• Ricardo Bonacorci

Músicas: Clara Crocodilo - 40 anos da criação de Arrigo Barnabé


Em 1980, Arrigo Barnabé lançava o álbum “Clara Crocodilo”. Produzido de forma independente, seu disco de estreia alcançou sucesso instantâneo entre a crítica musical. O músico e compositor nascido em Londrina, no Paraná, despontou, assim, como uma das figuras mais criativas da Música Popular Brasileira. Além de misturarem elementos de vários gêneros e estilos diferentes, entre eles aspectos da música clássica e das canções populares, as criações de Barnabé incluíam doses de poesia concreta, narrações dramáticas, linguagem das histórias em quadrinhos, muitas onomatopeias e locuções radiofónicas e cinematográficas. Essa mistureba ousada conferia um ar extremamente distópico a suas canções. Para muitos, Barnabé trouxe as maiores inovações do cenário fonográfico brasileiro desde a Tropicália.

De tão original, o trabalho de Arrigo Barnabé é até mesmo difícil de ser classificado. Há quem o insira no movimento da Vanguarda Paulista, que vigorou com mais intensidade entre o finalzinho da década de 1970 e a primeira metade dos anos 1980 e que teve nomes como Itamar Assumpção, Ná Ozetti, Eliete Negreiros, Vânia Bastos, Tetê Espíndola e o grupo Língua de Trapo. Há quem prefira comparar Barnabé ao Dodecafonismo, estilo criado há um século pelo austríaco Arnold Schoenberg e que teve maior repercussão em nosso país dentro da música clássica (Arrigo seria uma exceção ao usá-lo na música popular). Diante de tantas possibilidades conceituais, o músico paranaense sempre recusou qualquer tipo de rótulo.

Com uma proposta tão diferenciada, não é surpresa nenhuma que Barnabé nunca tenha alcançado grande sucesso comercial entre o público ouvinte. Ao invés de chegar às massas, seus trabalhos sempre ocuparam um nicho de mercado formado por uma galerinha cult localizada principalmente na cidade de São Paulo. Em quarenta anos de carreira profissional, Arrigo Barnabé lançou uma dezena de álbuns. Os seus discos mais influentes foram justamente os dois primeiros: “Clara Crocodilo” e “Tubarões Voadores”, de 1984. O álbum de estreia foi eleito pela Revista Rolling Stones, em 2007, como o 51º mais importante da música brasileira.

A principal faixa de “Clara Crocodilo” é a sétima, justamente a música que dá nome ao álbum. A canção “Clara Crocodilo” é, até hoje, a mais famosa criação de Arrigo. Ela foi composta em parceria com Mário Lúcio Côrtes, músico que foi amigo de infância de Barnabé. Enquanto Arrigo ficou responsável pela letra, a melodia foi produzida em conjunto pelos dois compositores. Com mais de sete minutos de duração, a música é ousada até em sua extensão. No início da década de 1980, as canções raramente ultrapassavam os três minutos de duração. “Clara Crocodilo” foi eleita pela Revista Bravo, em 2006, como uma das 100 canções mais relevantes da história musical brasileira.

Veja, a seguir, a letra de “Clara Crocodilo” e, logo depois, ouça sua execução original.

Clara Crocodilo (1980) - Arrigo Barnabé e Mário Lúcio Côrtes:

São Paulo, 31 de dezembro de 1999

Falta pouco, pouco, muito pouco mesmo para o ano 2000

E você, ouvinte incauto, que no aconchego de seu lar,

Rodeado de seus familiares,

Desafortunadamente colocou este disco na vitrola,

Você que, agora,

Aguarda ansiosamente o espocar da champanha e o retinir das taças,

Você, inimigo mortal da angústia e do desespero,

Esteja preparado...

O pesadelo começou!

Sim, eu sei,

Você vai dizer que é sua imaginação,

Que você andou lendo muito gibi ultimamente,

Mas então por que suas mãos tremeram,

Tremeram, tremeram tanto,

Quando você acendeu aquele cigarro...

E por que você ficou tão pálido de repente?

Será tudo isto fruto da sua imaginação?

Não, meu amigo,

Vá ao banheiro agora,

Antes que seja tarde demais,

Porque neste mero disco que você comprou num sebo,

Esteve aprisionado por mais de 20 anos,

O perigoso marginal,

O delinqüente,

O facínora,

O inimigo público número 1,

Clara Crocodilo...

Quem cala consente,

Eu não calo Não vou morrer nas mãos do tira Quem cala consente,

Eu desacato Não vou morrer nas mãos do rato Nanananão,

Não vou morrer,

Nanananão

Você tem que falar disso para mim

Eu morrer não.

Não vou ficar mais neste inferno Nem vou parar num cemitério

Metralhadora não me atinge Não vou ficar mais neste ringue

Ei, você que está me ouvindo,

Você acha que vai conseguir me agarrar?

Pois então, tome...

Já vi que você é perseverante.

Vamos ver Se você segura esta... Meninas,

Vocês acham que eles querem mais? Querem sim! Você, que então é tão espertinho,

Vamos ver se você consegue me seguir neste labirinto.

Clara Crocodilo fugiu Clara Crocodilo escapuliu Vê se tem vergonha na cara E ajuda Clara,

Seu canalha

Olha o holofote no olho,

Sorte,

Você não passa de um repolho

Onde andará Clara Crocodilo?

Onde andará?

Será que ela está

Roubando algum supermercado?

Será que ela está

Assaltando algum banco?

Será que ela está

Atrás da porta de seu quarto,

Aguardando o momento oportuno

Para assassiná-lo com os seus entes queridos?

Ou será que ela está

Adormecida em sua mente esperando A ocasião propícia para despertar e descer Até seu coração...

Ouvinte meu, meu Irmão?

Se hoje “Clara Crocodilo” já é uma canção ousada, imagine, então, há quarenta anos a repercussão da sua cacofonia e de seus versos aparentemente caóticos. Incrível!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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