• Ricardo Bonacorci

Livros: O Grito Silencioso - O romance mais emblemático de Kenzaburo Oe


O livro mais lembrado pelo público e pela crítica internacional, quando falamos da literatura de Kenzaburo Oe, é, indiscutivelmente, “Uma Questão Pessoal” (Companhia das Letras). Nesse drama denso e extremamente sombrio, acompanhamos a agonia de um jovem pai que renega seu filho recém-nascido com problemas cerebrais. Essa obra inquietante foi analisada na semana passada no Bonas Histórias. Hoje, no Desafio Literário de junho, a proposta é comentar outro romance famoso deste escritor japonês: “O Grito Silencioso” (Francisco Alves).


Se “Uma Questão Pessoal” é o trabalho literário mais popular de Oe, “O Grito Silencioso”, por sua vez, pode ser classificado como seu título mais emblemático. Afinal, nas páginas deste livro, o autor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1994 conseguiu expressar de maneira mais completa e intensa boa parte das temáticas e da estética literária que marcaram para sempre sua carreira ficcional. Não à toa, para muitos críticos literários, esta é a melhor obra de Kenzaburo Oe. Respeito essa opinião, mas eu ainda prefiro, como narrativa dramática, “Uma Questão Pessoal”.


“O Grito Silencioso” foi publicado, no Japão, pela primeira vez em 1967. Assim como ocorreu com as obras anteriores de Oe, este título também possui muitos elementos autobiográficos. De certa maneira, trata-se de uma trama ficcional ancorada principalmente na vida e nas memórias familiares do seu escritor. Este livro semi-autobiográfico conquistou o Prêmio Tanizaki, uma das mais importantes honrarias literárias japonesas, como melhor romance nipônico daquele ano. No Brasil, “O Grito Silencioso” foi traduzido para o português por Sergio Ryff e lançado pela Livraria Francisco Alves em 1983. Três anos depois, houve uma reimpressão desse livro para uma coleção da Abril Cultural (Os Grandes Romancistas). Essas duas edições são as únicas desta história de Kenzaburo Oe em nosso país. Portanto, não espere encontrá-la nas principais livrarias brasileiras. É mais fácil recorrer aos sebos na hora de adquirir uma unidade (antiga) deste título.


Apesar de preferir a trama de “Uma Questão Pessoal”, uma das mais sinistras e tensas que li em minha vida, reconheço que, olhando tecnicamente, “O Grito Silencioso” é uma narrativa ficcional mais completa, versátil, rica e polissêmica. Afinal, Kenzaburo Oe mantém sua pegada naturalista (com muita violência, escatologia e animalização dos indivíduos) e continua explorando a tensão psicológica à flor da pele de suas personagens (o que as leva invariavelmente à loucura e à depressão). Entretanto, dessa vez, ele acrescenta alguns elementos novos à sua literatura: a história/passado do seu país, o debate crítico sobre as influências estrangeiras na cultura popular japonesa e os preconceitos do seu povo. E o autor japonês faz isso através da construção simultânea de várias narrativas entrecortadas. Incrível!!! Assim, temos um romance de maior fôlego e com maior quantidade de nuances literários. Não é errado enxergar esta obra como o ápice da maturidade artística de Oe.

Ambientado nos primeiros anos da década de 1960, “O Grito Silencioso” é narrado em primeira pessoa pelo seu protagonista, Mitsusaburo Nedokoro. Aos 27 anos, o rapaz que nasceu no povoado interiorano de Okubo, na Ilha de Shikoku, se formou em literatura em Tóquio e trabalha há alguns anos como tradutor na capital japonesa. Cego de um olho quando ainda era criança (vítima da violência dos meninos de sua terra natal) e muito feio, Mitsusaburo é casado com Natsmi, uma alcoólatra inveterada. O casal teve um filho com problemas mentais e abandonou a criança em um asilo. O suicídio de seu melhor amigo, que se enforcou pelado, com a cabeça suja de tinta vermelha e com um pepino enfiado no ânus, foi a gota d´água para o narrador-protagonista, que entrou em um grave quadro de depressão.


Em meio a pior fase de sua vida, Mitsusaburo Nedokoro assiste ao retorno ao Japão do irmão mais novo, Takashi Nedokoro, que estava morando nos Estados Unidos. Ator de teatro e de ótima aparência, Takashi viajou para a América junto com sua companhia de arte cênica. Após alguns meses no novo país, o jovem abandonou seus colegas e a peça que estava encenando para viajar por conta própria pelos Estados Unidos. Assim, Takashi lança-se em aventuras polêmicas e pouco edificantes no exterior.


Por nunca ter sido realmente próximo de Takashi, Mitsusaburo fica incomodado com o retorno do irmão. Além disso, ele está desconfortável em revelar ao parente mais próximo o estado de embriaguez constante de sua esposa e a verdade sobre a saúde mental de seu filho abandonado. Contudo, logo que se vê frente a frente com Takashi, Mitsusaburo não se sente intimidado e revela seus dramas mais íntimos. Compreendendo a fase complicada do irmão, Takashi faz um convite surpreendente: viajarem juntos para Okubo, terra natal de ambos, para vender a casa antiga de sua família. Um magnata do ramo de supermercados está interessadíssimo em adquirir a construção, vista como uma relíquia dos tempos da Era Meiji.


Sem nada de muito relevante para fazer em Tóquio, Mitsusaburo viaja para a aldeia rural da Ilha de Shikoku ao lado da esposa. Ele encara essa jornada como uma tentativa de reconstruir seu casamento, há tempos desintegrado, e de encontrar um novo sentido para sua vida, abalada obviamente pela grave depressão que está passando. Ele também tem a esperança de que a viagem e a mudança de ares façam Natsmi parar de beber. Takashi viaja para lá ao lado de dois amigos adolescentes, Hoshio e Momoko. A ideia do grupo é vender a antiga casa da família Nedokoro e passar algumas semanas como turistas na distante localidade, para só depois retornar a Tóquio.

Uma vez em Okubo, os irmãos mergulham nos velhos segredos de seu clã. A morte dos irmãos mais velhos da dupla, no final da Segunda Guerra Mundial, e as histórias das brigas do bisavô com o irmão mais novo dele, em 1860, voltam a acalentar a imaginação e a suscitar as memórias afetivas de Mitsusaburo e Takashi. As duas personagens principais do romance não conseguem desgrudar do passado, enquanto tentam olhar para o futuro. Enquanto o irmão mais velho tem uma interpretação mais objetiva e pragmática da história familiar, o caçula vê os acontecimentos do passado de uma maneira mais passional e idílica. Dessa forma, mais uma vez, eles se tornam adversários, brigando pelo que acham certo.


Inspirado pelos feitos controversos dos seus antepassados, Takashi se vê rapidamente envolvido com os assuntos cotidianos de Okubo. Após presenciar a falência da cooperativa de criação de aves do povoado e constatar o quanto os jovens da região são desprezados pela população mais velha, ele decide montar, com parte do dinheiro da venda de sua propriedade, um time de futebol local. Dessa maneira, Takashi se torna naturalmente o líder da juventude de sua terra. As ações do seu grupo, pouco a pouco, começam a se tornar mais violentas e baderneiras, colocando em xeque a política tradicional e o sistema econômico daquela zona rural de Shikoku. De um time de futebol, os amigos de Takashi se transformam em uma milícia armada e perigosa.


Incomodado com a postura criminosa do irmão mais novo, Mitsusaburo se opõe tanto a pretensão de Takashi em ficar definitivamente em Okubo quanto em sua decisão de liderar um grupo de jovens pobres contra a elite financeira do povoado. Mais uma vez, Mitsusaburo e Takashi escolhem caminhos opostos e se tornam inimigos. Os dois, querendo ou não, irão emular os comportamentos dos antigos Nedokoro.


Com 328 páginas, “O Grito Silencioso” é o livro mais volumoso de Kenzaburo Oe que vamos analisar no Desafio Literário deste mês. Precisei de dois dias para concluir sua leitura. Devo ter levado, ao todo, em torno de onze ou doze horas para percorrer todo o conteúdo desta obra. Iniciei os trabalhos na última quarta-feira de manhã e o terminei na quinta-feira à noite.

Foram três os elementos que mais gostei neste romance. Em primeiro lugar, temos várias histórias sendo contadas simultaneamente em “O Grito Silencioso”. Inegavelmente, esse recurso confere uma maior agilidade e mais dramaticidade à narrativa apresentada. E Kenzaburo Oe faz essa interpolação de tramas de maneira sublime, relacionando-as o tempo inteiro (passado, presente e futuro dos Nedokoro estão intimamente ligados uns nos outros). Assim, ao mesmo tempo em que acompanhamos os dramas presentes de Mitsusaburo e Takashi, também assistimos às angústias do passado de ambos, às intrigas familiares da época da Segunda Guerra Mundial e, em uma volta ainda maior no tempo, às brigas dos antepassados dos protagonistas no período de 1860 a 1870.


Por falar em passado, outro aspecto a ser elogiado é o do contexto narrativo deste livro de Oe, que apresenta algumas passagens marcantes da história do Japão. As manifestações de junho de 1960, realizadas pelos jovens nas principais cidades do país contra o Tratado de Segurança, o trágico desfecho da Segunda Guerra Mundial, que representou a ocupação do território japonês pelos Estados Unidos, e os levantes rurais de 1860, que abalaram substancialmente o então Império nipônico, são peças fundamentais da engrenagem de “O Grito Silencioso”. Se o leitor tiver um conhecimento mínimo dos acontecimentos históricos do Japão, melhor será sua experiencia de leitura.


Enquanto assistimos à confluência entre o presente e o passado das personagens ficcionais e da trajetória coletiva de sua nação, em um romance histórico de tirar o fôlego, conseguimos captar boa parte da cultura tradicional japonesa. Essa é a terceira grande novidade deste romance. Há menções direta, o tempo inteiro, aos hábitos alimentares, às vestimentas, às crenças religiosas, às tradições, à arquitetura, às músicas, às relações sociais, às festas, às dinâmicas familiares e ao cotidiano desse povo. E o mais legal é que esses aspectos são partes integrantes do conflito principal da narrativa. Para entender realmente a essência de “O Grito Silencioso” é necessário compreender essa crítica de Kenzaburo Oe quanto à perda da identidade cultural japonesa. O escritor se opõe fortemente a influência estrangeira tão disseminada na época da Abertura dos Portos na segunda metade do século XIX e durante a ocupação dos Estados Unidos a partir do fim da Segunda Guerra Mundial.

Outra questão muito interessante de “O Grito Silencioso” está em suas ótimas personagens secundárias. Paek Sun-gi, o coreano dono do supermercado, Gii, o eremita de Okubo, Jim, a mulher mais gorda do Japão, e o amigo de Mitsusaburo que se suicidou (que juro não ter conseguido identificar seu nome no meio da história) são criações marcantes. Elas fazem normalmente o tipo tragicômico. São talvez as melhores figuras secundárias da literatura de Kenzaburo Oe. E por falar nesse tema, o único ponto negativo na construção das personagens deste romance é que boa parte das características do protagonista são repetidas de outras obras do autor, principalmente “A Captura” (Luna) e “Uma Questão Pessoal”: homem do povoado interiorano que foi tentar a sorte em Tóquio; possui um filho excepcional, que despreza; sofreu bullying na infância; passa por problemas matrimoniais; trabalha com literatura; e apresenta um quadro depressivo. Querendo ou não, há um cheirinho de dèjá vu aqui.


Esses são os elementos novos, se assim podemos chamar, que “O Grito Silencioso” trouxe à literatura de Kenzaburo Oe. Como é típico dos seus trabalhos anteriores, temos também personagens sem nomes próprios (despersonalização dos indivíduos), violência constante e extrema (suicídios, assassinatos, estupros, torturas, vinganças, traições, masoquismos, roubos, depredações), personagens loucas e depressivas (levadas ao esgotamento físico e mental), animalização das pessoas (comparadas a patos, tartarugas, cachorros, ratos, lagartixas, galinhas, peixes, macacos, sapos, rãs), mistura da realidade com o universo onírico (sonho como manifestação do subconsciente das personagens), indivíduos atormentados com graves problemas familiares (incesto, doenças mentais) e ambientes insalubres (esgoto, escuridão, sangue, suor excessivo, vômito, urina, fedo, excrementos). Vale lembrar que esses componentes narrativos e estéticos estão presentes em abundância em “A Captura” e em “Uma Questão Pessoal”. Só por isso disse que não são novidades.


Algo que gostei muito em “O Grito Silencioso” foi do seu desfecho. Ele é inteligente e surpreendente. Não temos aqui um final tão pessimista/aterrador quanto “A Captura” nem tão positivo/exageradamente feliz quanto “Uma Questão Pessoal”. Dessa vez, Kenzaburo Oe se equilibrou entre as duas pontas, chegando à medida certa. O desenlace deste romance mistura violências e tragédias, mas mantém um pouquinho de esperança.

“O Grito Silencioso” é realmente uma obra-prima da literatura japonesa. Se você ler esse livro e “Uma Questão Pessoal” não precisará ler mais nada para compreender a excelência de Kenzaburo Oe como escritor ficcional e ver que ele mereceu sim conquistar o Nobel de Literatura. Mesmo com essas certezas em mente, continuarei o Desafio Literário deste mês com mais duas leituras deste autor. Na próxima quarta-feira, dia 17, retorno ao Bonas Histórias para apresentar a análise de “Jovens de um Novo Tempo, Despertai!” (Companhia das Letras). Essa coletânea de crônicas de Oe foi publicada em 1983 e apresenta os dramas íntimos de um pai abalado pelo nascimento de um filho excepcional e a paixão de um escritor japonês pela literatura ocidental. Não perca os próximos post deste Desafio Literário!


Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento