• Ricardo Bonacorci

Filmes: As Golpistas - Um show de Jeniffer Lopez


Há atrizes que ficam rotuladas pelos filmes que fazem e, por isso, demoram para ganhar o reconhecimento da crítica cinematográfica (apesar de possuírem a simpatia das plateias). Lembro-me do caso de Sandra Bullock, protagonista de várias comédias românticas água com açúcar. Ela só foi reconhecida como uma grande atriz recentemente, depois de “Um Sonho Possível” (The Blind Side: 2009). E olha que Bullock não era a primeira opção do diretor John Lee Hancock para o papel principal deste filme. Por esta interpretação, ela conquistou o Oscar de Melhor Atriz de 2010. A mesma sina se repete com alguns atores. Brad Pitt, por exemplo, sempre foi um dos queridinhos de Hollywood, mas nunca foi visto como um intérprete de primeira linha do cinema norte-americano. Contudo, neste ano, ele deu show de atuação em “Era Uma Vez Em...Hollywood” (Once Upon A Time In...Hollywood: 2019) e em “Ad Astra - Rumo às Estrelas” (Ad Astra: 2019). Nesses casos, os intérpretes precisam derrubar os estereótipos criados no começo de carreira ou até mesmo superar as primeiras atuações fracas (no que chamo de Complexo de Cigano Igor).

Estou falando sobre isso hoje, no Bonas Histórias, porque muito provavelmente uma nova atriz conseguirá, enfim, ganhar o reconhecimento definitivo da crítica cinematográfica e quebrará a barreira da desconfiança. Estou me referindo a Jennifer Lopez, vista até agora mais como um rostinho bonito (ou seria um corpão escultural?) e uma cantora de apelo popular do que como uma atriz de performances excelentes. Não à toa, ela sempre integrou filmes comerciais de baixa qualidade. Isso até agora. Em “As Golpistas” (Hustlers: 2019), filme que estreou nos cinemas brasileiros na semana passada, J.Lo, como Jennifer Lopez é conhecida pelos fãs, deu um show de interpretação. Não sei se ela ganhará algum prêmio importante do cinema no ano que vem, mas uma coisa ela já conseguiu: mostrar ser uma atriz de enorme talento. Em um papel dificilíssimo (não recrimino as atrizes que o recusaram), ainda mais para uma cinquentona (sim, J.Lo já tem mais de cinquenta anos!), Lopez faz tudo parecer fácil e natural.

É verdade que a chegada ao ápice da carreira por Jennifer Lopez não ocorreu através de um salto gigantesco e sim por meio de uma evolução gradual. Seus últimos trabalhos no cinema já mostraram ótimos desempenhos. A virada aconteceu há quatro anos com “O Garoto da Casa ao Lado” (The Boy Next Door: 2015), filme orçado em apenas US$ 4 milhões e que arrecadou nas bilheterias um valor doze vezes superior ao seu custo. Mesmo em um papel em que usava e abusava de sua sensualidade (há inclusive cenas de sexo), J.Lo já indicava ser capaz de pegar papéis de grande carga dramática (perto de “O Garoto da Casa ao Lado”, o papel de Lopez em “As Golpistas” foi fichinha). Foi o que ela fez na sequência, com bons resultados. Em “Lila & Eve – Unidas pela Vingança” (Lila & Eve: 2015) e em “Uma Nova Chance” (Second Act: 2018), a atriz demonstrou estar preparada para saltos maiores. Só restava conseguir a confiança dos diretores para um papel realmente desafiador. E parece que ela conseguiu isso agora.

Assisti “As Golpistas” em sua pré-estreia no finalzinho do mês passado e, admito, fiquei impressionado positivamente com a atuação de Jennifer Lopez. Ela rouba para si as cenas durante o longa-metragem inteiro e seu trabalho, no final das contas, é superior até mesmo à produção como um todo. Dirigido por Lorene Scafaria, jovem cineasta em seu terceiro filme como diretora – ela foi produtora executiva do bom "Ricki and The Flash - De Volta Pra Casa" (Ricki and The Flash: 2015) -, “As Golpistas” teve um orçamento na casa de US$ 20 milhões. Em um elenco predominantemente feminino, Lopez teve a companhia de Constance Wu, Julia Stiles (o rosto mais conhecido do grande público depois de J.Lo), Keke Palmer, Lili Reinhart, Lizzo, Cardi B e Mercedes Ruehl.

A história deste filme se baseia em um fato verídico noticiado pela New York Magazine, em 2015. Na época, a jornalista Jessica Pressler entrevistou uma integrante de uma gangue nova-iorquina de strippers que aplicava o golpe do Boa Noite Cinderela em executivos do mercado financeiro. No artigo “The Hustlers at Scores: The Ex-Strippers Who Stole From (Mostly) Rich Men and Gave to, Well, Themselves”, a jovem criminosa detalhava para a jornalista como ela e suas parceiras faziam para roubar os ricos sujeitos de Wall Street. Uma vez comprado os direitos de adaptação desta história para o cinema, “As Golpistas” foi filmado entre março e maio de 2019. Seu lançamento nos Estados Unidos aconteceu em setembro e na Europa em outubro. Por lá, ele já arrecadou mais de US$ 150 milhões. Agora, o longa-metragem está sendo lançado nos países sul-americanos.

Em “As Golpistas”, Destiny (interpretada por Constance Wu) é uma moça de origem coreana que está tendo problemas para conseguir dinheiro. Vendo a avó, com quem mora em Nova York, se endividando para pagar as contas do lar, a jovem resolve tentar a sorte como stripper. Em seus primeiros dias de trabalho em uma boate de strip de luxo, Destiny conhece Ramona (Jennifer Lopez), a principal stripper da casa e uma lenda para os clientes do lugar. Ramona é rica, linda, bem-sucedida, articulada, elegante, inteligente e perfeita em cima do palco (suas performances no pole dance costumam levar os homens à loucura). Maravilhada com o jeito da stripper mais experiente, Destiny se aproxima dela. As duas logo fazem amizade e se tornam companheiras inseparáveis.

Paparicando os ricos figurões do mercado financeiro norte-americano, as dançarinas da boate conseguem ganhar muito dinheiro. Aprendendo tudo o que pode com Ramona, Destiny consegue, enfim, ajudar a avó a sair do aperto financeiro e, ainda por cima, adquire um padrão de vida elevado. Usar roupas caras, visitar os mais badalados estabelecimentos de Nova York e morar em um confortável apartamento fazem parte de sua nova rotina. A fase dourada de Destiny e de suas colegas só termina com o estouro da Crise Financeira, em setembro de 2008. Como os primeiros afetados da grave crise econômica que se espalhou pelo planeta foram os profissionais de Wall Street, do dia para a noite a boate ficou vazia. E sem clientes, acaba também o dinheiro das strippers.

Destiny conta sua história para Elizabeth (Julia Stiles), uma jornalista da New York Magazine interessada em saber os detalhes da gangue que aplicava golpes nos homens do mercado financeiro. A entrevista é realizada na casa de Destiny. O que parece atiçar a curiosidade de Elizabeth é o perfil de Ramona, a líder das garotas trambiqueiras. Sem preocupações, Destiny narra sua entrada no mundo das strippers e a decadência provocada pela crise de 2008. Contudo, a parte da história que interessa mais à jornalista é a que vem depois disso. Sem clientes na boate, Ramona junta algumas colegas, entre elas Destiny, e organiza um golpe rentável e aparentemente perfeito para conquistar uma pequena fortuna.

As lindas mulheres conhecem homens ricos em restaurantes sofisticados da cidade e começam a flertar com eles. Entre um drink e outro, as moças colocam drogas nas bebidas deles, dopando-os. Sem consciência do que estão fazendo, eles entregam seus cartões de crédito sem qualquer cerimônia. Uma vez com os cartões dos ricaços, as strippers realizam grandes desfalques nas contas de suas vítimas. Esse tipo de crime é chamado no Brasil de Boa Noite Cinderela. Ramona considerava esse tipo de golpe perfeito porque normalmente os homens tinham vergonha de procurar a polícia para comunicar os roubos femininos. E os poucos que se dirigiam às delegacias, eram ridicularizados pelos policiais, que não acreditavam nas versões das vítimas (os tiras achavam que eles tinham torrado mesmo a grana na boate). É dessa forma que Destiny e suas colegas acumulam uma fortuna incalculável.

“As Golpistas” tem quase duas horas de duração e possui uma câmera extremamente indiscreta e corajosa. A realidade das strippers é apresentada de maneira nua e crua por Lorene Scafaria. O universo das bebidas, das drogas, da nudez, da prostituição e da criminalidade é desnudado sem preocupações quanto aos julgamentos morais. Esqueça o maniqueísmo entre o que é certo e o que é errado. A maioria das personagens deste filme faz o que é preciso para sobreviver e, principalmente, para subir na vida. Muito possivelmente, esta pegada amoral de “As Golpistas” é o seu principal mérito. O longa-metragem mostra a rotina de mulheres que normalmente ficam escondidas da sociedade ou que são glamourizadas pelo cinema (outra forma de mascarar a realidade).

Para amenizar um pouco este mundo cão, esta produção de Scafaria tem um tom bem-humorado. Há várias cenas engraçadas, que ajudam a amenizar o tom dramático do enredo. O humor é predominantemente do tipo tragicômico, mas há também algumas passagens de humor pastelão. O fato é que ele funciona muitíssimo bem. Na sessão em que estive presente, o pessoal morreu de rir em várias oportunidades.

Junto com o humor, outro ponto que merece ser destacado é a fotografia de “As Golpistas”. As cenas acontecem quase sempre em ambientes fechados. Aí há uma grande distinção entre os momentos vividos por Destiny, Ramona e suas colegas. Quando elas estão atuando no palco ou na boate como strippers, a iluminação é de um tipo (multicolorida, artificial). Quando elas se tornam criminosas, a iluminação é outra (a escuridão e os tons de dourado tomam conta dos cenários). No ambiente residencial ou na hora de lazer/compras das garotas, a luz branca parece preponderar (como se ali morasse a verdadeira faceta dessas mulheres puras e ilibadas). É legal notar essa diferença de perspectiva da fotografia do longa-metragem. Nesse sentido, a trilha sonora acompanha o estado de espírito das personagens (ora elas estão em êxtase, ora a melancolia predomina).

Gostei também do ritmo de “As Golpistas”. Na primeira metade da produção, acompanhamos a apresentação do ambiente, do contexto narrativo e das figuras retratadas. Pouco a pouco as coisas vão acontecendo. Na segunda metade do longa-metragem, temos o aparecimento do conflito principal (o crime compensa?!). Aí a história ganha em velocidade e reviravoltas, elementos que não podem faltar em um bom thriller policial. O desfecho reserva algumas surpresas interessantes, capazes de angustiar a plateia. As alternativas de caminho que Destiny precisa escolher não são nada fáceis. Mais uma vez o público recebe uma bofetada na cara do quão complicada pode ser a vida real (não sendo possível julgar o comportamento de ninguém).

Algo que pode incomodar os espectadores mais conservadores (além da trama protagonizada por anti-heroínas) é o excesso de nudez do filme (prioritariamente feminino, mas com algumas cenas rápidas de nu frontal masculino). Na saída da sessão, ouvi comentários negativos a esse respeito. Para mim, isso não atrapalhou em nada a experiência cinematográfica. Pelo contrário: a banalidade da nudez até ajudou a nos sentirmos mais próximos das personagens femininas. A câmera indiscreta agiu para intensificar a relação da plateia com as mulheres em cena, como se não houvesse segredos entre a gente. Sob essa perspectiva, esse recurso fez todo o sentido. Só não reparei na indicação etária do filme. De qualquer forma, pelo amor de Deus, não leve crianças para vê-lo.

Por falar em nudez, Jennifer Lopez é uma das poucas atrizes que não fica totalmente sem roupa durante o longa-metragem. E mesmo assim, ela é disparada a mulher que mais atrai os olhares curiosos da plateia. A forma física desta mulher é invejável. Se você acha que ela estava linda (para não dizer deliciosa, que é extremamente vulgar...) em “O Garoto da Casa ao Lado”, você precisa assistir “As Golpistas”. Aqui sim vemos uma J.Lo no esplendor de sua beleza, erotismo e forma física. As cenas dela no pole dance (ensaiando ou se apresentando aos clientes da boate) paralisam completamente a boquiaberta plateia do cinema. Não se ouve a respiração de ninguém da sessão tamanha é a concentração do público para o que acontece na telona. Incrível!

Se o público fica maravilhado com o corpão de Lopez (e é para ficar mesmo!), é a atuação da atriz que mais encanta a todos. Em uma interpretação digna de Oscar (na categoria Atriz Coadjuvante, que fique bem claro – o papel principal deste filme está com Constance Wu), Jennifer Lopez rouba a cena do começo ao fim. Não fico com receio de dizer que este é o título que mudará a visão que a crítica cinematográfica tem dela. “As Golpistas” é para J.Lo o que “Um Sonho Possível” foi para Sandra Bullock e “Ad Astra - Rumo às Estrelas” (Ad Astra: 2019) foi para Brad Pitt. Fico feliz que mais uma atriz tenha conseguido superar o Complexo de Cigano Igor.

Assista, a seguir, ao trailer de “As Golpistas”:

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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