• Ricardo Bonacorci

Livros: O Homem de Giz – O romance de estreia de C. J. Tudor


Li, neste final de semana, “O Homem de Giz” (Intrínseca), título que está na lista das ficções mais vendidas das livrarias brasileiras há mais de um ano. A obra é o romance de estreia de C. J. Tudor, uma jornalista britânica fã de thrillers de terror. Suas principais inspirações vieram das literaturas de Stephen King, Michael Marshall, Harlan Coben e James Herbert e dos roteiros televisivos dos irmãos Duffer. Como sou um fã inveterado deste gênero, não foi nada difícil mergulhar na leitura de “O Homem de Giz”. Confesso que até fiquei surpreso por ter esperado tanto tempo para conhecer este livro. Se soubesse que ele era tão bom, teria produzido este post do Bonas Histórias há muito tempo. Contudo, inexplicavelmente, acabei postergando por meses a aquisição do romance. Na hora H, sempre tinha outro título que me agradava mais no instante de passar pelo caixa da livraria.

Publicado em janeiro de 2018 na Inglaterra, “O Homem de Giz” se tornou rapidamente um grande sucesso no Reino Unido. Do dia para noite, a até então desconhecida C. J. Tudor passou a ser vista como a escritora do momento por seus conterrâneos. Em poucos meses, sua primeira obra ganhou traduções para vários idiomas e foi lançada em outros países. A carreira literária de Tudor, portanto, adquiriu dimensão internacional de maneira meteórica. No meio do ano passado, a versão em português do livro chegou às livrarias brasileiras. E como estava acontecendo em várias partes do planeta, “O Homem de Giz” teve uma ótima receptividade por parte do público leitor do nosso país. Desde então, o romance não saiu mais do top 20 dos títulos ficcionais mais vendidos no Brasil.

Atualmente, C. J. Tudor se dedica integralmente à literatura. Morando em Nottingham, no norte da Inglaterra, ao lado do marido e da filha pequena, ela já lançou novas obras. Aos poucos, esses livros vão sendo traduzidos e lançados no exterior. Acredito que não demorará muito tempo para as versões em português chegarem às livrarias brasileiras. “The Hiding Place”, “The Taking of Annie Thorne” e “The Other People” são os títulos originais dos novos romances da autora. Por enquanto, os leitores mais ansiosos só conseguem encontrá-los nas versões digitais em inglês.

Curiosamente, quando escreveu “O Homem de Giz”, a autora inglesa trabalhava como passeadora de cães. Sua rotina, naquela época, era dividida em caminhadas com mais de vinte cães, nos cuidados com a filha recém-nascida e na produção, nas horas vagas, do seu romance. Apaixonada pela escrita desde pequena, Tudor abandonou a escola aos dezesseis anos de idade. Depois de passar sem brilho por vários empregos no jornalismo (repórter, radialista, roteirista de programas de rádio e de TV, apresentadora e entrevistadora) e em outras áreas (assistente de loja e redatora publicitária), ela inclinou-se pouco a pouco à produção literária. O que parecia mais uma de tantas atividades feitas por C. J. Tudor se transformou em sua principal fonte de renda e ocupação. Enfim, ela encontrava sua vocação como romancista. Nascia, assim, uma nova best-seller.

A ideia para escrever “O Homem de Giz” surgiu após Tudor ganhar de presente de um amigo uma banheira. A estreia simbólica do objeto foi feita com animados rabiscos coloridos de giz que simulavam pessoas (homens-palitos). À noite, ao entrar no banheiro no escuro, a escritora se assustou com os aspectos macabros dos desenhos. Aí ela começou a cogitar como poderia utilizar esses elementos em uma história ficcional de terror. Era o pontapé inicial do seu romance.

O enredo de “O Homem de Giz” se passa em Anderbury, um pequeno povoado litorâneo na costa leste da Inglaterra. A trama é narrada em primeira pessoa por Eddie Adams, o protagonista do thriller, em dois momentos distintos: em 1986, quando ele tinha doze anos de idade e era apenas um estudante do ensino fundamental, e em 2016, quando, aos quarenta e dois anos, ele trabalha como professor de inglês. Os acontecimentos dos dois períodos são intercalados quase que o tempo inteiro. Um capítulo se passa no presente (em 2016) e outro no passado (1986). Essa alternância permite ao leitor conhecer ao mesmo tempo as causas dos dramas pessoais de Eddie e suas consequências.

A infância de Eddie Adams foi abalada por um assassinato e por várias mortes trágicas ocorridas em sucessão. O ponto culminante dessa fase macabra de Anderbury se deu quando Elisa Rendell, uma menina de dezesseis anos que a personagem principal tinha conhecido há alguns meses, apareceu esquartejada em um bosque da cidade. Quem descobriu o corpo dela na mata foi Eddie e seu grupo de amigos (Gav, Nicky, Mickey e Hoppo). O quinteto, nesta época, era inseparável. A única parte do corpo da garota que não foi encontrado foi sua cabeça, misteriosamente retirado da cena do crime.

A polícia e os moradores do município foram unânimes em acusar o Sr. Halloran de ser o responsável pelo homicídio. O principal suspeito era professor da escola de Eddie, tinha trinta e um anos e namorava escondido a menina brutalmente assassinada. Contudo, Halloran e Eddie eram grandes amigos e o garoto não acreditava na culpa do professor. Foi o Sr. Halloran que ensinou o narrador do romance a se comunicar com seus coleguinhas através de desenhos feitos a giz pela cidade. A brincadeira da criançada se transformou mais tarde em uma peça para solucionar o crime de Elisa e as outras mortes que aconteceram no mesmo período. Afinal de contas, sempre que alguém morria, surgiam desenhos de giz branco. Foram essas imagens que levaram, por exemplo, Eddie e sua turma a encontrar a menina morta no bosque. O homem do giz seria o responsável pelos homicídios? Qual seria a identidade da pessoa que fazia esses desenhos?!

Essas dúvidas perseguem Eddie Adams até a fase adulta. Solitário e melancólico, o professor de inglês continua obcecado por descobrir o que aconteceu no passado. As lembranças daquela época vêm à tona com mais força quando Mickey Cooper (um dos integrantes da antiga trupe de crianças) volta à Anderbury depois de décadas. Agora um publicitário bem-sucedido, ele retorna à cidade natal com o objetivo de escrever um livro sobre o assassinato de Elisa Rendell e os eventos de 1986. A ideia de remexer com o passado é vista como algo delicado e muito perigoso pelas pessoas diretamente envolvidas com os antigos acontecimentos.

A volta de Mickey provoca grande mal-estar entre a turma de Eddie. Eles não são mais grandes amigos como no passado. O relacionamento deles esfriou ao ponto de alguns integrantes se odiarem. Caminhar pelos capítulos de “O Homem de Giz” é descobrir o que causou tantas desavenças entre os moradores da pequena cidade do interior inglês. Os segredos daquela época não envolvem apenas as crianças, mas principalmente os adultos.

O romance de estreia de Tudor tem 272 páginas. De tão empolgado que fiquei com o livro, acabei devorando-o integralmente em menos de 24 horas. Iniciei a leitura na sexta-feira à tardezinha e concluí a obra no início da tarde de sábado. Acho que levei entre seis e sete horas para percorrer todos os seus capítulos. Este é aquele tipo de publicação que dá para ser lido em uma tarde ou em duas noites consecutivas.

A principal característica deste romance é o suspense eletrizante que domina toda a trama. À medida que o leitor vai avançando nas páginas, a intriga vai se intensificando ao ponto de ser impossível interromper a leitura ao meio. As surpresas que aparecem a todo instante na narrativa são o segundo aspecto marcante de “O Homem de Giz”. C. J. Tudor se mostra mestre em inserir novos elementos em sua história que são capazes de inverter e embaralhar a perspectiva do leitor. As surpresas são constantes e chegam ao seu ápice nas páginas finais. Sem dúvida, este é um dos thrillers mais interessantes que li nos últimos anos.

Gostei muito como esta história foi contada. O narrador é uma personagem pouco confiável e que suscita dúvidas no leitor desde o início. Por isso, não será surpresa nenhuma descobrir os segredos terríveis que ele guarda com tanto cuidado. Mesmo escrevendo muitíssimo bem, C. J. Tudor não possui a sutileza fina necessária para transformar Eddie Adams em um novo James Sheppard, protagonista histórico de “O Assassinato de Roger Ackroyd” (Globo), clássico de Agatha Christie. Apesar desse tropeço, o narrador de “O Homem de Giz” tem seu valor ao apresentar características típicas das personagens redondas. Ora o leitor se solidariza com ele, ora acaba se questionando sobre sua personalidade contraditória.

A escolha por desenvolver a narrativa em dois momentos distintos foi acertadíssima. Apesar de não ser uma grande novidade (muitos best-sellers recentes do gênero investigativo acabaram utilizando esse expediente tanto no Brasil quanto lá fora), esse recurso é difícil de ser feito e demonstra o talento de sua escritora. Ao retratar simultaneamente a história em passado e presente, Tudor potencializa o suspense. A dupla narrativa torna o conflito principal mais dramático e oferece mais ação à trama.

Outro ponto que merece elogio é a ousadia da construção das personagens masculinas por C. J. Tudor. A maioria das figuras retratadas no romance é de pessoas do sexo masculino. Elas são de várias idades: de crianças a idosos. Nunca é fácil um escritor escrever com profundidade uma trama com tantas pessoas do sexo oposto. Isso acontece tanto com os autores que criam personagens femininas quanto com as escritoras que precisam produzir personagens masculinas. Tudor parece não se preocupar com isso e, principalmente, não se intimida com essa limitação natural do fazer literário.

É verdade que muitas de suas personagens masculinas são estereotipadas. Esse fato incomoda um pouco o leitor mais exigente. Contudo, isso não parece ser um problema apenas das figuras masculinas. Infelizmente, as personagens femininas (as poucas que aparecem no romance) também são planas e recheadas de clichês. A proposta da escritora inglesa parece ser: “vou deixar bem claro para meus leitores o maniqueísmo desta história”. Se por um lado a trama fica mais didática, por outro ela se torna profundamente previsível. Não há muitos nuances aqui: quem é bonzinho é bonzinho, quem é mau é mau e ponto final.

Apesar de uma ou outra revelação ser mais ou menos esperada, a maioria delas são surpreendentes. E aí que “O Homem de Giz” se torna um belo romance. Em toda reviravolta que sua história dá, o livro se torna mais rico e complexo. Seu conflito é intrincado e sua resolução exige a descoberta de várias peças soltas do quebra-cabeça narrativo. Portanto, espere de tudo desta leitura. Nesse sentido, seu desfecho é espetacular. Além de apresentar revelações imprevisíveis, o desenlace da obra desemboca em cenas de ação que empolgam e elevam a dramaticidade da história.

Achei o estilo de C. J. Tudor uma mistura de Stephen King com Harlan Coben. Do primeiro, temos um enredo feito sob o ponto de vista das crianças aterrorizadas por eventos macabros e inexplicáveis (marca da primeira fase da literatura de King). Do segundo, temos um protagonista devastado por segredos do passado que o atormentam no presente (praticamente todos os livros de Coben giram em torno desse tipo de trama). Essas semelhanças não são uma crítica negativa ao livro de Tudor, mas uma constatação sobre seu estilo literário. Como sou fã dos livros de King e Coben, esse comentário é na verdade um elogio à jovem escritora inglesa.

Para finalizar este post, preciso comentar o trabalho gráfico feito pela Intrínseca. “O Homem de Giz” possui um acabamento gráfico maravilhoso. Nota-se o cuidado que a editora teve em produzir o livro tanto na parte do projeto visual quanto nas escolhas dos materiais de impressão. Ao pegar a obra e folheá-la já é possível notar sua beleza estética. Ah se todo livro tivesse essa qualidade de impressão por parte da editora!

Estou curioso para conhecer os novos trabalhos de C. J. Tudor. À medida que seus livros forem sendo publicados em nosso país, tentarei lê-los e comentá-los no Bonas Histórias. Vamos ver se consigo cumprir minha promessa. Afinal, ler a jovem escritora inglesa parece ser uma boa ideia. Ao menos foi essa a impressão deixada em sua obra de estreia. Torcemos para não ter sido sorte de principiante.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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