• Ricardo Bonacorci

Filmes: O Mistério de Henri Pick - O thriller cômico de Rémi Bezançon


No último final de semana, assisti a uma pequena obra-prima do cinema francês contemporâneo: “O Mistério de Henri Pick” (Le Mystère Henri Pick: 2019). Essa comédia é o mais recente filme do diretor e roteirista Rémi Bezançon, da animação “Zarafa” (2012) e da comédia-dramática “Um Evento Feliz” (Un Heureux Événement: 2011). “O Mistério de Henri Pick” é um dos cinquenta títulos do Festival Varilux em Casa, a edição extra da mostra de cinema francês que está disponível gratuitamente em streaming. A mais nova produção de Bezançon mistura humor, thriller policial e literatura em uma história deliciosa. Quem gosta de cinema e de literatura não pode perder esse longa-metragem extremamente inteligente e divertidíssimo.


“O Mistério de Henri Pick” é estrelado pelos ótimos Fabrice Luchini, de “O Melhor Está Por Vir” (Le Meilleur Reste à Venir: 2018) e “Dentro da Casa” (Dans La Maison: 2012), e Camille Cottin, de “Tal Mãe, Tal Filha” (Telle Mère, Telle Fille: 2017) e “As Primeiras Férias Não Se Esquece Jamais! (Premières Vacances: 2018). Os dois estão, sem dúvida nenhuma, entre os melhores atores franceses da atualidade. Completam o elenco principal os jovens Alice Isaaz e Bastien Bouillon e a experiente Josiane Stoléru.


O roteiro de “O Mistério de Henri Pick” foi adaptado do romance homônimo de David Foenkinos, publicado em 2016. Se você gostou de “Zarafa” e “Um Evento Feliz”, saiba que Rémi Bezançon continua em altíssimo nível. Seu mais recente longa-metragem até pode não ser o melhor filme do diretor, mas é disparado o mais encantador. Lançado no começo de 2019 na França, “O Mistério de Henri Pick” chegou ao circuito comercial brasileiro em julho do ano passado. Ele integrou a última edição do Festival Varilux de Cinema Francês. Como não pude vê-lo na época de sua estreia por aqui, não desperdicei a nova oportunidade. Não por acaso, a possibilidade de assistir aos grandes sucessos recentes do cinema francês dos últimos anos é o principal atrativo do Festival Varilux em Casa.


Em “O Mistério de Henri Pick”, Daphné Despero (interpretada por Alice Isaaz) é uma jovem e ambiciosa assistente de editora em Paris. Em um final de semana, a moça viaja para sua terra natal, a Bretanha. Ela vai visitar o pai, um livreiro em Crozon, ao lado do marido/namorado, Fred Koskas (Bastien Bouillon), um escritor iniciante e muito frustrado com a carreira que não decola. Nessa visita, Daphné descobre, por acaso, que em seu povoado há uma biblioteca muito peculiar. O estabelecimento é formado exclusivamente por obras recusadas pelas editoras. Encantada com a ideia, a assistente de editora visita o lugar. E sem querer, encontra um romance maravilhoso entre os títulos disponíveis na estante da biblioteca. Ela mostra o material para Fred e ele também gosta do que lê. Na volta a Paris, Daphné Despero apresenta o original recusado no passado para sua chefe e surge aí a ideia de publicá-lo.

O problema é que o autor é Henri Pick, um pizzaiolo de Crozon falecido há alguns anos. Quando Daphné contacta a família Pick para pegar a autorização para a publicação do livro, todos estranham o fato de o velho Henri ter se dedicado à literatura. Nem a viúva, Madeleine (Josiane Stoléru), nem a filha, Joséphine (Camille Cottin), imaginam que Henri tenha produzido um romance. O possível escritor nunca se dedicou a leitura muito menos foi visto escrevendo algo ao longo de sua vida inteira. Instigadas, as mulheres da família fazem uma varredura nas coisas do falecido. E lá encontram uma máquina de escrever e alguns livros. Sim! Aparentemente Henri escrevia escondido e criou uma pequena obra-prima da ficção francesa contemporânea.


Quando o livro é lançado, ele se torna um grande sucesso na França. Rapidamente, o romance de Pick se transforma no principal best-seller do país. Chovem, então, convites para a assistente de editora e a viúva de Henri darem entrevistas e contarem a intrigante história da publicação daquele livro. Aos ouvidos do público, a saga da obra de um pizzaiolo simples da Bretanha que havia sido recusada em vida e foi encontrada em uma biblioteca distante da capital por uma jovem apaixonada por literatura ganha tons de contos de fada.


Em um desses compromissos de divulgação do romance, Daphné Despero e Madeleine Pick vão ao programa de televisão de Jean-Michel Rouche (Fabrice Luchini), o grande crítico literário francês. Sua atração sobre literatura é vista pelo país inteiro e é bastante respeitada. Ao entrevistar as duas ao vivo, Rouche fica intrigado com aquela história sem pé nem cabeça de um pizzaiolo simplório que produziu um drama sensível, inteligente e irretocável. Depois de interpelar Daphné e Madeleine, Jean-Michel Rouche não se aguenta e declara ao vivo que ele acha aquilo tudo uma grande encenação. Em sua opinião, a autoria de Henri Pick não passa de uma invenção de Marketing para promover o romance. Indignadas com as acusações do apresentador, Daphné Despero e Madeleine Pick abandonam o programa no meio sob lágrimas. A plateia e o público em casa se solidarizam com as entrevistadas e com a falta de educação de Rouche. Do ponto de vista geral, o crítico literário foi profundamente deselegante e extremamente agressivo com o escritor póstumo e com sua viúva.


O destempero de Jean-Michel Rouche na TV não demora a pagar seu preço. Quando ele chega em casa, a mulher o expulsa da residência. Ela pede o divórcio por não aguentar mais conviver com um homem tão arrogante e insensível, capaz de agredir verbalmente uma senhora viúva, simpática e interiorana na frente do país inteiro. Ao chegar em um hotel de Paris para passar a noite, Rouche recebe por celular uma mensagem ainda mais bombástica: ele foi demitido do programa de TV!

No dia seguinte, desempregado e sem esposa, Jean-Michel Rouche resolve investigar por conta própria a autoria do best-seller que, de uma forma ou de outra, representou seu ocaso. Ele quer mostrar para a França toda que ele está certo e todos estão errados em atribuir a autoria daquele incrível romance ao pizzaiolo de Crozon. Inicia-se, assim, a aventura de Rouche pela origem do livro de Henri Pick. Curiosamente, ele terá, nessa investigação, a companhia de Joséphine Pick, a filha do escritor, que quer saber se o pai é realmente o autor da famosa obra.


Com cem minutos de duração, “O Mistério de Henri Pick” tem como principal qualidade seu roteiro irretocável. A plateia sempre acha que consegue se adiantar à investigação de Jean-Michel Rouche e apontar um forte candidato a fraudador do best-seller francês. Contudo, poucos minutos depois, o espectador quebra a cara (assim como a pobre personagem principal do filme) ao descobrir que suas suspeitas estavam totalmente equivocadas. Toda vez que pensamos ter descoberto o segredo por trás do mistério da identidade de Henri Pick, a trama dá uma reviravolta e nós (o público e Rouche) voltamos à estaca zero. Nada é banal ou por acaso nesse enredo inteligentíssimo.


E por falar nisso, seu desfecho é simplesmente espetacular. Felizmente, o ótimo suspense tem um desenlace à altura do restante do filme (algo que nem sempre ocorre nos thrillers policiais). Até a última cena, a história consegue surpreender a plateia. Por isso, não perca o que acontece depois da subida dos créditos da produção na tela. Alguns segredinhos são guardados até o último instante. Portanto, não seja apressadinho(a) e não queira abandonar a sessão logo de cara.


Boa parte dos méritos de “O Mistério de Henri Pick” está justamente no roteiro impecável de Rémi Bezançon. Há muito tempo eu não via um cineasta aproveitar tão bem um texto literário em uma adaptação para as telonas. Curiosamente, quando li a sinopse desse filme, não o achei tão criativo assim. Na hora pensei: “Será mais uma produção cinematográfica a explorar os encontros e desencontros sobre a questão da autoria na literatura ou nas artes”. Lembrei, por exemplo, do norte-americano “O Escritor Fantasma” (The Ghost Writer: 2010), dos argentinos “Minha Obra-Prima” (Mi Obra Maestra: 2018), “O Cidadão Ilustre” (El Ciudadano Ilustre: 2016) e “El Crítico” (El Critico: 2013), e do francês “Os Olhos Amarelos dos Crocodilos” (Les Yeux Jaunes Des Crocodiles:2012). Entretanto, “O Mistério de Henri Pick” sai de um tema aparentemente corriqueiro para apresentar novas facetas dessa questão. Incrível!

O que ajuda nesse sentido é a ótima construção das personagens. As figuras representadas nesse filme são quase sempre do tipo redondas. Ninguém é totalmente vilão nem é 100% santinho nessa trama. Exatamente por isso, o protagonismo de Jean-Michel Rouche cresce pouco a pouco aos olhos da plateia. Se ele surge nas primeiras cenas como o anti-herói da história, capaz de causar repulsa em qualquer um, à medida que o filme avança, começamos a nutrir certa empatia por ele. No final, não apenas estamos torcendo por sua investigação como estamos crentes que ele é a única pessoa certa e verdadeira do enredo. É maravilhoso acompanhar essa transmutação em pouco mais de uma hora e meia de filme. Por outro lado, aqueles que admirávamos e em quem confiávamos cegamente no começo, revelam outras características pouco nobres.


As características dúbias das personagens de “O Mistério de Henri Pick” só mostram o quanto o roteiro desse filme é primoroso. Normalmente, é muito difícil fazer humor com personagens redondas. Tradicionalmente, os escritores, roteiristas e dramaturgos recorrem aos tipos planos, normalmente os caricatos, para explorar as situações cômicas. Contudo, esse não foi o recurso da dupla David Foenkinos e Rémi Bezançon. Romancista e cineasta franceses exploram o humor mesmo com personagens contraditórias e pouco caricatas. Incrível notar esse trabalho de construção narrativa. Com isso, o filme adquire uma comicidade inteligente e sutil, bem ao gosto da plateia mais exigente.


Não é possível falar de “O Mistério de Henri Pick” sem realçar as atuações soberbas de Fabrice Luchini e Camille Cottin. A dupla de protagonistas dá um show de interpretação e consegue cativar a plateia desde as primeiras cenas. Se Cottim já havia demonstrado inúmeras vezes sua qualidade para as comédias (ela é uma das principais atrizes cômicas da França), foi ótimo ver Luchini em um papel diferente do que está habituado a fazer. Ele é normalmente escalado para os dramas sérios. Sinceramente, não sabia de sua capacidade para o humor (não me lembro de nenhum trabalho seu nessa área). Quem não conhece seus papéis anteriores (vale lembrar, ele é um dos principais atores do cinema francês atual), diria que Fabrice Luchini nasceu para fazer a plateia rir e que é um cômico de longa data.


“O Mistério de Henri Pick” mistura vários gêneros: comédia, suspense, trama policial, romance, road story e crítica de costumes. É até difícil classificar esse filme. O mais adequado, na minha visão, é chamá-lo de thriller policial cômico. Bezançon fez essa miscelânea de gêneros de maneira sublime e antes que tal expediente se tornasse a nova modinha do cinema internacional. Afinal, muitos querem copiar o sucesso de “Parasita” (Gisaengchung: 2019), produção de Bong Joon Ho que ganhou as principais estatuetas do último Oscar ao fazer justamente essa mescla inusitada de gêneros em um mesmo filme. É só assistir “Um Evento Feliz” para ver que o diretor francês já tinha essa marca em sua filmografia muito antes de Bong Joon Ho se tornar uma estrela de primeira grandeza no cinema internacional.

Outro aspecto delicioso desse filme é o mergulho nos meandros da indústria literária. Quem trabalha nessa área ou admira esse mundo, tão bem explorado nos posts e nas colunas do Bonas Histórias, irá achar essa história imperdível. Ela fala da atuação dos ghost writers, do papel dos editores, da força da crítica literária, da vaidade dos escritores, da luta pela conquista do sucesso, da disputa entre as editoras, etc. Poderia passar algumas horas apontando todos os detalhes do mercado editorial que o longa-metragem de Rémi Bezançon explora tão bem.


Para completar, gostei de acompanhar a geografia, as particularidades, os preconceitos e as diferenças culturais da França por uma perspectiva diferente do que estamos acostumados a ver no cinema atual. Na maioria das vezes, assistimos ao debate cultural francês do ponto de vista do imigrante (ou melhor, do preconceito ao imigrante). “Samba” (2014) e "Que Mal Eu Fiz a Deus?" (Qu'est-ce qu'on a fait au Bon Dieu?: 2014) são ótimos exemplos desse tipo de crítica social. “O Mistério de Henri Pick” até passa bem ligeiramente por essa questão, mas o que o filme aponta de maneira prioritária é o preconceito social e geográfico da metrópole cosmopolita e cultural (Paris) em relação ao interior do país, região mais bucólica, simples e sem tanta efervescência cultural (Bretanha). O preconceito, portanto, não é apenas com o estrangeiro, mas também com o conterrâneo. Esse olhar diferenciado para algumas neuras francesas é legal de se ver explorado no cinema.


Dos filmes disponíveis no Festival Varilux em Casa, esse é com certeza um dos melhores, ao lado de “Amor à Segunda Vista”, “Um Homem Fiel”, “O Professor Substituto” e “Rock´n Roll - Por Trás da Fama” (Rock'n Roll: 2017). Essa edição especial do Festival Varilux de Cinema Francês estará disponível para acesso gratuito no site da mostra até 27 de agosto. Para poder ver os filmes, basta fazer um cadastro rápido na plataforma de streaming. Vale a pena conferir a programação.


Assista, a seguir, ao trailer de “O Mistério de Henri Pick”:

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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