• Ricardo Bonacorci

Livros: Laika - A novela ilustrada de Nick Abadzis


Nesta semana, em uma passada rápida pela Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, encontrei uma obra curiosa na estante dos destaques do mês: “Laika” (Barricada). Esta novela ilustrada do britânico Nick Abadzis faz uma homenagem à cachorrinha mais famosa da história. Fiquei tão encantado com a proposta deste livro que não consegui deixá-lo na prateleira da biblioteca. Impulsivamente, acabei pegando-o emprestado. Li esta publicação na quarta-feira à noite e, de tão empolgado que fiquei com seu conteúdo, resolvi postar, hoje, sua análise crítica no Bonas Histórias.

Para quem não sabe ou não se lembra, Laika foi a cadelinha soviética que estava abordo do Sputnik II, o primeiro foguete terráqueo a levar um ser vivo para o espaço. O feito aconteceu em outubro de 1957, um mês depois do lançamento do primeiro satélite artificial pelo Sputnik I e quatro anos antes da viagem pioneira de Yuri Gagarin no Vostok I. Vale a pena destacar que o final da década de 1950 e os primeiros anos da década de 1960 representaram o auge da Guerra Fria. E a União Soviética, naquele momento, liderava a Corrida Espacial, uma importante peça da propaganda ideológica do sistema comunista.

A ideia de Nick Abadzis de reconstruir a trajetória de Laika em uma história em quadrinhos é, por si só, sensacional. Porém, tal projeto editorial exigiu do autor longas pesquisas biográficas e bibliográficas. O ilustrador que mora há tempos em Nova York precisou viajar inúmeras vezes para a Rússia e para a Europa para montar o quebra-cabeça da vida da cachorrinha e dos profissionais envolvidos no Programa Espacial Soviético. Esse trabalho documental levou alguns anos. Obviamente, Abadzis utilizou-se da sua imaginação e da sua criatividade para preencher as lacunas deixadas por sua pesquisa. O livro, portanto, mistura realidade e ficção.

Publicado em 2007, justamente no aniversário do cinquentenário da viagem espacial do Sputnik II, “Laika” colecionou prêmios ao redor do mundo. Em 2008, a HQ de Abadzis conquistou o Prêmio Eisner de melhor novela gráfica infantojuvenil, além de ter sido indicada como melhor enredo baseado em fatos reais. No mesmo ano, “Laika” foi indicado ao Prêmio Harvey na categoria de melhor álbum gráfico original. Depois do sucesso nos Estados Unidos, as premiações passaram a vir do outro lado do Atlântico. Em 2009, na França, o livro ganhou o Festival do Livro de Borget na categoria melhor história e, na Itália, foi considerado o melhor romance gráfico em língua estrangeira no Napoli Comicon Awards. No Brasil, esta novela ilustrada foi publicada apenas em 2017, com dez anos de atraso em relação à edição norte-americana.

Nick Abadzis nasceu em 1965. E, desde a primeira metade da década de 1980, trabalha como ilustrador de quadrinhos. Ao longo do tempo, ele assinou suas criações com vários pseudônimos. Em sua carreira, Abadzis atuou para as gigantes do HQ norte-americano: Marvel, Titan e DC. Aos vinte e um anos de idade, o britânico já era o mais jovem editor da história da Marvel, um feito que permanece intacto até hoje. Na Europa, Nick Abadzis coleciona passagens pelo Dargaud e Glénat e, no Japão, pelo Kodansha. Ele também foi colaborador dos jornais The Guardian, The Times e The Independent, além de ter sido roteirista do seriado televisivo The Doctor Who. Seu trabalho mais notável até agora é, indiscutivelmente, “Laika”.

A trama de “Laika” começa em 1939, na Sibéria. O jovem Serguéi Pávlovitch Korolióv é solto do gulag onde fora condenado a trabalhos forçados. Ali, ele padeceu de fome, esgotamento físico e frio. Apesar do sofrimento pela condenação injusta, o rapaz ganhou, enfim, uma nova chance do governo soviético para retomar sua vida normalmente.

Dezoito anos mais tarde, ainda em liberdade condicional, Korolióv é o engenheiro-chefe do Programa Espacial Soviético. Seu trabalho se tornou conhecido mundialmente em outubro de 1957. Nessa data, o Sputnik I levou para o espaço o primeiro satélite artificial da história. O feito virou notícia nos jornais nos quatro cantos do planeta e se tornou uma importante peça da propaganda soviética. Nesse período, Estados Unidos e União Soviética enfrentavam-se ideologicamente. Eram tempos de Guerra Fria. E o programa espacial de ambos indicava, segundo a concepção dos seus governantes, o quanto seu sistema econômico (capitalismo ou comunismo) era ou não superior ao do adversário.

Ciente da repercussão positiva da proeza do Sputnik I, Nikita Khrushchov, líder soviético, convoca Serguéi Korolióv para uma reunião no Kremlin. A ordem do comandante do país é que o engenheiro-chefe realize um feito ainda mais extraordinário no quadragésimo aniversário da Revolução Russa. Korolióv pensa a respeito e lança a ideia: “E se eles enviassem o primeiro ser vivo para o espaço?”. Khrushchov adora a proposta e, imediatamente, Korolióv inicia o projeto do Sputnik II.

O problema é que o aniversário da Revolução Russa será dali um mês. Ou seja, o engenheiro-chefe e sua equipe têm apenas 30 dias para enviar um foguete para o espaço com o primeiro terráqueo a bordo. Pelo tempo reduzido de trabalho e pelos riscos da missão, rapidamente os soviéticos descartam que o viajante pioneiro seja um homem. Assim, o primeiro cosmonauta será um cachorrinho. Esse é o encerramento da primeira parte da novela de Abadzis.

No início da segunda parte de “Laika”, a história volta um pouco no tempo e sofre uma mudança sensível de foco narrativo. Deixamos de acompanhar Serguéi Korolióv e passamos a ver a história de Kudriávka. Em 1954, em Moscou, uma cachorrinha dá a luz a sete filhotes na casa de importantes figuras do governo federal. Cabe a Tatiana, a empregada, a tarefa de se livrar das crias da cadela. Afinal, uma residência tão conceituada como aquela não pode abrigar tantos cachorros. Com bom coração, Tatiana doa cada filhotinho para uma família. Kudriávka, a cachorrinha que a filha de Tatiana mais se afeiçoou, é dada para Mikhaih, um menino genioso e malcriado, cuidar.

O garoto faz Kudriávka sofrer muito, trancando-a no quarto escuro e se esquecendo de dar água, comida e carinho. Cansado do bichinho, Mikhaih atira a pequena Kudriávka em um rio. Por sorte, a cadelinha sobrevive e passa a viver nas ruas de Moscou. Esperta, ela consegue fugir sempre da carrocinha.

Dois anos mais tarde, entretanto, a cachorrinha, agora já crescida, é, enfim, capturada pela carrocinha. É o fim dos dias de liberdade nas ruas de Moscou. Pela sua esperteza, Kudriávka é levada para o Programa Espacial Soviético. Inicia-se, dessa maneira, a terceira parte da trama. Kudriávka é colocada aos cuidados de Elena Alexandrovna Dubrovskaia, veterinária-chefe do Instituto de Medicina da Aviação. É Elena quem nomeia a cachorrinha recém-chegada coincidentemente de Kudriávka, por causa do formato de seu rabinho. Curiosamente, esse é o mesmo nome que lhe tinha sido dado pela filha de Tatiana.

Alguns meses depois, ao se destacar na equipe de cadelas de Elena Dubrovskaia nos exercícios de simulação de voo, Kudriávka recebe um novo nome: Laika. Dessa vez, quem é o responsável pela nomeação é o governo da União Soviética, interessado em transformar o animalzinho em peça de sua propaganda ideológica. Quando isso acontece, a cachorrinha já foi escolhida para tripular o Sputnik II, viagem essa que entraria para a história da humanidade. Sem saber o que o futuro lhe reserva, Kudriávka/Laika vê sua dona, Elena, padecer de sofrimento. A veterinária não suporta a ideia de se afastar da sua cachorrinha predileta.

“Laika” é uma história em quadrinhos de leitura fácil, gostosa e rápida. Acho que concluí suas pouco mais de 200 páginas em uma hora e meia. É possível ler a obra de Nick Abadzis de uma só vez. Quem não consegue ficar tanto tempo concentrado lendo, opte por interromper a leitura no final das partes. São quatro. De maneira interessante, elas dividem muito bem a narrativa em momentos distintos e permitem ao leitor um respiro.

O primeiro aspecto que chama a atenção neste livro é a composição histórica de sua trama. O trabalho de reconstituição dos acontecimentos da época da Guerra Fria e da vida na União Soviética entre as décadas de 1930 e 1950 é impecável. O leitor se sente realmente vivenciando os momentos históricos do século passado como se eles estivessem acontecendo hoje, agora. Os detalhes da Guerra Fria, o embate ideológico e político entre Estados Unidos e União Soviética, a burocracia estatal em Moscou, o drama dos engenheiros envolvidos no Programa Espacial Soviético, as particularidades dos poderosos e as preocupações das pessoas comuns transformam “Laika” em uma excelente novela histórica.

Essa construção temporal é tão bem-feita que chegamos a acreditar em todos os fatos narrados, inclusive na biografia de Kudriávka/Laika. É claro que a trajetória de vida de uma cachorrinha não pode ser refeita com tantos detalhes como apresentados nesta novela. Nesse ponto da narrativa, Nick Abadzis usou e abusou de sua criatividade. Para o leitor, fica quase impossível saber onde começa a ficção e onde termina a realidade.

Outra escolha muito feliz do autor foi o acréscimo de boas doses de dramaticidade à história. Em meio a feitos grandiosos da nação, o que encontramos de fato é uma coleção interminável de sofrimento pessoal (e animal). Desde o engenheiro-chefe e a veterinária até a menina pobre e sua cachorrinha abandonada nas ruas, todos são passíveis de padecer de muita dor. Os dias não são fáceis para ninguém. As injustiças, as violências e as maldades podem ser políticas de estado ou mesmo ações individuais. Prepare-se, portanto, para chorar (ou para segurar o choro) à medida que a novela se desenrola).

Nesse sentido, as constantes trocas de foco narrativo (narrador em terceira pessoa muito próximo a diferentes personagens) ajudam a construir o tom dramático da história. Praticamente acompanhamos os momentos de maior drama de várias figuras: na primeira parte temos o sofrimento de Serguéi Korolióv, na segunda o de Tatiana, de sua filha e de Kudriávka, e nas duas partes finais vemos o padecimento de Elena Dubrovskaia e Kudriávka. Se por um lado, essas constantes mudanças de ponto de vista narrativo podem causar alguma estranheza para quem estuda Teoria Literária (em particular, os estudiosos do foco narrativo), por outro lado elas se encaixam perfeitamente na proposta de Abadzis. Com isso, temos uma história extremamente emocionante.

Gostei também da composição das personagens. Há figuras redondas (como Serguéi Korolióv) e planas (como Elena Dubrovskaia). Há vilões (por exemplo, Mikhaih) e heróis (Kudriávka). Como narrativa, “Laika” é impecável. Juro que não consegui encontrar nenhum ponto falho nessa construção (a única exceção é a respeito do foco narrativo – já comentado no parágrafo anterior).

Se a narrativa é excelente, as ilustrações do livro não ficam atrás. Nota-se o talento de Nick Abadzis para contar histórias tanto através de palavras quanto pelas imagens. Boa parte do conteúdo narrado em “Laika” se dá apenas visualmente. Repare na construção dos quadros da HQ. Seus tamanhos distintos e o acréscimo de imagens fora de ordem dão graça à trama e reforçam o seu apelo dramático. Quando insere elementos textuais, Nick Abadzis também consegue surpreender. Ele, por exemplo, dá voz aos latidos dos cachorros, um recurso ousado e interessante que aproxima ainda mais os leitores dos animaizinhos.

“Laika” merece todos os prêmios conquistados e Nick Abadzis precisa continuar recebendo os elogios por esta produção. Fiquei tão encantado com esta novela ilustrada que, assim que devolvi o material emprestado na Biblioteca Mário de Andrade, passei na Livraria Cultura da Avenida Paulista para comprá-lo. Queria ter esta obra em minha biblioteca particular. Infelizmente, o título não estava à disposição na loja. Por isso, comprei-o, ontem à noite, pelo site. Agora estou aguardando chegar. Só vou sossegar quando ter “Laika” novamente em minhas mãos e o colocar na prateleira do meu quarto.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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