• Ricardo Bonacorci

Filmes: Entre Facas e Segredos - O bom suspense de Rian Johnson


Na tarde de 24 de dezembro, véspera de Natal, fui ao cinema para assistir “Entre Facas e Segredos” (Knives Out: 2019), suspense policial estrelado por Daniel Craig. E qual foi minha surpresa (sim, fiquei realmente surpreso!) ao não ver ninguém nas salas do Cinemark do Shopping Tietê Plaza. Não apenas não havia ninguém comigo na minha sessão como também não tinha ninguém nas demais salas do cinema. Só então compreendi que todo mundo estava mais interessado em visitar as lojas do shopping do que conferir um filmezinho. Esse é o verdadeiro espírito natalino, meu/minha caro(a).

Lançado no circuito comercial brasileiro em 12 de dezembro, “Entre Facas e Segredos” foi dirigido por Rian Johnson, de “Star Wars - Os Últimos Jedi” (Star Wars: The Last Jedi: 2017), “Vigaristas” (The Brothers Bloom: 2008) e da série “Breaking Bad”. Orçado em US$ 40 milhões, o filme tem um elenco de primeira. Além de Craig, o eterno 007 loiro, integram o time de atores e atrizes desta produção Ana de Armas, Christopher Plummer, Chris Evans, Jaime Lee Curtis, Michael Shannon, Don Johnson, Toni Collette, Lakeinth Stanfield, Katjerine Langford e Jaeden Martell.

“Entre Facas e Segredos” é o típico longa-metragem de investigação policial. Sua história lembra muito as tramas de Agatha Christie, na qual um detetive particular é contratado para resolver um assassinato misterioso. Rian Johnson não escondeu do público essa forte ligação com as narrativas da escritora inglesa. Em entrevistas, o diretor norte-americano disse que seu novo filme foi inspirado em “O Assassinato no Expresso Oriente” (L&MP Pocket), um dos livros mais famosos de Christie (esta foi a obra mais vendida da autora – 3 milhões de unidades comercializadas em todo mundo).

Para quem acha que Johnson se limitou a fazer uma mera cópia dos clássicos do gênero investigativo, aí reside a primeira grande surpresa do seu novo longa-metragem. “Entre Facas e Segredos” traz interessantes inovações narrativas que o aproximam mais de Alfred Hitchcock do que de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle. O suspense do filme se faz não para descobrir o que aconteceu (a plateia fica sabendo rapidamente quem é o(a) responsável pelo assassinato), mas para saber o que irá ocorrer dali em diante. É justamente aí que está localizado o grande mistério desta produção, o que torna seu conflito bastante emocionante e, acima de tudo, eletrizante.

Além disso, a trama do filme não é do tipo impossível de ser desvendada. Basta um(a) espectador(a) atento(a) e conhecedor(a) das dinâmicas desse tipo de história para solucionar sem grandes problemas o mistério armado. Se por um lado as “surpresas” finais não são tão surpresas assim, por outro lado é legal solucionar um crime (algo que jamais eu tinha conseguido fazer com as histórias de Agatha Christie e de Arthur Conan, por exemplo). Se falta astúcia ou sutileza para ludibriar a plateia em “Entre Facas e Segredos”, não falta lógica e verossimilhança ao seu desfecho (uma das minhas principais reclamações quanto aos desenlaces das histórias de detetive).

O filme começa no dia seguinte à festa de aniversário de 85 anos de Harlan Thrombey (interpretado por Christopher Plummer), um renomado escritor norte-americano de romances policiais. Para pânico (ou seria alegria?) da família, ele aparece morto em seu escritório particular. Seu pescoço foi cortado. Para os parentes mais próximos, não há dúvida: o proprietário da mansão se suicidou. Contudo, esse não é o veredito do detetive Benoit Blanc (Daniel Craig), conhecido nos Estados Unidos por desvendar casos até então insolúveis. Blanc é um importante detetive particular que foi contratado misteriosamente para solucionar as dúvidas a cerca da morte de Thrombey. Curiosamente, nem ele sabe quem o pagou para estar ali.

Não demora muito para o responsável pela investigação notar uma série de problemas que desmontam a versão do suicídio. Aos olhos de Blanc, não apenas o escritor foi assassinado como não faltam pessoas interessadas na morte do milionário. Filhos, filhas, genro, nora e netos são suspeitos pelo crime. Muitos deles tiveram discussões acaloradas com Harlan Thrombey na festa de aniversário. Para descobrir o que aconteceu, Benoit Blanc solicita que todos façam uma descrição detalhada dos eventos da noite anterior.

Um grande trunfo do detetive particular é a presença de Martha Cabrera (Ana de Armas), enfermeira do Sr. Thrombey, na casa. Diferentemente dos familiares do escritor, a funcionária parece ser a única pessoa realmente abalada pela morte do proprietário do lugar. Afinal, mais do que uma funcionária, Martha era uma boa amiga do velho. Além disso, ela se mostra honesta e nem um pouco interessada pela fortuna deixada pelo patrão (agora ex-patrão). Para completar, Martha possui um problema físico/biológico que a impede de mentir. Sempre que a moça tropeça na verdade, ela vomita. Assim, é fácil saber se ela está mentindo ou não. Enquanto todos na casa tentam ludibriar Benoit Blanc (e não faltam mentiras por parte dos familiares), a jovem enfermeira se esforça para relatar o que efetivamente ocorreu ali. Não à toa, ela passa a acompanhar o detetive no trabalho dele. Martha Cabrera se torna o braço direito do Sr. Blanc nesta investigação.

Com 130 minutos de duração, “Entre Facas e Segredos” é o típico filme que passa voando. Você nem percebe que ficou mais de duas horas sentado na sala de cinema assistindo-o. Sua qualidade pode ser traduzida pelos números de faturamento. Em uma época em que os cinemas não estão tão lotados (digo isso por experiência própria!), a produção de Rian Johnson já embolsou mais de US$ 200 milhões em bilheteria pelos quatro cantos do planeta. Uma explicação para esse belo resultado é a baixa concorrência. Infelizmente, o final de ano não é um período pródigo de bons lançamentos cinematográficos (e aí as boas opções acabam surfando numa boa).

O primeiro aspecto que chama a atenção é o ótimo roteiro de “Entre Facas e Segredos”. A trama escrita pelo próprio Rian Johnson é tão bem amarrada que mesmo a revelação do culpado pela morte do Harlan Thrombey logo na primeira metade do longa-metragem não estraga o clima de suspense. Pelo contrário: a tensão dramática só vai aumentando até o final (o mistério é mais para saber o que vai acontecer do que para entender o que aconteceu). Incrível perceber como a história é bem construída e, acima de tudo, impecavelmente narrada. Aí sobra para a plateia, que acaba ficando com o coração na boca na maior parte do tempo.

Parte dos méritos do roteiro foi ter transformado a mansão dos Thrombey (onde quase todas as cenas se passam) em uma personagem do filme (diria até em um protagonista desta produção). O jeitão de casa de terror dá um colorido especial à trama. Repare na decoração que compõe o cenário da residência. Tudo ali parece ter sido muito bem pensado pela equipe de direção de arte. Cada objeto e cada mobília possuem uma finalidade para estar onde estão. Prova disso é que detalhes da decoração são parte fundamental do enredo, como fica evidenciado na última cena do filme. Incrível!

Além disso, o roteiro de “Entre Facas e Segredos” também explora magnificamente o perfil psicológico das várias personagens retratadas. Assim, mesmo com o excesso de personagens/suspeitos pelo crime, conseguimos identificar as particularidades de todas elas (algo que nem sempre é rápido e fácil de ser feito em um longa-metragem). O mesmo processo ocorre com os policiais encarregados da investigação (o detetive particular tem a companhia de uma dupla de tiras).

Gostei também das doses de humor do filme, que dão um pouco de leveza ao conflito tão pesado. Não é errado, portanto, ver este título como uma comédia (no caso, como uma comédia-dramática). As cenas mais engraçadas são protagonizadas pela personagem de Ana de Armas. A enfermeira que ela interpreta é hilária. Seu hábito de vomitar sempre que fala uma mentira rende boas sequências. Além disso, seu jeito meio amalucado, meio atrapalhado e meio brejeiro contrasta com o jeitão sério e sisudo da personagem de Daniel Craig.

Se fiquei feliz em ter descoberto o desfecho de “Entre Facas e Segredos” (na metade do filme já é possível sacar o que está acontecendo/aconteceu na noite do aniversário do escritor falecido), por consequência achei o desfecho do longa MUITO previsível. As surpresas que o cineasta reserva para as últimas cenas já são esperadas pelo espectador mais atento. Aí não há suspense que resista à avalanche de obviedades. Entretanto, se por um lado isso é extremamente frustrante, por outro lado mostra o quanto o roteiro é totalmente coerente (a ponto de permitir à parte da plateia desvendar o crime por conta própria). Gostei disso. Geralmente saio decepcionado quando o desfecho se torna esdrúxulo só para enganar o público (como ocorreu no próprio “O Assassinato no Expresso Oriente”, romance no qual este filme se inspirou).

Outro elemento que merece nossos elogios é a atuação soberba do elenco. Daniel Craig mostra que há vida depois de interpretar o 007 e continua escolhendo bons papéis. Seu principal desafio na pele de Benoit Blanc foi conferir um sotaque de caipira norte-americano ao seu personagem. Convenhamos que isso não é muito fácil para um ator inglês. Mesmo assim, Craig se saiu surpreendentemente bem nesse quesito (apesar do resultado ainda sim ter sido curioso).

A boa atuação em “Entre Facas e Segredos” não ficou reservada ao detetive. O elenco experiente deu conta do recado de maneira sublime. Por conta do excesso de personagens, muitos atores apareceram pontualmente (mesmo assim puderam deixar boas marcas). Entre os destaques positivos estão Ana de Armas. Com seu jeitinho doce, ingênuo e espontâneo, ela consegue cativar a plateia para que torça por ela (algo fundamental para conferir a tensão dramática que o filme requer).

Dos filmes lançados em dezembro nos cinemas brasileiros, “Entre Facas e Segredos” é possivelmente um dos mais interessantes, ainda mais para quem gosta de uma boa trama de suspense e mistério. Vale a pena conferi-lo (ainda mais agora com o término do Natal, não é?).

Assista, a seguir, ao trailer de “Entre Facas e Segredos”:

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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