

COUTO, Mia. E Se Obama Fosse Africano? São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

 

KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. São Paulo: Contexto, 2003.

 

KUNDERA, Milan. A Arte do Romance. 1a ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

 

LIMA, Maria Conceição Alves de. Textualidade e Ensino: Os Aspectos Lógico-semântico-cognitivos da Linguagem e o Desempenho Discursivo Escolar. São Paulo: UNESP, 2006. Disponível em: <http://books.google.com.br/books?id=K0yeD0HzPkUC&dq=o+que+%C3%A9+textualidade%3F&source=gbs_navlinks_s > Acesso em 15/09/2017

 

MELO, Carina Adriele Duarte de. Guia de Estudo Comunicação e Expressão. Varginha: GEaD-UNIS-MG, 2010.

 

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