• Ricardo Bonacorci

Filmes: De Quem é o Sutiã? - O conto de fadas moderno do Azerbaijão


Fazer cinema mudo (ou quase mudo) em pleno século XXI não é uma raridade tão surpreendente assim. Vale lembrar que “O Artista” (The Artist: 2011) conquistou merecidamente cinco estatuetas do Oscar em 2012, incluindo o de melhor filme, ao usar este expediente. Em 2020 mesmo, já comentei no Bonas Histórias o hilário “O Paraíso Deve Ser Aqui” (It Must Be Heaven: 2019), produção de Elia Suleiman em que o protagonista quase não fala. Mesmo assim, não deixa de ser inusitado (e até gracioso) quando o cineasta contemporâneo filma ancorando-se exclusivamente nas imagens.


Esse é o caso do belíssimo “De Quem é o Sutiã?” (The Bra: 2018), comédia-dramática alemã ambientada no Azerbaijão. Sem dúvida nenhuma, trata-se do título mais charmoso e do roteiro mais criativo em cartaz neste momento no circuito comercial brasileiro. Assisti, no último final de semana, a este filme no Petra Belas Artes e confesso ter saído da sessão encantado com sua proposta cinematográfica e com sua narrativa coesa. Como é bom ver um longa-metragem diferente e com qualidades variadas, que sabe fugir do convencional sem abrir mão da excelência técnica. Incrível esta produção, um típico exemplar do que há de melhor no cinema alemão!


Dirigido, roteirizado e produzido por Veit Helmer, cineasta alemão de 51 anos, “De Quem é o Sutiã?” é uma espécie de conto de fada moderno do terceiro mundo. Apesar de sua ótima história, o que mais chama a atenção do público, ao menos no primeiro momento, é a ausência completa de diálogos durante todo o filme. É inacreditável essa façanha para um longa-metragem contemporâneo!


Antes que alguém reclame (corretamente) dos meus comentários do primeiro parágrafo deste post, deixe-me explicar melhor: tecnicamente, não podemos considerar esta produção como um caso de cinema mudo (esse mesmo conceito é aplicável a “O Paraíso Deve Ser Aqui”). Afinal, há todo tipo de som neste longa-metragem, tanto proveniente da trilha sonora quanto do que acontece em cena (gritos e lamúrias das pessoas, barulhos do trem se locomovendo, manuseios de objetos, pessoas batendo à porta, máquinas operando nas fábricas, etc.). As únicas coisas que não temos são as conversas entre as personagens (se houvesse, elas seriam transmitidas normalmente à plateia). Por isso, “De Quem é o Sutiã?” não é um exemplar do cinema mudo (a opção pela inexistência de diálogos foi algo definido no roteiro). Contudo, que se parece com cinema mudo, isso sim parece (prefiro chamá-lo de cinema quase mudo...).

Para quem acha impossível contar uma boa história sem nenhuma palavra falada, veja “De Quem é o Sutiã?”. Na certa, você sairá estupefato da sessão (sim é possível uma proeza como esta!). Estrelado por Miki Manojlović, Chulpan Khamatova, Denis Lavant, Ismail Quluzade, Maia Morgenstern e Paz Vega, este novo filme de Helmer foi filmado inteiramente no Azerbaijão, em 2017. Seu lançamento na Europa aconteceu no ano seguinte. Porém, só agora ele chega, por aqui, às salas de cinema das nossas grandes redes de distribuição. Sua exibição se deu, até então em nosso país, apenas em festivais, como na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2019.


Em “De Quem é o Sutiã?”, assistimos à rotina melancólica do maquinista Nurlan (interpretado por Miki Manojlović). Solitário, ele trabalha há décadas em uma linha de cargas que liga Baku, a capital azerbaijana, ao interior do país. Os únicos colegas com quem o protagonista convive minimamente são o maquinista novato que ele treina (Denis Lavant) e a operadora da linha (Chulpan Khamatova). De bom coração, Nurlan sempre devolve os objetos que seu trem acaba levando sem querer de uma vila próxima à estação principal de Baku. Como a linha passa bem no meio dessa comunidade pobre, acidentes acontecem, por mais que haja um garoto (Ismail Quluzade) que alerte os moradores sobre a chegada iminente da composição férrea. Os problemas mais comuns são a derrubada de varais de roupa.


Perto de se aposentar, Nurlan sonha em se casar. Após cortejar uma bela e jovem vizinha de sua propriedade nas montanhas, ele se vê renegado pela mãe da moça. A possível sogra o considera muito velho para sua filha, apesar da própria pretendente e do pai dela gostarem da ideia do casório. Assim, o maquinista desiste da vizinha, mas continua sonhando em encontrar a pessoa certa para se unir. A chance de encontrar a companheira ideal aparece na última viagem de trem que ele realiza até Baku. Na jornada derradeira antes da aposentadoria, um sutiã azul fica preso ao vagão dirigido por Nurlan. Na mente do funcionário, a peça é da mulher de sua vida, uma moradora do vilarejo humilde que ele conhece tão bem.


Aproveitando que não trabalha mais na companhia de trem, a personagem principal do longa-metragem inicia uma aventura inusitada pelas ruas da comunidade à beira da linha férrea. Ele deseja encontrar a dona do sutiã azul, com quem acredita que irá se casar. Assim, Nurlan inicia sua epopeia tragicómica batendo em porta em porta. As reações das mulheres abordadas são as mais inusitadas possíveis. Apesar de despertar a simpatia de algumas damas, o que ele mais gera é a repulsa e a indiferença delas (além do ódio dos homens locais). Mesmo conquistando algumas pretendentes, o obstinado Nurlan quer achar a verdadeira proprietária do sutiã, a única mulher com quem ele acredita ser possível se relacionar amorosamente.

“De Quem é o Sutiã?” tem 90 minutos de duração. Seu principal mérito é prender a atenção do espectador do início ao fim. Por mais que sua trama se desenrole de maneira mais lenta do que o habitual (afinal, é preciso explicar TUDO através das imagens), ainda sim a narrativa não esmorece em nenhum momento. Admito que fiquei com meus olhos presos a esta história o tempo inteiro. Em se tratando de um filme sem qualquer diálogo, essa é uma façanha que merece nossos aplausos.


Parte do sucesso deste longa-metragem deve-se à combinação entre o início didático e o desfecho arrebatador. As primeiras cenas já inserem o público no cerne do conflito. O roteiro de Veit Helmer é bastante feliz por ir direto ao ponto, não dando margem a rodeios ou à perda de tempo. E o final do filme é um dos mais espetaculares que vi nos últimos tempos. As surpresas acontecem sucessivamente. Eu que gosto de tentar prever o que irá acontecer (sim, tenho essa mania!), fiquei com o queixo caído na parte final. É impossível tentar descobrir o que irá ocorrer nos últimos 20 minutos de “De Quem é o Sutiã?”. Até mesmo a identidade da dona da peça íntima perdida é de derrubar qualquer um da cadeira do cinema. Fantástico!


As referências suscitadas por “De Quem é o Sutiã” são claras: “Cinderela”, clássico conto de fadas de Charles Perrault, e “O Garoto” (The Kid: 1921), um dos maiores sucessos cinematográficos de Charlie Chaplin. Se na narrativa do escritor francês o príncipe buscava a dona do sapatinho de cristal perdido, nesta produção de Helmer o maquinista procura obstinadamente sua pretendente através do sutiã achado em seu trem (o que suscita, convenhamos, mais comicidade e erotismo ao drama). Por mais que as feministas possam chiar (o sutiã já foi o grande vilão deste movimento), a escolha da peça foi acertada (pensando, obviamente, no lado cômico da história). Quando o menino pobre e abandonado que vive nas ruas de Baku se junta ao aposentado apaixonado pela mulher do sutiã azul, aí a trama pende mais para o clássico de Charlie Chaplin. Assim como Carlitos e o garotinho abandonado pela mãe se tornam uma dupla inseparável e aprontam todas pelas ruas norte-americanas na década de 1920, Nurlan e seu aliado mirim se tornam unha e carne e vão barbarizar pelas ruas azerbaijanas do século XXI.

É inegável que a ausência de diálogos dê um charme todo especial a esta produção. Eu, por exemplo, estou dizendo para todo mundo que assisto a filme alemão sem legenda... O mais importante, porém, é que as conversas entre as personagens eram mesmo desnecessárias. A narrativa não tem qualquer perda de conteúdo pelo silêncio permanente dos indivíduos em cena. Realmente, os diálogos não foram necessários em nenhum momento. Daí a beleza do filme (e coragem para usar um expediente como este). Isso também prova, mais uma vez, a excelência do roteiro.


Com a falta total de diálogos, o que ganha destaque em “De Quem é o Sutiã?” é a trilha sonora (toda ela instrumental) e a fotografia. E ambos são impecáveis. A trilha sonora ficou à cargo de Cyril Morin, francês especializado em compor para o cinema. Repare que a mudança de clima do filme passa quase sempre pelo tipo de canção de fundo apresentada. Destaque para a execução em piano que confere graça e humor às cenas hilárias de Nurlan visitando suas pretendentes. Já a fotografia realça as belezas e as pobrezas do Azerbaijão, um país muitas vezes ignorado pelos brasileiros. Ao mesmo tempo em que assistimos aos imponentes cenários concebidos pela natureza (montanhas, rios, planícies, florestas e desertos de tirar o fôlego), também vemos a vida dura no subúrbio de Baku e no alto das montanhas azerbaijanas.


Diferentemente do que tinha imaginado à princípio, o humor de “De Quem é o Sutiã?” não é apenas do tipo pastelão. Na maioria das vezes, a graça se apresenta pelas situações inusitadas, trágicas e pitorescas vivenciadas pelo protagonista e pelas mulheres ao seu redor. Ou seja, Veit Helmer não é muito apelativo, recorrendo mais à inteligência e à sagacidade para compor as cenas mais cômicas do seu filme do que ao pastelão raso e barato. Para um espectador mais exigente, essa questão foi um acerto.

Ao mesmo tempo em que vemos uma história muito engraçada, também somos atirados à realidade complicada do Azerbaijão. Naquele pedacinho distante do planeta, a violência de todos os tipos, o machismo e a secura tanto do ambiente quanto das relações humanas parecem predominar o tempo inteiro. Por falar no vazio dos relacionamentos, a falta de diálogo se encaixa justamente aí. Nurlan é tão solitário, mas tão solitário, que ele não consegue conversar com ninguém (daí a ausência de diálogos se torna natural e não artificial). De certa forma, há um forte tom naturalista nesta história.


Se alguém achar inverossímil o que se passa no povoado de Baku entrecortado pelos trilhos do trem (as pessoas correm diariamente para não serem atropeladas pela locomotiva), é importante ressaltar que isso sempre aconteceu no Brasil (e continua acontecendo!). Vale lembrar que o cantor Roberto Carlos perdeu a perna direita em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, quando era criança por causa da passagem de um trem. Na década de 1940, o menino estava em cima da linha de trem e não viu/ouviu a chegada do vagão. Ou seja, os dramas dos moradores do vilarejo retratado no longa-metragem são perfeitamente factíveis.


Por fim, é preciso enaltecer a atuação do elenco de “De Quem é o Sutiã?”. Todos os atores e atrizes estiveram formidáveis nesta produção. Miki Manojlović dá um show de interpretação na pele de Nurlan. O carisma de Manojlović é passado automaticamente para seu personagem. Assim, torcemos pelo sucesso do protagonista do longa-metragem mesmo quando ele comete derrapadas éticas em busca da mulher dos seus sonhos (e olha que não são poucas as derrapadas...). O pequeno Ismail Quluzade também está brilhante. O garoto é uma das gratas surpresas desta produção de Helmer. Em sua estreia no cinema, o ator mirim emociona a plateia com a simplicidade, a graça e a humanidade de sua personagem. Até mesmo as inverosimilhanças de suas proezas passam batidas para a maioria dos espectadores (como vamos contestar alguém tão incrível quanto esse menino, hein?). Em muitos momentos, ao ver a personagem de Quluzade, me lembrei do clássico mexicano Chaves, o personagem mais famoso de Roberto Gómez Bolaños. A trajetória de vida e o tipo de peraltices de ambos são parecidíssimos. Por exemplo, repare onde o menino do filme dorme e como ele é tratado pela maioria das pessoas de sua comunidade.


“De Quem é o Sutiã?” é um filmão. Sua aparente leveza esconde questões profundas e delicadas tanto de ordem individual quanto do aspecto social. Como entrou em cartaz em 20 de fevereiro, antes do Carnaval portanto, ele já está saindo das salas de cinema no Brasil. Se você ficou interessado(a), saiba que há ainda alguns locais em que é possível assisti-lo. Na cidade de São Paulo, por exemplo, há sessões no Petra Belas Artes. Por isso, corra para vê-lo, se não o trem passa e você fica na mão!


Assista, a seguir, ao trailer de “De Quem é o Sutiã?”:

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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