• Ricardo Bonacorci

Filmes: Um Dia de Chuva em Nova York - O bom e velho Woody Allen


No final de novembro, estreou nos cinemas brasileiros o novo filme de Woody Allen. “Um Dia de Chuva em Nova York” (A Rainy Day in New York: 2018) é a comédia romântica que marca a volta do cineasta norte-americano à sua cidade natal. Assim, temos um longa-metragem que mistura as características das produções de Allen das décadas de 1970 e 1980 com o estilo de suas produções mais recentes - fase internacional iniciada com “Ponto Final - Match Point” (Match Point: 2005). Quem é fã do diretor nova-iorquino (e deixa suas polêmicas em segundo plano) não pode perder “Um Dia de Chuva em Nova York”. Assisti ao filme no primeiro final de semana em cartaz, mas só agora consegui escrever uma crítica no Bonas Histórias.

O lançamento de “Um Dia de Chuva em Nova York” foi, infelizmente, marcado por muitas polêmicas. Por causa do movimento #MeToo, que a partir de 2017 evidenciou os casos de abuso sexual no mundo artístico, Woody Allen teve que explicar mais uma vez um episódio nebuloso do seu passado. Em 2014, ele foi acusado de ter assediado a enteada, Dylan Farrow, quando ela era ainda uma criança. Dylan é filha de Mia Farrow, ex-esposa do cineasta. A jovem acusa o padrasto de tê-la assediado em 1992, quando ela tinha 7 anos de idade. A investigação da polícia norte-americana inocentou o diretor, mas o episódio voltou a ganhar os holofotes da mídia com o ápice do #MeToo. Muita gente do mundo artístico riscou o nome de Allen de sua agenda de amigos e de admiradores.

Como consequência da revitalização do escândalo sexual, Woody Allen perdeu o recente contrato comercial que tinha assinado com a Amazon. A empresa de Jeff Bezos bancaria a produção de quatro filmes do cineasta. “Um Dia de Chuva em Nova York” seria o primeiro desta parceria. Mesmo sem o apoio da Amazon, que rompeu o contrato após a volta das notícias comprometedoras sobre Allen, o filme foi rodado. Contudo, na hora de lançá-lo, novos problemas apareceram. Nenhuma distribuidora se interessou em veicular o filme nos Estados Unidos. Parte do elenco também se colocou contrário às atitudes de Allen, se recusando a participar dos eventos de lançamento. Por tudo isso, “Um Dia de Chuva em Nova York” chegou aos cinemas internacionais muito atrasado (era para ter entrado em cartaz no ano passado) e bastante chamuscado.

Polêmicas à parte, o novo longa-metragem é o quinquagésimo sétimo de Wood Allen. E ele é o primeiro totalmente ambientado em Nova York, uma das características da primeira fase da carreira do diretor (quando esta cidade era quase uma personagem de suas histórias), desde “Melinda e Melinda” (Melinda and Melinda: 2004). Estrelado por Timothée Chalament, Elle Fanning, Selena Gomez, Liev Schreiber, Jude Law e Diego Luna, “Um Dia de Chuva em Nova York” teve um orçamento na casa de US$ 25 milhões.

A trama do longa-metragem inicia-se com Ashleigh Enright (interpretada por Elle Fanning) comunicando ao namorado a necessidade de realizar uma viagem de final de semana a Nova York. A jovem estuda jornalismo em uma pequena universidade do interior. Ela conseguiu marcar uma entrevista com o famoso cineasta Roland Pollard (Liev Schreiber). O material será usado em um trabalho da faculdade. Gatsby (Timothée Chalamet), o namorado de Ashleigh e seu colega na universidade interiorana, fica empolgado com a viagem. Como nova-iorquino e bon vivant, o rapaz irá junto e apresentará a cidade para a amada. O final de semana tem tudo para ser extremamente romântico, uma lua-de-mel informal do jovem casal de namorados.

Ao chegar em Nova York, contudo, os planos de Ashleigh e Gatsby são seriamente alterados. A entrevista com Roland Pollard era para durar apenas uma hora, mas se estende muito (muito mesmo!). O diretor se sente atraído pela jovem jornalista e a convida para acompanhá-lo no final de semana. Ashleigh aceita prontamente a proposta tentadora. Assim, ela conhecerá Ted Davidoff (Jude Law), o roteirista dos filmes de Pollard, e Francisco Vega (Diego Luna), um conhecido galã espanhol de Hollywood. Todos parecem seduzidos pela moça, que rapidamente esquece do namorado.

Entediado sem a presença de Ashleigh, Gatsby passa a flanar sozinho por Nova York, visitando seus lugares favoritos (normalmente estabelecimentos de boa música e que remetem ao charme das décadas de 1950 e 1960, as mais românticas segundo o jovem sonhador). O rapaz é viciado em jogo de Poker e em apostas a cavalos, é apaixonado por música antiga, se comporta como um hedonista inconsequente e possuí o espírito de um saudosista inveterado. Em meio às suas andanças pela metrópole, Gatsby reencontra Chan (Selena Gomez), a irmã caçula de uma antiga ex-namorada. Agora crescida, Chan é totalmente diferente de Ashleigh e do próprio Gatsby: ela é prática e antirromântica, não vendo a vida com a aura idílica do ex-namorado da irmã. A moça passa a desprezar Gatsby e até mesmo a ridicularizá-lo. Paradoxalmente, essa sua postura ácida os aproxima.

Se o plano de Ashleigh e Gatsby era passar o final de semana grudados, eles conseguiram fazer exatamente o oposto. Os dias em Nova York serão a prova de fogo dos sentimentos dos namoradinhos. Será que eles (e, principalmente, seu relacionamento) conseguirão sair ilesos depois das aventuras caóticas pela Big Apple, que insiste em despejar água na cabeça dos moradores e visitantes?

Com uma hora e meia de duração, “Um Dia de Chuva em Nova York” mistura um charme vintage com a acidez sutil das críticas amorosas de Woody Allen. Além disso, o cineasta norte-americano acrescenta no texto do roteiro pitadas de seu humor tragicômico, extraídas dos dramas cotidianos, da melancolia existencial e das angústias íntimas de suas personagens. Ou seja, não há nada mais woodyaliano do que isso, né?

O primeiro elemento que chama a atenção da plateia em “Um Dia de Chuva em Nova York” é a volta de um protagonista-narrador com características autobiográficas (algo comum na primeira fase da carreira de Allen, mas que tinha sido totalmente esquecido na fase internacional). É inegável que Gatsby seja o alter ego do diretor. A personagem de vinte e poucos anos é uma versão juvenil de Woody Allen, incorporando os trejeitos, os gostos, as angústias e o humor negro do cineasta. Só faltaram os óculos grandes e as olhadas diretamente para a câmera. Por uma perspectiva mais objetiva, Gatsby soa extremamente inverossímil (como um jovem pode sentir saudades de uma época em que não viveu?). Por outro lado, quando pensamos em uma construção autobiográfica do cineasta, o protagonista do filme faz sentido.

Como é típico do cinema woodyaliano, temos em “Um Dia de Chuva em Nova York” uma overdose de personagens melancólicas, solitárias, desajustadas socialmente e em crise existencial. Seus relacionamentos amorosos são tão frágeis que podem desmoronar em uma visita despretensiosa até a esquina. Hilário! As surpresas e as reviravoltas da trama também são uma constante do início ao fim do longa-metragem. Por mais negativa e amarga que seja a realidade pintada pelo diretor, suas narrativas ainda sim possuem um charme que cativa a plateia. Admiro o jeito descontraído, leve e aparentemente banal, mas ao mesmo tempo profundo, inteligente e intenso, de Allen em contar suas histórias. Seus desencontros amorosos são primorosos (e inigualáveis).

É preciso citar a maneira magistral do diretor em construir a ambientação do seu novo filme. Nova York não é apenas uma personagem do longa-metragem. A cidade é quase uma das protagonistas. Filmada de uma perspectiva mais delicada, romântica e saudosa, a Big Apple se diferencia daquele lugar visitado normalmente pelos turistas. A cidade retratada na tela é aquela que habita o coração e a alma do cineasta. Incrível! Ambientar quase todo o filme sob uma chuva insistente (ora fina/garoa, ora forte/tempestade) escancara ainda mais o lado poético e sensível desta narrativa. Repare quando a chuva começa e quando ela termina (de uma forma sutil, a água despejada pelas nuvens indica algo relevante do sentimento do protagonista-narrador).

Por falar em chuva, achei o desfecho de “Um Dia de Chuva em Nova York” simplesmente perfeito. Além de surpreendente, ele amarra todos os elementos da trama, sem necessariamente agradar a plateia (ou pelo menos, a grande parte dela). O desenlace do filme mistura o romantismo indolente e exacerbado de Gatsby, a ambição confusa e inconsequente de Ashleigh e a acidez prática e contraditória de Chan. É difícil até mesmo dizer se a narrativa cinematográfica termina com uma mensagem positiva ou negativa. Incrível.

Outros pontos que merecem destaque é a trilha sonora maravilhosa e a excelente atuação da maioria dos atores (só Selena Gomez está um ou dois tons abaixo dos seus colegas). Dos jovens atores, Elle Fanning é o destaque absoluto. Ela está impecável como a caipira que fica deslumbrada com a metrópole e com o universo do show business. Se olharmos para Timothée Chalamet como uma representação de Woody Allen, o rapaz não desaponta.

Por fim, note a forte intertextualidade cinematográfica em “Um Dia de Chuva em Nova York”. Algumas referências são mais diretas como a de Roman Polanski (chamado no filme de Roland Pollard) e Antonio Banderas (Francisco Vega na versão ficcional). Outras são mais sutis, exigindo algum repertório do público, como o caso do roteirista que se revolta com a traição da esposa, apesar de traí-la há anos com várias mulheres (chamado de Ted Davidoff no longa-metragem).

É verdade que este não é o melhor filme de Woody Allen nas duas últimas décadas – posto ainda ocupado por “Blue Jasmine” (2013). Também não será o meu favorito deste período – “Vicky Cristina Barcelona” (2008) permanece insuperável. Também não pode ser apontado como o mais disruptivo dos últimos anos – “Ponto Final – Match Point” (Match Point: 2005) é maravilhoso nesse sentido. Mesmo assim, “Um Dia de Chuva em Nova York” é um filme ótimo que merece um lugar especial no portfólio gigantesco do diretor. Achei-o bem melhor, por exemplo, do que “Homem Irracional” (Irrational Man: 2015), que nem a presença dos incríveis Joaquin Phoenix e Emma Stone conseguiram salvar.

Para os fãs de Allen, “Um Dia de Chuva em Nova York” é a produção que mistura aspectos da antiga fase com a nova (por isso, a repetição de temas e conflitos). Para o público em geral, que não acompanha tão atentamente os longas do norte-americano, temos um filme engraçado, bonito e dinâmico sobre os encontros e desencontros afetivos.

Independentemente das polêmicas em torno do nome e do passado de Woody Allen, continuo admirando seu trabalho e o seu estilo cinematográfico. Além disso, é admirável que um cineasta com mais de 80 anos continue produzindo novas histórias e excelentes filmes todos os anos. Vale a pena lembrar que esse seu ritmo alucinante se mantém ininterrupto há mais de meio século. É preciso tirar o chapéu e enaltecer a força do seu trabalho.

Assista, a seguir, ao trailer de “Um Dia de Chuva em Nova York”:

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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