• Ricardo Bonacorci

Livros: O Drible – O espetacular romance futebolístico de Sérgio Rodrigues


Qual é o grande livro de ficção sobre futebol da literatura brasileira ou da literatura internacional?! Me fiz essa pergunta quando estava com “O Drible” (Companhia das Letras), romance de Sérgio Rodrigues, em minhas mãos no meio da Livraria Cultura da Avenida Paulista, em São Paulo. Sinceramente, não me recordo de uma obra ficcional marcante que tenha falado do esporte mais popular do mundo ou que fosse ambientada em seu universo.

Sempre me lembro de “Febre de Bola” (Companhia das Letras), livro autobiográfico do inglês Nick Hornby, um dos meus favoritos neste gênero. “O Negro no Futebol Brasileiro” (Mauad), clássico nacional de Mário Filho, é muito mais um trabalho jornalístico e biográfico do que uma obra ficcional. O mesmo se passa com “Jogador Secreto” (Panda Books), de um autor anônimo, “Estrela Solitária” (Companhia das Letras), de Ruy Castro, e “Jogo Sujo” (Panda Books), de Andrew Jennings. Todas essas publicações ficam na estante das não ficções, passando longe, muito longe da parte reservada aos romances nas livrarias.

Talvez o escritor que tenha explorado com mais frequência essa temática em seus romances tenha sido Eduardo Galeano, que na infância sonhava em ser jogador de futebol. Mesmo assim, “O Futebol ao Sol e à Sombra” (L&PM Pocket), livro do autor uruguaio que é considerado um símbolo da sua literatura futebolística, também faz um panorama histórico e apaixonante desta modalidade ao invés de adentrar exclusivamente em uma trama ficcional.

Depois de tanta reflexão, minha pergunta permanece não respondida. E na ficção, quem trata o futebol como matéria-prima literária, hein? Obviamente, estou excluindo dessa investigação as narrativas curtas. Fernando Sabino, Luis Fernando Veríssimo e José Roberto Torero, por exemplo, têm ótimos contos sobre esse tema. Na crônica, são vários os autores que exploraram esse assunto (e olha que não estou me referindo apenas aos cronistas esportivos). Minha questão é com os romances. Qual romancista trabalhou o futebol em suas tramas?

Para não dizer que desconheço trabalhos nessa linha, recentemente li “Segundo Tempo” (Companhia das Letras), romance de Michel Laub publicado em 2006. O escritor gaúcho insere uma partida do Gre-Nal de 1989 no centro de um drama familiar. O livro é espetacular! Mesmo assim, convenhamos: é muito pouco para um assunto como o futebol, presente no cotidiano de tantas pessoas, passar despercebido pelos escritores da prosa ficcional.

Por isso, fiquei empolgado em ler “O Drible”. Será que, enfim, teríamos uma obra para servir de referência e/ou que estimulasse novos escritores a abordar esse assunto em seus romances? A resposta agora é sim. Sérgio Rodrigues criou uma obra-prima da literatura brasileira contemporânea. Autor de uma dezena de livros, entre romances, novelas e coletâneas de contos e de crônicas, “O Drible” é o trabalho mais famoso e premiado de Rodrigues. Não à toa, este título aparece em qualquer lista bem-feita como um dos grandes romances escritos no século XXI em nosso país. E não é preciso dizer que, muito possivelmente, se trata do melhor livro ficcional já escrito sobre futebol em língua portuguesa. Falo isso porque desconheço um bom concorrente ao posto. Se vocês conhecerem outro romance futebolístico com tamanha qualidade, por gentileza, me informem porque terei muito prazer em lê-lo também.

Publicado em 2013, “O Drible” é o terceiro romance de Sérgio Rodrigues. As obras precedentes deste gênero foram “As Sementes de Flowerville” (Objetiva), de 2006, e “Elza, a Garota” (Companhia das Letras), de 2009. “O Drible” foi traduzido para vários idiomas e lançado com sucesso no exterior. No Brasil, a obra conquistou, em 2014, o Prêmio Portugal Telecom de Literatura, um dos mais importantes do país, nas categorias Melhor Romance e Grande Prêmio. Nesse mesmo ano, o livro foi finalista do Prêmio Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura, ambos na categoria Melhor Romance do Ano. As críticas nacional e internacional foram unânimes em apontar as qualidades excepcionais desta narrativa.

“O Drible” se passa no Rio de Janeiro nos dias de hoje. Entretanto, seu enredo invariavelmente retrocede, através das lembranças, dos relatos orais, dos registros textuais e dos arquivos audiovisuais dos protagonistas, em seis décadas. A trama do romance gira em torno do conflito familiar de Murilo Neto e Murilo Filho, respectivamente filho e pai. As duas personagens principais desta narrativa se odeiam profundamente. Seus dramas são embalados pela saborosa história do futebol brasileiro, que direta e indiretamente influencia os acontecimentos desta família abalada por segredos do passado muito bem guardados.

Murilo Neto é um carioca de 47 anos que trabalha como revisor de livros de autoajuda. Pouco talentoso para o ofício literário, obcecado pela cultura Pop dos anos de 1970 e frustrado com a interrupção precoce de sua carreira de músico, ele vive solitário e atormentado desde a infância pelo desprezo do pai. Sua única alegria está em seduzir moças muito mais jovens e pobres para relacionamentos sexuais breves e intensos. Neto está há 26 anos sem ver e sem falar com Murilo Filho, atualmente beirando os 80 anos de idade.

Murilo Filho foi um dos grandes cronistas esportivos do país entre as décadas de 1960 e 1980. Ao lado de Mário Filho, Nelson Rodrigues, João Saldanha e Armando Nogueira, ele se tornou um nome conhecido da imprensa esportiva nacional. Não houve fatos e personalidades de destaque do futebol brasileiro que não tenham sido comentados a exaustão nas páginas das colunas e dos livros do Leão da Crônica Esportiva, como Murilo Filho foi apelidado. Também chamado de Dickens de Campos Sales por seu estilo de escrita e pela torcida pelo time do América, ele era reverenciado em público, mas era odiado em casa. Sua esposa, Elvira Lobo, e o filho do casal nunca gostaram do jeito mulherengo, egoísta e autoritário de Murilo Filho. O pai sempre ignorou as vontades do filho único e o desprezou sem piedade. As desavenças dos dois começaram na infância e foram se prolongando até a idade adulta, quando, enfim, ambos cortaram relações.

Por isso, Murilo Neto se surpreende quando Murilo Filho lhe telefona depois de quase três décadas de ausência. O pai, já muito idoso e extremamente doente, deseja voltar a ver o filho. Intrigado com aquela mudança repentina de comportamento, Neto passa a visitar Filho todos os domingos em um sítio na região serrana do estado do Rio de Janeiro. Nesses encontros semanais na residência de Murilo Filho, a dupla pesca e assiste a vídeos antigos de futebol gravados em fitas VHS. O ex-cronista também aproveita para discorrer sobre os grandes futebolistas do passado, seu assunto favorito. Esse parece ser o único tema que ele sabe e gosta de falar. Sem se importar com as opiniões e com os sentimentos do filho, Murilo Filho passa horas rememorando o passado de glórias do esporte nacional.

Aproveitando-se do restabelecimento do contato com Murilo Neto, Murilo Filho lhe informa que está escrevendo um livro sobre Peralvo, um jogador de futebol nascido na década de 1940, em Merequendu, cidade natal do cronista. Segundo Murilo Filho, Peralvo era para ter sido melhor do que Pelé. Afinal, o atacante merequenduano tinha as mesmas habilidades do que o rapaz de Três Corações dentro das quatro linhas. O que o diferenciava era o poder sobrenatural de antever em alguns segundos o que iria acontecer tanto dentro de campo quanto fora dele. É essa história esquecida do futebol brasileiro que Murilo Filho deseja contar para o grande público. O pai dá os originais de sua nova obra para o filho revisar e comentar. Dessa maneira, Murilo Neto tomará conhecimento de uma faceta desconhecida e trágica do esporte nacional que seu pai pôde testemunhar pessoalmente.

“O Drible” possui 224 páginas divididas em cinco capítulos. Os narradores mudam de capítulo a capítulo. Em determinadas partes, temos Murilo Neto contando sua versão da história. Em outras, temos os registros em primeira pessoa de Murilo Filho, contando a biografia de Peralvo sob seu ponto de vista. Li a obra inteira em duas noites, tamanha foi minha empolgação.

Curiosamente, “O Drible” não é apenas um ótimo livro para quem gosta de futebol, mas é também uma publicação capaz de encantar todos aqueles que apreciam uma boa prosa ficcional. Afinal de contas, o terceiro romance de Sérgio Rodrigues possui uma trama intrincada, cheia de surpresas e reviravoltas, uma história forte, um drama sensível e uma narrativa repleta de inovações ousadas. O resultado é uma obra primorosa. E tudo isso com uma ambientação de tirar o fôlego: a era dourada do futebol brasileiro e da crônica esportiva nacional.

Para quem espera achar apenas referências futebolísticas neste romance, aqui vai a primeira grande surpresa de “O Drible”. A história de Rodrigues também faz um mergulho no universo da música e da cultura Pop. Nas páginas desta publicação, podemos rememorar grande parte dos acontecimentos culturais e televisivos do país durante a segunda metade do século XX. Ou seja, temos aqui uma forte intertextualidade com desenhos animados, cinema, programas de televisão, política e até mesmo filosofia. Isso é muito legal. Murilo Neto, grande fã da cultura Pop e do Rock and Roll, traz muitas dessas referências para seu relato, conferindo maior autenticidade à narrativa. Poucas vezes vi um efeito tão positivo trazido por esse conjunto amplo de elementos intertextuais.

Paradoxalmente, Murilo Neto é fanático por música enquanto Murilo Filho é viciado em futebol. Os dois são pessoas quase monotemáticas. Cada um deles bate o tempo inteiro na mesma tecla, o que é muito engraçado (e um pouco triste). Atire a primeira pedra quem não conhece ninguém com essas características. Os dois protagonistas de “O Drible” só mudam de assunto quando precisam falar de seus dramas familiares. E ainda assim, a música e o futebol continuam cruzando suas vidas de maneira tortuosa.

Por falar em Murilo Filho e Murilo Neto (um bom nome para uma dupla sertaneja), repare na construção primorosa dessas personagens. Ao mesmo tempo em que essas figuras ficcionais são muito diferentes uma da outra (diria que são pessoas de personalidade e gostos opostos), elas também são bastante parecidas em sua essência. Como isso é possível?! Pergunte ao Sérgio Rodrigues, o responsável por criar algo tão sui generis. Para completar a semelhança/oposição entre as duas personagens, o mesmo nome só intensifica a confusão. O Murilo pai se chama Murilo Filho e o Murilo filho se chama Murilo Neto. Até parece conversa de louco, né? Impossível não achar graça nessa brincadeirinha proposta pelo escritor mineiro.

Outro aspecto positivo deste livro é a mistura constante de elementos ficcionais com elementos reais. Ao lado de personagens e fatos inventados por Rodrigues, o leitor se depara com pessoas e acontecimentos que ocorreram de verdade. Essa aproximação entre a história (realidade) e a estória (ficção) nos faz supor que algumas passagens e personagens criadas pelo autor possam ser verídicas. Teria existido realmente um cronista esportivo nascido em Merequendu com o nome de Murilo Filho e que fosse conterrâneo de Nelson Rodrigues, João Saldanha e Mário Filho? Teria havido um jogador chamado Peralvo que fosse melhor do que Pelé, Garrincha e Didi? E alguém já ouviu falar da banda Kopo Deleche & Kopo Derrum, contemporânea da Legião Urbana? Há perguntas que só romances extremamente realistas podem suscitar na mente dos seus leitores.

Qual o melhor momento deste livro? Difícil precisar. A primeira cena de Murilo Filho e Murilo Neto assistindo à jogada de Pelé na Copa de 1970 em uma fita VHS é espetacular. O lance protagonizado nas semifinais contra o Uruguai, drible da vaca no goleiro Mazurkiewicz, é descrito em tom épico pelo narrador. E, nessa hora, você pensa: isso não pode ficar melhor. Aí vem o capítulo final, recheado de surpresas e reviravoltas, e você entende que estava equivocado. O livro poderia sim ficar ainda melhor... Ele adquire, em seu desfecho, um tom de romance policial, meio que um thriller de ação. Esplendido!

A única coisa que me pareceu estranha foi a multiplicidade de focos narrativos. Aproveitando-se que há um livro dentro de outro livro, acabamos nos deparando com narrações em primeira pessoa feitas tanto por Murilo Filho quanto por Murilo Neto. Até aí, beleza. Mas qual a razão de termos alguns capítulos escritos em segunda e terceira pessoas? Sinceramente não entendi essa opção de Sérgio Rodrigues. Pareceu aos meus olhos mais uma invencionice do autor do que uma necessidade pedida pela narrativa.

Se estava faltando um grande romance nacional que falasse de futebol com beleza e sensibilidade literária, agora não falta mais. “O Drible” é uma obra fantástica e merecedora de todos os prêmios recebidos (e até mesmo dos não recebidos). Se alguém me disser que esse é o melhor livro ficcional sobre futebol já produzido em língua portuguesa, ei de concordar de imediato. E se me falarem que “O Drible” é, na verdade, o melhor livro já escrito sobre esse tema independentemente do idioma, também vou acreditar. Acreditarei nessa afirmação e, ainda por cima, não levantarei nenhuma dúvida sequer.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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