• Ricardo Bonacorci

Livros: Angola Janga – O premiado romance gráfico de Marcelo D´Salete


Aproveitei o Carnaval para ler “Angola Janga – Uma História de Palmares” (Veneta), o celebrado romance gráfico de Marcelo D´Salete. A obra foi desenvolvida ao longo de onze anos e foi produzida com o apoio do ProAC (Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo). Não é errado afirmarmos que “Angola Janga” seja, desde já, um clássico contemporâneo das Histórias em Quadrinhos de nosso país. Esqueça as tramas fantasiosas de super-heróis que inundam as publicações comerciais desse gênero (sinceramente, nunca fui fã de nenhuma delas). O que Marcelo D´Salete fez de maneira sublime foi usar a plataforma da HQ para narrar a trajetória de vida de Zumbi como principal líder quilombola brasileiro. Assim, o livro adquire ao mesmo tempo uma pegada de reparação histórica e de conscientização social para as novas gerações de brasileiros. Sinceramente, não vejo “Angola Janga” simplesmente como um belo graphic novel. Encaro este romance como uma das mais originais e impactantes criações em língua portuguesa dos últimos anos, independentemente de sua categoria literária.

Admito que estava há pelo menos dois anos com muita vontade de conhecer esta publicação. Depois de ver várias matérias jornalísticas enaltecendo os prêmios e a qualidade do livro de D´Salete, sabia que tinha a obrigação de lê-lo. Apesar de minha grande curiosidade, só agora conseguir aplacá-la. Aproveitei uma visita despretensiosa à Livraria Cultura da Avenida Paulista para adquirir “Angola Janga”. Na certa, esta obra ficará na lista de melhores títulos analisados pelo Bonas Histórias neste ano. Confira em dezembro a coluna Recomendações para verificar a acuracidade de minha previsão.

D´Salete é um autor paulistano de 41 anos que atua também como historiador, ilustrador, quadrinista, designer gráfico e professor. Ele realizou uma acurada pesquisa histórica sobre Palmares, o maior quilombo do Período Colonial brasileiro, para produzir “Angola Janga”. Através deste trabalho bibliográfico, o artista conseguiu recriar os momentos decisivos da vida de Zumbi de Palmares por um ponto de vista próprio. Afinal, quando os registros históricos se tornaram muito vagos ou parciais (lembremos que a história oficial é sempre contada pelos vencedores e nunca pelos subjugados), o escritor e ilustrador precisou inserir doses ficcionais à sua narrativa para ela dar liga. O resultado é espetacular. Nem mesmo esses elementos de ficção tiraram o caráter histórico da trama.

Publicado em 2017, “Angola Janga” conquistou no ano seguinte o Prêmio Jabuti de melhor história em quadrinho e o Troféu HQ Mix de melhor edição especial nacional. Para se ter uma ideia desses feitos, vale lembrar que o Jabuti é a principal honraria da literatura brasileira e o HQ Mix é a mais tradicional premiação dos quadrinhos brasileiros. Nada mal levar para casa este “doblete” (como diriam os futebolistas espanhóis), hein? A obra de Marcelo D´Salete também foi traduzida para outros idiomas e lançada no exterior. Estados Unidos e Europa ganharam suas próprias versões do HQ.

Curiosamente, esta não é a primeira publicação do autor. Antes de “Angola Janga”, D´Salete já tinha lançado três graphic novels. Nenhuma delas, contudo, chegou perto do sucesso alcançado pelo seu último livro. Depois de trabalhar alguns anos como quadrinista nas revistas Quadreca e Front, Marcelo D´ Salete estreou como autor de HQ, em 2008, com “Noite Luz” (Via Lettera). Este livro apresenta o drama de um menino solitário que vaga à noite pela cidade grande. Em 2011, veio “Encruzilhada” (Leya), que aborda a vida complicada de pessoas marginalizadas socialmente na cidade de São Paulo. Meninos de rua, usuários de drogas, prostitutas, ladrões e vendedores ambulantes são os protagonistas dessa história. “Cumbe” (Veneta), de 2014, se aproxima muito da proposta de “Angola Janga”. Nesse terceiro livro do autor, os negros escravizados são colocados no papel de heróis da narrativa. Eles buscam liberdade e resistem às opressões, às violências e às injustiças do Período Colonial brasileiro.

“Angola Janga”, o título do quarto romance gráfico de D´Salete, era o termo utilizado pelos próprios quilombolas para designar a sua comunidade. Importante ressaltar que Palmares era o nome usado pelos portugueses para se referir ao quilombo. Ou seja, Angola Janga significava “Pequena Angola” na língua dos negros. Localizado na Serra da Barriga na então Capitania de Pernambuco (região pertencente hoje em dia ao Estado de Alagoas), Palmares/Angola Janga começou a ser habitado por negros fugidos já na segunda metade do século XVI. Pouco a pouco, a comunidade foi crescendo. Sua maior expansão ocorreu entre 1624 e 1654, justamente durante as invasões holandesas a Pernambuco (que desestabilizou politicamente a região). Em seu auge, no final do século XVII, Palmares/Angola Janga chegou a abrigar cerca de 20 mil negros que fugiram da vida cruel nas fazendas e nos engenhos de cana de açúcar do Nordeste. O quilombo se tornou tão grande que ele possuía vários mocambos (termo do Período Colonial que designava as pequenas vilas formadas por escravos fugidos). Macaco era a capital de Angola Janga e tinha aproximadamente 6 mil habitantes (tamanho próximo de muitas vilas pernambucanas da época).

Em “Angola Janga” acompanhamos os passos de Zumbi, o mítico líder quilombola de Palmares, e seu fiel escudeiro, Soares. A narrativa percorre desde a infância dos garotos até o desfecho trágico da guerra na Serra da Barriga, momento decisivo da história do quilombo. A infância de Zumbi foi marcada pela morte dos seus pais quando ele era um bebê de colo. Um grupo de caçadores de escravos fugitivos assassinou o pai e a mãe do futuro líder quilombola. Após o recebimento da comissão pela morte dos negros, os assassinos deixaram o bebê órfão em um convento. Assim, o pequeno Francisco (como Zumbi foi inicialmente chamado) foi criado por um padre católico, que o ensinou a língua portuguesa e o latim. Ainda pequeno, o menino pôde sentir a intensidade do racismo da sociedade colonial brasileira. Francisco teve vários dissabores causados unicamente pela sua cor de pele. Os meninos brancos que visitavam a igreja xingavam, agrediam e humilhavam frequentemente o “filho adotivo” do padre local. Depois de ser alvo de tanta violência gratuita e injusta, o garoto negro resolveu fugir para Palmares.

A partida para o quilombo depois de tanto sofrimento também é o enredo da vida de Soares. Quando ele, um escravo querido e respeitado pela família Gonçalves, ia, enfim, receber sua carta de alforria de Dona Catarina, sua patroa, ela morreu. Por crueldade (ou seria por ciúmes?), o Sr. Gonçalo, filho de Catarina, não concedeu a liberdade ao escravo favorito da mãe e ainda por cima passou a persegui-lo. Após violentas e covardes surras, o escravo percebeu que não tinha alternativa a não ser fugir para o quilombo da Serra da Barriga. Lá ele poderia conseguir sua tão desejada liberdade.

Uma vez instalado e habituado à vida no mocambo, Zumbi passou a exercer sua liderança junto aos demais moradores do lugar. Para tal, sempre contou com o apoio incondicional de Soares. Os dois amigos passaram a se envolver com a política local e a influenciar as decisões tomadas em Palmares/Angola Janga. A ascensão econômica do mocambo causou inveja e preocupação nos portugueses donos de escravos e de fazenda de cana de açúcar da região. Com o apoio do governador da capitania de Pernambuco, várias expedições armadas foram realizadas com o objetivo de destruir Palmares (principalmente a capital Macaco) e de matar seu líder. Entre janeiro de 1694 e novembro de 1695, coube a dupla de bandeirantes paulistas Domingos Jorge Velho e André Furtado, cada um em uma oportunidade, alcançar essas proezas sonhadas pelo governador.

É essa trama riquíssima, que ficou muitos anos renegada ao segundo plano dos livros de História do Brasil, que é agora contada em detalhes extremamente realistas por Marcelo D´Salete. “Angola Janga” tem 432 páginas. Dá para ler o livro inteiro em uma única tarde ou em duas noites consecutivas (lembremos que se trata de uma HQ). Depois do romance gráfico, o leitor ainda é brindado com parte do material proveniente das pesquisas históricas do autor paulista. É espetacular ler os pormenores reais e os fatos históricos que originaram a construção do romance. Cada peça da obra foi muito bem pensada e tem um fundamento documental. Não à toa, D´Salete levou 11 anos para concluir “Angola Janga”.

Vale destacar que a narração ficcional sobre o quilombo dos Palmares e sobre a vida de Zumbi não é nenhuma novidade. Antes de Marcelo D´Salete, vários artistas já tinham construído tramas com essa temática tanto no cinema quanto na literatura. Até nas histórias em quadrinhos esse assunto já tinha sido abordado. Clóvis Moura e Álvaro de Moya, por exemplo, produziram a HQ “Zumbi dos Palmares” em 1955. Antônio Krisnas e Allan Alex, de “Zumbi – A Saga de Palmares”, e Carlos Ferreira e Moacir Martins, de “A Guerra de Palmares”, também lançaram obras na mesma linha.

Contudo, em nível de qualidade, a obra de D´Salete se destaca quando comparado aos seus antecessores. Se “Angola Janga” não é um romance gráfico assim tão original em relação a sua temática, por outro lado ele surpreende positivamente o leitor pela sua originalidade narrativa e pelo seu embasamento histórico (além de artista, o autor deste livro é um historiador!). É inegável o poder dramático desta trama. Da maneira como ela foi contada, os acontecimentos ganham uma dimensão humana ainda mais forte. Desnudamos as personagens principais (todas têm defeitos e qualidades; são, portanto, personagens redondas) e vemos o quão grandioso (e polêmico) foram seus feitos.

Gostei bastante do jeito como Marcelo D´Salete conduz sua história. Ele não subestima a inteligência do leitor em nenhum momento e explora alguns recursos narrativos bastante ousados. O romance vai e volta no tempo (ora avançamos ao futuro, ora retornamos ao passado). Em alguns quadrinhos, um detalhezinho na ilustração é o que confere sentido à narrativa e o que cria o conflito da trama. Não se pode deixar passar despercebido nenhum aspecto visual e textual da obra. Concentre-se nos quadrinhos e na leitura! Caso contrário, você poderá ficar um pouco perdido nessa história.

Sinceramente, até agora não sei o que é melhor: o conjunto de ilustrações ou o texto de “Angola Janga”. Enquanto o primeiro é maravilhoso (boa parte da trama é contada em imagens e não em palavras), o segundo respeita os termos e o linguajar empregados na época em que a história se passa. Com isso, nos sentimos realmente no século XVII. No caso das imagens, a escolha do preto e branco se mostrou acertadíssima. O contraste das cores reforça ainda mais a dramaticidade e a violência da narrativa. Na parte textual, preciso comentar a bem-sucedida escolha do autor por apresentar diferentes trechos informativos e históricos no começo de cada capítulo. Assim, o leitor tem acesso a jornais antigos, a cartas do período retratado e a trechos de comentários de livros atuais de História, por exemplo. Como resultado mais concreto desse expediente narrativo, o leitor consegue ter uma visão mais abrangente e profunda do que está acontecendo no romance tanto em nível macro quanto no nível microambiental.

Talvez o mais incrível seja o desfecho do romance, que obviamente não poderei detalhar neste post (sou terminantemente contrário a spoilers no Bonas Histórias!). Apesar de já sabermos o que vai acontecer (não é preciso ser um grande entendedor da História brasileira para lembrar o desfecho da história de Zumbi de Palmares), D´Salete acrescenta doses arrojadíssimas de ficcionalidade à sua trama, o que a torna ainda mais contundente e polissêmica. A brincadeira de ida e volta no tempo (passado e futuro estão intimamente ligados) fica ainda mais incrível na última parte da HQ. Com isso, o leitor reflete sobre o país que temos hoje e o que representou a luta das personagens retratadas. Simplesmente incrível!

Para mim, “Angola Janga” é magnífico e ganhará uma posição de destaque na estante da biblioteca da minha casa. Esse tipo de leitura é aquele que nos deixa estupefatos quando chegamos à sua última página. Acredito que não poderia ter lido nada melhor neste Carnaval. Parabéns, Marcelo D´Salete, por esta sua criação espetacular! A literatura brasileira ganhou um excelente romance gráfico que tem tudo para figurar entre os clássicos de seu gênero. Tomara que mais e mais brasileiros possam conhecer essa obra-prima.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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