• Ricardo Bonacorci

Livros: Jovens de um Novo Tempo, Despertai! - As crônicas de Kenzaburo Oe


Neste final de semana, li “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” (Companhia das Letras), o quarto livro de Kenzaburo Oe do Desafio Literário de junho. As obras anteriores, analisadas no Bonas Histórias nas últimas semanas, foram a novela “A Captura” (Luna) e os romances “Uma Questão Pessoal” (Companhia das Letras) e “O Grito Silencioso” (Francisco Alves). Ou seja, estávamos, até então, manuseando os textos ficcionais do autor japonês. Agora vamos adentrar em outra parte de seu trabalho literário: as narrativas não ficcionais.


Publicado em 1983, no Japão, “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” é a principal coletânea de crônicas de Kenzaburo Oe. Curiosamente, este título é descrito, em muitos lugares, ora como um romance semiautobiográfico, ora como uma coleção de contos. Sinceramente, não entendi essas classificações alternativas, um tanto esdrúxulas na minha opinião. Desde as primeiras páginas de “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” (na verdade, desde o seu título!), já é possível notar o caráter de crônica de seu texto. O único detalhe diferente é que Oe, nesta obra, trocou ou omitiu os nomes verídicos das pessoas citadas em suas histórias. Sua ideia era não gerar problemas com ninguém (uma decisão acertada e muitíssimo elegante!).


Apesar desse gênero narrativo não ser o principal da literatura de Kenzaburo Oe, que se destacou muito mais pela produção de romances e contos, achei interessante incluir uma publicação de crônicas em nossos estudos sobre o escritor japonês vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Muitas vezes, a melhor maneira para se conhecer a vida pessoal e os pensamentos de um autor é através de seus textos não ficcionais. Além disso, estamos falando de uma obra premiada. “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” conquistou, no ano de sua publicação, o Prêmio Jiro Osaragi, honraria atribuída ao melhor livro não ficcional do Japão.


Quando lançou este título em seu país, Kenzaburo Oe já era um dos mais consagrados escritores japoneses de sua geração. Ele ainda não havia se tornado um autor unânime internacionalmente, mas já fazia algum sucesso fora das fronteiras nipônicas. Por isso, a riqueza do conteúdo de “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!”. Se os leitores tinham uma ideia vaga dos detalhes da vida de Oe por meio de sua ficção, agora todo mundo poderia conhecer diretamente sua trajetória pessoal em um texto ancorado na realidade.

No Brasil, “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” só foi publicado recentemente em duas edições pela Companhia das Letras. A primeira é de 2011, enquanto a segunda é de 2016. Ambas edições contam com a tradução direta de Leiko Gotoda, uma das mais requisitadas tradutoras da língua japonesa do nosso país. Além de Kenzaburo Oe, ela traduziu para o português as principais obras de Eiji Yoshikawa, Haruki Murakami, Yukio Mishima e Junichiro Tanizaki.


O livro “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” possui sete crônicas: (1) “Canções da Inocência, Canções da Experiência”, (2) “Um Frio Menino de Pé no Ar em Tumulto”, (3) “Desce, Desce, Cortando a Imensidão com Gritos de Aflição”, (4) “O Espectro de uma Pulga”, (5) “Alma Desce como Estrela Cadente até o Osso do Meu Calcanhar”, (6) “Que a Alma Acorrentada se Erga e Olhe em Volta” e (7) “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!”. Essa última narrativa, obviamente, empresta seu nome ao título da coletânea.


Com 328 páginas, “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” tem a mesma extensão do romance “O Grito Silencioso”. Dos títulos de Kenzaburo Oe que estamos analisando neste mês no Desafio Literário, esta obra só perde em tamanho para “14 Contos de Kenzaburo Oe” (Companhia das Letras), que será comentado no próximo domingo no Bonas Histórias. Mesmo sendo um livro aparentemente volumoso, “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” possui um texto rápido e fluido. Concluí seu conteúdo em apenas um dia. Neste domingo, iniciei sua leitura de manhãzinha e no começo da noite já tinha chegado à última página (com óbvios intervalos no meio do caminho). Devo ter investido, ao todo, cerca de seis horas nesse trabalho.


Em “Canções da Inocência, Canções da Experiência”, a primeira crônica do livro, Kenzaburo Oe narra, simultaneamente, a importância da poesia de William Blake em sua formação literária e os efeitos negativos de uma longa ausência de casa (viajou a trabalho pela Europa por algumas semanas) no espírito de Iiyo, seu primogênito. O menino nasceu com problemas cerebrais e tem algumas limitações motoras e cognitivas. Quando se viu por muitos dias seguidos sem o pai, Iiyo se tornou muito agressivo, assustando os familiares, os colegas e os professores.

“Um Frio Menino de Pé no Ar em Tumulto”, o segundo texto da coletânea, segue a essência do capítulo anterior. Dessa vez, Oe relaciona passagens da poesia de Blake a fatos de sua trajetória pessoal. O autor lembra os momentos marcantes de sua infância, a relação com a mãe, a agonia com o nascimento do primeiro filho e o sentimento de culpa pela condição mental do menino. De alguma forma, o pai sempre se sentiu responsável pelas limitações de Iiyo.


A terceira crônica de “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” é “Desce, Desce, Cortando a Imensidão com Gritos de Aflição”. Nessa narrativa, Oe se mostra disposto a ensinar Iiyo a nadar. Depois das reclamações do professor de natação do menino de que ele não afundava nem conseguia boiar, o escritor passou a levar o filho para sessões de natação nas piscinas do clube. Lá, Kenzaburo conheceu o Sr. Shumuta, o professor de jovens que no passado foram adeptos de um movimento revolucionário. O grupo era capitaneado pelo famoso escritor M, um militante político reacionário. Quando M se suicidou, os rapazes ficaram perdidos. Daí a tarefa de Sr. Shumuta de educá-los. A natação tinha uma função pedagógica.


Em “O Espectro de uma Pulga”, o texto seguinte, acompanhamos a visita de Marion, uma estudante universitária dos Estados Unidos, ao Japão, na década de 1970. A jovem estudava a violência e o sexo na literatura japonesa. Como foco de sua pesquisa, ela escolheu os textos de M, o escritor suicida citado na crônica anterior, e de Kenzaburo Oe. Por isso, ela realizou várias entrevistas com Oe. Enquanto o autor fala sobre suas impressões dessas conversas com a jovem estrangeira, ele também relata a dificuldade de Iiyo em sonhar. O filho simplesmente não entendia o que era um sonho por nunca ter tido essa experiência.


“Alma Desce como Estrela Cadente até o Osso do Meu Calcanhar”, a quinta narrativa desta coleção, apresenta a dicotomia entre imaginação e memória. A partir dos versos de William Blake que falam desse tema, Kenzaburo Oe relata a enorme facilidade e a intuitiva paixão de Iiyo pela música. Se o menino não possuía quase nenhuma imaginação, por outro lado ele tinha uma memória musical absurdamente elevada.

Em “Que a Alma Acorrentada se Erga e Olhe em Volta”, Oe utiliza tanto as reflexões sobre a Constituição japonesa quanto a análise da biografia de William Blake para traçar paralelos com a vida de seu filho e de seu pai. Enquanto Iiyo, aos dezoito anos, entrou em uma escola profissionalizante, inserindo-se definitivamente na sociedade, o escritor relembra a profissão do pai no interior do Japão, quando eles viviam na Ilha de Shikoku. Outra passagem marcante desta crônica é o rapto de Iiyo, quando o menino tinha entre oito e nove anos. Passado e presente da vida familiar do autor se misturam com debates literários, políticos e filosóficos.


E, por fim, em “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!”, a narrativa que dá nome ao livro, Kenzaburo Oe inicia falando de uma viagem que fez a Java. Em uma visita ao Jardim Botânico de Bogor, ele fica diante da famosa árvore da chuva. Depois de tanto ansiar por conhecê-la pessoalmente, o escritor percebe que não terá graça vê-la de perto sem o filho, Iiyo, que ficou no Japão. Por falar nele, Iiyo, próximo de completar vinte anos, irá pela primeira vez a um internato. Essa quebra do laço com os pais e a casa gera ansiedade no rapaz e em seus familiares.


“Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” é um livro de crônicas interessante. Ele permite ao leitor matar a curiosidade sobre a vida pessoal do escritor japonês, principalmente a respeito do relacionamento com o filho excepcional. Se em “Uma Questão Pessoal” e “O Grito Silencioso” ficamos nos perguntando sobre o destino real daquele garoto que nasceu com problemas cerebrais, aqui temos boa parte das respostas para tais questionamentos. De maneira delicada, Kenzaburo Oe chama o filho mais velho por um pseudônimo – Iiyo. Assim, poupa o rapaz de uma exposição excessiva. Isso aconteceu não apenas com o primogênito de Kenzaburo, mas com as demais pessoas citadas ao longo desta obra.


Outra questão muito legal é poder ver na prática as influências literárias que Oe teve em sua carreira. Normalmente, são citados apenas os autores franceses que o escritor japonês estudou na época em que cursou literatura na Universidade de Tóquio: Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Blaise Pascal. Contudo, nota-se, durante a leitura deste livro, o quão importante foram os textos de William Blake e Malcolm Lowery para o trabalho de Kenzaburo Oe. De certa maneira, ele sempre foi mais próximo aos autores de língua inglesa do que dos autores de língua francesa.

E por falar em literatura, “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” é um ótimo ensaio literário. Kenzaburo Oe intercala os relatos de sua trajetória pessoal, profissional e familiar a suas impressões sobre a literatura, principalmente em relação aos poemas de William Blake. Não por acaso, os títulos das crônicas são extraídos invariavelmente de versos do poeta inglês. E nesse caso, Oe é muito didático ao apresentar a intertextualidade literária.


Algo que me surpreendeu bastante em “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” foi a manutenção de parte do estilo naturalista dos romances e dos contos de Oe em suas crônicas. Por exemplo, em vários trechos desta obra, as pessoas citadas sofrem um processo de animalização, sendo comparadas com os bichos. Se isso já é polêmico e inquietante na ficção, imagine só em textos ancorados em aspectos reais, hein? Há também o predomínio do clima tenso e da ambientação de suspense e de terror em vários capítulos do livro. Se fosse um título ficcional, “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” poderia ser comparado aos melhores thrillers noir. Para completar, assistimos a várias camadas narrativas em cada um dos relatos de Oe. Normalmente, temos a apresentação simultânea de fatos de diferentes épocas e a sobreposição de realidades (inserção de pensamentos, sonhos e passagens literárias aos acontecimentos verídicos).


Esse conjunto de características estilísticas é mais comum de ser encontrado em livros ficcionais do que em publicações não ficcionais. Não à toa, muita gente confunde, até hoje, “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” como um romance ou como uma coletânea de contos. Não, ele não é uma ficção! Não vá pelo estilo da narrativa para classificar o livro. Utilize o teor do seu conteúdo para essa tarefa. É dessa maneira que diferenciamos as crônicas dos contos.


O ponto central de “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” está na relação de Kenzaburo Oe com Iiyo. De alguma forma, todas as histórias do livro acabam confluindo para o relacionamento entre pai e filho. Nota-se o tempo inteiro a importância deste menino na vida do escritor. Se isso já era evidente em seus trabalhos literários, agora essa questão fica ainda mais clara no âmbito pessoal. Em muitos trechos, assistimos a um pai com neuroses e preocupações que remontam à sua infância ou ao passado de sua família para explicar a condição do primogênito. Em alguns casos, há um nítido sentimento de culpa pelas limitações do Iiyo, que somente alguém com muito amor ao filho poderia ter. Portanto, esqueça os narradores-protagonistas monstruosos de “Uma Questão Pessoal” e “O Grito Silencioso”. As personagens principais desses romances são figuras totalmente opostas a personalidade real de Kenzaburo Oe. Nem mesmo quando ele cita seus pensamentos mais negativos na época em que Iiyo era recém-nascido, conseguimos ver um homem demoníaco.

É verdade que “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” também tem seus pontos falhos, principalmente do ponto de vista do leitor brasileiro dos dias de hoje. Em primeiro lugar, é preciso conhecer boa parte do contexto político e literário do Japão entre as décadas de 1940 e 1980 para entender a dimensão dos textos de Oe. E isso é muito complicado para a maioria dos brasileiros contemporâneos. Quem seria o escritor suicida M? Por que sua morte foi tão significativa para seu povo? O que propunham os movimentos políticos de extrema direita e de extrema direita do Japão no Pós-Segunda Guerra Mundial? Essas respostas não são encontradas nesta coletânea de crônicas, mas são fundamentais para a compreensão de suas narrativas.


Outro ponto delicado é sugerir esta obra para alguém que não é fã nem profundo conhecedor da literatura de Kenzaburo Oe. Qual a graça da relação de pai e filho para uma pessoa que não conhece os enredos de “Uma Questão Pessoal” e/ou de “O Grito Silencioso”, hein? Acredito que nenhuma. Por isso, recomendo ao leitor se lançar sobre esse título apenas depois de ter apreciado os principais livros do autor japonês. Aí sim esta obra se tornará mais sedutora.


No próximo domingo, dia 21, o Desafio Literário irá prosseguir com a análise do quinto e último livro de Kenzaburo Oe deste mês. A obra a ser discutida será “14 Contos de Kenzaburo Oe” (Companhias das Letras), coletânea de contos do escritor japonês. Essas histórias foram produzidas entre 1957 e 1990. Portanto, depois de acompanharmos, no Bonas Histórias, as novelas, os romances e as crônicas de Oe, vamos agora analisar seus contos. Boa leitura a todos!


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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