• Ricardo Bonacorci

Filmes: Parasita - O suspense sul-coreano de Bong Joon Ho


É inegável que Bong Joon Ho seja um dos principais nomes do cinema sul-coreano da atualidade. Quem assistiu aos excelentes “Memórias de um Assassino” (Salinui Chueok: 2003), “Hospedeiro” (Gwoemul: 2006) e “Mother - A Busca pela Verdade” (Madeo: 2009), conhece bem a força das narrativas deste cineasta. Depois dos bons “Expresso do Amanhã” (Seol Gungnyeo Cha: 2013) e “Okja (2017), Bong volta ao patamar mais alto de sua carreira. “Parasita” (Gisaengchung: 2019), seu sétimo longa-metragem, conquistou, em maio, a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Trata-se da primeira produção sul-coreana a ganhar tal prêmio e o primeiro filme, desde 2013, a vencer com votação unânime dos jurados. Não à toa, ele chega com certo favoritismo à disputa do Oscar do ano que vem (concorre na categoria Melhor Filme Internacional - chamada antigamente de Melhor Filme Estrangeiro).

Conferi “Parasita” no final de semana retrasado, quando ele foi lançado no circuito comercial brasileiro. E é preciso admitir: realmente temos aqui uma produção digna dos principais prêmios do cinema mundial. Como é típico dos longas-metragens sul-coreanos, Bong Joon Ho mistura vários gêneros cinematográficos em uma mesma história. Assim, “Parasita” pode ser classificado como comédia, drama, suspense, terror e aventura. Desta vez, o que não temos é o elemento da fantasia, que permeia a maioria dos trabalhos anteriores de Bong. Com isso, o filme adquire um forte tom de realismo (realidade nua e crua!). Ao mesmo tempo, o novo título ganha uma intensa conotação de crítica social, algo inusitado quando pensamos em um país como a Coreia do Sul (entre os mais desenvolvidos e ricos do planeta).

Em “Parasita”, Bong Joon Ho conta mais uma vez com Kang-ho Song, ator sul-coreano presente em quase todos os filmes do diretor. E mais uma vez, Song mostra todo seu talento cênico. Há quem o coloque (com justiça) até no páreo da disputa de melhor ator do Oscar de 2020. “Parasita” ainda tem em seu elenco: Hye-jin Jang, Woo-sik Choi, So-dam Park, Yeo-jeong Cho, Ji-so Jung, Hyun-joon Jung, Sun-kyun Lee e Jung-eun Lee. Além da ótima história, escrita por Bong, temos um trabalho impecável do time de atores.

Orçado em US$ 11 milhões, “Parasita” foi lançado em maio na Coreia do Sul e entre outubro e novembro no exterior. Até o momento, seu faturamento é quinze vezes superior ao seu custo, o que o transformou, desde já, no maior sucesso comercial da carreira de Bong Joon Ho.

O enredo deste filme focaliza o drama da família Kim, moradores pobres de um porão infestado por insetos e sujeira. Sem dinheiro e sem trabalho fixo, eles se viram como podem para conseguir comprar de vez em quando comida e bebida. A internet para seus celulares eles roubam dos vizinhos. O pai, Ki-taek (interpretado por Kang-ho Song), perdeu há anos o emprego e agora passa o dia dormindo em casa. A mãe, Chung-sook (Hye-jin Jang), só consegue de vez em quando um bico aqui e outro ali. A última ocupação que obteve foi montar caixas de pizza para um estabelecimento do bairro. Os filhos, Ki-woo (Woo-sik Choi) e Ki-jung (So-dam Park), não estudam nem trabalham. Apesar de muito inteligentes, eles passam o dia sem fazer nada de produtivo. Contudo, na hora de montar as caixas de pizza, a família se une. Se é para conseguir um trocado, eles colocam a mão na massa. Mesmo assim, o que ganham não dá para se sustentar.

A vida de carências e de pobreza dos Kim parece ter fim quando Ki-woo consegue um emprego de professor particular de inglês na casa dos Park, uma família riquíssima. Mesmo sem ter fluência no idioma ou prática na docência, o rapaz se lança ao desafio de ensinar sua aluna adolescente. Rapidamente, os Park gostam de Ki-woo Kim. Com habilidade, certo charme, algum puxa-saquismo e muita trambicagem, o jovem professor consegue empregar seus parentes naquela mansão. É verdade que ele conta também com a ingenuidade da Sra. Park (Yeo-jeong Cho), o bom coração do Sr. Park (Sun-kyun Lee) e a paixonite da Srta. Park (Ji-so Jung). Assim, a irmã de Ki-woo é alçada à professora de artes do filho pequeno dos Park. O pai vira motorista da casa. E a mãe se torna a governanta. Os tempos de falta de dinheiro dos Kim ficaram definitivamente para trás.

A rotina propiciada pelos novos empregos mexe com Ki-taek, Chung-sook, Ki-woo e Ki-jung. A vida de luxo e de glamour na residência dos patrões endinheirados sobe à cabeça dos quatro protagonistas. Os Kim passam, então, a ambicionar a posse daquela casa e a sonhar com um cotidiano de total tranquilidade e conforto. Como eles conseguirão isso se são meros funcionários? A grande oportunidade que o quarteto tem é uma viagem de final de semana dos patrões. Os Park passarão alguns dias viajando. E a casa ficará sem ninguém. O plano da família Kim é usar esse tempo para desfrutar ao máximo a boa-vida. Contudo, um inusitado contratempo colocará seus planos em risco. Eles não são os únicos larápios que estão enganando os moradores daquela residência...

“Parasita” tem duração de 2 horas e 15 minutos. O filme é inegavelmente eletrizante. O que mais gostei nele foram: a mudança constante de tom narrativo, a forte crítica à ambição humana, a excelente construção das personagens, a profundidade dramática de sua história, a atuação primorosa do seu elenco, a coleção interminável de reviravoltas e o humor negro desta trama.

Em relação ao primeiro elemento, o filme muda de tempos e tempos de panorama. No início, temos um drama social sensível e genuíno. Depois, ele se torna um thriller cômico. As trapaças da família Kim dão grande colorido às ações na telona. Na sequência, assistimos a uma narrativa melodramática. Pouco a pouco, a alegria pela conquista dos empregos pela família de protagonista se transforma em uma angústia existencial. Por fim, o longa-metragem descamba para o terror sanguinolento e, em seguida, para uma trama policial. As últimas cenas ainda possuem um tom onírico. Sinceramente, adorei esse choque de diferentes emoções. Se há uma coisa que não podemos reclamar de “Parasita” é de tédio. A todo momento está acontecendo alguma coisa distinta.

Note o quão ácido é esta história. O filme de Bong Joon Ho aborda direta e indiretamente várias questões delicadas, interessantíssimas e universais da sociedade contemporânea. Se a crítica social estava em primeiro plano no começo do longa-metragem, o que vemos no meio da trama é a forte crítica ao comportamento inconsequente das pessoas ao tentar enriquecer. O que alguém é capaz de fazer para subir na vida? Já no final, a questão principal é o orgulho próprio e o desejo de vingança. Mais legal do que a proposta de debate é a maneira como esses assuntos são levantados. De certa forma, “Parasita” resvala na temática de “Que Horas Ela Volta?” (2015). Porém, o filme sul-coreano não poderia ser mais diferente do brasileiro em sua estética e na sua concepção cinematográfica. Incrível ver um mesmo assunto apresentado de jeitos tão distintos.

Muito provavelmente, “Parasita” não teria tanta graça se não fosse a excelente construção de suas personagens. Todas as figuras retratadas no filme são personagens esféricas (não me recordo agora de nenhuma personagem plana). Todos possuem defeitos e qualidades evidentes. E, dependendo da situação, esses diferentes aspectos de suas personalidades são aflorados, tanto para o bem quanto para o mal. Em certo momento da trama, é difícil definir com precisão quem são os heróis do longa e quem são os vilões. Por isso, não se surpreenda se você torcer a favor dos anti-heróis, que apesar de todos os seus defeitos ainda sim conseguem nos cativar (eles são extremamente carismáticos).

Essas overdoses de contradições dão grande profundidade dramática à história. Você só reparará nisso quando, ao final da sessão, alguém perguntar para um grupo grande de espectadores: afinal, sobre o que trata exatamente “Parasita”? Tenha certeza: as respostas serão muito variadas (e, por vezes, contraditórias). Cada um irá enxergar essa narrativa de uma forma particular. Eu, por exemplo, fiquei maravilhado com o espelhamento entre as famílias de protagonistas. De certa maneira, os Kim e os Park possuem comportamentos muito parecidos, apesar de serem de classes sociais opostas. Ambos expulsam aqueles que ousam atrapalhar a harmonia doméstica (lembremos como as personagens pobres tratam o mendigo bêbado que os visita todas as noites) e tem como ponto de referência suas janelas (com visões totalmente distintas da realidade sul-coreana). Incrível!

Algo que inegavelmente ajudou na riqueza do conteúdo do filme foi a atuação primoroso dos atores e das atrizes (algo nem sempre comum de ser encontrado em uma produção em que oito, nove, dez pessoas dividem o tempo inteiro a cena). Se Kang-ho Song foi espetacular no papel de Ki-taek Kim, seus colegas não ficaram tão atrás. Sinceramente não sei qual núcleo esteve melhor: o da família Kim ou da família Park. Acho que os dois estiveram em um patamar altíssimo.

É preciso falar também das várias reviravoltas que o filme dá. Se algumas mudanças narrativas são até previsíveis, outras são totalmente inesperadas. Em muitas oportunidades, o público é pego de calças curtas. Por isso, prepare-se para viver fortes emoções. Na parte final temos as maiores revelações, capazes de não apenas destruir as dinâmicas das famílias retratadas como de alterar completamente o panorama do longa-metragem.

Por fim, “Parasita” pode ser classificado como um filme de humor negro. A comicidade é provocada na maioria das vezes pelo comportamento disruptivo, inconsequente, antiético e amalucado de suas personagens. É verdade que muitas passagens do longa-metragem são mais engraçadas para o público coreano, que entende melhor as referências (por exemplo, o discurso das apresentadoras da televisão norte-coreana) e a realidade retratada (a construção de abrigos contra-ataques aéreos, as casas pobres estão no subsolo da cidade e o hábito das classes média e alta de terem um nome americanizado). Mesmo assim, é possível dar boas risadas em sua sessão. A risada aqui é do tipo nervosa, aquela que você tem sabendo que daqui a pouco algo sairá do controle e vai se voltar contra você (no caso, contra as personagens).

“Parasita” é um ótimo filme, que vale a pena ser assistido. Ainda bem que estamos em uma ótima fase. Várias excelentes produções estão em cartaz neste momento nos cinemas brasileiros. Fica até difícil dizer qual é a melhor. Dos meus favoritos, posso citar “Morto Não Fala” (2019), terror nacional, “A Odisseia dos Tontos” (La Odisea de Los Giles: 2019), suspense argentino, “Coringa” (Joker: 2019), drama norte-americano extremamente violento, “Rainha de Copas” (Dronningen: 2019), thriller sueco-dinamarquês, “Um Dia de Chuva em Nova York” (A Rainy Day in New York: 2019), comédia-romântica de Woody Allen, e “Doutor Sono” (Doctor Sleep: 2019), suspense baseado em obra de Stephen King. E, obviamente, agora incluo “Parasita” nesta lista. Que tal pegar um cineminha hoje à noite, hein?

Assista, a seguir, ao trailer de “Parasita”:

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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