• Ricardo Bonacorci

Livros: Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios – O terceiro romance de Marçal Aquino


Marçal Aquino, escritor e roteirista cinematográfico nascido no interior de São Paulo em 1958, possui alguns trabalhos memoráveis. Na literatura, podemos destacar “O Amor e Outros Objetos Pontiagudos” (Geração Editorial), coletânea de contos de 1999. Essa obra conquistou o Prêmio Jabuti no ano seguinte. “A Turma da Rua Quinze” (Ática), “O Mistério da Cidade Fantasma” (Ática), “O Primeiro Amor e Outros Perigos” (Ática) e “O Jogo do Camaleão” (Ática) são obras infantojuvenis lançadas entre 1989 e 1997. Esses livros integraram a famosa Série Vaga-Lume, leitura obrigatória da criançada nas últimas três décadas. “Cabeça a Prêmio” (Cosac Naify) e “Famílias Terrivelmente Felizes” (Cosac Naify), ambos destinados ao público adulto e publicados em 2003, também se destacaram pela ousadia narrativa. No cinema, “O Invasor” (2002), produzido ao mesmo tempo que o livro homônimo de Aquino, ganhou o Troféu APCA de 2003. “O Cheiro do Ralo” (2007) foi roteirizado pelo escritor paulista a partir do romance de Lourenço Mutarelli e é o meu filme favorito daqueles adaptados por Marçal Aquino.

Contudo, a obra mais marcante do escritor paulista na literatura, em minha humilde opinião, é “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” (Companhia das Letras). O romance, o terceiro do autor, foi lançado em 2005. Sete anos mais tarde, essa história foi roteirizada pelo próprio Aquino e se transformou em filme. O longa-metragem foi dirigido por Beto Brant e Renato Ciasca e teve a atuação de Camila Pitanga e Gustavo Machado, o casal de protagonistas.

Curiosamente, eu assisti ao filme na época do seu lançamento nos cinemas, mas confesso envergonhado que hoje não me recordo de quase nada de sua trama. As únicas coisas que me lembro são as várias cenas de nudez de Camila Pitanga e das várias sequências de sexo explícito realizado pelas personagens principais. Não é preciso dizer que achei o filme fraquíssimo. Do contrário algo de sua narrativa teria ficado em minha memória, né? Se eu não fosse um rapaz muito elegante, diria que até mesmo a nudez de Pitanga foi decepcionante.

Interessado em conhecer este livro, comprei no último final de semana o romance. E mais uma vez fiquei impressionado positivamente com o talento de Marçal Aquino. Li a obra em duas noites. Comecei na segunda-feira e a concluí já na terça-feira seguinte. “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” é, desculpe-me pelo clichê, mil vezes melhor como livro do que como filme. Aposto que daqui alguns anos não correrei o risco de esquecer de sua narrativa literária como ocorreu com seu roteiro cinematográfico. Mais incrível do que a história em si é o jeito de Aquino contar a trama. Ele mistura presente e passado e interpõe dois conflitos de amor ao mesmo tempo, intensificando o drama psicológico do protagonista. Sem esse recurso, o romance teria perdido grande parte de sua graça (está explicado, portanto, o que faltou no filme!).

“Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” se passa no início do século XXI em uma cidade interiorana do Pará. A localidade sofre com o conflito entre garimpeiros e empresas mineradoras. Os dois lados disputam violentamente a riqueza natural da região, o que faz disparar a taxa de homicídios e de crimes. Nesse ambiente de grande hostilidade, vive Cauby (sim, igual ao cantor!), um fotógrafo paulista de quarenta e três anos interessado em retratar as pessoas daquele canto remoto (e muitas vezes esquecido) do Brasil. O alvo prioritário de seus cliques é as mulheres que se prostituem. Por isso, ele realiza visitas constantes à zona de meretrício da cidade. Para realizar esse trabalho, Cauby recebeu um financiamento de uma instituição francesa de fotografia. A ideia é que as fotos do brasileiro sejam transformadas mais tarde em um livro.

A vida tranquila de Cauby na cidade paraense sofre uma transformação quando ele conhece Lavínia em uma loja de produtos e de serviços fotográficos. A moça de vinte e quatro anos é natural do Espírito Santo, tem uma beleza estonteante e dedica-se nas horas vagas à fotografia. Após aceitar o convite do paulista para participar de uma sessão fotográfica no estúdio particular dele, Lavínia começa um tórrido relacionamento com Cauby. Os dois passam a se encontrar regularmente e não conseguem mais se desgrudar. A paixão da dupla é do tipo avassaladora, assim como as práticas sexuais.

O que era para ser uma alegria para Cauby se torna uma dor de cabeça para ele por causa de duas características peculiares da parceira. Lavínia sofre de dupla personalidade e, ainda por cima, é uma mulher casada. A dupla personalidade da moça é manifestada de maneira antagônica. Ora ela é uma pessoa calma, centrada e racional, ora é nervosa, impulsiva e passional. Cada uma dessas mulheres possui suas vantagens e desvantagens. Administrar a complexidade emocional da moça é o maior desafio de Cauby. Além disso, Lavínia é casada com Ernani, um respeitado pastor evangélico. À medida que o tempo passa, a relação extraconjugal de Cauby e Lavínia começa a se tornar cada vez mais pública, transformando-se em um perigo para todos os envolvidos.

A história de amor dos protagonistas do romance é lembrada por Cauby quando ele já terminou seu relacionamento com Lavínia. Morando em uma pensão na mesma cidade paraense, o fotógrafo recorda-se dos momentos ao lado de sua amada enquanto ouve um outro hóspede, Altino, narrar sua história de amor platônico por Marinês. Careca e com sequelas de um derrame, Altino detalhe a paixão quase impossível por uma moça comprometida que conheceu no banco em que trabalhava. Mesmo não sendo amado pela colega, ele se dedicou a vida inteira àquele amor impossível.

O leitor acompanha a dupla narrativa: a trama de Cauby e Lavínia saem da mente do narrador-protagonista, enquanto a de Altino e Marinês é relatada ao personagem principal na mesa do restaurante da pensão. Assim, passado e presente se misturam o tempo inteiro, assim como os dois conflitos românticos se bifurcam. O texto fica ainda mais rico pois as duas histórias (de Cauby e de Altino) são apresentadas juntamente com a teoria pouco ortodoxa do psicanalista Benjamim Schianberg, um professor universitário especialista no comportamento amoroso dos seres humanos. Cauby é obcecado pelos livros e pela teoria de Schianberg. Curiosamente, Marçal Aquino aproveitaria, quatro anos mais tarde, esta personagem ficcional do seu terceiro romance para criar uma minissérie televisiva chamada “O Amor Segundo Benjamim Schianberg”. Nela, o conceituado psicanalista observava os casais para validar suas teses.

“Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” possui 232 páginas e está dividido em quatro partes: “O Amor é Sexualmente Transmissível”, “Carne-viva”, “Postais de Sodoma à Luz do Primeiro Fogo” e “Poemas Escritos com Bile”. Nas duas primeiras partes, conhecemos, respectivamente, o início da paixão de Cauby por Lavínia e de Altino por Marinês. Na terceira, acompanhamos o clímax dessas histórias. E, por fim, na última parte, vemos o desfecho surpreendente das duas narrativas. Ao final da leitura, compreendemos o quanto os dramas dos dois homens são parecidos. Ambos são figuras desesperadas. Apaixonados, eles anseiam pela reciprocidade de seus amores, algo que, infelizmente, jamais acontecerá.

O primeiro elemento que chama a atenção do leitor neste livro é o da complexidade da mistura narrativa. Os tempos (passado e presente) estão embaralhados nesta história. O narrador vai e volta aos fatos de ontem e de hoje dependendo do seu fluxo de consciência, que viaja livremente. Esse recurso não é nenhuma novidade nos romances, mas Marçal Aquino o utiliza com primor, tornando sua narrativa deliciosa. A mudança temporal pode acontecer em uma frase, o que é rapidamente perceptível ao leitor. O mesmo se aplica a interpolação das tramas. As histórias de Cauby e de Altino estão embaralhadas ao ponto de elas surgirem e desaparecerem de repente no meio do parágrafo. Personagens, situações e cenários diferentes estão o tempo inteiro grudados como em um livro velho em que as páginas estão grudadas umas nas outras. Ler “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” é mergulhar em uma avalanche narrativa.

Também gostei do tipo de fluxo de consciência utilizado pelo autor. Esqueça as tramas incompreensíveis em que o narrador fica divagando sobre seus dramas do passado e sobre seus traumas do presente. Aqui não temos o caos narrativo de, por exemplo, “Os Cus de Judas” (Alfaguara), de António Lobo Antunes, de “A Paixão Segundo G.H.” (Rocco), de Clarice Lispector, ou de “A Obscena Senhora D” (Globo), de Hilda Hilst. Apesar de estarem misturados com a realidade e com a imaginação, os pensamentos do narrador-protagonista de “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” ficam claros para o leitor desde a primeira página. Gosto desse tom mais didático e claro. Cauby é o tipo de narrador lógico e que permanece com os dois pés no presente, apesar de gostar de voltar ao passado. Ele não parece nem um pouco amalucado como os narradores citados de Lobo Antunes, Lispector e Hilst.

Outra questão interessante para ser notada aqui é a falta de marcação de diálogos, uma característica típica da literatura de Marçal. O discurso direto das personagens do romance entra sem a sinalização gráfica (travessão ou aspas), misturando-se, assim, com a narração. Curiosamente, o leitor não fica confuso com esse expediente. Como os diálogos são fortes e marcantes, fica evidente para quem está lendo a obra que essas frases são manifestações das personagens e não do narrador. E por falar nisso, achei os diálogos produzidos por Marçal Aquino simplesmente maravilhosos. O escritor paulista tem o dom de tornar as conversas de suas personagens verossímeis e saborosas.

Adorei também a maneira como as cenas e as personagens se materializam no texto. Fazia um bom tempo que não lia algo que mexesse tanto com a minha imaginação. A descrição de Aquino é tão bem-feita, que acabamos imaginando visualmente o que ele escreveu. Isso fica mais claro no primeiro capítulo, uma pequena obra-prima da literatura nacional. Note como o romancista insere cada um dos elementos da sua trama com riqueza de detalhes que atiçam a curiosidade e a sensibilidade do leitor, construindo visualmente o panorama descrito.

Além disso, a ambientação se integra ao estado de espírito das personagens. A violência da cidade, por exemplo, é propagada para os relacionamentos caóticos, infelizes e conturbados das personagens principais (a dupla de casais). O conflito entre garimpeiros e mineradores (na ordem macroambiental) pode ser relacionado aos conflitos conjugais e até mesmo individuais de cada personagem (ordem microambiental). Por isso o tom pesado e um tanto sombrio do livro. Mesmo narrando duas histórias de amor, o que o romancista paulista entrega junto é uma trama de constante desconforto e agonia.

A intersecção das histórias de Cauby e Altino também pode ser analisada conjuntamente. O leitor mais atento, na certa, irá compará-las. E ele perceberá, em muitas passagens, as várias semelhanças que elas possuem. Simultaneamente, notará, em outros momentos, o quanto elas são antagônicas. Cauby e Altino são ao mesmo tempo personagens parecidas e completamente diferentes. O resultado final de suas histórias, contudo, é idêntico: homens desiludidos e amargurados, presos ao passado que jamais será reconstituído.

As inserções à narrativa da teoria do professor Benjamim Schianberg, uma personagem riquíssima apesar de ser apenas citada, enriquecem ainda mais o texto já primoroso. É muito engraçado a busca por uma explicação lógica e acadêmica para os dramas amorosos. O humor aqui é do tipo sutil e extremamente inteligente.

A única escorregada que encontrei na narrativa é quanto às debilidades físicas do protagonista, que surgem de maneira bem clara no final do livro. Porém, elas não aparecem nem direta nem indiretamente no início, algo que era para ser esperado por alguém que já possuía tais problemas. Por exemplo, Cauby tem uma péssima audição. Seria, portanto, de se esperar que ele ouvisse mal os diálogos das pessoas a sua volta. Entretanto, isso não é citado nem fica subentendido. Ele ouve tudo e todos maravilhosamente bem (prova disso é a cena no restaurante da pensão que abre o romance). Somente no final do livro, quando essa deficiência é apresentada, a dificuldade de audição aparece.

Com exceção desse detalhezinho, “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” é um romance impecável. Seu drama é forte e contundente. Sua história é boa. Ela é até mesmo potencializada pelo tipo de literatura produzida por Marçal Aquino. Fiquei fã do seu texto límpido, instigante, profundo e bastante visual. É muito legal encontrarmos autores talentosos que transformam boas tramas em narrativas excepcionais. E isso é resultado da infinidade de recursos literários usados com primor pelo escritor: diálogos maravilhosos, mistura de diferentes tempos narrativos, personagens ricas, ambientação contundente, surpresas e reviravoltas na trama, humor inteligente e texto visual.

Agora entendi o por que não gostei do filme. Como história em si, “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” fica um pouco acima da média. Seu valor está efetivamente no tipo de narrativa apresentado ao leitor. E isso o longa-metragem não conseguiu recriar, algo que está intrínseco no romance. Como narrativa literária, este livro de Marçal Aquino é maravilhoso!

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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