• Ricardo Bonacorci

Livros: Éramos Seis - A obra-prima de Maria José Dupré


O Desafio Literário de maio começa justamente com o maior sucesso literário de Maria José Dupré, a autora que o Bonas Histórias analisará neste mês. “Éramos Seis” (Ática) foi o segundo romance lançado pela escritora paulista nascida em Botucatu no finalzinho do século XIX. A obra conquistou o Prêmio Raul Pompéia de 1944, honraria oferecida pela Academia Brasileira de Letras ao melhor romance publicado no ano anterior. Não é errado dizer que este livro se tornou um clássico da literatura brasileira. É quase impossível hoje um adulto em nosso país não se lembrar deste título ou não ter ouvido ao menos uma menção sobre ele ao longo de sua vida. É claro que, assim como aconteceu com boa parte do portfólio literário de Jorge Amado, as várias adaptações da trama de “Éramos Seis” para a televisão e para o cinema ajudaram substancialmente na popularização da narrativa de Maria José Dupré. Há quatro décadas, a TV tem um poder disseminador da cultura no Brasil muito mais forte do que a literatura. O livro ainda é, infelizmente, um artigo raro no cotidiano nacional independentemente da classe social da família, da região do país e da faixa etária do indivíduo.


Já em 1945, um longa-metragem argentino foi produzido com base no enredo do romance de Dupré. Treze anos depois, a Rede Record lançou a primeira telenovela adaptada do livro. Depois disso, foram mais quatro telenovelas de “Éramos Seis”: duas pela extinta Rede Tupi (em 1967 e em 1977), uma pelo SBT (em 1994) e uma recente pela Rede Globo (em 2019/2020). Outro fator que ajudou bastante na popularização desta obra foi sua inclusão na Série Vaga-Lume, famosa coleção infantojuvenil lançada em 1973 pela Editora Ática. Apesar de não ser um título direcionado exclusivamente às crianças e aos adolescentes, a Ática inseriu o romance de Dupré no catálogo de sua exitosa coletânea. Por isso, muita gente leu “Éramos Seis” na fase escolar. Eu não tive essa sorte. Fiz minha primeira leitura deste livro no último final de semana.


Esta perenidade da trama de “Éramos Seis” foi decisiva para alçar a obra de Maria José Dupré ao status de clássico literário. Curiosamente, a escritora paulista passou a se dedicar à literatura somente após o casamento, no final da década de 1930, com Leandro Dupré, um engenheiro que morava na cidade de São Paulo. No início da carreira, ela assinava suas narrativas com o pseudônimo de Mary Joseph (obviamente uma versão anglicanizada de seu nome) e, depois, com a alcunha formal de Sra. Leandro Dupré. Até a década de 1960, a escritora foi mais conhecida profissionalmente como Sra. Leandro Dupré do que como Maria José. Por isso, não estranhe se você se deparar com diferentes nomeações na capa dos livros da autora. Somente na década de 1960, suas obras ganhariam o nome verdadeiro e completo da romancista.

Em 1939, Maria José estreou na ficção comercial com a publicação de um conto no suplemento literário do jornal O Estado de São Paulo. O primeiro livro seria lançado dois anos mais tarde. “O Romance de Teresa Bernard” ganhou novas edições até a década de 1960. Hoje em dia, esse título só está disponível em sebos (e é um pouquinho difícil achá-lo). Os anos de 1940 representaram a fase mais produtiva de Maria José Dupré na literatura. Ela publicou mais da metade (onze de vinte) dos seus livros naquela década. Além de escrever romances adultos, a autora paulista passou a desenvolver tramas infantojuvenis, outra faceta bem-sucedida de sua carreira. Metade das obras da autora foi direcionada ao público mirim. “A Ilha Perdida” (Ática) e “A Montanha Encantada” (Ática), ambos de 1945, “A Mina de Ouro” (Ática), de 1946, e “O Cachorrinho Samba” (Ática), de 1949, são os títulos mais famosos de Dupré neste gênero literário. Ela chegou a conquistar um Prêmio Jabuti, em 1964, por este trabalho na área infantojuvenil.


Publicado em 1943, “Éramos Seis” pode ser classificado tanto como um romance histórico quanto como um romance dramático. O livro acompanha a trajetória da família Lemos por três décadas. A trama é narrada em primeira pessoa pela matriarca, Eleonora de Lemos, apelidada de Dona Lola pelos amigos, vizinhos e familiares. A protagonista relata o que chama de “melhores anos de sua vida”, época passada na casa da Avenida Angélica, em São Paulo, quando seus quatro filhos eram pequenos e seu marido era vivo. O sucesso da obra foi tão grande que, em 1949, Maria José Dupré lançou uma continuação. “Dona Lola” (Saraiva) aborda partes do enredo que ficaram ocultas na trama original (principalmente os acontecimentos que envolviam os filhos de Eleonora que saíram precocemente de casa). Infelizmente, este livro é ainda mais raro de ser encontrado do que “O Romance de Teresa Bernard”. Sua última edição é do distante ano de 1968.


A história de “Éramos Seis” inicia-se a partir da visita de Eleonora de Lemos ao bairro em que viveu por muitos anos. Agora velha e solitária, ela caminha pela Avenida Angélica e rememora o saudoso tempo em que morou em uma pequena residência daquela rua. A visualização do imóvel depois de tanto tempo serve de estopim para a narradora-protagonista relembrar seu passado e começar o relato sobre a trajetória dos integrantes de sua família.

Dona Lola se mudou para o imóvel da Avenida Angélica no final do ano de 1914. Naquele momento, ela era casada com Júlio Abílio de Lemos, um simplório funcionário de uma loja de tecidos. O casal tinha, então, dois filhos pequenos, Carlos e Alfredo. Lola veio de uma família pobre de Itapetininga, cidade do interior do estado de São Paulo. O casal Lemos comprou sua casa em longas (e pesadas) prestações anuais. O endividamento obrigou a família a passar por sérias dificuldades financeiras nos anos seguintes. Arcar com as obrigações da residência nunca foi algo fácil para os Lemos. Para agravar ainda mais o quadro financeiro, Lola e Júlio tiveram mais dois filhos, Isabel e Julinho. Daí o título da obra – eram seis os moradores da residência. A alegria de ter uma família grande e saudável se contrastava com as constantes dificuldades monetárias para a manutenção do lar.


O livro de Maria José Dupré narra o drama de Eleonora de Lemos por aproximadamente três décadas. A história avança até 1942. Como uma típica mãe de família da metade do século XX, Dona Lola se sacrifica em nome dos filhos e do marido. Para a personagem principal, não há nada mais importante do que estar junto de seus familiares e vê-los bem. Isso é buscado obsessivamente nem que para isso ela precise padecer ou passar por graves privações. À medida que Carlos, Alfredo, Isabel e Julinho crescem, as dificuldades para se pagar a casa da Avenida Angélica prosseguem. Saldar a dívida do imóvel é questão de honra para a matriarca.


Como pouca desgraça é bobagem, em meio aos vários conflitos pessoais e familiares que surgem em propulsão ao longo dos anos na residência dos Lemos, as personagens do romance ainda se veem diante de graves questões políticas, sanitárias e ideológicas típicas daquele período histórico. Nem mesmo o macroambiente ajuda Eleonora! Enquanto São Paulo passa por duas revoluções, as de 1924 e de 1932, e vivencia um rápido e desordenado crescimento urbano, o Brasil percorre tempos extremamente turbulentos. Temos nessa época, por exemplo, o surto de gripe espanhola, a Crise do Café, a Revolução de 1930 e a Ditadura Vargas. Para completar, no cenário internacional, esse período é marcado pela Segunda Guerra Mundial e o início da tensão ideológica entre capitalistas e comunistas, que mais tarde culminaria na Guerra Fria. É nesse cenário de graves conflitos e grande violência que a família de Dona Lola precisa encarar os obstáculos diários que teimam em aparecer.

“Éramos Seis” é um romance impecável. A sucessão de conflitos dramáticos torna sua leitura saborosa e sua narrativa atemporal. O livro de Dupré possui pouco mais de 250 páginas. Elas estão divididas em 16 capítulos. Li esta obra no último final de semana. Comecei na sexta-feira à tarde e finalizei sua leitura no domingo à noite. Confesso que fiquei muito entretido com as peripécias dos Lemos. A história é boa, as personagens são carismáticas, a linguagem é acessível e os conflitos são bastante verossímeis. Há também ótimas e marcantes cenas ao longo do romance.


A primeira questão que chamou minha atenção neste livro foi a da composição das personagens. Maria José Dupré dá uma aula de como construir figuras literárias redondas. Isso vale tanto para os protagonistas quanto para os coadjuvantes do romance. Sinceramente, não me recordo agora de nenhuma personagem plana em “Éramos Seis”. Todos parecem possuir contradições que alimentam a trama de maneira convincente. O pai, Júlio Abílio de Lemos, pode ser muito durão com os filhos em alguns momentos, mas também é bondoso e carinhoso em outros instantes. A própria Dona Lola oscila entre uma mãe zelosa (dá dinheiro para Alfredo e Julinho) e egoísta (quer Julinho perto dela e não aceita a paixão de Isabel por um homem casado). A dualidade das personagens fica mais nítida quando analisamos os comportamentos de Alfredo e de Tia Emília. O primeiro parece se aproveitar levianamente do altruísmo materno. Ele é malandro e irresponsável quando o assunto é dinheiro e trabalho. Por outro lado, Alfredo é descrito por Eleonora como seu filho mais carinhoso. Ele não se furta em presenteá-la sempre que possível e faz de tudo para estar ao lado da mãe. A tia rica de Dona Lola, por sua vez, é dura na hora de conceder um empréstimo a Júlio. Em outros momentos, Emília é a primeira a ajudar financeiramente a família da sobrinha, geralmente com encomendas. Incrível como Maria José Dupré construiu as personagens de “Éramos Seis”. Todos os escritores iniciantes deveriam conhecer esse trabalho magistral da escritora paulista. Em termos de desenvolvimento das personagens, ela é perfeita.


Outro aspecto interessantíssimo deste romance é a reconstrução histórica da São Paulo da primeira metade do século XX. Na certa, Dupré utilizou-se de extensa pesquisa documental, jornalística e bibliográfica para recriar os acontecimentos e o clima de um período em que ela ainda era criança e adolescente. A sensação que o leitor tem é de estar vivenciando realmente aquele período. Muitas passagens esquecidas de cem anos atrás (Gripe Espanhola de 1918 e Revolução Paulista de 1924, por exemplo) são peças fundamentais do enredo. Também adorei a descrição do bairro de Higienópolis e da Avenida Paulista no início do século passado. Caminhar pelas páginas de “Éramos Seis” é percorrer o passado da cidade de São Paulo com um olhar atento e bonito da autora.

Para quem gosta de um bom dramalhão, este livro é um prato cheio. Do início ao fim, a obra de Maria José Dupré reserva uma sucessão de dificuldades para seus protagonistas. A impressão que temos durante a leitura é que as coisas só pioram para a família à medida que os capítulos avançam. Quando você acha que as personagens principais chegaram, enfim, ao fundo do poço, as páginas seguintes mostram que o tal fundo ainda era uma miragem. E, curiosamente, a narradora disse no começo do romance que iria descrever o tempo em que foi mais feliz... Sinceramente, não quero estar por perto quando Eleonora de Lemos for relatar os instantes mais difíceis de sua vida!


Apesar desse melodrama rasgado (não à toa, o livro é um dos favoritos para ser adaptado para as telenovelas), “Éramos Seis” tem uma excelente história. A maneira precisa e elegante como Dupré narra os acontecimentos transforma esse enredo em uma trama carismática e bastante verossímil. Em poucas páginas, o leitor acaba sensibilizado com o drama das personagens (principalmente de sua narradora-protagonista) e acaba mergulhando de cabeça nesta história.


A parte final do romance é marcada por uma longa discussão ideológica que ainda hoje muita gente tem. Alfredo é um defensor contumaz do socialismo enquanto Carlos é um adepto incondicional do capitalismo. Uma boa quantidade de páginas é destinada para as discussões travadas entre os irmãos. Se na época do lançamento do livro este tipo de conteúdo era visto como algo ousado e novo na ficção comercial, hoje a impressão que temos é que esse debate é um tanto batido e está desgastado (pelo menos quando inserido no meio de um romance). Contudo, é preciso considerarmos a perspectiva histórica para tecermos uma opinião coerente sobre isso. Esse tema (comunismo soviético versus capitalismo norte-americano) era uma questão sensível nos anos de 1930 e 1940, quando a trama se passa. Assim, sua pertinência no enredo do romance faz todo o sentido do ponto de vista narrativo.


O desfecho do livro é implacável com sua protagonista. Não espere nenhum alento ou boa notícia vinda para os lados de Eleonora. O retrato final que temos dela é de uma mulher velha, triste, pobre, amargurada e muito solitária. Infelizmente, o tempo e o destino podem ser muito cruéis com aqueles que tanto batalharam ao longo dos anos para a felicidade da família.

Por fim, “Éramos Seis” é um romance que apresenta de forma sublime a mentalidade e a realidade brasileira (e, por que não, paulistana) do início do século passado. Vemos, assim, os vários preconceitos da sociedade burguesa da época (por exemplo, o machismo), o papel da esposa no casamento tradicional (a mulher é alguém que precisa se sacrificar ou mesmo se anular em nome dos filhos e do marido), a religiosidade, o conservadorismo e a transformação urbana que o Brasil passou. Aos olhos dos leitores atuais, muitas cenas e passagens do romance podem parecer exageradas e piegas, mas eram exatamente assim que a sociedade lá trás enxergava sua vida e vivenciava sua realidade. Portanto, Maria José Dupré é mestre em retratar os dramas de seus contemporâneos.


Uma vez terminada a leitura inicial do Desafio Literário deste mês, já posso começar a me preparar para a segunda obra de Dupré que será analisada no Bonas Histórias. O próximo livro da autora que veremos no blog será “A Ilha Perdida” (Ática). Esse título é o primeiro romance infantojuvenil da escritora e um dos maiores sucessos da Série Vaga-Lume. Vou ler “A Ilha Perdida” nessa semana e no próximo sábado, dia 9, posto uma análise crítica sobre ele. Não perca as próximas etapas do estudo sobre a literatura de Maria José Dupré.


Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento