• Ricardo Bonacorci

Livros: A Viagem - O romance de estreia de Virginia Woolf


Li, neste final de semana, “A Viagem” (Novo Século), o romance de estreia de Virginia Woolf. Não por acaso, esta é a primeira obra da escritora inglesa que vamos analisar no Desafio Literário de julho. Nas próximas três semanas, vou publicar, no Bonas Histórias, os comentários sobre cinco outros livros de Woolf: “Mrs. Dalloway” (L&PM Pocket), “O Passeio ao Farol” (Rio Gráfica), “Orlando” (Penguin), “Um Teto Todo Seu” (Tordesilhas) e “Flush - Memórias de um Cão” (L&PM Pocket). Portanto, aperte os cintos - nossa jornada literária pelos títulos e pela carreira de Virginia Woolf está começando agora, agorinha!


A ideia da narrativa de “A Viagem” surgiu em 1904, logo após Virginia realizar um cruzeiro marítimo, ao lado da família, pela Península Ibérica. Infelizmente, assim que desembarcou na Inglaterra, a futura escritora viu seu pai falecer, vítima de câncer. Então com 22 anos, ela ficava órfã (sua mãe havia morrido nove anos antes). Era o início de um dos períodos mais complicados da autora. Nos anos seguintes, ela assistiria a perda de mais familiares. Sua meia-irmã já tinha deixado a vida em 1897 e, em 1906, foi a vez do seu irmão padecer. Diante de tantos óbitos, Virginia Woolf entrou em depressão e passou a sofrer de estresse emocional. Internada várias vezes em clínicas psiquiátricas para tratamento, ela nunca mais teve uma vida normal e tranquila.


Mesmo com o definhamento psicológico, que foi se agravando ano a ano, Virginia Woolf lançou-se na literatura. Há quem veja, nesse seu trabalho autoral, uma maneira de ela exorcizar seus demônios internos e suas neuroses mais íntimas. Além de iniciar a produção de “A Viagem”, os primeiros anos do século XX marcaram sua estreia como ensaísta. A inglesa teve seu primeiro texto não ficcional publicado, em 1904, no jornal The Guardian.


Publicado em 1915, quando Woolf tinha 33 anos, “A Viagem” começou a ser rascunhado em 1904. Contudo, foi a partir de 1906 que a autora passou a se dedicar efetivamente à sua primeira narrativa ficcional. Depois de sete versões e de duas alterações de título, a obra ficou, enfim, pronta em 1913. Mais dois anos foram necessários até seu lançamento nas livrarias britânicas. O motivo da nova espera foi o quadro clínico da escritora. Os editores e a família de Woolf aguardaram Virginia sair de um longo período de internações psiquiátricas (fruto da tentativa de suicídio e de constantes crises de ansiedade) para que a autora aproveitasse minimamente os eventos em torno da publicação de seu primeiro livro. Nessa época, ela já estava casada há três anos com Leonard Woolf, seu parceiro até o final da vida.

“A Viagem” é, de certa maneira, uma trama semi-autobiográfica. A crítica literária inglesa vê na protagonista desta obra, Rachel Vinrace, um dos mais fidedignos alter egos da escritora. Nesse sentido, o Sr. e a Sra. Ambrose, os tios de Rachel nessa história, seriam nada mais nada menos do que o pai e a madrasta de Virginia, respectivamente. Para completar as associações entre ficção e realidade, a viagem pelo Oceano Atlântico e a estadia em um povoado na Amazônia brasileira, que marcaram o despertar amoroso-sexual da personagem principal do livro, seriam uma emulação do cruzeiro marítimo realizado por Virginia Woolf até a Espanha e Portugal nos primeiros anos do século passado.


A edição brasileira de “A Viagem” tem um charme adicional: a tradução de Lya Luft. A escritora gaúcha é, até hoje, a principal tradutora de Virginia Woolf para o português. Este livro, publicado pela Novo Século, ainda conta com o prefácio de Antonio Bivar, membro do The Virginia Woolf Society of Great Britain, e a introdução de Angelica Garnett, sobrinha de Virginia e presidente honorária de The Virginia Woolf Society of Great Britain. Esses dois textos iniciais analisam brevemente o romance e apresentam para o leitor brasileiro curiosidades sobre os bastidores da obra e detalhes da vida da escritora. Por falar em Antonio Bivar, ele morreu hoje, em São Paulo, aos 81 anos, vítima do COVID-19.


O enredo de “A Viagem” começa em um porto londrino. Ridley Ambrose e Helen Ambrose, um casal de aproximadamente 40 anos, embarcam no Euphrosyne. O proprietário da embarcação, e de outros nove navios responsáveis pelo transporte da borracha da Amazônia brasileira para a Europa, é Willoughby Vinrace. Acostumado a viajar pelo Oceano Atlântico, o Sr. Vinrace convidou os cunhados para uma temporada em alto-mar. Apesar de ser um navio de carga, o Euphrosyne possui alguns camarotes privativos, o que confere um mínimo de conforto aos visitantes. Assim, enquanto o empresário comandava uma de suas embarcações, os familiares poderiam aproveitar a cortesia de viajar até a América do Sul. Para essa viagem, Willoughby também convidou sua filha, Rachel Vinrace, uma jovem de 24 anos. Após a morte da mãe, Rachel passou a viver em Richmond, interior da Inglaterra, com as tias. Ou seja, aquela jornada tinha outro intuito: aproximar pai e filha, há tanto tempo distantes um do outro.


Quando o Euphrosyne parte de Londres tendo como destino o Brasil, Ridley e Helen Ambrose tem pouca intimidade com Willoughby e Rachel Vinrace, apesar do grau de parentesco. Aos poucos, a convivência diária em alto-mar serve para aproximar os integrantes da família, principalmente as mulheres (Willoughby está sempre cuidando de aspectos operacionais de sua embarcação, enquanto Ridley, um intelectual introspectivo, não larga suas traduções e leituras). Quando enfim Helen se torna íntima de Rachel, a tia descobre que a sobrinha possui uma inocência assustadoramente retrógrada. Criada pelas tias de Richmond de maneira tradicional, a filha de Willoughby Vinrace nunca beijou um rapaz, jamais saiu com alguém da sua idade e desconhece até mesmo as relações mais básicas entre homens e mulheres. Apesar de já ser uma adulta, Rachel passa o dia sozinha, tocando piano e lendo livros em seu quarto, vivendo com a mentalidade de uma menina de oito ou nove anos.

Querendo ajudar a sobrinha, Helen combina com o cunhado que ela ficará responsável por educar Rachel por alguns meses. Enquanto os Ambrose estiverem em Santa Maria, povoado brasileiro localizado na boca do Rio Amazonas, a jovem poderá viver com os tios uma rotina normal, algo mais próximo do dia a dia de uma moça de sua idade. A ideia agrada Willoughby Vinrace. Afinal, ele poderá seguir viagem até Buenos Aires, enquanto a filha aproveita de uma forma melhor a estada pela América do Sul (qualquer lugar parece mais interessante do que a cabine de um navio de carga). Por isso, o comandante do Euphrosyne sede sua casa no Brasil para os familiares se alojarem. Somente quando o navio voltar da Argentina, todos poderão se reencontrar e regressarão juntos para a Europa.


Em Santa Maria, Rachel terá a oportunidade de conhecer e de conviver com vários conterrâneos. O povoado amazonense possui um hotel que recebe vários ingleses abonados em período de férias. E um desses hóspedes é Terence Hewet, um jovem escritor de 27 anos. Bonito e inteligente, mas um pouco preguiçoso, o rapaz está em viagem ao lado do amigo St. John Alaric Hirst. Assim que conhece Rachel, Hewet começa a nutrir certo encantamento pela moça. O sentimento dela por ele é recíproco. Pouco a pouco, os dois jovens se tornam cada vez mais próximos, o que inaugura uma nova fase na vida da protagonista. Enfim, Rachel Vinrace se comporta como uma mulher adulta e passa a tecer planos maduros para seu futuro.


“A Viagem” é um romance extenso. Ele tem mais de 500 páginas. Li seus 27 capítulos em apenas dois dias. Iniciei a leitura na última quinta-feira depois do almoço e na sexta-feira à noite já a havia concluído. Para ser sincero, esse primeiro livro de Virginia Woolf me decepcionou bastante. Os fãs mais apaixonados da escritora inglesa que me desculpem, mas êta publicação chata e sem sabor esta, meu Deus! Nota-se, desde as primeiras páginas, uma autora com muito o que dizer, mas que ainda não dominava os elementos mais básicos das histórias ficcionais. O resultado é uma obra fraquinha, fraquinha, com vários problemas de ordem narrativa. E olha que Virginia passou quase uma década editando o livro! Se Woolf seria, na década seguinte, uma escritora revolucionária, em 1915, com “A Viagem”, ela era ainda uma novata com muito a aprender.


Narrado em terceira pessoa por um narrador com acesso ilimitado aos pensamentos de todas as personagens retratadas, “A Viagem” é um romance calcado essencialmente nos diálogos e na crônica de costumes. O olhar tem como foco e ponto de vista a elite inglesa, que explorava o mundo colonial de um jeito predatório na virada do século XIX para o XX, e o drama sexista de uma sociedade profundamente machista e castradora para as integrantes femininas.

É verdade que “A Viagem” até propõe ótimos debates. Se fosse um ensaio, tenho certeza de que Virginia Woolf iria arrebentar com um texto lúcido, inteligente e com um conteúdo profundo. Nota-se que a escritora tinha uma consciência privilegiada dos problemas de sua época e da situação complicada vivida por suas contemporâneas. Woolf fala, neste livro, sobre o orgulho inglês (muitas vezes, este sentimento se transforma em arrogância), a dinâmica da economia colonial (exploração da América, África, Oceania e Ásia pelas monarquias europeias), o universo das artes (música e literatura principalmente), o mundo machista (as mulheres servem apenas para procriar e cuidar das casas e dos filhos), o preconceito de classes (nobreza britânica se sente superior a tudo e todos), a política inglesa (liberais versus conservadores) e as contradições religiosas (catolicismo versus protestantes e religiosos versus ateus).


Um dos principais problemas deste romance de Virginia Woolf está no fato desses debates surgirem quase sempre no discurso das personagens e raramente no meio da trama (algo que é o contrário do esperado em uma narrativa ficcional de qualidade). Assim, assistimos às conversas das personagens sobre vários temas, ao mesmo tempo em que não acontece nada de importante em cena. A sensação é de um diálogo interessante, mas quase sempre vazio. Não há qualquer ação que contagie o leitor: cafés da manhã monótonos, passeios sem graça pelo campo, bailes noturnos com as mesmas personagens de sempre, cavalgadas tediosas pelas montanhas amazonenses e rotina banal em um navio de carga em alto-mar. Para desespero do público que lê o romance, esses acontecimentos se prolongam por centenas e centenas de páginas. A vontade que dá é de atirar o livro pela janela.


O próprio conflito principal da obra demora para se tornar claro. Ele só fica nítido no terço final da obra – o amor entre Rachel Vinrace e Terence Hewet. Enquanto isso, vemos a rotina besta de uma multidão de personagens planas e pouco cativantes. Qual é a graça de acompanhar o cotidiano entediante de nobres ingleses que passam meses e meses de férias sem fazer nada de emocionante em uma região inóspita, hein? Juro que não enxergo qualquer relevância nisso. Ao invés de centrar nas tramas principais (dramas de Rachel e de sua tia Helen), o narrador mergulha na realidade dos vários coadjuvantes presentes no hotel de Santa Maria. Para que fazer isso, Santo Deus?! Se fosse transformado em uma novela, com pouco mais de um quinto de seu tamanho atual, este livro ganharia em qualidade. Portanto, uma edição mais rigorosa não cairia mal para este texto.

São poucas as personagens realmente interessantes em “A Viagem”. A maioria delas é de pessoas preconceituosas, elitistas e arrogantes. Entre as raras figuras que valem a leitura, temos St. John Alaric Hirst, um intelectual misógino e insuportável, Evelyn Murgatroyd, uma moça moderna com atitudes liberais, e Richard e Clarissa Dalloway, casal que aparece em poucos capítulos na parte inicial do romance e transforma a vida de Rachel. Por falar na Srta. Dalloway, a personagem mais famosa da literatura de Virginia Woolf, ela iria ganhar um romance só seu na década seguinte, além de integrar mais tarde contos da escritora inglesa. É legal assistir a essa estreia da contraditória socialite nos textos woolfianos.


A trama de “A Viagem” é um tanto bobinha aos olhos dos leitores de hoje. A única coisa legal de seu conteúdo é a crítica feroz à sociedade machista da época, algo que Virginia Woolf já fazia em seus ensaios e que iria aprofundar em seus romances futuros. Woolf indicava possuir um olhar aguçado para tal questão, muito à frente do seu tempo. É legal reparar na consciência moderna da escritora inglesa para temas como: a educação sexual falha das mulheres no início do século passado, os preconceitos sexistas, a prisão das mulheres em uma rotina doméstica pouco nobre e tediosa, o casamento e a maternidade como únicos ideais de existência feminina, a falta de perspectiva de trabalho profissional para as mulheres etc. Ler Virginia Woolf é ler uma intelectual contemporânea e engajada.


Mesmo assim, esses debates sobre os preconceitos sexistas ficam quase sempre restrito às conversas tediosas das personagens. Se ao menos esses temas aparecessem de forma mais direta no enredo do romance, aí sim a leitura poderia ficar mais interessante. Ou seja, falta sutileza e um maior requinte para a transmissão da mensagem que a escritora pretendia passar. Uma das poucas vezes em que isso acontece é na distinção das crenças e dos relacionamentos das três principais moças inglesas presentes em Santa Maria: Evelyn Murgatroyd, Susan Warrington e Rachel Vinrace. Aí sim “A Viagem” ganha em força narrativa. Enquanto Evelyn Murgatroyd não quer se casar nem ter filhos, preferindo viver livre e com vários homens, Susan Warrington faz o gênero tradicional. Ela quer se casar e ter filhos, se realizando como mulher apenas no papel de esposa e de mãe. Rachel Vinrace, por sua vez, sofre com essa dicotomia filosófica. Afinal, o que seria melhor para ela - continuar sozinha e livre das imposições machistas de sua sociedade ou se casar com Terence Hewet e aceitar indiretamente a submissão feminina em relação ao matrimônio e à maternidade? Entender o padecimento repentino da personagem principal passa necessariamente pela compreensão desse dilema.

O desfecho de “A Viagem” é trágico, ao melhor estilo de Virginia Woolf e dos romances românticos do século XIX. A felicidade feminina, ao menos para alguém inteligente, conscienciosa e ambiciosa como a protagonista do livro, não tem vez nesse mundo castrador para as mulheres com almas modernas. Sob essa ótica, a mensagem final é negativa – a sociedade do início do século XX ainda está longe de ser um ambiente saudável para as integrantes do sexo feminino.


Mesmo com tantos pontos negativos, o pior aspecto deste primeiro romance de Virginia Woolf ainda é a descrição equivocada do cenário. A Amazônia brasileira de “A Viagem” é algo completamente inverossímil na perspectiva de sua fauna, flora, geografia, paisagem, povoação e dinâmica social. Alguém que já tenha morado ou visitado a região por um único dia, repara no quão irreal é a Santa Maria da escritora inglesa. Nada de sua descrição cola! Nada! Sinceramente, não gosto quando um romance tenta sobrepujar a realidade concreta do cenário retratado ou não considera a inteligência do leitor para enxergar uma construção tão absurda. Aposto que Woolf jamais tenha pisado na floresta equatorial brasileira nem tenha realizado muitas pesquisas sobre esse assunto. Assim não dá, né?!


Em suma, apesar de ser uma obra ficcional de estreia, “A Viagem” é um romance frustrante, com mais elementos negativos do que positivos. Esperava muito mais de Virginia Woolf, mesmo levando em conta seus problemas familiares e clínicos vividos no período de produção deste livro.


O segundo título de Virginia Woolf que vamos analisar no Desafio Literário de julho é sua obra mais famosa: “Mrs. Dalloway” (L&PM Pocket). Esse romance tem como protagonista Clarissa Dalloway, personagem que apareceu rapidamente em “A Viagem”. O post desse novo livro de Woolf estará disponível no Bonas Histórias na próxima quinta-feira, dia 9. Não perca as novidades do blog!


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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