• Ricardo Bonacorci

Livros: Melancia – 25 anos do best-seller de Marian Keyes


Nesta semana, li o maior sucesso de Marian Keyes, best-seller irlandesa com cerca de 40 milhões de livros comercializados em todo planeta. A obra em questão é “Melancia” (Bertrand), o romance de estreia da autora que tem atualmente 56 anos de idade. Escolhi este título para ser analisado hoje no Bonas Histórias porque em 2020 esta publicação comemora 25 anos de seu lançamento. “Melancia” aborda o drama de uma mulher abandonada pelo marido no dia em que dá à luz à primeira filha do casal. Não é preciso dizer que o enredo é bastante original e dá margem a muitas peripécias narrativas. A partir do sucesso desta obra, Marian Keyes construiria uma carreira exitosa como romancista internacional.

Depois de “Melancia”, Keyes lançou outros vinte livros: quinze romances e cinco obras não ficcionais. Muitos desses títulos se tornaram também líderes de venda na Grã-Bretanha e em vários países. “Casório?!” (Bertrand), seu segundo romance publicado em 1996, e “Cheio de Charme” (Bertrand), o décimo primeiro romance lançado em 2008, se aproximaram do sucesso da obra de estreia da irlandesa, ganhando várias edições pelo planeta. A história de “Casório?!” foi adaptada pela televisão britânica em 1999, transformando-se em uma série televisiva. “Cheio de Charme”, por sua vez, conquistou o Irish Book Awards de 2009 na categoria Melhor Livro Ficcional Popular.

A literatura produzida por Marian Keyes é chamada de Chick Lit. Neste tipo de obra, aborda-se o universo feminino a partir do ponto de vista da mulher moderna. A pegada dessas publicações é normalmente leve, divertida e cosmopolita. E suas protagonistas são essencialmente personagens femininas independentes, cultas e aguerridas, que acabam ficando abaladas por algum drama pessoal sério. Helen Fielding, de “O Diário de Bridget Jones” (Paralela), Candace Bushnell, de “Sex And The City” (Record), Meg Cabot, de “O Diário da Princesa” (Galera Record), e Lauren Weisberger, de “O Diabo Veste Prada” (Record), são outros nomes populares do Chick Lit. Coincidentemente, todas essas escritoras citadas são de língua inglesa. No caso específico de Marian Keyes, seus romances tratam de questões como alcoolismo, depressão, crises conjugais, dependência química, luto, violência doméstica e abandono. Isso tudo regado com muito romantismo e conflitos de natureza sentimental.

A trajetória de Keyes na literatura é singular. Graduada em Direito, sem nunca ter atuado na advocacia, Marian trabalhou por anos em empregos administrativos em Dublin. Em 1986, ela decidiu se mudar para Londres, onde passou a trabalhar como garçonete e a viver sozinha. A distância da família e a solidão cobraram seu preço. Ela desenvolveu alcoolismo e foi diagnosticada com depressão. O fundo do poço foi atingido quando Marian Keyes tentou se suicidar. Por sorte, não conseguiu.

Em 1995, a irlandesa retornou para Dublin e se internou em uma clínica para tratar da depressão e do alcoolismo. Como parte das atividades terapêuticas, ela começou a escrever contos. Uma nova porta se abriu em sua vida. Foi na escrita que Marian, enfim, se encontrou. Uma vez recuperada das doenças, ela voltou a morar em Londres e continuou escrevendo pequenas narrativas. Depois de receber muitos elogios por seus trabalhos literários, Marian decidiu produzir seu primeiro romance. “Melancia” foi publicado ainda em 1995, tornando-se rapidamente best-seller no Reino Unido. Em 2013, esta história foi adaptada para a televisão. O filme “Watermelon” foi dirigido por Kieron J. Walsh e teve como protagonistas Anna Friel, Jamie Draven e Ciarán McMenamin.

Curiosamente, a protagonista de “Melancia” pegou emprestados vários elementos autobiográficos de sua autora. Assim como Marian Keyes, Claire Walsh Webster, a narradora da trama, é uma irlandesa que se mudou para Londres. Na capital inglesa, ela morava sozinha, trabalhava como garçonete e sofria de alcoolismo e de depressão. Ou seja, qualquer semelhança entre as duas mulheres (a real e a ficcional) não é mera coincidência.

O enredo de “Melancia” começa em Londres, no dia em que Claire, uma mulher de 29 anos, culta, divertida e vaidosa, dá à luz à Kate, sua primeira filhinha. A menina é fruto do relacionamento da narradora com James Webster, seu marido. James, um contador inglês bem-sucedido, é um homem sério, responsável e trabalhador. O casal está junto há pelo menos sete anos e parece se amar. Por isso, Claire é pega de surpresa quando o esposo diz, ainda no quarto do hospital, que quer o divórcio. Ele ainda informa que tem uma amante e que viverá a partir de então com ela. O que era para ser o dia mais feliz da vida de Claire se transforma no pior. O sonho da maternidade vira, no final das contas, em pesadelo da separação matrimonial traumática. Sem chão, Claire decide retornar imediatamente para Dublin, sua cidade natal. Ela viverá na casa dos pais enquanto está de licença maternidade.

Na casa da família Walsh, Claire convive com seus pais e com duas irmãs mais jovens, as divertidas Anna e Helen. Enquanto cuida da filha recém-nascida, a narradora-protagonista espera receber ao menos um telefonema de James. Entretanto, o marido (ou já seria ex-marido?) não quer saber dela nem da criança. Claire entra em depressão e atira-se na bebida, um problema antigo dela e de seus familiares.

Vivendo a pior fase de sua vida, um momento de enormes dúvidas e de grande carência afetiva, Claire conhece Adam, um jovem universitário alto e bonito. Ela se apaixona pelo rapaz. O problema é que Adam é namorado de sua irmã, Helen. Para piorar um pouco mais o quadro trágico-cômico, Claire ainda não se enxerga como uma mulher separada. Em sua cabeça, James irá entrar em contato a qualquer momento para ambos resolverem o mal-entendido e retornarem ao matrimônio.

“Melancia” é um romance robusto. Ele tem quase 500 páginas. Precisei de três noites para concluir seus 39 capítulos. Não falo isso com nenhum pesar, pelo contrário. A leitura deste livro se mostrou muito agradável. Basta ler o primeiro capítulo para você ter vontade de continuar lendo a obra até o final. Marian Keyes é uma romancista que sabe como conduzir sua história e consegue cativar os leitores. Seus comentários no meio da trama são espirituosos e sagazes, tornando a experiência de leitura ainda mais rica. Acredito que até mesmo os marmanjos que têm preconceitos com os romances do Chick Lit poderão gostar desta publicação. Apesar de ser obviamente um título direcionado ao público feminino, “Melancia” tem tudo para agradar também os homens que gostam de narrativas leves e muito engraçadas. Admito que foi o meu caso.

O primeiro elemento que chama a atenção neste romance de Marian Keyes é o humor. O livro é bastante divertido. A narradora é muito espirituosa, fazendo graça de tudo, até mesmo de sua situação calamitosa. Temos aqui um humor autodepreciativo que navega entre o humor negro e o escrachado. Há também o uso da ironia e, em muitos momentos, a sacadas hilárias são extraídas do universo literário. Na maior parte das vezes, a graça surge dos comentários espirituosos da narradora, que avalia sua situação com um jeito desbocado. Não dá para não gostar da sua maneira de contar a história.

Por falar nos comentários da narradora-protagonista, outro ponto elogioso da narrativa é o da composição entre ação e pensamentos da personagem principal. A maior parte do texto é composta por análises, lamentações, angustias e medos de Claire Walsh Webster. Apesar da narrativa ser essencialmente reflexiva, isso não atrapalha em nada o ritmo do romance. Pelo contrário. Sua graça reside justamente dessa característica inusitada. Com poucas e ótimas cenas, o livro se torna carismático exatamente por mergulhar o leitor na mente divertida da esposa traída e abandonada. Essa constatação até pode parecer um tanto paradoxal à primeira vista, mas não é não. O estilo de escrita de Marian Keyes é saboroso e não está vinculado necessariamente às ações da trama. Fazia muito tempo que não lia algo tão encantador que não estivesse baseado diretamente nos acontecimentos do enredo e sim em suas interpretações.

É preciso elogiar também as construções das personagens. Mesmo sendo quase todas figuras planas e caricatas (algo que convenhamos não é enobrecedor a um romance), elas são muito engraçadas. Juro que me diverti bastante com a família Walsh. Tanto os pais quanto as irmãs caçulas de Claire rendem ótimas situações. Às vezes você tem a impressão de estar em uma casa onde só residem malucos. Quem não se sente assim em sua própria casa, hein?

Não posso me esquecer de citar a intertextualidade presente em abundância no texto de Marian Keyes. As páginas de “Melancia” são recheadas de referências literárias, televisivas e da cultura Pop britânica. É possível acompanhar tranquilamente a maioria das citações feitas pela narradora/autora, porém tiveram algumas que admito não conhecer sua origem (principalmente no caso das novelas australianas). Isso não estraga em nada a experiência de leitura.

Os únicos pontos negativos do romance são a previsibilidade de sua trama e a demonização das personagens masculinas (males corriqueiros do Chick Lit). Não sei se você vai acreditar em mim, mas consegui adivinhar tudo o que ia acontecer na narrativa após o terceiro capítulo (se faltou originalidade na sequência, ao menos o início do livro é muito original). Se houvesse um pouquinho de surpresas e reviravoltas inesperadas, na certa esta leitura teria se tornado mais interessante.

Além disso, fico pensando se a mulherada que lê essas obras não se cansa de demonizar os homens, os únicos e grandes vilões dessas tramas. Juro que sinto pena de quem terceiriza a causa dos seus problemas o tempo inteiro, acreditando que a felicidade e a tristeza de suas vidas estão ligadas exclusivamente às ações dos seus parceiros.

Se alguém ficou curioso para saber o motivo do nome do livro, aí vai a explicação extraída do próprio romance. A palavra melancia surge apenas em uma passagem, mais precisamente no capítulo 2. Veja também o humor autodepreciativo que falei a pouco:

“Nas poucas semanas antes de dar à luz, eu estava absolutamente enorme. Inteiramente redonda. Como a única coisa que cabia em mim era minha bata de lã verde, combinando com meu rosto sempre verde, por causa do enjoo contínuo, fiquei com a aparência de uma melancia usando botas e um pouco de batom”.

Admito que fiquei surpreso positivamente com “Melancia”. Passados um quarto de século de sua publicação, o romance de Marian Keyes continua atual, divertido e emocionante. Para quem deseja ler algo descontraído e leve nesse começo de ano, temos aqui uma bela opção. E olha que quem está dizendo (escrevendo?) isso é alguém que não é um leitor nem um pouco assíduo do Chick Lit. Não é porque este não seja meu gênero literário favorito que eu não possa reconhecer as qualidades de um dos seus melhores exemplares.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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