• Ricardo Bonacorci

Livros: Capão Pecado – A literatura marginal de Ferréz


Hoje, vamos falar no Bonas Histórias de “Capão Pecado” (Tusquets), a principal obra literária de Ferréz. O livro ambientado no Capão Redondo, bairro suburbano de São Paulo onde o escritor cresceu e viveu, é considerado o precursor da nova fase da Literatura Marginal brasileira. Este tipo de literatura, agora chamado também de periférica, nasceu no final da década de 1960 e se desenvolveu nos anos de 1970. João Antônio e Plínio Marcos foram os principais adeptos desse estilo no período inicial. Entre as décadas de 1980 e 1990, Sérgio Vaz passou a produzir livros nessa linha, transformando-se em outro grande nome dessa corrente literária.

A proposta desse grupo de artistas era retratar a vida difícil da camada mais simples da população. Esses textos conferiam um olhar humano e extremamente realista para os problemas das pessoas marginalizadas socialmente. Enfim, os esquecidos pelos órgãos públicos e, por que não, pelo mercado editorial ganhavam representatividade e voz na literatura. Tanto a prosa quanto a poesia, além das artes cênicas e cinematográficas, embarcaram nessa linha estético-conceitual.

Depois de alguns anos de esquecimento, principalmente na segunda metade dos anos de 1990, a Literatura Marginal foi retomada com força no século XXI. E muito dessa revitalização é creditada a “Capão Pecado”. Com o lançamento e o sucesso do romance de Ferréz, muitos autores vindos de regiões afastadas dos grandes centros urbanos passaram a se autointitular escritores da periferia. Depois da iniciativa bem-sucedida de Ferréz, que conseguiu adentrar no mercado editorial e angariar um público leitor de tamanho respeitado, surgiram vários artistas interessados em seguir os passos do rapaz do Capão Redondo.

Assim, os dramas das pessoas dos bairros mais pobres das grandes cidades brasileiras passaram a ser narrados por quem efetivamente vivia e entendia aquela situação. Além disso, algumas editoras começaram a olhar com mais atenção para este tipo de literatura, selecionando as melhores obras e os escritores mais talentosos para seus catálogos. Despontaram nos últimos anos, Allan da Rosa, Sacolinha, Dinha e tantos outros artistas genuinamente da periferia. Estava inaugurada uma nova fase da Literatura Marginal no Brasil.

Diferentemente do que muitas pessoas pensam, “Capão Pecado” não foi o primeiro livro publicado por Ferréz. O paulistano que atualmente tem quarenta e quatro anos de idade já havia publicado antes uma coletânea de poemas. Em 1997, ele lançou “Fortaleza da Desilusão”. Porém, a obra não teve grande receptividade da crítica nem do público. O resultado foi completamente diferente com o segundo livro, sua estreia na prosa. Publicado em 2000, “Capão Pecado” se tornou rapidamente um grande sucesso. O romance já vendeu mais de 100 mil unidades e é até hoje lembrado como principal trabalho do escritor. Para alguns críticos menos ortodoxos, trata-se de um clássico contemporâneo da nossa literatura popular.

Curiosamente, Ferréz já produziu sete livros depois de “Capão Pecado”, muitos deles até mesmo melhores do que seu romance de estreia. “Manual Prático do Ódio” (Objetiva), de 2003, “Deus Foi Almoçar” (Planeta), de 2011, e “Os Ricos Também Morrem” (Planeta), de 2015, por exemplo, possuem narrativas muito mais encorpadas, intrincadas e intrigantes (algo natural para um escritor que está em constante evolução). Contudo, é impossível falar em Ferréz e não se recordar de seu “Capão Pecado”. Se este título não é sua melhor produção, ao menos se tornou seu best-seller.

Além de romancista, Ferréz é cronista, contista, poeta, blogueiro, rapper e editor. Filho de um motorista e de uma empregada doméstica, o rapaz trabalhou desde cedo em uma padaria, foi vendedor ambulante e por anos atuou como funcionário de uma metalúrgica. Nascido e criado no Capão Redondo, seu gosto pela literatura veio da infância, quando pegava emprestado livros nas bibliotecas públicas ou quando podia comprar os títulos mais baratos nos sebos da cidade. A literatura sempre foi para Ferréz uma válvula de escape para a realidade violenta, injusta e amarga em que estava rodeado.

Por possuir muitos elementos autobiográficos, “Capão Pecado” mostra parte dos dramas vividos pelo escritor em seu bairro natal durante sua juventude. Protagonizado por Rael, uma espécie de alter ego do autor, o romance retrata de forma nua e crua o dia a dia no Capão Redondo. Rael é um rapaz gordinho, de cabelos enrolados, de óculos com armação grande e que não se desgruda do boné. Impossível não se lembrar de Ferréz, ainda hoje com essas características.

O protagonista do livro mora com a mãe, uma empregada doméstica, e com o pai, um alcoólatra imprestável, em uma pequena casa no Capão. O lar é extremamente humilde. Não há cobertor para todos nos dias mais frios e o conforto passa longe dali. O rapaz adora literatura, está sempre com um livro no bolso, comprado de sebos. Ele trabalha em uma padaria como entregador de pães. Calmo, amoroso e um tanto tímido, ele entendeu desde cedo que precisava levar dinheiro para casa. Dona Maria, sua mãe, tem uma saúde frágil e passa a maior parte do dia trabalhando como um burro de carga nas casas das patroas. Já Zé Pedro, o pai, é uma inutilidade. Ele está sempre caído no chão bêbedo ou sofrendo as consequências das ressacas.

Rael tem muitos amigos no Capão Redondo. Como qualquer jovem da sua idade, ele gosta de sair com seus trutas, seja para curtir a noite ou para ficar apenas conversando sobre a vida nas ruelas do bairro. Outro passatempo muito apreciado é tomar algo em algum bar próximo ou curtir um baile funk na localidade. O problema é que a violência extrema do Capão acaba transformando aquele lugar simples e amigável em um inferno. O tráfico de drogas, as ações truculentas da polícia, o banditismo e os crimes passionais consomem pouco a pouco a vida dos amigos mais próximos de Rael. A personagem principal se acostuma a encontrar vizinhos e conhecidos jazendo sem vida no chão. A novidade é saber quem (e por quê) será a próxima vítima.

Burgos, o vilão da trama, é o assassino de aluguel que mora no Capão. Ele é contratado para fazer serviços fora e dentro do bairro. Quando as encomendas não são fartas, ele também encara um roubo a banco aqui, um assalto a um posto de gasolina acolá. Todos têm medo da fúria e da frieza de Burgos. O assassino não escolhe sua vítima. Se tiver que matar seu irmão para ganhar uns trocados, ele agirá normalmente, sem qualquer dor na consciência e mantendo a excelência de um profissional de primeira categoria.

Outra figura relevante nesta história é Matcherros, o melhor amigo de Rael. Diferentemente do protagonista do romance, Matcherros é um jovem fútil e pouco trabalhador. Ele gosta de passar as noites e as madrugadas jogando videogame em casa. Por isso, raramente acorda de manhã ou procura um emprego. Ele também gosta de sair aos finais de semana para pegar a mulherada. Mesmo se comportando como um homem solteiro, Matcherros tem uma namorada, a bela e inteligente Paula. Apaixonada pelo rapaz, a moça não sabe o quanto ele é infiel.

A rotina de Rael muda completamente quando ele deixa o trabalho na padaria e arranja um emprego em uma metalúrgica. A mudança é aparentemente para melhor: salário maior e jornada apenas de segunda a sexta-feira (na padaria ele precisava trabalhar aos finais de semana). Além disso, Rael começa a ter um relacionamento amoroso com Paula, a namorada do seu melhor amigo. Ele se culpa pela traição, mas não consegue deixar de se encontrar as escondidas com Paula. A beleza da moça é demais para ele, atraindo-o sem que seja possível pensar nas consequências daquela união. Não é difícil imaginar os problemas que esse relacionamento irá trazer para o filho de Dona Maria e Zé Pedro. Segundo o código de ética do Capão, não existe pior crime do que mexer com a mulher do próximo.

“Capão Pecado” é um romance curtinho. Ele tem apenas 176 páginas. Mesmo assim, sua narrativa está dividida em cinco partes. Trata-se de uma leitura que dá para ser feita em uma única tarde ou em duas noites seguidas. Eu, por exemplo, o li entre segunda e terça-feira à noite. Não devo ter levado mais de quatro horas ao todo para percorrer todas as páginas da obra. Cheguei até a cogitar se “Capão Pecado” não seria na verdade uma novela, porém no final da leitura acabei concordando com a classificação de romance dada pelo autor e pela sua editora.

Logo de cara, três elementos chamam a atenção do leitor: a ambientação violenta de “Capão Pecado”, a oralidade do texto de Ferréz e a emulação da realidade da trama. Em relação ao primeiro aspecto, tudo parece conspirar contra os moradores do bairro: a prefeitura que quer desapropriar algumas casas, os policiais que olham para os moradores como se todos fossem bandidos, a Justiça que não se preocupa com nada e com ninguém que venha da periferia (Raulito fica preso injustamente por uma semana só para as autoridades averiguarem sua ficha) e as classes média e alta que ignoram a pobreza e aproveitam-se para explorar os mais necessitados. Até mesmo os religiosos (mais explicitamente os pastores das igrejas evangélicas) estão ali para faturar em cima daquele povo pobre.

Porém, a violência não é gerada apenas pelos de fora do Capão Redondo. A brutalidade e os abusos estão em todos os lugares, até mesmo dentro do bairro: na vizinhança (Will, Dida e até mesmo Dona Maria Bolonhesa são executados friamente pelos antigos conhecidos), nos amigos (Rael trai sem pudor o amigo de infância) e até mesmo no seio familiar (pais que abusam sexualmente dos filhos).

O ambiente feroz e brutal do Capão torna até mesmo a vida dos animais que moram ali um inferno. Repare nas passagens em que gatos e cachorros sofrem direta ou indiretamente com a violência dos humanos. Até o ato sexual entre os casais não passa imune à violência opressora do ambiente do romance. As cenas de sexo protagonizadas por Rael e Paula são similares às cenas dos filmes pornográficos. E, dependendo do ponto de vista, elas chegam até a parecer uma imposição forçada do homem contra a mulher, o que pode levantar uma discussão saudável sobre o tema.

Veja, por exemplo, a violência contida nessa pequena passagem:

“(...) Rael não conseguiu rezar, pois no bairro a lei da sobrevivência é regida pelo pecado; o prazer dos pivetes em efetuar um disparo, a palavra revolução, a necessidade de ação, mais de 200 mil revoltados que não estão enganados. Rael percebeu que aquele mesmo menino que pedira tantas vezes uma colher em sua porta pra queimar um bagulho, agora rezava para alguém a colocar debaixo de sua língua para que ele pudesse sobreviver. Rael tentou se concentrar em Deus, mas pensou no que seria o céu ... teria periferia lá? E Deus? Seria da mansão dos patrões ou viveria na senzala? Ele entendeu que tá tudo errado, a porra toda tá errada, o céu que mostram é elitizado, o Deus onipotente e cruel que eles escondem matou milhões; tá na Bíblia, tá lá, pensava Rael, mas apresentam Jesus como sendo um cara loiro. Que porra é essa, que padrão é esse? Rael chegou à conclusão mais óbvia: aqui é o inferno, onde pagamos e estamos pagando, aqui é o inferno de algum outro lugar e desde o quilombo a gente paga, nada mudou. Ele se levantou e resolveu não mais respeitar aquela porra, ele sempre desconfiou que os crentes são cheios de querer, que eles te olham como se você estivesse queimando. Eles tão tudo salvo, mas a gente não.

Vagou pela rua e lhe vieram várias lembranças, lembranças daquele pastor que esfaqueou um homem morro acima: o homem gritava e se retorcia, os golpes eram fortes e seguidos, o pastor fazia força e o homem ia recuando, subindo o morro, a faca perfurava órgãos internos, o homem era um boneco, caiu no chão frio. A dor do pastor? Uma paixão, o amor de sua filha. Rael sabia da história, a filha pura do homem de Deus e o escravo do crack juntos, unidos, nus no ato de amor divino. Rael tentou parar de raciocinar, tentou parar de pensar, tava tudo errado, a porra toda tava errada. Tudo.

Resolveu pegar um ônibus para voltar, ficou esperando no ponto, que estava cheio como sempre. Encontrou Capachão, começaram a conversar e o amigo lhe disse que logo seria chamado para entrar na academia do Barro Branco, onde seria treinado para, se Deus quisesse, em breve tornar-se policial (...)”.

Enquanto vemos essa realidade triste e chocante, também nos deparamos com um texto seco e extremamente veloz. Sua principal característica, contudo, está na oralidade. Ferréz escreve como os habitantes do Capão falam. Isso fica mais evidente nos diálogos (uma das partes mais incríveis do livro), mas também na narrativa em terceira pessoa. Veja, a seguir, a beleza desse diálogo. Impossível alguém dizer que ele não é verossímil!

"- E aí, truta! Firmeza?

- Só, eu tô na boa, choque, e você?

- Na moral, tô lá trampando com o Matcherros na firminha dele.

- Ah! Tô ligado, o Amaral me contou que ele tá indo pela órdi lá com o esquema.

- É, o bagulho virou bem, se pá nóis vamo. Contratá até o Panetone, isso é, se o bagulho dele com o futebol num virá.

- Firmeza, o esquema é esse; afinal, como diz o crente, "Se Deus é por nóis, quem será contra nóis".

- Choque, a parada sempre foi nesse naipe, e a parada cada vez vai ser pior, as correrias estão ficando mais forte e a parada vai ficar cada vez mais louca, firma! - Fora os malucos que tão só no trampo, que nem o Tiozinho lá da rua de cima, o seu Damião, que sai todo dia na correria, pega buzão lotado e nunca vi ele reclamando.

- Só! Mas o que leva esses tiozinhos e alguns malucos mais novo a suar pra caralho num trabalho? Se pá é a vontade de ver o filho no final da noite, tá ligado? E nas correria louca, nem sempre se vê o pivete, e nem sempre se volta pra casa, tá ligado?

-Só, choque! Eu também tô nesse sossego, mas é o seguinte, eu sempre procuro o bem, tá ligado? Mas se o mal vier, choque, que o Senhor tenha misericórdia”.

Ler “Capão Pecado” é adentrar na realidade dos moradores do bairro da zona sul de São Paulo. Além das particularidades e dos hábitos do lugar (baile da New Black Chic, escola José Olímpio, bar dos Policiais, passeios na Esfiha Chic, músicas dos Racionais MCs, etc.), vivenciamos o jeito próprio de falar do pessoal do Capão. Isso é muito legal. Impossível alguém percorrer as páginas do romance e não se sentir efetivamente no bairro. Note isso tudo neste pequeno trecho:

“Chegou à casa do Panetone alguns minutos depois e bateu palmas freneticamente. O amigo logo saiu e o convidou para entrar, Rael deu negativa e perguntou dos dois irmãos, Panetone respondeu que eles tinham acabado de ir. Rael, mesmo com a insistência de Panetone, não contou nada, se retirou e foi para a casa do Matcherros, mesmo sabendo que este estava dormindo. Falou com Cebola o que estava acontecendo e os dois saíram a procurar Will e Dida.

Quando estavam descendo o São Bento velho, cruzaram com Burgos, que estava com uma blusa imensa, sinal de que estava armado. Burgos deu sinal para pararem e perguntou se haviam visto Will por lá. Rael estranhou e disse que não sabia que ele havia voltado, Burgos nem agradeceu, virou as costas e saiu apressadamente. Cebola o avisou que o palco já estava armado e que Burgos nunca saía na correria à toa, alguma coisa tava pegando pro lado do Will, e que desconfiava que haviam sido os manos da Paraisópolis que tinham contratado o Burgos pra fazer o serviço; afinal as bocas não podem se dar ao luxo de ficar com prejuízo, porque senão os negócios despencam: é só um nóia saber que tal mano comprou na boca, não pagou, e nada aconteceu, que tá feito o boato que os chefes da boca não tão com nada. O respeito tem que prevalecer.

Rael concordou com a tese do amigo e ficou mais preocupado, ainda mais porque sabia que Burgos era sangue no olho e que se ele tava na treta, nada mais poderia ser feito pelo Wil (...)”.

A recriação da realidade foi um processo tão bem-feito por Ferréz que merece nossos elogios. O escritor utilizou-se da mistura de eventos e personagens fictícios com pessoas e episódios verídicos. É difícil saber onde começa um e onde termina o outro. É possível enxergar vários trechos autobiográficos na trama, ao mesmo tempo em que outras passagens são completamente inventadas. Essa miscelânea entre verdade e ficção dá um charme especial à narrativa, tornando-a mais sensível e carismática. Não à toa, o livro tenha encantado tanta gente nas últimas duas décadas.

Mesmo proporcionando uma experiência literária bastante rica e inusitada, “Capão Pecado” possui vários problemas de ordem narrativa e ideológica. Em relação à narrativa, o principal deles é quanto ao foco narrativo. Nota-se que Ferréz, neste momento, não se preocupava com a definição de um narrador que enriquecesse sua trama. Infelizmente, temos aqui um narrador em terceira pessoa onipresente e onisciente que percorre o bairro inteiro (e até mesmo regiões fora do Capão) sem qualquer lógica. Em determinada cena, ele está próximo do protagonista tendo acesso ilimitado aos seus pensamentos e sentimentos. Até aí beleza. Porém, no parágrafo seguinte, em outra cena, o narrador cola em outra personagem, sem qualquer sentido ou lógica que justifique essa mudança. Se por um lado esse recurso é interessante para ambientar a história de maneira macroambiental, por outro torna a narrativa extremamente caótica e sem sentido em vários instantes.

Também não gostei de alguns trechos em que as explicações do narrador são repetitivas (por exemplo, nas apresentações redundantes das personagens secundárias). Outra questão que merece alguma reflexão, agora na seara da ideologia, é a visão maniqueísta entre periferia (pobres são do bem) e centro (ricos são do mal). Será mesmo que todos que possuem dinheiro e moram em bairros bons da cidade são capitalistas desalmados, exploradores desumanos da mão de obra da camada mais simples da população? Segundo o ponto de vista do narrador e do protagonista desta obra, a resposta é um sonoro (e polêmico) sim. Sempre fico com um pé atrás quando vejo generalizações deste tipo.

Apesar de uma escorregadinha aqui e outra li, naturais de um escritor que estava iniciando na produção da prosa, “Capão Pecado” não deixa de ser uma obra excelente. Adorei, por exemplo, as intervenções ecléticas no início de cada parte do livro. Alguns capítulos do romance são precedidos por letras de rap, discursos e crônicas de grande profundidade. Esses textos ajudam o leitor a se ambientar ainda mais no lugar onde o conflito do livro é apresentado. E o que dizer, então, da construção das personagens, hein? Mesmo com um texto rápido e sem muitos ornamentos, Ferréz cria figuras marcantes que chegam com força aos olhos e às mentes dos leitores. Mesmo sendo na maioria personagens planas (apenas Rael e, com algum esforço, Paula são redondas), essas criações apresentam inegavelmente uma grande riqueza literária.

Achei “Capão Pecado” muito parecido, quanto à ambientação e à estética, aos romances naturalistas do final do século XIX. Assim, esse livro de Ferréz seria uma versão contemporânea de “O Mulato” (Ciranda Cultural) e “O Cortiço” (Penguin), clássicos de Aluísio de Azevedo. Pelo lado erótico, a semelhança pode ser estendida para “A Carne”, romance de Júlio Ribeiro. Repare nas constantes comparações entre os atos das pessoas com os comportamentos dos animais feitas o tempo todo pelo narrador e pelas personagens de “Capão Pecado”. Em muitos momentos, a impressão que se tem é que as figuras retratadas no livro são guiadas unicamente pelos seus instintos animalescos (uma das principais características do Naturalismo).

O grande mérito de Ferréz está em mostrar a pobreza, a violência e a precariedade da vida em seu bairro com charme e com uma linguagem revolucionária para os padrões da literatura convencional. Ainda no finalzinho do século XX era uma grande barreira inserir a oralidade e o texto coloquial em um romance. Se antes era inimaginável escrever dessa maneira, hoje em dia não se concebe o contrário. Felizmente, ninguém consegue escrever atualmente desprezando totalmente as marcas de oralidade, as gírias populares e a realidade da camada mais pobre da sociedade.

Você até pode achar a história de “Capão Pecado” fraquinha e com muitos equívocos narrativos (como eu considerei), mas não se pode desprezar sua força e sua originalidade. Seu carisma junto ao público leitor brasileiro reside daí. A relevância literária deste romance está mais na proposta estética ousada assumida pelo seu autor do que pelo que é explicitado nas páginas da obra.

Se você quiser ver um Ferréz mais maduro e com uma proposta narrativa mais encorpada, então leia seus últimos romances. Destaco “Manual Prático do Ódio”, “Deus Foi Almoçar” e “Os Ricos Também Morrem”. Não à toa, foram essas obras que tiveram mais traduções para outros idiomas, ganhando edições no exterior. Nelas, você verá um escritor extremamente talentoso e versátil. Em “Capão Pecado”, entretanto, você terá a essência de um artista mais intuitivo do que técnico (o que, para uma determinada análise, pode ser até mais interessante).

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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