• Ricardo Bonacorci

Livros: Opisanie Swiata – O premiado romance de Veronica Stigger


Quando lançou, em 2013, “Opsianie Swiata” (Cosac Naify), seu romance de estreia, Veronica Stigger já era uma das mais criativas escritoras brasileiras. Contudo, sua fama estava, naquele momento, restrita às narrativas curtas, gênero narrativo em que a autora sempre se identificou mais. “O Trágico e Outras Comédias” (7Letras), de 2004, “Gran Cabaret Demenzial” (Cosac Naify), de 2007, e “Os Anões” (Cosac Naify), de 2010, são coletâneas de contos que se destacam pelo experimentalismo estético e pelo tom anárquico de seus textos. “Os Anões”, por exemplo, já foi analisado no Bonas Histórias em 2018. Na época, fiquei tão encantado com a literatura praticada por Stigger (considerei esse livro uma das coletâneas de contos e minicontos mais inovadoras dos últimos anos) que coloquei “Opsianie Swiata” na minha lista de leitura. Ou seja, há certo tempo estava com vontade de conhecer o que é considerada a principal obra desta escritora. Como só agora consegui ler o romance (nada como a tranquilidade do começo de ano, né?), aí vai o post com a análise crítica que eu estava me cobrando.

“Opsianie Swiata” conquistou alguns dos principais prêmios literários do país. Ele levou o Prêmio Machado de Assis de 2013 como o melhor romance do ano, ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura de 2014 na categoria Melhor Romance de Escritor Estreante Acima de 40 anos e recebeu o Prêmio Açorianos de 2014 como a Melhor Narrativa Longa da temporada. Nada mal para quem estreava nos romances, hein? A partir de “Opsianie Swiata”, enfim, Stigger passou a ser vista não apenas como uma grande contista, mas também como uma talentosa romancista/novelista. Em 2016, ela lançou seu quinto livro, “Sul” (Editora 34), uma obra híbrida que mistura conto, teatro e poesia em mais uma de suas criações ousadas e inusitadas.

Veronica Stigger nasceu em Porto Alegre, mas vive há anos na cidade de São Paulo. Além de escritora, ela é jornalista, crítica de arte, pesquisadora acadêmica e professora de oficinas literárias. Em 2018, eu a conheci no curso de Pós-Graduação de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz, onde ela leciona e onde estudei. Além de ótima escritora, posso assegurar que ela é excelente professora e é também muito gente boa.

O enredo de “Opsianie Swiata” se passa no final da década de 1930 e aborda uma viagem da Europa para a América do Sul. Natanael, um jovem de trinta anos que vive na Amazônia e que está à beira da morte, escreve uma carta para seu pai. O rapaz pede uma visita ao hospital o mais rápido possível, antes que seja tarde. Opalka, o pai de Natanael, é um senhor polonês com aproximadamente sessenta anos de idade que viveu no Brasil no início do século XX. Sem saber, ele engravidou uma brasileira antes de retornar para seu país natal. Só agora, ao receber a carta do filho desconhecido, Opalka ficou ciente de sua paternidade. Por isso, aceitou realizar às pressas a viagem da Polônia para Manaus. Ele quer conhecer Natanael.

O deslocamento de Opalka, o protagonista do romance, é feito primeiramente de trem (da Polônia até um porto na costa mediterrânea) e depois de navio (da Europa para o Brasil). Logo no início da jornada, o polonês conhece Boop, um extrovertido e atrapalhado viajante brasileiro que já percorreu boa parte do planeta em suas andanças. Os dois fazem amizade e realizam juntos a viagem até Manaus. Para tal, Boop aceita interromper seu giro pela Europa para acompanhar o novo amigo no desafio de conhecer o filho doente.

Esta trama é basicamente uma crônica divertida e ficcional desta viagem intercontinental. Veronica Stigger apresenta várias personagens secundárias e algumas pequenas histórias ocorridas tanto no trem quanto no navio em que Opalka e Boop utilizaram. Dessa maneira, o leitor acompanha de perto o dia a dia dos viajantes em seus deslocamentos.

“Opsianie Swiata” é um livro curto. São 158 páginas distribuídas em uma diagramação bem generosa. Por isso, sua leitura é extremamente rápida. Concluí seu conteúdo em aproximadamente duas horas e meia no último sábado à tarde. Apesar de ter concorrido a vários prêmios literários como romance e ter sido classificado assim pela escritora e por sua editora, “Opsianie Swiata” pode ser visto também como uma novela pelo seu tamanho mais reduzido. Ao menos para mim, trata-se muito mais de uma narrativa média (novela) do que longa (romance). Porém, respeito a definição dada por Stigger e pela Cosac Naify. Quem sou eu para questioná-los?

A obra, cujo título significa “Descrição do Mundo” em polonês (juro que não faço a mínima ideia de como se pronuncia Opsianie Swiata), faz referência direta ao livro mais famoso de Marco Polo, “As Viagens” (Martin Claret). A obra do viajante italiano foi traduzida para o polonês justamente como Opsianie Swiata. O nome do protagonista do livro de Stigger é uma homenagem a um pintor polonês, Roman Opalka, que ela estudou em seus projetos acadêmicos. Curiosamente, Roman Opalka tem uma série de pinturas intitulada Opsianie Swiata.

Esta publicação da escritora gaúcha é uma espécie de romance histórico inspirado na literatura modernista brasileira, principalmente a da primeira fase ocorrida na década de 1920. Nota-se a forte influência do cubismo, do futurismo e do surrealismo, além da relação com o trabalho de Oswald de Andrade e Mário de Andrade. A ideia para escrever este livro surgiu do marido de Verônica, o poeta e crítico literário Eduardo Sterzi. Foi ele quem sugeriu que a esposa escrevesse um romance que iniciasse na Polônia e terminasse na Amazônia brasileira. Empolgada com a ideia, Stigger colocou a mão na massa e por seis anos concebeu os detalhes desta história.

Por mais paradoxal que seja, o que faz de “Opsianie Swiata” uma obra sublime não é propriamente sua trama. Até porque seu enredo é bem simples (um europeu recebe a carta de um filho moribundo e viaja para o Brasil para conhecê-lo). O que torna este romance/novela espetacular é a forma com que a autora encontrou para narrá-lo(a). Aí está o brilhantismo e a criatividade de Veronica Stigger. Ela produz textos multifacetados que conversam maravilhosamente entre si e que, ainda por cima, possuem finalidades estéticas bem definidas. Por exemplo, em “Opsianie Swiata” temos quatro linhas narrativas entrelaçadas: as cartas trocadas entre pai e filho, o relato em terceira pessoa da viagem de Opalka e Boop, os comentários em primeira pessoa de Opalka sobre sua jornada e as anotações pessoais de Boop em seu caderno. Para completar, ainda vemos anúncios publicitários da década de 1930, fotos de viagens marítimas da época e pequenas mensagens avulsas, que podem ser informativos do navio e dicas gerais para os viajantes de primeira viagem.

O mais interessante é que o livro ainda tem um projeto gráfico impecável. Cada parte da narrativa possui uma identidade visual própria, o que ajuda o leitor na navegação de sua leitura. Essa identidade visual é feita principalmente pelas cores das folhas das páginas. Praticamente cada seção do livro possui uma folha com uma cor específica. Juro que nunca tinha visto isso antes (nem ao menos sabia que algo assim poderia ser feito). Incrível o trabalho realizado pela Cosac Naify (só mesmo ela para produzir uma obra com tanto esmero). Mais uma vez, Stigger mostra-se competente na arte de propiciar uma experiência estética inovadora e intensa aos seus leitores. Vale a pena citar que a proposta de produzir o livro dessa maneira partiu da própria escritora, ciente da importância do projeto gráfico para sua realização literária.

Outra característica forte de “Opsianie Swiata” é o seu bom humor (uma característica da literatura e da personalidade de Veronica). A trama é muito divertida, com personagens, cenas e situações cômicas. O lado bem-humorado do livro vai do humor negro ao crítico, passando pelo escrachado. Bopp é sem dúvida nenhuma a figura mais hilária da obra. Suas vestimentas, seu comportamento, seus hábitos e seu jeito de falar rendem boas risadas. A contradição entre a proposta aparentemente séria e histórica da trama com seu enredo cômico é outra questão que chama a atenção durante a leitura. Veronica Stigger é engraçada sem almejar parecer ser. Sabe aquele cara que é divertidíssimo, mas mantém a seriedade o tempo todo, como se não quisesse demonstrar seu lado bem-humorado? Pois bem, se fosse uma pessoa, “Opsianie Swiata” na certa seria assim.

Também gostei das pitadas de erotismo que o romance/novela acrescenta. Em algumas situações, a viagem de navio pelos oceanos é apenas uma desculpa esfarrapada para as pessoas lançarem-se em orgias com desconhecidos de toda a parte do planeta. Note, nesse sentido, a ironia da classificação dos passageiros da primeira classe e da classe turística, além da distinção entre aqueles que acreditam em Deus e aqueles que não creem no divino. Hilário!

Você pode gostar ou não gostar da história de “Opsianie Swiata”, mas na certa ficará impressionado positivamente com a experiência de leitura que ele provoca. Só por isso, sua leitura vale a pena. Cada vez que leio algo de Veronica Stigger fico mais encantado com sua criatividade e com a força de sua literatura. Ela sabe ousar, transformando seus textos em verdadeiras obras de arte. Minha próxima leitura dela já está anotada. Será o “Sul”. Aguardem que em um futuro próximo postarei os comentários sobre essa obra no Bonas Histórias. Poderei demorar um pouco, como aconteceu com “Opsianie Swiata”, mas não esquecerei. Prometo!

Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

#LiteraturaBrasileira #LiteraturaContemporânea #Novela #VeronicaStigger #RomanceHistórico

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento