• Ricardo Bonacorci

Livros: Assassinato no Expresso Oriente – O mais vendido de Agatha Christie


Em junho de 2016, a escritora analisada no Desafio Literário foi Agatha Christie, a autora mais vendida da história. Naquela oportunidade, estudamos no Bonas Histórias cinco romances da Rainha do Crime, como a inglesa foi apelidada pelos críticos literários e pelos leitores. Tais obras foram: “E Não Sobrou Nenhum” (Globo), "Cai o Pano" (Nova Fronteira), "O Assassinato de Roger Ackroyd" (Globo), "Morte na Mesopotâmia" (Nova Fronteira) e "O Inimigo Secreto" (Record). Apesar de ter me divertido com as leituras dessa lista, admito que senti falta de um livro em particular. “Assassinato no Expresso Oriente” (L&PM Pocket), um dos maiores sucessos de Christie, acabou preterido por mim há três anos e meio. Isso aconteceu porque em 2016 o Desafio Literário contemplava apenas cinco leituras (atualmente são seis). É natural que alguns títulos importantes da escritora tenham ficado de fora da coletânea analisada. Ainda sim lamentei a ausência de “Assassinato no Expresso Oriente”. Para corrigir essa pequena falha da minha parte, resolvi ler agora este romance.

Publicado em janeiro de 1934 na Inglaterra e em fevereiro daquele ano nos Estados Unidos, “Assassinato no Expresso Oriente” é o livro mais vendido de Agatha Christie. Apenas no ano de seu lançamento, ele vendeu três milhões de unidades. Trata-se de um feito extraordinário para o mercado editorial da década de 1930. Naquele momento da história, Christie já era uma escritora best-seller mundial. Suas obras eram traduzidas para dezenas de idiomas e eram vendidas nas livrarias dos quatro cantos do planeta.

Importante salientar que a partir de 1930, Agatha Christie já tinha entrado na fase das tramas internacionais de seu principal protagonista, o detetive Hercule Poirot. O belga, assim como sua escritora, viajava o planeta para elucidar os crimes que aconteciam fora da Europa. No caso de Christie, seu segundo marido era um arqueólogo inglês que precisava viajar pelo mundo a trabalho. Ela o acompanhava e aproveitava os cenários recém-conhecidos para compor as narrativas de seus romances policiais. Curiosamente, o casal se conheceu no interior do trem do Expresso Oriente, em uma viagem para Bagdá em 1930.

“Assassinato no Expresso Oriente” foi, portanto, produzido no meio de uma das viagens da autora inglesa pela Ásia. A obra foi escrita quando Christie ficou hospedada em um hotel em Istambul. Da janela de seu quarto, ela tinha visão para o terminal ferroviário da cidade turca. Para homenagear a escritora famosa que se hospedou ali, o hotel mantém até hoje um pequeno memorial no quarto usado por ela.

O sucesso de “Assassinato no Expresso Oriente” acabou levando sua história inúmeras vezes para as telas do cinema e para os palcos dos teatros. O primeiro filme adaptado deste romance de Christie é de 1974. Essa produção inglesa foi dirigida por Sidney Lumet e teve Albert Finney no papel de Hercule Poirot. Em 2017, a adaptação mais recente do livro foi dirigida por Kenneth Branagh, que também acumulou a interpretação do mais famoso detetive da história da ficção policial.

O que transformou “Assassinato no Expresso Oriente” no maior sucesso comercial de Agatha Christie foi uma combinação de fatores. Em primeiro lugar, temos mais um romance com final surpreendente da autora inglesa. Porém, "O Assassinato de Roger Ackroyd", “E Não Sobrou Nenhum” e "Cai o Pano" também tinham, alguém pode questionar. É verdade. Por isso, não digo que o desfecho inusitado seja o único fator que explica o êxito desta obra. O segundo motivo é sua incrível ambientação. A história se passa no Expresso Oriente, o mais luxuoso trem de passageiros que ligava a Ásia à Europa. Inaugurada em 1883 e com mais de três mil quilômetros de extensão, essa linha ia de Paris à Istambul, na Turquia, e era usada habitualmente pelos milionários e pela nobreza europeia. É inegável o charme de uma trama ambientada em um trem histórico e com tanto requinte.

Outro fator que pode explicar a popularidade de “Assassinato no Expresso Oriente” está no debate moral que sua trama suscita. O homem assassinado no trem era um serial killer odiado por todo mundo e procurado pela polícia. Sob esse ponto de vista, seria correto identificar e prender alguém que teria matado uma pessoa tão monstruosa? É certo fazer justiça com as próprias mãos quando a polícia não age rápida e certeiramente?! Essas questões são atemporais e ainda hoje promovem intensos debates. Por isso, o comportamento de Hercule Poirot e o desfecho do romance são tão polêmicos (e geniais quando inseridos em uma narrativa ficcional).

Curiosamente, este livro de Agatha Christie usou um episódio real ocorrido nos Estados Unidos em 1932. O sequestro de uma menina de uma família riquíssima e muito conceituada sensibilizou o país inteiro e foi noticiado com estardalhaço na Europa. A escritora inglesa usou esse fato verídico para contextualizar sua narrativa e construir o perfil do homem assassinado.

Ou seja, Christie criou alguns romances de finais surpreendentes. Também construiu narrativas ambientadas em locais extremamente charmosos. Além disso, alguns dos seus livros levantaram questionamentos morais sobre o comportamento das personagens. Para completar, a autora usou, ao longo de sua carreira, várias passagens reais para compor suas tramas ficcionais. A beleza e a força de “Assassinato no Expresso Oriente” estão justamente na reunião desses elementos em um único título. Ao menos é essa a explicação que esboço para o sucesso impressionante desta obra.

O enredo deste livro se passa quase que integralmente no interior do Simplon Expresso Oriente, o luxuoso trem da Compagnie Internationale des Wagons Lits. A viagem começou em Istambul, na Turquia, e iria até Calais, na França. Na estação de Haydapassar, cidade turca, Hercule Poirot embarca no trem. Algumas horas antes, ele tinha recebido uma carta solicitando que voltasse imediatamente para a Europa. O detetive belga era requisitado para mais uma investigação no Velho Continente. Assim, ele interrompe as curtas férias na Ásia, onde fora para resolver um caso criminal, e parte imediatamente para sua terra natal.

Por uma coincidência absurda, o Simplon Expresso Oriente está lotado naquele dia. Inexplicavelmente, todos os vagões do trem estão ocupados. A sorte de Poirot é que seu amigo Monsieur Bouc, diretor da Compagnie Internationale des Wagons Lits, estava presente no comboio e não deixou que o detetive ficasse na mão. Com jeitinho, ele conseguiu encaixar o belga no trem e a viagem prosseguiu com Hercule Poirot a bordo.

Entre Viscovci e Brod, na Iugoslávia, uma nevasca obriga o trem a parar em plena madrugada. Pelo horário avançado, alguns passageiros notam a paralização da linha e outros não. Ao acordar na manhã seguinte, Hercule Poirot é chamado na cabine de Monsieur Bouc. Ali, o diretor da companhia férrea informa ao amigo que um assassinato aconteceu justamente naquela madrugada no interior do trem. A vítima é um norte-americano chamado Samuel Edward Ratchett. Na fatídica noite, o ricaço estava acompanhado por um secretário, por um lacaio e por um detetive particular que era o responsável por zelar pela sua segurança. Atendendo ao pedido de Bouc, Poirot passa a investigar o ocorrido. O belga terá ao seu lado o Dr. Constantine, um médico grego que é amigo de Monsieur Bouc, e o próprio diretor da Compagnie Internationale des Wagons Lits na missão de descobrir quem entre os passageiros e a tripulação do trem teria matado o Sr. Ratchett.

“Assassinato no Expresso Oriente” é realmente uma leitura eletrizante. Se ele peca na maior parte do tempo pela inverossimilhança de sua trama (difícil crer na viabilidade de uma história assim fora da ficção e nas descobertas improváveis de Poirot), por outro lado o livro mantém o clima de suspense do início ao fim. Li (ou seria devorei?) este romance em duas noites. Comecei “Assassinato no Expresso Oriente” na quinta-feira à noite e na madrugada de sexta para o sábado já o tinha concluído. Gostei muito de seu conteúdo, mas não o achei a melhor obra de Agatha Christie. Para mim, "O Assassinato de Roger Ackroyd" continua inigualável. “E Não Sobrou Nenhum” e "Cai o Pano", por exemplo, também são melhores do que esta publicação.

Com 272 páginas, “Assassinato no Expresso Oriente” é dividido em três partes. Essas seções podem ser classificadas como: (1) contextualização e crime, (2) investigação/depoimentos e (3) análise/conclusão. Na segunda parte, a maior da obra em número de páginas, praticamente cada capítulo é dedicado ao depoimento de um dos possíveis assassinos. São ao todo doze suspeitos entre passageiros e profissionais que trabalhavam no trem.

Mais uma vez, não consegui descobrir o assassino de um caso de Hercule Poirot. Quem acompanhou o Desafio Literário de Agatha Christie do Bonas Histórias em 2016 lembrará que continuo zerado nessa missão. Nunca identifiquei o criminoso em um romance de Christie. Sempre acho que estou no caminho certo, mas aí nos três ou quatro capítulos finais descubro estarrecido que estou totalmente errado... No caso de “Assassinato no Expresso Oriente”, somente uma mente insana (como a do detetive belga) poderia supor algo tão estrambólico como o desfecho deste romance. Apesar do final inimaginável e um tanto forçado, gostei bastante deste livro. Agatha Christie se superou mais uma vez ao criar uma história extremamente original e com um desenlace inimaginável.

Por falar em Poirot, temos o principal protagonista dos romances policiais de Agatha Christie vivendo o auge de sua carreira de detetive. Ele é experiente na profissão e é extremamente famoso, sendo reconhecido por algumas das personagens do trem. A maturidade permite que o belga domine a arte da investigação criminal como poucos. Assim, ele não cai na manipulação das provas deixadas pelo(s) assassino(s) e, ainda por cima, pode ensinar seus métodos aos amigos, neste caso, Monsieur Bouc e o Dr. Constantine. O fato de termos um trio de investigadores torna o romance mais didático. Hercule Poirot explica para os amigos o passo a passo de seu raciocínio, algo que atiça ainda mais a curiosidade dos leitores. Além disso, não faltam elementos para ajudar quem está lendo o livro a compreender os acontecimentos: resumos, mapas e a planta do trem estão disponíveis.

É legal também notar os detalhes do ambiente político da primeira metade da década de 1930. O leitor de “Assassinato no Expresso Oriente” visualiza no texto de Agatha Christie, por exemplo, a tensão política entre as Guerras Mundiais, a rivalidade entre as nações europeias, o caos econômico provocado pelo crash da Bolsa de Nova York, o início da ascensão dos Estados Unidos como potência mundial e o fascínio que a cultura asiática provocava na elite ocidental no primeiro terço do século XX.

“Assassinato no Expresso Oriente” é um romance memorável, uma das grandes criações da história da ficção policial. Se ele peca um pouco pelo enredo estrambólico, pela sua falta de verossimilhança e pelo tom de pastelão do seu desfecho, por outro lado, ele é o exercício genuíno da criatividade de uma das maiores escritoras da literatura mundial. Cada vez mais sou fã de Agatha Christie.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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