• Ricardo Bonacorci

Livros: O Médico e o Monstro – O clássico de terror de R. L. Stevenson


Há alguns livros que marcam seus gêneros literários de tal forma que se tornam clássicos da literatura quase que imediatamente. Sucesso de público e de crítica, eles rapidamente passam a ser vistos como referências por leitores e pelos demais escritores. O problema surge nas décadas seguintes. Suas histórias são tão copiadas por outros autores e corriqueiramente adaptadas para o cinema, para a TV e para o teatro que suas receitas narrativas ficam um tanto batidas. Aí, um leitor contemporâneo (e desavisado) pode não conseguir perceber a grandeza e a ousadia dessas tramas. Por causa dos incontáveis similares e genéricos lançados posteriormente no mercado, há quem considere o clássico como uma obra banal e até mesmo óbvia. Isso é muito comum de acontecer nos romances policiais, nos thrillers, nas tramas de terror, nas obras de ficção científica e nos dramas românticos bem-sucedidos. A repetição incansável por muitos e muitos anos acaba, infelizmente, desgastando também o livro que apresentou ao público determinada fórmula pela primeira vez.

Falo sobre tal questão hoje no Bonas Histórias porque foi mais ou menos essa a impressão que tive na leitura de “O Médico e o Monstro” (L&PM Pocket) no último final de semana. Esta novela gótica de Robert Louis Stevenson, escritor escocês da segunda metade do século XIX, é considerada uma das mais importantes criações da história da literatura de terror. Prova maior de sua inventividade narrativa está justamente no quanto ela vem sendo copiada de lá para cá. Posso listar de cabeça alguns livros que adotaram, no século XX, a essência narrativa ou os elementos filosóficos de “O Médico e o Monstro”: “Psicose” (Darkside Books), de Robert Bloch, “O Visconde Partido ao Meio” (Companhia das Letras), de Italo Calvino, e “O Retrato de Dorian Gray” (Penguin Companhia), de Oscar Wilde. No cinema, os similares são “O Amigo Oculto” (Hide and Seek: 2005), “Fragmentado” (Split: 2017), “Clube da Luta” (Fight Club: 1999) e “O Silêncio dos Inocentes” (The Silence of the Lambs: 1991). Na TV, temos, por exemplo, “The Following” e “The Fall”, duas produções recentes.

Robert Louis Stevenson é considerado um dos mais influentes escritores britânicos do século retrasado. Traduzido para dezenas de idiomas, ele produziu não apenas obras ficcionais de destaque como também se dedicou à poesia e à não-ficção. Contudo, para a crítica literária e para os leitores ao redor do mundo, os trabalhos mais primorosos do escocês estão nos romances de aventura, nas novelas de terror e de mistério e nas narrativas para as crianças. Suas obras mais conhecidas, além de “O Médico e o Monstro”, são “A Ilha do Tesouro” (L&PM Pocket), clássico da literatura infantojuvenil, e “As Aventuras de David Balfour”, série de dois romances de aventura – “Raptado” (Ática) e “Catriona” (Sem edição no Brasil). Outra novela memorável de Stevenson que vale a pena a leitura é “O Clube dos Suicidas” (Rocco).

Publicado pela primeira vez em 1886, “O Médico e o Monstro” rapidamente se tornou um grande sucesso na Inglaterra. Já no ano seguinte ao seu lançamento nas livrarias, esta história era encenada nos palcos dos teatros londrinos. Foram várias as adaptações desta trama para o cinema ao longo dos séculos XX e XXI. A primeira aconteceu em 1920, nos primórdios do cinema. A mais famosa é uma produção de 1931 dirigida por Rouben Mamoulian e estrelada por Fredric March, Miriam Hopkins e Rose Hobart. Importante salientar que o enredo do longa-metragem de Mamoulian possui várias diferenças em relação à história original do livro. Este “O Médico e o Monstro” (Dr. Jekyll and Mr. Hyde: 1931) foi o primeiro filme do gênero de terror a conquistar um Oscar. A mais recente produção cinematográfica baseada na novela de Robert Louis Stevenson é um filme de 2003. O livro “O Médico e o Monstro” também foi transformado em programas de rádio e, mais tarde, em séries de TV e em histórias em quadrinhos.

Não é errado dizer que 134 anos depois de sua publicação, esta narrativa continue presente direta ou indiretamente no imaginário coletivo. De lá para cá, este livro de Stevenson já foi editado incontáveis vezes e se tornou um título onipresente nas principais livrarias e bibliotecas dos quatro cantos do planeta. Não à toa, adquiriu o status de clássico das histórias de terror. “O Médico e o Monstro” integra, juntamente com “Frankenstein” (L&PM Pocket), de Mary Shelley, e “Drácula” (Penguim Companhia), de Bram Stoker, a trinca dos maiores sucessos das narrativas de horror de todos os tempos. Curiosamente, as três novelas são criações do século XIX, um período extremamente produtivo para este gênero literário.

O enredo de “O Médico e o Monstro” se passa em Londres, no final da segunda metade do século XIX, e é narrado na maior parte do tempo em terceira pessoa. Nele, o advogado Gabriel John Utterson está intrigado com uma questão misteriosa. Por que seu amigo e cliente Henry Jekyll, um médico rico e bem-conceituado da capital inglesa, tem como único beneficiário de seu testamento uma figura rude e desagradável que poucas pessoas da sociedade londrina conhecem?! Por estar de posse do testamento do Dr. Jekyll, Utterson sabe que em caso de morte ou de desaparecimento do amigo, o herdeiro da fortuna do médico é um tal de Edward Hyde. Essa dúvida passa a atormentar Gabriel John Utterson quando ele presencia Hyde sendo preso por populares, no meio da madrugada, por ter constrangido uma menina de 8 anos. Para não ser linchado no meio da rua, Edward Hyde aceita pagar uma indenização para os pais da garota. Para espanto do advogado, Hyde dá um cheque do Dr. Jekyll como pagamento.

Na mente de Utterson, não há dúvida: Edward Hyde, uma figura repugnante e com aspecto horripilante, está chantageando seu amigo e cliente. Na certa, Hyde descobriu algo de Jekyll e, assim, está o extorquindo. Essa é a única explicação para a condescendência do médico em pagar as despesas do criminoso, de aceitar sua presença em casa e em tê-lo com único herdeiro. Porém, quando perguntado sobre a razão desse comportamento, Dr. Jekyll tenta minimizar a polêmica. Diz que a resposta para tal questão é pessoal e que um dia Utterson saberá a verdade.

A tranquilidade de Gabriel John Utterson acaba de vez quando Edward Hyde é acusado de matar um conhecido parlamentar. Na visão do advogado, não há dúvida que Hyde seja o verdadeiro culpado pelo crime. Além disso, ele acredita que a próxima vítima do assassino será Henry Jekyll. Afinal, essa é a única maneira de Hyde colocar as mãos na fortuna do médico. Coincidentemente ou não, Dr. Jekyll torna-se uma pessoa extremamente reservada e enclausurada em sua residência depois que Hyde foge para não ser preso. O médico raramente vai para a rua e não quer mais receber as visitas dos amigos nem dos clientes. Para perplexidade de Utterson, Henry Jekyll passa também a se comportar de maneira cada vez mais estranha. O que há por trás da relação misteriosa e polêmica entre Dr. Jekyll e o Sr. Hyde, hein?!

Com 112 páginas, divididas em dez capítulos, “O Médico e o Monstro” é uma novela gótica original por algumas razões. Em primeiro lugar, temos a inserção de elementos de ficção científica e de filosofia existencialista em sua trama. Obviamente essa combinação não se trata de algo totalmente novo na literatura de terror. “Frankenstein” é uma novela de 1823 que já se utilizava dos mesmos expedientes. Contudo, o livro de Stevenson faz isso ao abordar uma intriga de alto teor psicológico, algo que só seria habitual na metade do século XX. Exatamente por isso, a surpresa do seu desfecho. Se hoje é possível um leitor experiente matar a charada ainda na metade da obra (foi o que aconteceu comigo), no final do século XIX e no início do século XX o desenlace da novela era extremamente bombástico e inesperado. Esse é o segundo motivo de sua originalidade narrativa. A obra revela-se ousada por abordar em seu arremate as doenças psicológicas e as angústias mentais de uma personagem transtornada. Incrível!

Interessante notar o tipo de atmosfera criada por Robert Louis Stevenson. “O Médico e o Monstro” tem muitas cenas, situações e cenários sombrios. Praticamente toda a história se passa à noite ou de madrugada em residências e ambientes angustiantes (ruas escuras, laboratório de cientista, casas frias, quartos pobres e cômodos claustrofóbicos). As características das personagens principais também contribuem para o clima pesado da trama. Homens solitários, melancólicos, misteriosos, dúbios constituem boa parte do elenco do livro.

Outra questão central do sucesso de “O Médico e o Monstro” está na manutenção do seu suspense. Da primeira à última página da novela, temos um segredo bem guardado que instiga o leitor. Este é o tipo de livro que se você começa a ler na certa vai querer terminá-lo o mais rapidamente possível. Li esta obra em uma única tarde. Comecei-a no sábado depois do almoço e antes do escurecer já a tinha concluído. Devo ter levado aproximadamente três horas para percorrer todas as suas páginas.

Outro ponto elogiável está no estabelecimento do foco narrativo. O narrador em terceira pessoa fica o tempo inteiro colado a Gabriel John Utterson. De certa forma, o advogado compartilha com o leitor sua curiosidade sobre o caso e tudo aquilo que sabe sobre o episódio. O clímax e a revelação do mistério se dão, respectivamente, no penúltimo e no último capítulo da obra. Nesse instante, a história passa a ser contada em primeira pessoa por Dr. Lanyon, médico que é amigo tanto do Sr. Utterson quanto do Dr. Jekyll, e pelo médico-protagonista da trama. Através de cartas deixadas por ambos ao advogado, ficamos sabendo dos segredos que movimentam esta narrativa.

Se hoje o debate filosófico proposto por “O Médico e o Monstro” (lado bom e lado mau de cada indivíduo) e o desfecho do livro (personagem que sofre de múltipla personalidade) podem parecer temas corriqueiros da literatura e do cinema, isso é em parte méritos da novela gótica de L. R. Stevenson. Lá atrás, ela revolucionou seu gênero ao acrescentar doses ousadas e inusitadas de drama existencialista em uma história aterrorizante. O leitor contemporâneo precisa entender essa particularidade e esse contexto histórico quando for ler este clássico. E por falar em lê-lo, todo fã de tramas de mistério e narrativas de terror não pode deixar de conhecer essa história incrível.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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