Livros: Uma Questão Pessoal - O romance mais famoso de Kenzaburo Oe

Li, neste final de semana, o livro mais famoso de Kenzaburo Oe, o escritor japonês que estamos analisando em junho no Desafio Literário. Se na semana passada comentamos, no Bonas Histórias, “A Captura” (Luna), o romance/novela de estreia de Oe, hoje vamos discutir “Uma Questão Pessoal” (Companhia das Letras), sua obra mais celebrada e, por que não, polêmica.

 

Publicado originalmente em 1964, “Uma Questão Pessoal” foi inspirado em um episódio real: o nascimento do primeiro filho de Kenzaburo. A criança veio ao mundo, em 1963, com sérios problemas cerebrais. A partir desse fato, o autor criou um romance semi-autobiográfico no qual o protagonista, um professor de inglês, se questiona sobre o que realmente deseja para seu primogênito, uma criança fadada a uma vida vegetativa. Em um relato sincero e quase sempre aterrorizante, Kenzaburo Oe aproveita-se de uma tragédia pessoal para construir uma das narrativas mais dramáticas do século XX.

 

“Uma Questão Pessoal” ganhou o Shinchosha Literary Prize, em 1964, como o melhor romance japonês daquela temporada. Quatro anos depois, o livro foi traduzido para o inglês e lançado nos Estados Unidos e na Europa. Não é preciso dizer que a obra se tornou um sucesso de crítica e de público no exterior. Era o início da carreira internacional de Kenzaburo Oe. Essa nova etapa profissional culminaria com a conquista do Prêmio Nobel de Literatura de 1994. A produção de “Uma Questão Pessoal”, um romance naturalista irretocável, ajudou em muito o autor a se consagrar fora das fronteiras japonesas e em arrematar a maior honraria da literatura mundial.

 

No Brasil, “Uma Questão Pessoal” foi publicado pela primeira vez em 2003. A tradução para o português foi feita por Shintaro Hayashi para a Companhia das Letras. Ex-lutador de judô e dirigente esportivo, Hayashi é atualmente um dos principais tradutores da literatura japonesa para nosso idioma (ele só trabalha com a tradução direta).   

 

Confesso que, mesmo não sendo fã do naturalismo, movimento literário no qual Oe é um dos principais adeptos, fiquei abismado com a qualidade absurda deste romance. Sem dúvida nenhuma, esse foi o melhor livro que li até agora nesse ano, ao lado de “Vestígios do Dia” (Companhia das Letras), romance de Kazuo Ishiguro, curiosamente outro escritor japonês agraciado com o Prêmio Nobel. É a literatura japonesa bombando em 2020 no Bonas Histórias, hein?! E imaginar que há muitos brasileiros que acreditam piamente que a boa ficção asiática se limite aos trabalhos de Haruki Murakami. Sabe de nada, inocente!  

Narrado em terceira pessoa (por um narrador colado ao protagonista), “Uma Questão Pessoal” apresenta o drama de Bird, um professor de inglês de um cursinho em Tóquio. Aos 27 anos de idade, dos quais dois são como homem casado, Bird (esse é seu apelido, não sabemos seu nome verdadeiro) está aflito com o nascimento do seu primogênito. A chegada da criança irá podar sua pretensa liberdade. Ele sonha em viajar para a África, mas com um filho nas costas, ele não poderá concretizar suas aspirações mais íntimas. Para piorar, a criança o deixará ainda mais ligado à esposa, alguém que ele definitivamente não ama.

 

A agonia do protagonista se transforma em tragédia quando ele descobre que seu filho nasceu com uma hérnia cerebral. Com a séria deficiência na cabeça, o menino está fadado a ter uma vida vegetal para sempre, isso é, se sobreviver às primeiras horas de vida. O estado do recém-nascido apavora Bird. O jovem pai passa, então, a torcer descaradamente pela morte do filho, o que aliviaria sua dor de uma vez por todas. Por isso, ele fica indignado com os trabalhos dos médicos do hospital, que tentam a todo custo melhorar a condição de vida do bebezinho.

 

Para completar o drama (calma que tragédia pouca é bobagem!), Bird precisa esconder da esposa as condições clínicas do filho. Em um plano concebido pelos sogros, o protagonista não deve revelar o real estado do recém-nascido para a mãe. Ninguém quer assustá-la. Se ela souber que concebeu um pequeno monstro (termo usado no livro!), na certa nunca mais vai querer engravidar. Sem alternativa, cabe a Bird concordar com os sogros e esconder a verdade da mãe de seu filho.   

 

Nesse cenário macabro, Bird, um rapaz evidentemente egoísta, inconsequente, melancólico, insensível, covarde, com problemas de alcoolismo e com uma moral para lá de questionável, se lança em aventuras pueris por Tóquio. No fundo, ele quer esquecer a dura realidade em que está metido. Assim, a personagem principal procura Himiko, uma velha amiga dos tempos de faculdade.  

 

Instalado na casa de Himiko (uma das poucas personagens do romance com nome próprio) de mala e cuia enquanto a esposa se recupera na maternidade e o filho é tratado em um hospital universitário, Bird aproveita para realizar suas antigas fantasias sexuais. No passado, ele tentou estuprar a amiga universitária, até então virgem, mas não conseguiu consumar o ato. Agora, ele se vê livre da família para aproveitar a vida como um homem solteiro e desimpedido.

“Uma Questão Pessoal” possui 224 páginas. Elas estão divididas em 13 capítulos. Li esta obra em um único dia. Comecei na manhã de sábado e a concluí na mesma noite (com óbvios momentos de intervalo entre as sessões de leitura). Devo ter levado ao todo cinco horas e pouquinho para percorrer todo o conteúdo do livro. E que conteúdo, hein?!

 

Para começo de conversa, “Uma Questão Pessoal” não é uma narrativa nada agradável do ponto de vista temático. Se você estiver depressivo, por favor, nem comece esta leitura! E se você for do tipo de leitor que não aguenta o tranco, também é bom repensar se não seria melhor escolher um título mais ameno. O bicho pega para valer aqui. A sensação de desespero da trama torna essa experiência de leitura realmente angustiante. Confesso que enquanto lia “Uma Questão Pessoal”, lembrei muito de “Primeiro Amor” (Nova Fronteira), novela de Samuel Beckett, de “Memórias do Subsolo” (Editora 34), obra ficcional de Fiódor Dostoiévski, e de “A Paixão Segundo G.H.” (Rocco), romance de Clarice Lispector, três dos livros mais inquietantes em que me aventurei.   

 

Parte da força dramática de “Uma Questão Pessoal” está em sua temática delicadíssima, abordada sem qualquer receio pelo corajoso Kenzaburo Oe. Nota-se que o escritor japonês não teve receio de criar um protagonista recheado de defeitos morais e que causa ojeriza no leitor desde as primeiras páginas. Além disso, o clima preponderante da trama é de violência, injustiças, claustrofobia, tensão psicológica e sujeira por todos os lados. Contudo, o que torna realmente a ambientação deste romance insalubre é a atitude de suas personagens. Não apenas o protagonista possui comportamentos eticamente condenáveis como todas as pessoas ao seu redor o seguem em gestos e atitudes inexplicavelmente insensíveis/desumanas.

 

Vejamos isso na prática. Enquanto a esposa está na maternidade aguardando o parto, o que Bird faz? Ele passeia tranquilamente por Tóquio: faz compras de mapas do continente africano em uma livraria; briga com jovens arruaceiros pelas ruas da cidade; cogita um encontro homossexual com um travesti; e brinca em lojas de jogos eletrônicos (junkbox). E a preocupação com a esposa, hein? Ele não está nem aí com ela! Prova disso é que o protagonista só a visita no hospital, depois do parto, uma única vez. E a visita é breve e protocolar (e recheada de mentiras e de falsidades). Na maior parte do tempo, quando não está passeando por aí, o jovem pai passa na casa da nova amante, Himiko, personagem esta que irá aparecer em outras obras de Kenzaburo Oe.  

Bird é um típico anti-herói. Se isso já fica nítido desde as primeiras páginas de “Uma Questão Pessoal”, quando ele passa a torcer e a trabalhar pela morte do próprio filho, a narrativa fica irrespirável. Há muito tempo não lia algo tão desconfortante e que mexesse tanto comigo. Juro que minha vontade era esmurrar a cara do protagonista. Quando o cara não gosta do próprio filho, de quem mais ele pode gostar, além de si próprio? Não é errado apontar Bird como um dos grandes anti-heróis da literatura contemporânea.  

 

Curiosamente, o protagonista de “Uma Questão Pessoal” não é o único com uma postura incompatível com a gravidade da situação. Repare na postura dos médicos do bebezinho, por exemplo. Eles não têm qualquer sentimento para com o próximo. O obstetra soltou uma gargalhada quando viu o recém-nascido com problemas no cérebro. Onde está a graça disso?! Não sei, mas ele ridicularizou o estado da criança. Depois, o diretor do hospital pergunta ao pai se ele não quer ver a “mercadoria”. Como alguém chama uma criança de mercadoria? Inacreditável! Todos os médicos com quem Bird tratou do caso do seu filho excepcional tiraram sarro da condição da criança. A sensação é que ninguém nessa história possui um mínimo de sentimento nobre nem parece preocupado com a tragédia pessoal e familiar na qual o protagonista está metido.

 

Esse clima pesadíssimo é proposital. A narrativa naturalista de Kenzaburo Oe pretende associar as pessoas ao comportamento dos animais. Essa relação fica evidente desde as primeiras páginas do livro. Todas as personagens são associadas fisicamente com algum bicho (não à toa, o protagonista é chamado de Bird). A animalização não fica restrita à descrição física das pessoas, mas também aos seus comportamentos brutos, insensíveis e por vezes irracionais (desumanos). Exatamente por isso, ninguém possui nome próprio. As exceções são Himiko, Deltcheff e Kikuhiho, três amigos antigos do protagonista.

 

Junto com a violência da narrativa (estupros, assassinatos de pessoas e animais, suicídio, traições, intrigas internacionais, uso de armas nucleares, roubos, espancamentos, ameaças, humilhações...), temos muita sujeira, coisas quebradas, ambientes insalubres e escatologias (vômitos, suores excessivos, arrotos, excrementos, urinas, sangue...). Até o sexo é descrito como um ato somente animalesco, sem qualquer componente romântico ou amoroso entre os casais.

No meio da trama densa e angustiante, Kenzaburo Oe brinda seus leitores com um bom papo existencialista. Ele aproveita a condição delicada do protagonista para debater algumas questões pertinentes da essência humana. Nesse instante, lembrei um pouco de Albert Camus, não por acaso um dos autores admirados e estudados por Oe. A discussão filosófica é complementada com um debate crítico sobre o uso e a produção de armas nucleares pelas principais potências do mundo (uma causa social defendida publicamente pelo autor japonês). Ou seja, a sensação de tragédia pessoal de Bird também adquire conotação de tragédia coletiva quando a energia nuclear é usada para destruir o planeta e os seres humanos.

 

O final de “Uma Questão Pessoal” não deixa de ser surpreendente (cuidado, aí vai o primeiro spoiler deste post!). Depois de tanta violência, pessimismo e atitudes egoístas, o desfecho do romance sinaliza para um inexplicável acerto de contas do protagonista com sua consciência (sim, ele possui uma!). Bird se torna, de repente, um homem sentimental, consciencioso, altruísta e honrado. Como assim?! Não é essa a personagem que conheci no restante do livro. Obviamente, Kenzaburo Oe investe na preferência da maioria do público por um final feliz e, dessa maneira, explora a formação completa da trajetória do herói em busca da redenção.

 

Admito que achei meio forçado o desenlace deste livro, principalmente com a mudança repentina de condição médica do recém-nascido (cuidado, lá vem mais um spoiler!). Em um estalar de dedos, filhinho de Bird parece curado e bem, sem qualquer problema neurológico. Pode isso, Arnaldo?! Se a narrativa de “Uma Questão Pessoal” é, como um todo, muito mais forte e melhor tecnicamente do que a de “A Captura”, achei o final do primeiro romance de Oe mais adequado ao estilo da história proposta. Pelo menos, em “A Captura”, não temos uma mudança repentina de condição das personagens nem a entrega de um fim condescendente com as preferências dos leitores. Sinceramente, achei o último capítulo de “Uma Questão Pessoal” um recuo tático de Kenzaburo Oe. Faltou coragem para o escritor avançar até o último estágio de sua trama dramática.

 

Mesmo com essa escorregadinha no desfecho (derrapada para quem gosta de uma narrativa verdadeiramente arrojada e condizente com a lógica do início ao fim), “Uma Questão Pessoal” é um romance maravilhoso. Agora entendi o motivo de Oe ter conquistado o Nobel de Literatura e ser apontado até hoje como um dos principais escritores vivos do planeta. Realmente sua literatura é incrível e “Uma Questão Pessoal” é o retrato mais concreto de como é possível produzir uma narrativa de altíssimo nível com tantos elementos pessimistas. Incrível!

O Desafio Literário de junho seguirá para a análise do terceiro livro de Kenzaburo Oe. A próxima obra que vamos analisar no Bonas Histórias é “Um Grito Silencioso” (Francisco Alves), outro romance marcante do autor japonês. Publicado em 1967, “Um Grito Silencioso” só perde em popularidade, entre os títulos do portfólio de Oe, para “Uma Questão Pessoal”. O post desse outro livro estará disponível no blog no próximo sábado, dia 13. Se você é fanático pela boa literatura, não perca as próximas etapas do Desafio Literário de Kenzaburo Oe. Até lá!   

 

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