• Ricardo Bonacorci

Exposições: Susan Meiselas Mediações – Retrospectiva do trabalho da fotógrafa norte-americana


O Instituto Moreira Sales (IMS) da Avenida Paulista, em São Paulo, está com uma exposição imperdível para quem é apaixonado por fotografias. “Susan Meiselas: Mediações” é a mais completa retrospectiva do trabalho da fotógrafa norte-americana que atuou por décadas na lendária agência Magnum Photos. A mostra em cartaz na capital paulista abrange uma seleção de obras que vão do início da carreira de Susan Meiselas, nos primeiros anos da década de 1970, à sua maturidade profissional, nos dias de hoje. Dessa forma, conseguimos ter uma visão completa do seu portfólio artístico e, principalmente, uma compreensão mais precisa do seu legado e do seu estilo.

Meiselas ficou conhecida mundialmente por seus trabalhos fotográficos na América Central entre o final da década de 1970 e o começo dos anos 1980. Nesta época, boa parte do continente americano (principalmente a área latina) vivia intensos e sangrentos conflitos político-militares. Não à toa, o principal clique de Susan Meiselas foi a icônica imagem do “O Homem-Molotov” (julho de 1979). Nela, um guerrilheiro sandinista atira uma bomba em uma garrafa de Pepsi contra o muro do quartel-general da Guarda Nacional da Nicarágua. Essa foto rodou o mundo e até hoje é lembrada como uma das mais marcantes da história da Magnum.

Exatamente por isso, muita gente crê equivocadamente que Susan Meiselas seja uma fotógrafa especializada em coberturas de guerras e em áreas de conflitos bélicos. Este é um dos enganos que a exposição “Susan Meiselas: Mediações” ajuda a corrigir. A norte-americana é, no fundo, mais uma fotógrafa com preocupações sociais do que com engajamento político. Isso fica evidenciado desde os seus primeiros trabalhos, quando ela era ainda amadora e clicou de forma brilhante seus vizinhos em uma pensão humilde em Cambridge, Massachusetts.

Esta mostra está montada na Galeria 2, no 7º andar do prédio do IMS da Paulista. Com a curadoria de Marta Gili, Pia Viewing e Carles Guerra, “Susan Meiselas: Mediações” estreou em 15 de outubro de 2019 e ficará em cartaz até 16 de fevereiro de 2020. A exposição possui mais de 180 fotografias, videoinstalações, cartas e documentos pessoais da artista. Esse acervo está dividido em seis seções: “Primeiros Trabalhos”, “Strippers de Festivais”, América Central”, “Curdistão”, “Violência Doméstica” e “Caixa de Pandora”. É interessante reservar ao menos uma hora e meia para a visitação total da mostra. Foi mais ou menos esse o tempo que levei para percorrer todas as suas partes na semana passada.

Na primeira seção de “Susan Meiselas: Mediações”, chamada de “Primeiros Trabalhos”, o público visitante do IMS conhece os cliques iniciais da jovem fotógrafa, ainda desconhecida do grande público. Através dessas imagens, assistimos às coletâneas “Rua Irvin, 44”, “As Meninas de Prince Street” e “Retratos na Varanda”. “Rua Irvin, 44” é o conjunto de fotos de 1971 que tem como protagonistas os vizinhos de Susan na pensão em Massachusetts que ela morava. Em “As Meninas de Prince Street”, a fotógrafa acompanhou ao longo de uma década e meia o crescimento de um grupo de meninas do bairro nova-iorquino de Little Street. Por fim, “Retratos na Varanda” é o ensaio fotográfico feito na Carolina do Sul quando Meiselas lecionou fotografia. Apesar de já ser professora do ofício, ela ainda não era conhecida. Em comum, o trio de ensaios de “Primeiros Trabalhos” apresenta uma visão social da norte-americana com os desfavorecidos.

O primeiro grande ensaio fotográfico de Susan Meiselas foi “Strippers de Festivais”, tema da segunda parte da exposição. Por três verões seguidos, entre 1972 e 1975, a fotógrafa acompanhou um grupo de strippers em festivais do gênero na Nova Inglaterra. Assim, ela captou tanto imagens quanto sons das garotas, de seus clientes e de seus cafetões. Os retratos são íntimos e por vezes despudorados. As lentes da fotógrafa têm acesso aos momentos mais delicados dos festivais de strippers. A realidade nua e crua de corpos em exposição extermina qualquer tipo de glamour ou excitação que alguém poderia ter desta profissão e desses eventos. As mulheres são retratadas como meras mercadorias e como objetos sem valor emocional. Não à toa, o panorama de infelicidade e o contexto de pobreza extrema predominam nessas imagens.

A terceira seção da mostra é a que ocupa o maior espaço da galeria do 7º andar do IMS. Ali estão reunidas as fotos de “América Central”, o principal trabalho até hoje de Susan Meiselas. Em 1978, quando já estava há dois anos na agência Magnum, a fotógrafa norte-americana foi enviada para a América Central para cobrir os conflitos armados que se proliferavam na região. Primeiro, ela assistiu, na Nicarágua, à revolta popular contra o ditador Anastasio Somoza Debayle. Entre 1979 e 1982, Susan acompanhou a Revolução Sandinista, que inspirada na Revolução Cubana tentou implantar o socialismo na Nicarágua. Durante esse período, a norte-americana também presenciou in loco a Guerra Civil em El Salvador, iniciada em 1979 com a decretação de um Golpe Militar. Junto com as imagens deste período, “Susan Meiselas: Mediações” apresenta objetos, equipamentos, cartas e registros pessoais da fotógrafa.

Essa parte da exposição reserva as imagens mais icônicas de Meiselas. Por isso, há um espaço especial para a fotografia “O Homem-Molotov”, que completou 40 anos. Além da história do clique que deu origem à foto mais famosa da norte-americana, também há várias curiosidades sobre esse registro: vídeo com a entrevista contemporânea do guerrilheiro sandinista que atirou a bomba com a garrafa de refrigerante (hoje, ele é um homem comum, com família e filhos, e vive de maneira modesta na Nicarágua), popularização desta imagem em ícone pop da esquerda latino-americana (o que a fez estampar camisetas, bonés, canecas, brinquedos e uma dezenas de artigos de consumo) e reportagens jornalísticas (em que a foto foi apresentada em destaque). Sem dúvida nenhuma, esta ala da galeria reserva o clímax da amostra.

A quarta seção de “Susan Meiselas: Mediações”, “Curdistão, é uma continuação natural da parte anterior. Nela, vemos os trabalhos de Meiselas entre 1991 e 2007. Neste período, ela fotografou os dramas dos curdos, povo que vive no norte do Iraque e que é perseguido implacavelmente há algumas gerações. Saddam Hussein, na década de 1990, chegou a comandar pessoalmente um genocídio contra os curdos. O ditador iraquiano queria “limpar” essa parte do seu território do “povo estrangeiro” que o “infestava”. Os curdos, vale a pena lembrar, são atualmente o povo com maior número de pessoas que não possuem um território próprio (eles sonham com a implantação do Curdistão, seu pedaço de terra).

Nas duas partes finais da exposição, assistimos aos trabalhos mais contemporâneos de Susan Meiselas. Ali estão “Violência Doméstica” e “Caixa de Pandora”, ambos produzidos no século XXI. O primeiro apresenta casos de feminicídio cometidos no ambiente residencial. As mulheres são atacadas por parceiros e familiares extremamente violentos e cruéis. Além de imagens, o público da mostra tem acesso, em “Violência Doméstica”, às cartas, aos documentos policiais e às entrevistas das vítimas, além de campanhas de conscientização da sociedade contra essa barbárie. O segundo ensaio desta parte reúne o estudo visual da artista norte-americana sobre um clube de sadomasoquismo de Nova York. Seguindo a linha de “Strippers de Festivais”, “Caixa de Pandora” narra os detalhes das performances de quem se sujeita a ser dominador(a) e dominado(a), além de mostrar a rotina do gerente, dos clientes e dos apreciadores dessa prática (estes visitam o clube só para assistir aos sofrimentos alheios).

“Susan Meiselas: Mediações” é realmente uma exposição magnífica. O IMS consolida-se como uma referência nacional (quem sabe internacional até) na divulgação da arte fotográfica. Essa mostra é a melhor dos últimos anos (e olha que não faltaram excelentes eventos ao instituto da família Moreira Sales). Antes de chegar à São Paulo, “Susan Meiselas: Mediações” foi apresentada em Barcelona, Paris e São Francisco. É uma pena que faltam apenas quatro semanas para ela sair de cartaz na capital paulista. Por isso, se você quiser conferi-la, não perca tempo. A entrada na mostra da fotógrafa norte-americana é gratuita. O IMS abre todos os dias, exceto às segundas-feiras. Aproveite.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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