• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Edmundo


[Câmera 2 mostra, em take aberto, o público no auditório. A plateia bate palmas ritmadas e acompanha a música instrumental executada pela banda. O operador de imagens troca para a câmera 1. Na tela, o foco está agora no apresentador. No centro do estúdio, atrás de uma mesa, ele esboça uma dancinha mexendo apenas os ombros].

Darico Nobar: Boa noite, fãs do programa mais divertido da televisão brasileira. Hoje, no Talk Show Literário, vamos entrevistar uma das figuras mais simbólicas da moderna ficção infantojuvenil de nosso país. Gostaria de chamar para subir ao palco ele que é personagem do romance policial O Gênio do Crime - Edmundo! [A câmera 3 exibe um garoto franzino vestindo a camisa do time de futebol do Barcelona, bermudão, boné e tênis. Ele recebe os aplausos do auditório]. Boa noite, meu bom menino. [Entrevistador e entrevistado se cumprimentam com um leve aperto de mãos].

Edmundo: Muito prazer.

Darico Nobar: Pelo que estou vendo, você mudou de time, né?

Edmundo: Sempre fui Barça, seu Darico [olha orgulhoso para a camisa que está usando].

Darico Nobar: Nananinanão. Lembro de você, meu jovem, correndo atrás de um conjunto de camisas oficiais do Corinthians. Soube que chegou a ir aos treinos no Parque São Jorge para falar com os craques do Timão. Achei que você fosse corintiano, Edmundo.

Edmundo: O senhor tem razão, mas isso faz muito tempo, Nossa Senhora.

Darico Nobar: Não vai me dizer que virou palmeirense.

Edmundo: Quando digo meu nome todos pensam que sou palmeirense ou vascaíno, mas não virei a casaca, não. Torço mesmo é para o Barcelona, a melhor equipe do mundo. Acho o Real um time metido a besta. Na Inglaterra, tenho simpatia pelo Chelsea. E na Itália, sou Torino Calcio com muito orgulho.

Darico Nobar: Qual o problema dos clubes nacionais?! Por que você só torce para times estrangeiros?

Edmundo: Porque sim [mostra as palmas das mãos como se nunca tivesse pensado a respeito].

Darico Nobar: Edmundo, porque sim não é resposta.

Edmundo: O futebol brasileiro está à beira da cova, seu Darico. Acho tolice torcer para time daqui. A mania agora da garotada é futebol europeu. Mania forte, dessas que ficam comichando o dia inteiro na cabeça da gente e não deixa pensar em mais nada. Ninguém mais vê campeonato estadual, Brasileirão. O negócio é Champions League, Premier League e La Liga. Lá que estão os craques de verdade.

Darico Nobar: Nem a Libertadores você acompanha?

Edmundo: Isso é coisa de gente velha [faz uma careta].

Darico Nobar: Você continua colecionando figurinhas?

Edmundo: Batata! Futebol não tem graça sem álbum de figurinha.

Darico Nobar: A Fábrica de Figurinhas Escanteio ainda existe? Nunca mais ouvi falar dela.

Edmundo: Não. O seu Tomé faliu faz um tempão. Agora essa indústria é das modernas multinacionais de fora do país. Quem manda pra valer é uma empresa italiana. Coisa chique, não dá nem para falsificar as figurinhas como antigamente. Eles economizam o dinheiro dos prêmios para lançar campanhas de publicidade na televisão. É um tremendo estouro!

Darico Nobar: Por falar em falsificação de figurinhas, você acha certo as crianças se meterem a procurar bandidos pela cidade de São Paulo?

Edmundo: O seu Tomé merecia ser ajudado. Coitado! Estava em uma enrascada daquelas. E quando a polícia fracassou nas investigações, quando os detetives particulares da fábrica fracassaram em achar os criminosos, alguém precisava se mexer, fazer alguma coisa... Foi o próprio seu Tomé que pediu nossa ajuda. Ninguém foi metendo o bedelho aonde não era chamado.

Darico Nobar: E o perigo? Vocês não calcularam os riscos que corriam? Acho que as crianças são para brincar e não para serem colocadas em investigações criminais. Isto de menino detetive funciona só em gibis, livrinhos de imaginação, mas a realidade dos bons romances policiais é a realidade da vida. Investigar é coisa para os adultos.

Edmundo: As pessoas fazem pouco das crianças, mas é verdade, podemos realizar investigações melhores do que muita gente grande. Não estamos à altura do Mister John Smith Peter, o detetive invicto da Escócia, mas temos nosso valor. E ninguém se deu mal, seu Darico. Voltamos mais ou menos inteiros para casa.

Darico Nobar: Você quase foi esfaqueado, menino!

Edmundo: Como dizia o Mister, que era boa praça e falava pelos cotovelos, tudo na vida pode ser perigoso. O mais perigoso de tudo é ficar em casa e não viver a vida.

Darico Nobar: E o que aconteceu com o Bolacha, hein?! Primeiro, ele caiu de um bonde em movimento. Depois, quase tomou um banho de ácido.

Edmundo: Um banho não faria mal naquele tremelique de banha.

Darico Nobar: Mas não de ácido?! O Bolacha não merece uma morte tão cruel.

Edmundo: Não defenda aquele lambão na minha frente, por favor.

Darico Nobar: Por quê? Vocês não são mais amigos?

Edmundo: Amigo??? Só se o Gordo for amigo-da-onça. O que ele fez comigo e com o Pituca não se faz nem para um inimigo [a raiva era tão grande que quase que se enxergava ela parada no ar, como uma nuvem sob a cabeça do entrevistado].

Darico Nobar: O que ele fez de tão grave para você ficar assim?

Edmundo: A besta roubou o meu protagonismo no romance. E, pior ainda, passou a estrelar a maioria dos demais livros da coleção. Tem gente por aí que conhece as nossas histórias como a Série da Turma do Gordo. Turma do Gordo?! Onde já se viu? Ele não é líder de ninguém. O certo seria falar na Turma do Edmundo ou, no máximo, na Turma do Edmundo & do Pituca.

Darico Nobar: Não sabia dessa sua amargura.

Edmundo: E justo o Gordo que não colecionava figurinhas, detestava futebol e tinha horror de história policial. É uma injustiça danada ele ter virado o grande herói da trama. Pior é que este tipo de roubo não dá para investigar nem rende um bom romance infantojuvenil. [Fica alguns segundos em silêncio]. Bem que o Pituca falou para não colocarmos o Gordo nisso...

Darico Nobar: Sem ele, quem teria tido a ideia de seguir o cambista pelo avesso, hein? Ele foi importante para descobrir a fábrica clandestina de figurinhas.

Edmundo: Re-co-nhe-ço! Aquela foi a ideia mais bigue que vi até hoje juro por Deus! Foi a primeira vez na história universal dos casos de polícia que se usava o curioso sistema que o Gordo inventou.

Darico Nobar: O Bolacha era o mais inteligente da turma, não?

Edmundo: Acho que não [balança a cabeça várias vezes]. Para mim, a Berenice sempre foi a mais esperta. Ela sacava tudo em um piscar de olhos. E ela só tinha oito anos. Aquela garotinha era a única capaz de solucionar o caso sozinha. A Berenice era trinta vezes mais inteligente que o Bola, mas o Mister era duzentas.

Darico Nobar: Então por que o Bolacha ficou com a fama de herói?

Edmundo: Sabe como é, ele saiu em tudo que é jornal, televisão, rádio. Toda a cidade queria ver o Gordo de perto. Falaram que o Gordo era o mais charmoso de São Paulo, gordo maravilhoso, gordo divino, gordo salvação da pátria, gordo nacional, gordo mais magro do mundo! Foi um rebuliço que durou uma semana inteira. Se o Gordo já tinha uma cara de quem se achava grande coisa, depois de aparecer na TV ele tinha a certeza de que era o verdadeiro sherloque.

Darico Nobar: Me conte: a Berenice e o Bolachão estão namorando de verdade?

Edmundo: Que nojo! [Faz outra careta]. O Gordo é crânio, tem esse monte de inteligência, tá certo; mas é filhinho de papai, feio como ele eu nunca vi, e não só a banha, tem aquele narizinho pequeno, olhinho miúdo, como é possível alguém cair em fascinação por ele? Só mesmo uma garota zureta como aquela. Não entendo, não entendo! Deve ser milagre ou macumba.

Darico Nobar: Senti agora um certo ciúme do Bolacha no ar... [solta uma gargalhada ruidosa]. Não seria você o namorado ideal para a moreninha esperta?

Edmundo: Deus me livre! Menina só serve para fazer chateação. E a Berenice é outra metida. Tem livros da nossa turma que ela é quem rouba a cena. Um absurdo!

Darico Nobar: Afinal, Edmundo, a Turma do Gordo... ou melhor, a turma de vocês tem quantas crianças exatamente?

Edmundo: Vamos ver [começa a contar nos dedos das duas mãos]. Tem eu, o Pituca, o Gordo, a Berenice, o Biquinha, a Mariazinha, o Godofredo, a Sílvia, o Hugo Ciência, o Zé Tavares, a Vera Xavier, o Alcides, a Nádia, o Paulo, a Simone. Somos em quinze. Se não me esqueci de ninguém.

Darico Nobar: Quem são seus melhores amigos?

Edmundo: Amigos de verdade, o senhor quer saber, são o Pituca e o Alcides. Ah, tem também o Pirata. Este sim é o melhor amigo do mundo, disparado.

Darico Nobar: Edmundo, a prosa está boa, mas é hora de você ir para casa. Combinei com a Dona Elvira e com o seu Cláudio que o devolveria antes da janta.

Edmundo: Foi um prazer, seu Darico, visitar a televisão. Muito obrigado.

Darico Nobar: Você gostou?

Edmundo: Iupi! Mais legal do que completar álbum de figurinha. Até logo, seu Darico.

Darico Nobar: Tchau, meu bom menino. É isso aí, meu povo [olha diretamente para a câmera 1]. O Talk Show Literário desta noite fica por aqui. No mês que vem, voltaremos com mais um bate-papo sensacional com alguma grande estrela da ficção brasileira. Até lá!

[A câmera 2 mostra os aplausos efusivos do auditório. Em uma imagem geral da câmera 3, apresentador e convidado se levantam e caminham, enquanto conversam, para a parte interna do estúdio. O operador de imagens aperta o botão vermelho em seu painel de controle].

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas três primeiras temporadas, neste quarto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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