• Ricardo Bonacorci

Livros: A Obscena Senhora D – A novela ousada de Hilda Hilst


Neste final de semana, li “A Obscena Senhora D” (Globo), uma das novelas mais ousadas de Hilda Hilst. Escritora polêmica, instigante e à frente do seu tempo, Hilst se notabilizou pela produção poética. Versátil, ela escreveu também prosa, dramaturgia e crônica. Em vida, sua obra sempre ficou meio que à margem, um tanto ignorada pelo público leitor e desprezada pelo mercado editorial. Por muito tempo, a figura excêntrica da autora teve mais destaque na mídia do que seus trabalhos. Por isso mesmo, no ano passado, a FLIP homenageou Hilst e sua literatura. Era o ápice de um processo de retomada/releitura de uma, até então, subvalorizada escritora brasileira da segunda metade do século XX.

Resolvi ler “A Obscena Senhora D” por indicação da Carol Zuppo Abed, minha ex-professora do Instituto Vera Cruz (beijo, Carolzinha!). No ano passado, quando perguntei se ela tinha algum livro para sugerir para o Talk Show Literário (tenho essa obsessão por questionar meus professores sobre isso), ela foi categórica em apontar a novela de Hilda Hilst como um bom material para ser trabalhado. Assim, hoje, apresento a análise crítica de “A Obscena Senhora D” neste post do Bonas Histórias. E no ano que vem, podem esperar, teremos Hillé, a protagonista desta trama, como uma das entrevistadas de Darico Nobar. O bate-papo com a personagem de Hilst integrará a quarta temporada dos Clássicos Brasileiros do Talk Show Literário.

Escrito em 1981 e publicado em 1982, “A Obscena Senhora D” é a quinta narrativa em prosa da autora. Quando o livro chegou às livrarias brasileiras, Hilda Hilst já tinha 52 anos de idade e mais de 30 de carreira. Era, portanto, alguém em plena maturidade pessoal e profissional. Nesta época, ela tinha se separado a pouco do marido, o escultor Dante Casarini, e havia começado a participar do Programa do Artista Residente na UNICAMP.

Se fossemos dividir a literatura de Hilst em estágios, podemos pontuar a primeira fase como poética (nas décadas de 1950 e 1960), a segunda como dramaturga (nos anos de 1960) e a terceira como prosa ficcional (depois de 1970). Obviamente, essas divisões são meramente simbólicas, pois Hilda continuou produzindo, por exemplo, poesia até o final da vida.

Na fase da prosa ficcional, podemos ainda enxergar uma subdivisão. A autora começou produzindo, nas décadas de 1970 e 1980, narrativas sérias e com uma pegada filosófico-existencialista. Os melhores títulos desse momento são “Ficções” (Quiron), de 1977, e “Tu Não Te Moves de Ti” (Globo), de 1980. Depois, Hilda descambou, na década de 1990, para a pornografia e para os textos nem um pouco sérios. Os melhores exemplares desse estágio são “O Caderno Rosa de Lory Lamby” (Globo), de 1990, e “Cartas de um Sedutor” (Globo), de 1991. Assim, podemos dizer que “A Obscena Senhora D” faz parte da fase de prosa ficcional séria e filosófica da escritora (a minha favorita!).

A protagonista da novela é Hillé, uma senhora de 60 anos de idade. Viúva e sem filhos, ela passa os dias sozinha dentro de sua casa. A morte do marido, Ehud, abalou-a consideravelmente. A impressão que se tem é que Hillé enlouqueceu. Ela anda pelada pela sua residência, indiferente aos olhares perplexos dos vizinhos. Ela gosta de ficar com as janelas fechadas para manter o ambiente interno o mais escuro possível. Quando algum garoto aparece para espiar o que se passa por lá, Hillé os espanta com caretas assustadoras. Ela também prefere habitar um local específico da residência: a parte de baixo das escadas. Esse é um cantinho em que a viúva guarda boas lembranças do marido. E por falar em Ehud, ele é presença constante na mente da esposa. Ela continua falando com o esposo, rememorando obsessivamente diálogos e situações do passado.

Apesar de o quadro da protagonista ter piorado muito nos últimos anos, as excentricidades de Hillé começaram antes mesmo da viuvez. Ainda jovem, a mulher não parava de questionar Ehud sobre questões existencialistas: onde estaria Deus?; o que vem depois da morte?; qual a razão da vida humana?; o que seria pecado?; quanto tempo dura o amor?; etc. De tão bombardeado que era pelas perguntas da amada, Ehud dizia que não iria viver muito. Segundo sua crença, o interrogatório interminável que estava sujeito diariamente iria matá-lo antes que ele completasse 60 anos. Esse hábito de fazer perguntas profundamente reflexivas era uma mania de Hillé (o companheiro era apenas a principal vítima). Ela provocava situações embaraçosas quando questionava amigos, conhecidos, vizinhos e parentes sobre os assuntos que ninguém parava para pensar no dia a dia (e que causavam algum tipo de bate-boca quando suscitados).

Por causa do comportamento melancólico, introspectivo e, principalmente, inquisitor da esposa, Ehud a apelidou de Senhora D. O D, nesse caso, significava derrelição: uma espécie de desamparo e abandono. A alma de Hillé buscava de forma doentia explicações para uma infinidade de questões filosóficas que não podiam ser esclarecidas facilmente pelo pobre do marido e pelas pessoas que estavam a sua volta. Enquanto Hillé não parava de fazer perguntas, tudo o que Ehud queria era que ela lhe fizesse um cafezinho. Ela nunca fez um cafezinho para ele.

“A Obscena Senhora D” é um livro bem curtinho. Ele não tem mais do que 100 páginas. Além disso, sua diagramação é bastante generosa, com espaçamento duplo e margens com recuos longos. À primeira vista, o leitor pensa que é possível ler a obra inteira em aproximadamente uma hora. Ledo engano! A complexidade psicológica da trama e a polifonia narrativa exigem uma leitura atenta e, por consequência, lenta. Não se surpreenda se você gastar três ou quatro vezes mais tempo do que está habituado para percorrer essa quantidade de páginas. E também não estranhe se, ao final da leitura, você quiser recomeçá-la. A sensação de incompreensão é normal. Hilda Hilst faz parte do grupo de escritores que acredita na inteligência do seu leitor e, assim sendo, não entrega nada mastigadinho para ele.

A primeira característica que chama a atenção neste livro é a sua polifonia. A multiplicidade e a mistura de vozes são intensas do início ao término da publicação. Praticamente não há um narrador exclusivo, mas várias personagens falando simultaneamente à trama. Nesse jogo intrincado de vozes ainda temos os pensamentos da protagonista embaralhando-se ao texto. O único ponto em comum entre o amontoado de debates (eles não são pontuados claramente, não sendo possível identificar facilmente quando começam e quando terminam) é a discussão sobre a personalidade inusitada de Hillé, a tal Senhora D. Assim, um dos maiores desafios do leitor é descobrir quem diz o quê. A miscelânea de vozes também inclui diferentes cenários e períodos de tempo distintos. Onde e quando os discursos são realizados representam outra preocupação do leitor. Se no começo esse recurso causa alguma confusão, depois de algumas páginas já é possível se acostumar com ele e, até mesmo, entender o que está acontecendo na narrativa.

“A Obscena Senhora D” não é um monólogo, como se imagina no início, e sim uma longa e abrangente coleção de interlocuções. Não há nesta novela nenhuma divisão de capítulo. O texto é contínuo, o que confere a sensação de um fluxo de consciência. Essa opção narrativa dá mais dinamismo ao livro, porém o torna extremamente perigoso para um leitor desatento e/ou desinteressado em descobrir os caminhos sinuosos criados pela autora. Além disso, mais importante do que entender a história em si é vivenciar a experiência estética proposta por Hilda Hilst. E nisso, esta obra é espetacular.

Em minha leitura de “A Obscena Senhora D”, entendi que a polifonia da novela não é algo externo à mente da protagonista e sim um processo interno (fluxo de consciência). Isso é o mais legal. As múltiplas vozes que ouvimos estão dentro da cabeça de Hillé. A narrativa seria, portanto, a exposição catártica dos meandros psicológicos (consciente ou inconsciente) da personagem principal. As conversas antigas com o marido, os diálogos entre os vizinhos que escaparam para os ouvidos da viúva, os xingamentos proferidos contra Hillé, tudo sai da mente perturbada da Senhora D. A impressão que tive é de estar mergulhando fundo na psicologia insana dessa personagem amargurada. E essa amargura é fruto das questões não respondidas que ela tanto anseia em descobrir e da ausência do companheiro de tantos anos.

Outra questão forte em “A Obscena Senhora D” é o jeito desbocado da protagonista e, por consequência, da autora. A dupla Hillé/Hilst não tem pudor de falar de sexo e de ser escatológica. A mistura de elementos existencialistas com a linguagem chula e, por vezes, pornográfica dá um ar meio cômico à narrativa. Acho que o livro deve ter causado muita polêmica quando lançado, principalmente entre os leitores mais conservadores.

De alguma maneira, esta novela de Hilda Hilst faz referências a algumas obras literárias marcantes: “Ulysses” (Penguin), de James Joyce, pela questão caótica da apresentação do fluxo de consciência, “Memórias do Subsolo” (Editora 34), de Fiódor Dostoièvski, pelo aspecto mórbido e transloucado do protagonista, “A Queda” (Record), de Albert Camus, pelo debate abertamente filosófico da trama, e “Anna Karenina” (Penguin), de Leon Tolstói, pela polêmica em relação à personalidade da personagem principal. Em alguns momentos, lembrei-me de tramas apimentadas de Nelson Rodrigues, apesar de Hilst usar temos chulos, algo que o pernambucano nunca fez.

Admito ter gostado muito de “A Obscena Senhora D”. Esta leitura mistura os dois aspectos mais interessantes da prosa ficcional da escritora paulista: a reflexão existencialista e a narrativa escrachada. Para completar, Hilst enriquece a experiência de leitura ao propor uma inusitada viagem pela psicologia de uma das mais polêmicas personagens da literatura brasileira.

Quem se interessou pela entrevista de Hillé no Talk Show Literário, saiba que o programa com a protagonista de “A Obscena Senhora D” está agendado para ir ao ar em julho de 2020, na quarta temporada dos Clássicos Brasileiros. Por isso, não perca as novidades do Bonas Histórias do próximo ano.

Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

#HildaHilst #Novela #Existencialismo #LiteraturaClássica #LiteraturaBrasileira

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento