• Ricardo Bonacorci

Filmes: O Paraíso Deve Ser Aqui - A comédia original de Elia Suleiman


No finalzinho do ano passado, fui ao Espaço Itaú de Cinema da Augusta para conferir “O Paraíso Deve Ser Aqui” (It Must Be Heaven: 2019), o novo filme de Elia Suleiman. Esta comédia dramática é o quarto longa-metragem do diretor palestino mais original, engajado e premiado da atualidade. Esta produção foi indicada pela Palestina para disputar o prêmio de Melhor Filme Internacional do Oscar 2020 (esta é a nova nomenclatura da categoria que era chamada até o ano passado de Melhor Filme Estrangeiro). Contudo, “O Paraíso Deve Ser Aqui” não avançou à final do mais importante evento do cinema mundial. Para mim, tal estatueta deverá ficar entre o sul-coreano “Parasita” (Gisaengchung: 2019) e o espanhol “Dor e Glória” (Dolor y Gloria: 2019). Mesmo sem ir para a final do Oscar, o novo filme de Suleiman já levou para casa um importante prêmio internacional. No ano passado, o longa-metragem foi a grata surpresa do Festival de Cannes, quando concorreu à Palma de Ouro e conquistou a Menção Especial do Júri. Nada mal, hein?

O que mais chamou minha atenção em “O Paraíso Deve Ser Aqui” foi o seu caráter singular. Sua narrativa é extremamente criativa, o que torna seu enredo uma peça peculiar, difícil até mesmo de explicar. Você pode gostar ou não deste filme, mas na certa não encontrará muitos exemplares parecidos com ele por aí (ainda mais em cartaz neste momento). E é exatamente esta a maior riqueza do trabalho de Suleiman. Seu cinema é incomparável e inclassificável. Suas tramas são uma ode à inteligência e ao bom gosto. Com coragem, o cineasta palestino quebra regras, derruba barreiras e apresenta seu ponto de vista sobre assuntos polêmicos da atualidade. No cerne de seus títulos, a crítica social sempre se destaca.

Lançado em 19 de dezembro nos cinemas brasileiros, este é, sem dúvida nenhuma, o melhor trabalho até aqui de Elia Suleiman. O diretor parece ter atingido sua maturidade artística, além de ter consolidado um jeito próprio de fazer cinema. Se você ficou encantado(a) com “Intervenção Divina” (Yadon Ilaheyya: 2002), vencedor do European Film Awards como Melhor Filme Estrangeiro e do Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2003, e com “O Que Resta do Tempo” (The Time That Remains: 2009), ganhador do Festival de Cinema de Mar del Plata de 2010 nas categorias Melhor Diretor e Prêmio do Júri, saiba que “O Paraíso Deve Ser Aqui” é ainda melhor (sim, isso é possível!).

De certa maneira, o novo título de Suleiman se utiliza de boa parte dos recursos estéticos e do estilo narrativo dos filmes anteriores do cineasta. Essa relação é ainda mais forte quando comparada a “Intervenção Divina”. A falta de um enredo claro, longas sequências sem diálogos, forte crítica social e política, subjetividade interpretativa, abuso de cenas banais e um tanto paradas e mistura de realidade e ficção (com passagens autobiográficas) são marcas mais do diretor do que deste filme isoladamente.

No enredo de “O Paraíso Deve Ser Aqui”, Elia Suleiman interpreta ele mesmo, um diretor de cinema palestino. Vivendo uma rotina bucólica e solitária em sua terra natal, Suleiman passa o dia calado, observando seus conterrâneos e o dia a dia ao seu redor. A Palestina, aos olhos da personagem, é um lugar onde se predomina o abuso policial, o racismo, a censura, o rígido controle de imigração, a intolerância étnico-religiosa, a violência e a corrupção/roubo. Inconformado com o que vê, o diretor resolve viajar pelo mundo. Na certa haverá locais melhores para se viver, pensa ele ingenuamente. Com essa ideia na cabeça, ele parte para o exterior. Primeiramente, ele vai a Paris e, na sequência, visita Nova York.

Paradoxalmente, Elia Suleiman, sempre calado, observa os mesmos problemas para onde vai. Os Estados Unidos e a França, considerados países mais desenvolvidos e berços da civilização moderna, são lugares tão complicados para se viver quanto a Palestina. Em muitos quesitos, essas nações ocidentais chegam a ser até mesmo mais assustadoras e violentas para se morar do que os territórios árabes que o diretor conhece. Ou seja, os problemas sociais são uma marca do nosso planeta e não apenas de algumas regiões pontuais.

Ao mesmo tempo em que se afasta fisicamente da Palestina nesta viagem, curiosamente, o diretor encontra sempre um pouquinho do seu povo e de sua cultura em cada lugarzinho do mundo. Em cada cantinho da Terra visitado, seja um lugarejo no interior, na praia deserta ou na cidade cosmopolita, Elia Suleiman pode sentir a força e a magia da sua terra natal. Por mais que ele pense em se afastar da Palestina, algo parece o forçar a voltar para junto dos seus.

Com pouco mais de 90 minutos, “O Paraíso Deve Ser Aqui” é o típico filme que não tem um roteiro explícito. Caberá ao espectador o trabalho de interpretar o que está acontecendo na tela e criar por conta própria a linha narrativa desta trama. Obviamente, esse poder interpretativo e essa postura ativa exigem uma plateia atenta, curiosa e participativa. Infelizmente, essas características não são para todos. Na sessão em que estive presente, deu para notar que parte do público adorou o longa-metragem, mas outra parcela significativa o achou entediante. Deu para perceber que muita gente dormiu durante sua exibição. E eles fizeram isso em menos de meia hora de sessão. Uma pena! Não sabem o que perderam!

Paradoxalmente, o que torna “O Paraíso Deve Ser Aqui” uma produção tão interessante é a fuga das convenções cinematográficas modernas (exatamente o que mais desagrada a maioria do público ávido por mais do mesmo!). Por exemplo, grande parte do charme deste longa-metragem é a ausência quase completa de diálogos (algo inimaginável em um título comercial). O protagonista só diz duas frases em uma hora e meia. As demais personagens só abrem a boca para comunicar o essencial. Por isso, quando surge alguém eloquente (um vizinho idoso que gosta de caçar e de contar causos), estranhamos o excesso de falatório (chegamos a nos incomodar com o sujeito falastrão). O silêncio só é quebrado porque sempre há uma boa trilha sonora guiando nossa atenção. De certa forma, “O Paraíso Deve Ser Aqui” lembra muito os filmes mudos. Seria Elia Suleiman uma espécie de Charlie Chaplin com uma pegada mais social?

Há também muitas cenas banais, principalmente relacionadas à rotina pouco interessante do protagonista. Isso é proposital e possui um ar extremamente cômico, principalmente no início do filme. Repare que o diretor passa seus dias sem fazer nada de interessante nem de especial. Ele simplesmente vive bebendo, fumando e observando as pessoas ao seu redor. Pensando bem, muita gente vive assim nos dias de hoje... Hilário! Quando alguém tenta interagir com Suleiman, o máximo que consegue extrair do protagonista é um olhar ora melancólico ora zombeiro/debochado.

Para aproveitar mais “O Paraíso Deve Ser Aqui”, é preciso decodificar as mensagens cifradas deixadas pelo diretor ao longo desta produção. Por trás de cenas aparentemente subjetivas e desconectas, há um conteúdo rico e lógico. A crítica é sempre de cunho social. Por exemplo, na passagem em que um simpático passarinho é expulso do quarto de hotel pelo protagonista, temos uma clara paródia às leis de imigração dos países europeus. Quando vemos uma funcionária negra limpando o escritório em que modelos brancas desfilam em uma projeção eletrônica, há a citação explícita ao racismo. São várias cenas desse tipo: a população norte-americana fortemente armada nas ruas de Nova York (culto à violência e incentivo à indústria da guerra), o desfile das Forças Armadas francesas em Paris (contraste com o cenário bucólico e pacífico ao redor), polícia que persegue no Central Park uma moça com a bandeira da Palestina pintada no corpo (intolerância à implantação da Palestina como nação) e a recusa de um estúdio norte-americano em rodar o filme do diretor (obviamente um fato extraído do universo real).

O humor deste filme é na maioria das vezes sutil e inteligente. Há passagens também de graça mais direta e ao melhor estilo pastelão. Contudo, a força principal desta trama está nos detalhes, na astúcia interpretativa de sua mensagem agridoce. Ao invés de olhar a nova produção de Elia Suleiman como um longa-metragem convencional (o que efetivamente ele não é), precisamos encará-lo como uma mistura de gêneros narrativos (dessa forma é mais fácil admirá-lo). “O Paraíso Deve Ser Aqui” é um mix de ficção e documentário, de uma coletânea de contos com uma narrativa longa e de uma trama autobiográfica com um manifesto político-social.

Dos atores que atuam ao lado de Elia Suleiman neste longa-metragem, o nome mais conhecido do grande público é o de Gael García Bernal, que interpreta brevemente ele mesmo em uma cena sensacional. Grégoire Colin, Ali Suliman, Tarik Kopty, Kareem Ghneim, Vincent Maraval e Stephen McHattie completam o elenco principal. Entretanto, é impossível alguém chamar mais a atenção do que Suleiman neste filme. E olha que ele faz isso com um silêncio quase constante e um mutismo desesperador.

Se você quiser começar 2020 com o pé direito, vale a pena conferir este filme. O trabalho cinematográfico de Suleiman merece sim ser conhecido e parece cada vez melhor. “O Paraíso Deve Ser Aqui” pode não ser o melhor longa-metragem nem o mais engraçado desse começo de temporada, mas é certamente o mais interessante e o mais criativo dos últimos anos. Como experiência audiovisual, é um material riquíssimo.

Assista, a seguir, ao trailer de “O Paraíso Deve Ser Aqui” e tire suas próprias conclusões:

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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