• Ricardo Bonacorci

Livros: O Silêncio da Chuva – A premiada estreia de Luiz Alfredo Garcia-Roza


Luiz Alfredo Garcia-Roza é atualmente um dos mais importantes romancistas policiais do Brasil. Aclamado pela crítica e pelo público, o escritor carioca de 84 anos tem onze livros ficcionais publicados, alguns deles best-sellers. A maioria de suas tramas é protagonizada pelo Inspetor Espinosa, um policial honesto, introspectivo e amante de literatura e de música, e se passa essencialmente em Copacabana, bairro do Rio de Janeiro onde a personagem principal mora. Para conhecer um pouco do trabalho literário de Garcia-Roza, li no último final de semana “O Silêncio da Chuva” (Companhia das Letras), seu primeiro romance. O livro também é considerado a principal obra do autor. Fiquei tão empolgado com esta leitura que não via a hora de comentá-la no Bonas Histórias. Por isso, aqui vai o post sobre o romance que me fez ficar acordado até tarde nos últimos dias.

Curiosamente, a trajetória de Luiz Alfredo Garcia-Roza na literatura comercial começou bem tarde. Até os 60 anos de idade, ele era um professor de filosofia e de psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Até essa época, suas oito publicações se restringiam a obras técnicas das áreas em que lecionava. “Freud e o Inconsciente” (Zahar), “O Mal Radical em Freud” (Zahar) e “Introdução à Metapsicologia Freudiana” (Zahar) são livros que se tornaram referências sobre a psicanálise. Com a carreira acadêmica consolidada, Garcia-Roza resolveu produzir romances policiais. E o sucesso veio logo de cara, com “O Silêncio da Chuva”. Publicada em 1996, esta obra conquistou o Prêmio Nestlé de Literatura de 1996 e o Prêmio Jabuti de 1997 como o melhor romance nacional. Ou seja, ela abocanhou dois dos principais prêmios literários do país.

A partir do êxito do livro de estreia, Garcia-Roza resolveu investir na carreira de romancista. Nos 18 anos seguintes, ele lançou outros dez livros ficcionais. O último deles é “Um Lugar Perigoso” (Companhia das Letras), de 2014. Todos os romances do carioca foram publicados pela Companhia das Letras, um dos maiores selos editoriais do Brasil. Hoje em dia, Luiz Alfredo Garcia-Roza é visto não apenas como um dos grandes autores nacionais do gênero criminal, mas também como um dos mais inventivos escritores ficcionais do país. Casado com a também escritora e psicanalista Livia Garcia-Rosa, Luiz Alfredo permanece morando em sua cidade natal.

O enredo de “O Silêncio da Chuva” começa com um suicídio. Ricardo Fonseca de Carvalho, diretor-executivo da Planalto Minerações, entra em seu carro. É final de tarde e a personagem encerrou mais um expediente de trabalho. O veículo está na garagem do edifício da Planalto Minerações no centro do Rio de Janeiro. Ao invés de dar a partida no automóvel e voltar para sua casa, Ricardo fuma um cigarro e dá um tiro em sua cabeça. Para ninguém saber que sua morte foi um suicídio, o executivo de 42 anos deixa no banco ao lado uma carta e uma mala com 20 mil dólares. A carta é direcionada aos policiais que irão investigar o ocorrido. Nela, o morto oferece dinheiro para os investigadores sumirem com a arma e simularem um assassinato ao invés de um suicídio. Só assim, a esposa de Ricardo, Bia Vasconcelos, poderá receber o seguro de vida dele, avaliado em um milhão de dólares.

Contudo, antes da chegada dos policiais na cena do crime, Max, um assaltante pé-rapado, encontra o executivo morto na garagem do prédio. O bandido, que estava perambulando pelo local, rouba a carteira do falecido, a mala com o dinheiro e a arma. Na correria, ele também leva a carta. Assim, quando o Inspetor Espinosa chega à garagem algumas horas depois, a impressão que ele tem é que um crime fora praticado ali. A hipótese de suicídio parece ser a menos provável. Inicia-se a investigação do caso. Para Espinosa, um policial honesto, solitário e bastante melancólico de 42 anos, os principais suspeitos são a esposa do executivo, uma renomada designer internacional, e alguns diretores da Planalto Minerações. Ao lado de seu assistente, o jovem Welber, o inspetor começa a investigação criminal.

Enquanto isso, Max, que mora em um barraco com a irmã em uma favela carioca, descobre a intenção de Ricardo de Carvalho de deixar uma bolada para a família (entenda-se a esposa, a única beneficiada pelo seguro milionário). Por isso, o bandido telefona para Rose Chaves Benevides, a secretária do falecido na Planalto Minerações, para chantageá-la. Se Max não receber uma parte da bolada, ele enviará a carta para a empresa de seguros. Nesse caso, ninguém ganhará dinheiro nenhum (suicídio não é contemplado nos contratos de seguro de vida). Rose percebe uma oportunidade excelente para também lucrar com a situação e entra no esquema de chantagem. A dupla Max e Rose vão exigir de Bia Vasconcelos uma parte no prêmio do seguro.

Quando Rose se dirige para a casa da esposa de Ricardo de Carvalho para comunicá-la da chantagem, a funcionária da empresa de mineração desaparece misteriosamente. O sumiço intriga o Inspetor Espinosa. Para o policial, é óbvio que esse fato está relacionado com a morte do executivo. Para piorar ainda mais a situação, Max, que fora identificado alguns dias depois do “assassinato” como o portador da arma do crime, também desaparece sem deixar rastros. Na concepção de Espinosa, o assassino está eliminando as testemunhas.

É o início de uma trama intricada e recheada de reviravoltas. O mistério é saber quem está envolvido com os sumiços de Rose e de Max. Além disso, Bia Vasconcelos e seu amigo, Júlio Campos de Azevedo, um arquiteto que estava dando em cima da viúva, começam a ser seguidos e ameaçados. Quem é o responsável pelos crimes desencadeados pela morte de Ricardo de Carvalho?! O Inspetor Espinosa e seu assistente terão muito trabalho para descobrir o que está acontecendo.

“O Silêncio da Chuva” é um romance policial de tirar o fôlego. O suspense permeia toda a sua trama e fica ainda mais eletrizante em seu desfecho. Aí será impossível interromper a leitura do livro. Luiz Alfredo Garcia-Roza demonstra ser um escritor talentosíssimo e bastante criativo. “O Silêncio da Chuva” é um dos melhores thrillers criminais que li nos últimos anos.

Esta obra possui 266 páginas e está dividida em três partes. Na primeira, a narrativa é em terceira pessoa (narrador observador que acompanha todas as personagens). Na segunda parte, temos o relato em primeira pessoa feito pelo protagonista, o Inspetor Espinosa. E na última, voltamos à narrativa em terceira pessoa (mais uma vez o narrador observador trafega pelos diferentes cenários com liberdade). A escolha de dois focos narrativos distintos torna o romance mais emocionante e potencializa seu suspense. Afinal de contas, sabemos algumas coisas que o Inspetor Espinosa não sabe, mas também desconhecemos os elementos principais dos crimes perpetrados (como a identidade do responsável pelas várias mortes).

A primeira surpresa que o leitor tem é perceber que o mistério inicial do livro (como os policiais envolvidos na investigação descobrirão que Ricardo se suicidou e que há um plano de chantagem perpetrado por Max e Rose?) não é o que realmente alimenta a trama do romance. Há novos mistérios até mesmo mais emocionantes que vão surgindo à medida que os capítulos vão se desenrolando. Ou seja, “O Silêncio da Chuva” é uma narrativa com várias facetas, todas elas empolgantes. O leitor precisará avançar na leitura do livro para descobrir qual é o conflito principal (mais um mistério ofertado por Garcia-Roza).

Admito que não consegui parar de ler esse livro quando cheguei à sua metade. Como li a obra no final da tarde, acabei precisando entrar na madrugada com o mistério a atiçar minha curiosidade. E o final do livro não decepciona. Pelo contrário: o desfecho da trama torna o romance ainda mais interessante. Há muitas cenas de ação no terço final da história que tornam a obra eletrizante. E há uma cena antológica, que brinda o leitor pela sua originalidade, pela crueldade e pela ousadia narrativa. Não posso dizer mais nada para não estragar a experiência de leitura (só digo que ela envolve uma cena de sexo com um desfecho incomum).

O que mais gostei foi do desfecho surpreendente que o romance apresenta. Curiosamente, não desconfiei de quem é o principal vilão do livro, por mais óbvio que ele (ou seria ela?) pareça. “O Silêncio da Chuva” é o tipo de romance policial que deixa várias pistas no meio do caminho, mas que o leitor acaba ignorando. Eu pelo menos fui enganado completamente, o que reforça ainda mais a tese do quão impecável é a narrativa e o trabalho de seu autor. E mesmo enganado, reconheço que o final é bastante lógico (totalmente condizente com os fatos narrados ao longo de toda a obra). Não espere encontrar em “O Silêncio da Chuva” novas peças do quebra-cabeça no instante final, que mudam completamente o entendimento da trama. Garcia-Roza é coerente do início ao fim com sua história e com seus leitores. Isso é o mais legal de ser enaltecido.

Gostei também da intertextualidade literária. Apesar de ser um recurso um tanto convencional dos romances policiais, ele é bem explorado neste livro. As leituras que a personagem principal faz durante a trama aparecem uma hora ou outra no texto. O leitor mais experiente notará a série de referências literárias deixadas ao longo das páginas por Luiz Alfredo Garcia-Roza.

Outro aspecto elogiável de “O Silêncio da Chuva” é a construção de suas personagens. Temos uma variedade de figuras fortes e contraditórias, o que só alimenta a dúvida de quem está lendo a obra (afinal, quem é o responsável pelos crimes, hein?). Com exceção do protagonista (um policial sério e honesto), todas as demais personagens são pessoas dúbias e com algum ponto a levantar suspeita. Incrível como Garcia-Roza conseguiu compor um quadro tão rico como este.

Minha única decepção com “O Silêncio da Chuva” está relacionada às características do Inspetor Espinosa. Apesar de muitíssimo carismático, o protagonista do romance (ou melhor, dos romances de Luiz Alfredo Garcia-Roza) é um policial muito parecido ao que encontramos em muitas obras do gênero. Para mim, faltou certa dose de originalidade na construção do perfil do investigador. Em alguns momentos, lembrei do Comissário Mattos, de “Agosto” (Companhia das Letras), romance de Rubem Fonseca. Tanto Espinosa quanto Mattos são honestos, solitários, melancólicos e apaixonados pela literatura e pela música. E ambos não têm bons relacionamentos com os demais profissionais de suas corporações. Nesse sentido, qual a originalidade do Inspetor Espinosa? Nesse livro não é possível identificar uma resposta elucidativa para essa questão. Minha esperança é que ela apareça nos demais livros protagonizados por essa personagem.

Apesar desse detalhe sobre o seu protagonista, “O Silêncio da Chuva” pode ser sim classificado como um romance impecável. Acredito que ele agrade tanto os apaixonados pelas narrativas policiais quanto os leitores desejosos de um bom thriller. Depois desta leitura, também passei a reforçar o coro de quem coloca Luiz Alfredo Garcia-Roza como um dos melhores escritores brasileiros contemporâneos. Como um apreciador dos romances policiais, fiquei fã da literatura do autor carioca. Quem saiba não analise mais obras suas no Bonas Histórias nos próximos meses, hein? Vontade não me falta. Admito ter ficado bastante curioso para saber os passos seguintes de Espinosa e de Welber.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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